   Zbia Gasparetto
     
  O MATUTO
       
       
       
         
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       O MATUTO (mar/1984,  416 pginas)
       
       
       
       
     Sinopse:
     
       Romance Medinico ditado por Lucius
       
       Um matuto que no sabia ler nem escrever,  herdeiro de enorme fortuna,  parecia presa fcil para o advogado,  que pensava em ludibri-lo ,  e para o tio que,  julgando-o morto,  pretendia ficar com sua herana.   Os fatos,  porm,  surpreenderam a todos.   Este romance de agradvel e proveitosa leitura,  tambm nos faz meditar e compreender mais as lutas da vida,  encorajando nos a manter a confiana na grande bondade e inteligncia de Deus.  
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
     Sumrio
     
       Prlogo	3
       Captulo I	4
       Captulo II	15
       Captulo III	28
       Captulo IV	44
       Captulo V	71
       Captulo VI	90
       Captulo VII	99
       Captulo VIII	143
       Captulo IX	173
       Captulo X	207
       Captulo XI 	248
       Captulo XII	266
       Captulo XIII	278
       Captulo XIV	287
       Captulo XV	309
       Captulo XVI	324
       Captulo XVII	331
       Captulo XVIII	337
       Captulo XIX	346
       Captulo XX	360
       Captulo XXI	381
       Captulo XXII	411
       
       
       
       
       
     PRLOGO
     
       De todas as lutas e mgoas que enfrentamos na vida, sempre nos ser mais fcil falar das que j vencemos de h muito, cujas lies j aprendemos e nos reconhecemos melhorados, do que relatar fatos recentes, quando as emoes ainda permanecem a descompassar nossos coraes carentes de aprendizagem e de mais equilbrio.  
       Quando alguns dos personagens ainda se demoram na Terra, a lutar para desenvolver suas aptides de Esprito Eterno em busca da felicidade legtima, raros so os narradores desencarnados que conseguem permisso para contar suas histrias, cujo desenrolar podero exp-lo s  curiosidade pblica.  
        Quando isso acontece, alm da permisso dos envolvidos, h certas normas que devem ser observadas.  
        Por essa razo,  claro que os nomes e alguns detalhes da histria de "O Matuto" foram trocados.  Que ningum, ao l-la ,  procure descobrir nomes ou pessoas que a nossa tica houve por bem ocultar e que com certeza no acrescentaro nada aos objetivos desta narrativa.  
        Contudo, esse aspecto da forma no consegue tirar a autenticidade da histria, que realmente aconteceu e nos convida a meditar nos problemas que ainda nos envolvem o esprito desejoso de ser feliz, amar e progredir.  
        Estaremos felizes se, atravs desta narrativa simples e despretenciosa, alguns vierem a compreender e aceitar a bondade de Deus, sua soberana justia e a eterna felicidade de viver.  
       
                     Lucius So Paulo, 27 de outubro de 1983
       
                     
       
       CAPTULO I
       
       Ponto terminal.  A estrada acabava ali.  Pequena vila, logo depois a mata fechada, misteriosa e rica.  Alguns casebres de pau-a-pique,  construdos sem alinhamento ou cuidados.  Uma rua que era a prpria estrada de terra, uma venda onde podia-se  comprar o fumo, o sal, a pinga, e algumas vezes um pedao de charque ou de rapadura.  
        Alguns moradores tinham plantao de couve, milho, abbora e chuchu.  Os mais abastados, galinhas, e s o Venncio, de quando em vez, criava um porco que era sempre de pouca engorda.  
        Apesar de pauprrimo, Dente de Ona (era o nome do local) abrigava algumas famlias ordeiras e pacatas.  Pouco exigiam,  limitando-se   pesca no rio que passava mais abaixo,  e a algumas incurses na vila do Inga, que distava umas vinte lguas, para vender ou trocar seu pescado pelos gneros ou objetos de que necessitavam.  
        O apelido curioso de Dente de Ona devia-se  ao grande nmero desses animais que habitavam a mata das redondezas, tendo feito j inmeras vtimas.  Sempre forasteiras, porquanto os moradores locais,  conhecendo-lhes os hbitos e costumes,  tomavam muitas precaues,  conseguindo evit-la s.   Muitos deles aceitavam a vida dura e pareciam no ter outras ambies ou aspiraes seno continuar ali, sobrevivendo ao sabor da sorte;outros porm, os jovens principalmente, se iam da vila, sequiosos de conhecer o resto do mundo.  
        Raimundo morava s.  Cuidava da prpria subsistncia plantando um pouco de mandioca e milho, pescando ao sabor da vontade,  vagabundeando, dormitando na rede ou mourejando no rio, quando tinha fome, e na roa, quando vinha a disposio.  
        Tinha apenas 28 anos, mas seu corpo alto e magro parecia mais velho.  O rosto, queimado de sol, parcialmente coberto por uma barba mais escura do que seus cabelos castanhos.  Raimundo no nascera em Dente de Ona;chegara ao local h mais de vinte anos, pela mo do pai, que construra a cabana onde sempre tinham morado.  Seu pai no era homem de roa como os habitantes do local, tinha maneiras e era letrado.  Porm, demonstrava grande desprezo pelo mundo e pelos homens.  Inculcara em Raimundo verdadeiro horror  vida na cidade, o pessimismo em relao  humanidade e o desprezo pelas conquistas do progresso.  
       Afeioara-se   natureza,  ensinando o filho a viver de maneira primitiva como ndio.  
       Raimundo aceitara aquela vida, amava o cheiro da terra, os pssaros, o rio.  Alma de poeta, vibrava ante a beleza agreste da mata, desbravando-a  pelo prazer de venc-la .  
       Quando seu pai adoeceu, queria transport-lo  vila, mas o velho Jos recusou-se  terminantemente a ir.  Desacreditava da medicina.  Preferia as beberagens do mato que aprendera com um ndio de quem era amigo.  Contudo, elas foram insuficientes.  Jos, minado pela febre, veio a falecer.  Ajudado por alguns amigos, Raimundo enterrou-o ali mesmo, na beira do rio.  A vida continuou igual,  dentro da monotonia de sempre.  
        No pensou em ir-se  embora.  Para onde iria?   No sabia ler nem escrever.  Ali, tinha sua casa, seus amigos com os quais pouco conversava.  Tinha o que lhe bastava, para que mais?  
        Deitado na rede grosseira, gostava de olhar o cu pontilhado de estrelas atravs da janela da cabana.  O que haveria l em cima?  
        Ficava pensando, pensando... Quem teria feito tudo aquilo?   Seria Deus mesmo?   No sabia responder.  O pai nunca lhe ensinara nada a respeito de Deus.  Ouvira dos amigos que fora ele o criador de tudo.  Como poderia ser?  Se fosse verdade, que poder teria! 
        Cismava, cismava.  s vezes sentia-se  s, mas aceitava a solido como necessidade sem remdio.  Casar seria bom, mas tinha medo.  O pai sempre recomendara-lhe fugir das mulheres, figuras traioeiras e fteis.  
        Poucas moas na aldeia, feias e sem graa.  O jeito era ficar s.  Melhor do que sofrer.  
        E o tempo ia passando, passando, na monotonia da roa, e Raimundo deixava-se  ficar, aceitando a vida, contentando-se  com o pouco que ela lhe oferecia.  
        Era tarde amena de novembro, e o Raimundo, na rede, cochilava embalado pelo pipilar dos pssaros que em bandos passavam sobre as rvores.  
        Chovera durante vrios dias, e agora o sol tinha brilhado,  secando as matas e o cho; as folhas verdes recendiam ainda o aroma peculiar das plantas molhadas,  exibindo agradvel frescor.  
        Ele colocara a rede nas rvores de fora, usufruindo as delcias da natureza.   Foi quando um rudo desagradvel e inesperado veio arranc-lo da modorra,  fazendo-o abrir os olhos,  surpreendido.  
        Quebrando o silncio buclico da paisagem,  um jipe descia a estrada.   Apesar de no ser usual um carro naquelas paragens,  Raimundo no se moveu.   Limitou-se  a olhar em silncio.  
        O jipe aproximou-se  e parou em frente  sua casa.   Havia trs homens dentro dele,  e Raimundo reconheceu o Bastio do Crrego Seco, no Inga, com o qual j trocara alguns gneros.   Seu pai  que o conhecia melhor, porquanto cada vez que iam  vila, mantinha demoradas palestras com ele.  
        Calmo, esperou.  Bastio chegou-se ,  chapu entre os dedos,  sorriso mostrando alguns dentes amarelos de fumo.  
          Oh!  Raimundo... 
       O interpelado sentou-se  na rede, olhando o interlocutor, calado.  
        Oh!  Raimundo  repetiu ele  , careo fala com oc.   Assunto srio e partcula.  
        Pode fala, home.  
        Esses dois home que to no carro, to procurando oc.  Vero de Cuiab, especiar, s pra lhe v.  
        Raimundo alou o olhar desconfiado para o jipe parado, onde os dois homens conversavam tranquilamente.  
        Num conheo eles.  Pra que to me procurano?  
        Num sei no.  Parece que viero traz notcia de parente seu da cidade... 
        Bobage.  Num tenho ningum.  S sozinho.  
       Bastio baixou a voz e, colocando a mo no brao de Raimundo,  disse em tom intencional:
         Sabe,  eles so gente rica.   Tm dinheiro pra se v.   Gastam sem pena.  Pra eu traz eles aqui e ensina sua casa me dero dois conto.  E,  vendo que o outro olhava desconfiado,  completou:
        Eu s truxe eles pruque so gente direita.   Querem fala com oc.  
       Raimundo deu de ombros.  
        Num tenho nada pra fala co'eles.  
        Oc  num vai agora manda os home imbora sem conversa.   E farta de inducao.   Dispoi,  eles viajaro muitas lguas,  to cansado.   Se oc num qu d ateno preles,  deixa s descansa um pouco que a gente vorta pr trs.  
        T certo.   Oc num vai diz que sou mal inducado.   Chama eles.  
       Bastio, saiu com um sorriso amvel a distender-lhe o rosto moreno e ossudo.   Os homens saltaram do jipe e,  com fisionomia distendida,  aproximaram-se .  Um era jovem ainda, menos de trinta anos, o outro beirava os 45.   Vestiam roupas de brim,  mas o corte e a qualidade eram de muita classe.   Pela aparncia,  homens de cidade,  cultos e elegantes.   Raimundo colocou-se  de sobreaviso.  
        Esses so os home que querem lhe conhece -a presentou Bastio,  meio sem jeito.  
        Pruqu?    fez Raimundo,  olhando-os bem nos olhos.  
        Apesar de homens desembaraados, os dois ficaram sem saber como comear.  A pergunta direta fora feita com rudeza,  mas sem agressividade.  
         Posso explicar  tornou o mais velho com voz delicada.   Meu nome  Olavo Rangel advogado.  Meu amigo  Juvenal Dias,  jornalista de Cuiab.   Temos um assunto do seu interesse para conversar.   Viemos de longe  sua procura.   Estamos cansados.   Se nos permitisse,  gostaramos de descansar um pouco.  
       Raimundo olhou-os de frente.   Depois resolveu:
         T bem.  Vamos l pra dentro.  Casa de pobre.  Num sei se ocs vo fica a gosto.  
        Levantou-se  e conduziu-os ao casebre humilde.  Dentro, uma mesa tosca, duas cadeiras que o pai trouxera ainda quando tinham ido para l, um pequeno armrio, uma arca de madeira e nada mais.  A um canto, o fogo de lenha que ele mesmo fizera com algumas pedras e barro.  
        Ofereceu-lhes as cadeiras enquanto tomava assento na rede, que tambm servia-lhe de cama.  Bastio ficou de p mesmo.  
         Muito bem  tornou o advogado em tom profissional -se u nome todo ...  Preciso saber se estou falando com a pessoa que procuro.  
        Meu nome  Raimundo.  
        Temos a um problema.  Eu acho que seu nome  outro.  Sei que seu pai mudou o seu nome quando deixaram So Paulo.  
        Parece que o sinh sabe mais do que eu.  
        Acho que sei.  Seu nome  Geraldo Tavares de Lima.  E seu pai.   Euclides Marcondes de Lima.  Raimundo foi apelido que ele lhe deu,  na mesma poca que passou a se dizer Jos.  
       Raimundo interessou-se .  Seu pai nunca lhe contara as razes pelas quais deixara So Paulo quando ele tinha 5 a 6 anos e resolvera morar ali.   Vrias vezes quisera perguntar-lhe,  mas o assunto o irritava tanto que acabava desistindo.  Agora,  aquele estranho aparecia com aquela histria.  Deveria acreditar?  O homem parecia srio e de bem.  
        Num sei se  verdade.  Num lembro.  Era muito pequeno.  Olavo ficou preocupado.  
        Faa um esforo.  Seu pai no deixou nenhum guardado como papis, documentos,  etc?  
       Raimundo esforou-se  para lembrar.  
        Acho que no.   Tinha raiva de papel.  Dizia que atrapalhava a vida.  
        Procure lembrar-se  do que aconteceu quando chegaram aqui  
       tornou o jornalista,  persuasivo.   Nunca viu nada de estranho com ele?  Raimundo pensou,  pensou,  at que lembrou-se :
        Um dia ele chegou da vila feito doido.  Trazia um jorna que lia muitas vezes,  com fria.  
        Voc sabe o que dizia?  
        Num sei l.   Ele nunca deixou eu aprende.  Depois me mandou busca gua no rio,  mai eu num fui logo.  Tava assustado co'ele e me escondi pra v o que ele fazia.   
       Vi quando pegou uma caixa e foi pro mato.  Enterrou ela,  depois vort.  Parecia mais sussegado.  Fiquei pensando na caixa,  e quando ele foi drumi de tarde,  fui at l e desenterrei ela,  pra v o que era.   Tinha s pape,  e eu enterrei ela de novo,  cum medo dele me bate.   Ele era homem bom mai muito brabo.  
       Olavo animou-se .  
        Lembra-se  de onde essa caixa est enterrada?  
        Fai muito tempo,  mai acho que se percur,  nis acha.  
        Sabe, Raimundo,  muito importante sabermos se voc  mesmo filho do Euclides Marcondes de Lima.  Para isso viemos  sua procura.  
        T certo.  T quereno conhece o que meu pai num quis me conta.  Vamo l.  Levantou-se ,  apanhou a enxada e dirigiu-se  para fora.  Os outros seguiram no em silncio.  Notava-se -lhes a preocupao no semblante.  
       Raimundo caminhou para a pequena plantao sem pressa, obrigando os outros a moderarem a marcha.  Ao fundo, sob uma rvore, parou coando a barba.  
        Acho que foi aqui.  Fais tempo, mai eu num esqueci.  Deixa oi bem pra v.  .   .  ,  acho que foi aqui.  
       Os olhos ansiosos dos trs iam de Raimundo ao cho coberto de mato.   Ele comeou a cavar.  Em nenhum momento pareceu apressado.   Lentamente,  foi sulcando a terra com certa facilidade, por causa da chuva do dia anterior.  Raimundo cavava e nada.  Ia com cuidado,  atento para no danificar a caixa quando a achasse.  
        Acho que era mais pro lado.  
       - Ser que seu pai no a retirou daqui?    inquiriu o advogado,  preocupado.  
        Num aquerdito.  Pra qu?  Se enterrou foi pra se livra dela, num foi pra guarda.  Olha aqui, parece que aqui tem coisa. . .   , acho que encontrei.  
        Cuidado para no estrag-la .   Deve estar velha.  
        Num carece preocupa.   Sei lida co'a terra.  
       Realmente, em poucos minutos um objeto, escuro, surgia aos olhos curiosos dos presentes.  No era bem uma caixa, mas uma bolsa rstica de couro cru que, apesar de suja e mida,  estava intacta.  
       Raimundo largou a enxada e limpou as mos na cala surrada.  
        Deixa limpa ela por fora pra ocs num suja as mo.  
        No importa  tornou o advogado, impaciente.    Vamos abrir para ver o que contm.  
       Raimundo a abriu com certa dificuldade, e um grosso rolo envolto de um pano surgiu.  O advogado desenrolou-o e alguns papis amarelecidos apareceram.   Rpido, Olavo os manuseou, e sua fisionomia distendeu-se  em triunfo.  
        Acho que encontramos.   Est aqui o que precisamos.  
       Raimundo olhou desconfiado.  
        O que t escrito a,  seu doto?  
        So documentos, certides, vamos at a casa.  L, poderemos examin-lo s minuciosamente.  
         mi mesmo.  T escurecendo e num d pra enxerga.  
       Com a calma que lhe era peculiar, Raimundo apanhou a enxada e tapou o buraco, enquanto os outros, impacientes, encaminhavam-se  para a casa modesta.  Vagarosamente, Raimundo aproximou-se , entrou na cabana e acendeu o lampio.  
       Sob a sua luz bruxuleante, o advogado, com emoo e certa impacincia, examinou um por um daqueles documentos, sacundido a cabea afirmativamente e olhando satisfeito para o jornalista que,  sobre o seu ombro, tambm inteirava-se  do seu contedo.  
       Apesar de curioso, Raimundo no fez gesto nenhum.  Observava tudo em silncio, olhos semicerrados, esperando.  
         tal qual eu esperava.  Voc  mesmo Geraldo Tavares de Lima,  nascido em So Paulo a 18 de junho de 1908, filho de Euclides Marcondes de Lima e de D.   Carolina Tavares de Lima.  
        Como sabe?   perguntou finalmente Raimundo.  
        Esto aqui as certides.  Esta  a data do seu nascimento, esta a do casamento do Dr.   Euclides, a 15 de maio de 1900, na comarca de Itu.   Tem tambm outros documentos importantes, e eu vou dar-lhe a melhor das notcias.  Prepare-se , Geraldo, sente-se  para no cair.  
       Raimundo olhava meio assustado.  
         com voc sim.  Seu nome  Geraldo e de hoje em diante dever ser chamado assim.  
       Juvenal pegou-o pelo brao, forando-o a sentar-se  em uma das cadeiras.  O advogado, diante do espanto do Bastio e do Raimundo,  continuou:
        Voc  um homem rico.  Muito rico que, se quiser, pode comprar uma cidade inteira.  Raimundo olhava sem entender.  
        Voc  muito rico, homem! Podre de rico.  Alegro-me  de poder dar-lhe essa notcia.  
        Num pode s.  Oc t enganado.  Meu falecido pai era muito pobre.  Num tinha dinheiro nem pra compra fumo.  
        Engano seu.  Seu pai era mdico e muito rico.  Pertencia a uma das melhores famlias de So Paulo, nunca lhe contou?  
        Custa aquerdit.  Mdico?   Acho que ocs to enganado.  Ele num gostava da medicina.  Diza que os mdico num sabe de nada.  Sempre se tratou co'as ervas dos ndios e eu tambm, nunca tomava droga de farmcia.  
        Mais uma razo para acreditar no que digo.  Ele era mdico, mas acho que formou-se  para contentar a famlia, no gostava da profisso.   Apesar disso,  cuidou de voc.  
        ,  ele cuidou.   Conhecia muitos remdio, mai s de mato  coou a cabea,  sem entender.    Mai, se era rico e mdico, pru que veio para c nesta vida dura e sem conforto?  
       - A  que est.  No sabemos bem o que aconteceu.  Parece que um dia teve que socorrer um amigo que hospedava em sua casa e no conseguiu evitar sua morte.   
       Desgostoso,  passou a mo no filho, sumiu de casa.  Inteis todas as buscas.   D.   Carolina estava inconsolvel, desesperada.   Colocaram anncio nos jornais,  contrataram gente da polcia para procurar,  nada.  Ningum sabia informar onde o Dr.   Euclides escondera-se  com o filho.   D.   Carolina fechou a casa, nunca mais tirou o luto.   Segundo sei,  ela dizia que s o tiraria no dia em que reencontrasse o filho,  nico amor de sua vida.   Com a morte do av,  pai de Euclides, ela herdou imensa fortuna, propriedades que vieram a aumentar muito o patrimnio da famlia.  
       Raimundo ouvia pensativo, quase sem acreditar que aquela histria fosse a de seu pai.  O advogado continuou:
        O velho Dr.   Marcondes de Lima, pai de Euclides, seu av paterno portanto, era advogado hbil e de posses.  Vivo, tomou conta dos negcios da nora quando seu pai saiu de casa, em quem procurou consolo para a separao do filho predileto.  Bem aplicada e administrada, a fortuna aumentava sempre.  Mas D.   Carolina no demonstrava alegria.   Raramente saa, era vista muito pouco,  no frequentava a sociedade nem abria o seu palacete da Av.   Paulista,  em So Paulo, para os velhos amigos e conhecidos.  Era conhecida como  uma excntrica.  Quando perdeu o sogro, ficou ainda mais melanclica.   Faleceu h cerca de seis meses.  Voc  o herdeiro de uma das maiores fortunas do Brasil.  
       Raimundo no se sentiu alegre.  Pressentira sempre um mistrio na ida de seu pai para aqueles stios.  Se tudo aquilo fosse mesmo verdade, o que teria acontecido para o pai ter abandonado tudo,  pai, esposa, dinheiro, tudo?   Qual o mistrio que havia atrs de tudo aquilo?   No pensava no dinheiro.  No tinha ambies.  Preocupava-o mais a me, de quem no lembrava seno vagamente, de rosto jovem e alegre, debruada sobre ele.  
       Era das poucas lembranas que conservava daqueles tempos.   O pai havia-lhe dito que ela estava morta, e se tudo fosse verdade,  se o advogado no estivesse mentindo,  quem mentira fora ele.   Ele que tinha horror  mentira.  Que o ensinara a falar a verdade doesse a quem doesse.  Ele lhe mentira.  Renegava a sociedade e o mundo,  pela mentira dos homens, pela hiprocrisia.  Queria ficar na simplicidade da natureza para fugir aos que enganam e fora o primeiro a mentir,  a enganar.  Ele,  que gostava tanto da me, que sempre sofrera sua falta.  
       Sentia-se  profundamente decepcionado.  A me, sempre querida e recordada no silncio de suas noites solitrias.  Sentira-lhe a falta durante aqueles anos, mas conformara-se , julgando-a  morta.   Fora enganado!  Ela usara luto por ele, porque sempre fora me amorosa e ele, seu nico filho! 
       Seu corao apertou-se .  Um sentimento de revolta comeou a brotar-lhe do peito oprimido.  
       Dr.   Olavo admirou-se .  
        Trago-lhe to boas notcias e voc faz essa cara?   Digo-lhe que 
       um homem imensamente rico!  No est alegre?  
       Raimundo olhou-o com raiva:
        Pensei que minha me tivesse morrido h muito tempo.  Primero, oc me diz que ela tava viva, at pouco tempo, pra depois diz que agora j t morta.  Acha que posso t alegre por isso?  
       O advogado trocou um olhar surpreendido com o jornalista.  Quem no entendia era ele.  Julgou no estar tratando com pessoa normal.  
        Voc no sabia que sua me era viva?    perguntou Juvenal com voz conciliadora.  
        No.  Num sabia.  Seno tinha ido busca ela pra mora comigo.  
        Acha que ela viria pra este buraco?    fez o advogado com ironia.   Raimundo olhou-o bem de frente.          
        Era minha me  tornou ele, muito srio.    Se gostasse de mim,  haveria de quer fica comigo.  
        Bem,  bem, pode ser  fez o advogado, mais interessado em tratar dos seus negcios do que nos problemas daquele bronco.    Mas agora viemos busc-lo para tratar dos negcios da herana.  Voc  um homem rico, precisa ir a So Paulo, para tomar posse de tudo.   Podemos ir amanh mesmo.  Cuidarei de tudo.  Voc no tem por aqui muitos valores, pode deixar tudo isto e comprar o que quiser assim que chegarmos  cidade.  
       Calmo,  Raimundo esperou que ele terminasse e depois declarou:
        Quem lhe disse que eu vou?  
        Como?  ! Certamente que ir.  Sua fortuna  na base de 50 mil contos de ris! ! Se no for, no recebe nada.  
        Num careo de nada.  Tenho tudo que quero.  Num sinto farta.  Aqui, os amigos so gente de bem e nossa vida  sussegada.  Num gosto de cidade.  S tem farsidade e hiprocrisia Que v faz por l?  
        E o dinheiro?  Raimundo deu de ombros.  
        Num tem importncia.  Num sei gasta ele mesmo.  Ia me d muito trabaio.  V fica aqui mesmo.  Leva minha vida.  Se a me tivesse viva eu ia, mai ela j t morta, ento, num carece de i... 
       Dr.   Olavo trocou um olhar desanimado com o jornalista.  Sentou-se , sem saber o que dizer.  Jamais pensara encontrar tanta ignorncia.  Talvez ele fosse um deficiente mental.  Para recusar tanto dinheiro, preferir tal misria s havia uma explicao:a imbecilidade.  Incapacidade para avaliar o que estava perdendo.  
       Por outro lado, um homem to ingnuo seria fcil de manejar,  principalmente na administrao de seus bens, o que era seu objetivo principal.  Por isso,  calou-se  e permaneceu pensativo durante alguns minutos.  Depois tornou:
        Bem, quanto ao trabalho, no precisa ocupar-se  com nada.  Tenho
       um escritrio em So Paulo e poderei tratar de tudo para voc.   Acontece que se voc no for receber esse dinheiro, no apresentar-se  dentro do prazo legal, quem vai herdar tudo  a famlia de seu tio Jos, irmo de seu pai, e isso no era do gosto de sua me.  
       Raimundo fixou-o com curiosidade.  
        D.   Carolina no apreciava o cunhado porque ele botou fora toda parte da herana que recebeu, joga muito.  Seu filho tambm  sem juzo.  Esto arruinados e loucos para receber o dinheiro de sua me.  
        Depois -aduziu o jornalista  , no  s o dinheiro.  Vo morar na casa dela, ficar com as jias dela, as roupas, os mveis, tudo o que era dela e que  seu.  
       Raimundo estremeceu.  Tocaram-lhe o ponto fraco.  Gostaria de ter alguma lembrana da me.  
       -se  voc gosta de sua me, no deve deixar que pessoas das quais ela no gostava e vivia afastada tomem conta de tudo.  
        E  fez ele, pensativo.   Ela num ia gosta.  
        Ento  tornou o advogado, com habilidade  , voc vai conosco amanh, toma posse de tudo.  Depois, pega o que desejar, e se no quiser ficar por l, volta pra c.  Voc no  obrigado a ficar l.   Precisa ir porque sua presena  necessria para fins legais.   Decidir o que quer.   Ningum pode obrig-lo a nada.  Se resolver dar toda sua fortuna, ningum tem nada com isso.  
       Raimundo permaneceu pensativo,  indeciso.  
        Vai,  home animou Bastio, cujos olhos midos vibravam de cobia.   -se  quis, eu posso i junto.  Eu num deixava essa dinherama pra esses parentes que sua me num gostava.   desaforo.  
          disse o advogado, com astcia  , tem razo.  Eles abriram o inventrio, alegando que voc est morto e que os nicos e verdadeiros herdeiros so eles.  
        Mai eu t vivo  tornou Raimundo, irritado.  Tinha raiva dos ambiciosos e interesseiros.  
        Eles no tm certeza se voc  vivo ou morto.  Mas ao invs de procurar descobrir, eles querem lhe passar a perna.  Afirmaram em ofcio que voc est morto.   
       E, como est desaparecido h vinte anos, se no aparecer com os documentos provando que est vivo, eles herdaro tudo.  
        Como foi que me descobriu aqui?    inquiriu Raimundo, desconfiado.  
        Conheci sua me.  Fui amigo dela.  Sempre procurou saber onde estava o filho.  Fui encarregado de procur-lo .  Mas infelizmente, s seis meses depois de sua morte consegui ach-lo .  Se ela fosse viva,  como ficaria feliz! 
       Raimundo tranquilizou-se .  Se era amigo de sua me, devia ser gente de bem.  Depois, eles tinham razo.  Seria doloroso que esses parentes sem escrpulos, ambiciosos, que se alegraram com a morte dela e apressaram-se  a diz-lo morto, ficassem com tudo.  No era justo, No gostava da cidade.  Encarava o povo da metrpole como um  ninho de assaltantes e hipcritas.  Mas era homem de coragem.  Ia at l, recebia tudo.  Resolvia o destino que daria aos bens e depois voltaria para sua casa, com dinheiro para viver tranquilo, suprindo as prprias necessidades.  
        T certo,  doto.  Eu vou.  E num perciso doce, Bastio.  V s.  V e vorto logo que desocupa.  
        Muito bem  fez o advogado satisfeito.  Fico contente que tenha concordado.  Assim  melhor.  Agora vamos indo.  Amanh cedinho voltaremos.  Raimundo abanou a cabea.  
        Mior fica por aqui.  Essa hora  perigosa.  As ona to sorta e cum fome.  Num garanto que cheguem na vila.  
         verdade  confirmou Bastio.    Eu num arrisco.  O mior?   fica aqui hoje e manh cedinho nis vai simbora.  
       No lhes agradava passar a noite na tosca cabana, mas sabiam que o lugar era perigoso e a cara dos dois no era de brincadeira.  
        Ento vamos no jipe apanhar comida e alguns objetos.  
        Pra um poo.  Raimundo pegou um archote que estava sobre o fogo e acendeu-o.  
        Agora eu v na frente.  Ocs vo comigo de olho aberto, bem perto.  
        Est certo.   V voc, Juvenal, eu espero aqui.  
        Com o tio aceso foram at o carro, de onde o jornalista apanhou alguns sacos de viagem.   Depois foram pegar a rede que estava na rvore ao lado.   Voltaram para casa.  Comeram po e outras guloseimas que tinham trazido enquanto Raimundo servia o caf, e depois da porta bem trancada, acomodaram-se .  
       Raimundo numa rede, o advogado na outra.  O jornalista colocou seu cobertor de viagem no cho duro, procurando ajeitar-se ,  enquanto Bastio acocorava-se  a um canto.  
       Deitado na rede, Raimundo no conseguia conciliar o sono.   Tantas idias em sua cabea deixavam no aturdido.  Em poucos minutos sua vida calma transformara-se .  
       Nunca tinha ido a cidade.  Parecia-lhe to distante, como se fosse um outro planeta, quase inatingvel.  Seu pai sempre comentava a vida em sociedade com pessimismo.  Os homens da cidade eram todos hipcritas e perversos.  Quem quisesse sossego devia viver longe da civilizao.  Sua vida no era ruim.  Tinha sade, tranquilidade,  o cu, as rvores, o rio.  Era livre.  Fazia o que lhe dava vontade.  
       Horrorizava-o a idia de que os homens na cidade tinham que submeter-se  aos patres com hora para tudo.  s vezes ficava imaginando como deveria ser a vida por l.  Mulheres pintadas como vira em uma revista na vila.  Mas, mesmo que sentisse alguma curiosidade em ver como era, no tinha dinheiro para uma viagem dessas.  Agora, quando menos esperava, tudo tinha se arranjado, no s para conhecer como para morar se quisesse.  Palacete e tudo.  
       Raimundo remexeu-se  na rede, aflito.  Pensara estar s no mundo, de repente surgem parentes, dinheiro, posses, etc.  Custava-lhe crer.   Parecia-lhe mentira.  Mas como no acreditar?  O advogado conhecia a vida de seu pai muito mais do que ele prprio.  Conhecera-lhe a me,  o av, a famlia...  Sentiu certa curiosidade.  Gente fina,  por certo, gente rica, letrada, da cidade.  Como iam receb-lo ?  
       Remexia-se  na rede sem conseguir dormir.  Era noite alta quando finalmente pde conciliar o sono.  Sono inquieto, em que as fisionomias misturavam-se   sua frente.   
       O rosto do pai, barbudo e enrgico, o rosto suave da me, o advogado,  o jornalista, no lhe permitindo um repouso tranqilo.  
       Quando os galos comearam a cantar, abriu os olhos em sobressalto.  Foi  janela.  Cinco horas, com certeza.  Acendeu o fogo e botou a gua para o caf.  
       Bastio abriu os olhos com vivacidade.  O cheiro gostoso do caf sempre o animava.  O jornalista tambm acordou.  Apesar do cho duro, o cansao o fizera dormir profundamente.  Sentia-se  bem disposto.  Voltar  cidade era uma boa perspectiva.  Havia um ms que procuravam pelo Raimundo pelas redondezas.  Finalmente podiam voltar, e que reportagem faria!  Pensando bem, talvez a fortuna do Geraldo precisasse de administradores.  O advogado certamente esperava passar a mo em grande parte daquele dinheiro, uma vez que o pobre matuto era imbecil a ponto de nem querer receb-lo .   Depois, ignorante e analfabeto, fcil lhe seria, como advogado,  ludibri-lo .  Ele no pretendia largar o osso.  Afinal, deixara tudo e trabalhara intensamente nessa busca havia vrios meses.  Dr.   Olavo prometera-lhe largo furo de reportagem, mas agora ele achava que podia conseguir muito mais.  
       Bem-humorado, acordou o companheiro e apressaram-se  a tomar breve refeio.  
        Vamos embora  fez o Dr.   Olavo com deciso.  Temos algumas horas de estrada e pretendo chegar a Cuiab antes do anoitecer.  
       Raimundo vestiu a melhor roupa, e vendo-o, o advogado esclareceu:
        Essa roupa decerto no serve para a cidade.  Quando chegarmos l, vamos comprar tudo novo.  Raimundo olhou-o com calma.  
        Num carece.  Num tenho dinheiro.  
        Bobagem.  Voc  um homem rico.  Eu tenho e vou emprestar para as primeiras despesas.  Depois voc me paga.  
       Raimundo abanou a cabea:
        Num perciso.  A ropa serve s para agasai o corpo.  Essa  muito boa.  
       O advogado irritou-se , mas o homem era teimoso.  Melhor no contrari-lo .  Procurando imprimir um tom calmo  voz, tornou,  conciliador:
        No  isso.  Na cidade, as pessoas usam roupas diferentes.  Se voc aparecer assim por l, todos vo olh-lo e pensar que voc  um mendigo.  Eles do muita importncia s roupas, e enquanto estiver l,  preciso que se vista bem.  Afinal, voc agora  um homem rico.  
        Isso no muda nada.  Sou o mesmo de antes.  Num sei cala aqueles sapatos, nem vesti ropa cheia de capricho.  Despois, sou ansim i num v muda.  Quem acha ruim que coma menos.  Ningum vai me obriga a faz o que num gosto.  
       O advogado achou prudente calar-se .  Estava irritado, e se ofendesse aquele maluco era bem capaz dele desistir da viagem.  A, adeus dinheiro, adeus posio, adeus tudo.  
        Est certo.  Seja como voc quiser  murmurou, conciliador.  
       Decidiu no dizer nada mais.  Contrariado, viu Raimundo colocar uma muda de roupa numa toalha e fazer uma trouxa.  Teve que esperar com pacincia que ele fosse chamar um seu vizinho, autorizando-o a baldear as galinhas para o seu galinheiro, cuidando delas at que voltasse.  Podia lucrar os ovos e comer os frangos que ficassem no ponto.  Pediu-lhe para olhar a casa at a volta.  
       O dia j tinha amanhecido de todo quando os quatro homens instalados no jipe, iniciaram sua viagem.  Olhando as paisagens familiares e queridas que ia deixando para trs, Raimundo sentiu um aperto no corao.  Mas, ao mesmo tempo, um sentimento de curiosidade pelo mundo do outro lado daquelas matas comeou a brotar, vivo e ansioso em seu peito oprimido.  
       Como seria esse mundo que iria conhecer?  
       
       
       CAPTULO 2
       
       
       A viagem decorreu em silncio, cada qual engolfado nos prprios pensamento.  S Bastio, falante e excitado com a aventura do Raimundo tentava uma palestra, sem xito.  Ningum tinha vontade de conversar.  Ele conhecia Raimundo desde que viera para aquelas terras porque o seu Z e o filho tinham morado alguns meses na vila, gastando no armazm de seu pai.  Ele era criana ainda e muitas vezes tinha brincado com Raimundo.  Depois que eles se mudaram para aquele fundo, sempre continuaram a comprar no armazm do Bastio.   Quando os homens chegaram  vila perguntando por um homem com o filho no lhes identificou os nomes, mas vendo o retrato de seu  Z logo o reconheceu, apesar de estar agora mais envelhecido.   Sabedor da novidade, prontificou-se  a lev-lo s  casa de Raimundo.   O reprter tirou fotografia sua e de sua casa, dizendo que ia sair no jornal, e Bastio no se cabia de alegria.  
       Chegaram  vila, reabasteceram o carro e a custo conseguiram despedir-se  do Bastio, tal a sua excitao.  
        Quando vort, passo por aqui.   A, conto tudo  prometeu Raimundo,  mais para livrar-se  dele.  
        Se  oc vort! 
        Nunca fui home de duas palavra.  Vou resorv tudo e vorto.  Oc vai v.  Na vila, o assunto corria de boca em boca.  Raimundo milionrio!  Parecia mentira.  Ficaram por l apenas uma hora, mas foi o bastante para o povo todo vir ver o heri.  Conversavam, riam, pediam ajuda,  alguns at oferecendo-lhe quitandas para a viagem.  
       Raimundo pareceu contrariado.  No gostava de atrair a ateno queria sossego.  Nunca fora da intimidade daquela gente.  Dr.  Olavo tratou de buzinar para abrir caminho e sair dali o mais rpido possvel.   Quando viram-se  longe da algazarra,  Raimundo comentou:
        Num sei pru que isso.  Sempre vim aqui e ningum nunca se importo.  
        Agora voc  rico e famoso.  
       Raimundo deu de ombros:
        Bobage.  Sou a mesma pessoa, nem mais gordo, nem mais magro.  
       Bestera do povo.  Farsidade.  
       Os dois calaram-se .  A rudeza do rapaz confundia-os.   Continuaram a viagem em silncio.  A estrada era deserta, apenas alguns vilarejos muito pobres de quando em quando.   
       Comeram na estrada mesmo, ao lado de uma fonte onde encheram os garrafes e descansaram um pouco.  
       O jornalista revezava-se  na direo com o advogado.  Raimundo,  calado, observava-lhes os gesto e movimentos.  S ao entardecer,  cansados porm satisfeitos, chegaram a Cuiab.  
       Depois de instalarem-se  em dois quartos, o advogado sugeriu:
        Melhor tomarmos um bom banho  estava um pouco preocupado com a figura empoeirada de Raimundo.  
        Num s sujo no, doto.  Costumo me banha todo dia.  
       Olavo procurou dissimular sua inteno lanando olhares examinadores pelas instalaes modestas dos aposentos, enquanto que o jornalista continha o riso.  
        Vamos jantar no quarto mesmo -acrescentou Olavo, tentando imprimir  voz tom de naturalidade.    Estamos muito  cansados.  Depois precisamos acertar nossa viagem o quanto antes.  
       Na verdade, o causdico no queria comer na mesa com aquele bicho do mato, talvez ele nem soubesse sentar-se  frente a uma toalha limpa.  O pior  que ele era muito teimoso, no era malevel.   Tinha opinio prpria e no aceitava conselhos.  Pior para ele.   Seria ridicularizado por todos at aprender.  
       Depois de limpos e bem alimentados, recolheram-se  para dormir.   O cansao era grande e o dia seguinte prometia ser trabalhoso.  
       O sol ia alto quando Juvenal acordou.  Levantou-se  um pouco assustado e, dirigindo-se  ao quarto ao lado onde ficaram os outros dois, tranquilizou-se  ao verificar que o advogado dormia placidamente.  No confiava nele.  Temia que ele tivesse sado cedo para livrar-se  do seu concurso.  Claro que o Dr.   Olavo j devia ter percebido que ele no se contentaria com a reportagem em modesto jornal interiorano.  Suspirou aliviado; mas, quando procurou por Geraldo, o leito estava vazio.  Verificou nos banheiros, no corredor, nada.  
        Dr.   Olavo, Dr.   Olavo.  Acorde.  Nosso homem no est aqui.  
       Olavo acordou assustado, sentando-se  na cama, olhos abertos, meio apalermado.  
        Como?  !  No est?   Voc j procurou?  
        Procurei, por aqui no achei.  
        Vamos, precisamos encontr-lo .  Pode ser que ele tenha se arrependido e resolvido voltar.  
       Um calafrio percorreu-lhes a espinha.  Enquanto o advogado procurava as calas e as vestia precipitadamente, o jornalista descia as escadas rumo  recepo do hotel.  
       Um funcionrio atrs do balcozinho estreito lia um jornal com ateno.  
        Moo, faz favor.  Voc est aqui h muito tempo?  
        Estou, sim.  O que aconteceu?  
        Voc viu sair um homem alto, magro, de barba, camisa xadrez?  
        O moo que veio ontem com os senhores?  
        Sim.  
        Vi.  sim.  Ele disse que ia dar uma volta.  Achou o quarto muito abafado Queria ver a cidade.  
       O outro suspirou, aliviado.  
        Viu se levava alguma coisa?  
        Que coisa?   O sr.   acha que ele roubou?  
        No, no  isso.  Perguntei se ele levou a trouxa com a roupa.  
        Ah! Bom.  No levou nada.  Estava com as mos vazias.  
        Est bem.  Obrigado  e, virando-se  para o advogado que,  esbaforido, j chegara  portaria, explicou:
        No se preocupe.  Nosso homem foi tomar ar.  Achou o quarto abafado.   Foi conhecer a cidade.  
       O advogado bufou, impaciente:
        Esta agora!  Ele pode perder-se !  No conhece nada aqui.  
       O porteiro deixou escapar uma risada.  
        Perder-se ?   Ele?    mais fcil acontecer com o pessoal da cidade.  
       Matuto no se perde.  
        Vamos esperar l em cima  tornou Olavo ao companheiro.  E,  dirigindo-se  ao porteiro  Mande servir caf completo no quarto.   Ser que ele foi s passear mesmo?  
        Acho que sim  respondeu Juvenal.   A  curiosidade dele  natural.  Talvez seja at bom que ele veja como os outros se vestem diferente dele.   Veja, a trouxa est l dentro do armrio.  Podemos ficar tranquilos.  
       Acho que ele abandonar a fortuna, mas jamais a trouxa com a roupa.  
       Reparou como ele cuidou dela o tempo todo?  
       O advogado riu, mais calmo.  
        Puxa, que susto.  Se ele desiste, adeus herana.  Os parentes herdam tudo e eu ficarei de fora.  No  justo, depois do trabalho que tive.  
         Dr.   Olavo, foi bom entrarmos no assunto.  Tambm quero melhorar a vida e acho que h dinheiro para todos ns.  Eu desejo acompanh-lo s a So Paulo.  
        Em que condies?  
        Na de ajud-lo a conseguir o que deseja.  Trabalhar consigo.  Vai precisar de quem o assista na luta que o espera.  Juntos teremos melhores possibilidades de xito.  
        . . .   A idia no  m.  Voc realmente tem me ajudado, mas veja bem, no sei em que condies vamos trabalhar.  Este maluco vai nos causar problemas.  Parece at que j estou vendo.   bronco feito uma porta, e o pior  que precisamos dele.  
        Impacientar-se  no adianta.  Tracemos o plano com calma.  Amans-lo  questo de tempo.  Precisamos captar-lhe a confiana.  Depois,  faremos tudo o que quisermos dele.  
       O outro suspirou:
        .   Acho que preciso mesmo de voc.  No tenho pacincia com a burrice dele.  
        Ento fica acertado, somos scios.  Cinquenta por cento.  
       O outro pulou.  
        Cinquenta por cento?  !  Voc endoideceu.  Afinal, a causa  minha e sou eu quem vai enfrentar a situao judicialmente.  Voc  simples jornalista, apenas meu assistente.  Dou-lhe 10 por cento, o que j  muito.  
       Discutiram acaloradamente, chegando ao acordo dos 30%, dos quais o advogado no arredou p, alegando despesas do seu escritrio em So Paulo,  etc,  etc.  
       Desejavam viajar de avio at o Rio, mas receavam o comportamento do matuto num avio.  Por outro lado, a viagem de trem era muito cansativa e demorada.  No tinham chegado a nenhuma concluso quando a figura de Geraldo apontou na porta.  O advogado sorriu,  procurando ser amvel.  
        Bom dia, amigo.  J tomou seu caf?  
        J.  Fui pra cozinha logo cedo.  
       Procurando no demonstrar irritao, o advogado explicou:
        Geraldo, num hotel estamos pagando.  Por isso, os empregados vm trazer o caf no quarto ou nos sentamos  mesa no salo e l somos servidos.  No fica bem entrarmos na cozinha.  
        Pru qu?   Num t duente pra s servido.  Dispois, olha esse po que ocs to comeno, parece duro, o caf garanto que veio frio.  L eu escolhi o mi, bebi caf coado na hora, comi broa quentinha e cunversei co'a dona que vai faz pra mim um armoo especi.  
       Vendo a cara assustada do Dr.  Olavo, Juvenal mal conteve o riso.  
        Vejo que no perdeu tempo.  Foi melhor servido do que ns  e chegando-se  mais perguntou,  curioso  Conte nos agora, o que achou da cidade?  
         diferente do que eu vi na revista.  As casa pequena, pensei que fosse maio.  
        Espere at chegarmos a So Paulo  fez o jornalista.  
        Num  igual?  
        No.  No .  Os prdios so grandes.  As mulheres so muito bonitas.  
       Os dois olharam com curiosidade para Geraldo.  Como se arranjaria ele com as mulheres?  Teria alguma experincia?  
        Por agora, num vi mui bunita.  S se pra l for mior.  
        Certamente.  No Rio de Janeiro, em So Paulo, as moas so de pele fina e cheirosa, vestem-se  muito bem, so deliciosas.  
       Juvenal suspirou, empolgado, pensando j na sua vida com muito dinheiro na cidade grande.  
        Mui feia num serve, mui bunita  marvada e perigosa.  Mi abri o olho co'elas.  
         isso mesmo -a juntou o advogado.   Geraldo, voc precisa ter muito cuidado.  Elas vo correr atrs de voc por causa do seu dinheiro.   No pode acreditar nelas, seno elas o depenam.  
        Depenam?  
        , tiram-lhe at a roupa do corpo.  
        Carece nasce a mui que vai me tapi.  Num s trouxa.  
        ...  acho que no mesmo.  Precisamos combinar a viagem.   muito longe, e se formos de trem gastaremos muito tempo e ficaremos muito cansados.  O melhor  irmos de avio  disse isso e olhou para Geraldo receoso.  
        Viaja de aeroplano?   Subi l no cu?  
        ...  Foi o que pensamos.   Em poucas horas estaremos no Rio e de l seguiremos para So Paulo.   Se tem medo e prefere ir de trem,  iremos -apressou-se  Olavo  a acrescentar.  
        Puxa!  Subi l no alto! Quem diria! Eu quero subi.  Nunca vi um aeroplano no cho.  Dizem que  muito grande.  
       Decididamente, ele era imprevisvel.   Pela primeira vez entusiasmava-se  com alguma coisa.  Fazia lembrar uma criana.  
        Pois seja.  Juvenal, v agora mesmo ver nossas passagens.  Partiremos o quanto antes.  Geraldo estava curioso.  Como o avio baixava?  Como cabia tanta gente dentro?   Como ele conseguia voar?  
       Dr.   Olavo, embora um pouco caceteado, procurava prestar esclarecimentos.  No podia perder aquela chance de aproximar-se  mais dele.  Conhec-lo bem era parte integrante de seus planos para manej-lo .  Vendo-o mais afvel, arriscou:
        Eu vou dar uma volta por a.  No quer comprar uma roupa nova?  
       Como viu, na cidade as roupas so diferentes.  Vestido assim, voc chamar muita ateno.  Todos olharo para voc.  
       Geraldo deu de ombros.  
        Num careo de ropa.  To bem como t.  Num perciso de nada.  
        Pelo menos vamos comprar uma mala.  Em avio no se leva trouxa.  
        Pru qu?  
        No  costume.  Depois, a roupa fica mais arrumada na mala.  No amassa, no suja.   muito ruim andar sujo e amarrotado.  
        Num gosto de anda sujo,  mai a ropa t muito bem na troxa.  
       O advogado a custo reprimiu um suspiro e uma praga.   Procurcu sorrir,  resignado.  
        Venha ver.  
       Pegou sua mala dentro do armrio e continuou:
        Olha como .  Tudo fica arrumado.  Vou sair e comprar uma para voc.    meu presente.  No precisa pagar.  
        Pru que t fazendo isso tudo, seo doto?  
       O olhar dele era penetrante e firme.  
        Porque era amigo de sua me  mentiu ele  , e porque, como advogado, prometi a ela zelar por voc se o encontrasse, ajudando-o no que fosse possvel.  
       Geraldo calou-se .  A me era seu ponto fraco.  Mencion-la  significava acalm-lo .  
        Ela no gostaria de v-lo mal vestido.  
        Ela gostava de mim.   Num ia se importa com essas coisa.  
        Claro que ela gostava de voc, mas era uma mulher muito fina,  vestia-se  muito bem, de acordo com sua posio;gostaria que voc fosse elegante.  Geraldo suspirou fundo.  
        T bem, seo doto.  Compre a mala, mai pequena.  
       O advogado sentiu enorme alvio.  Parecia-lhe haver ganho uma batalha.  Essa vitria representava muito.   Era a primeira vez que Geraldo concordava com um desejo seu.  Com o tempo, certamente conseguiria tudo quanto desejasse.  
       Foi com alvio que deixaram o hotel.  Tinham vendido o jipe e o comprador, que pagara um preo muito barato, prazerosamente conduziu-os ao campo de aviao.  
       Os olhos vivos de Geraldo registravam tudo que os rodeava, embora se conservasse silencioso.  O avio, um bimotor de pequeno porte, que fora alugado por Juvenal, lev-lo s ia diretamente a So Paulo.  Por muitos dias no passaria avio comercial pela cidade, e, como tinham pressa, fretaram um que s iria levantar vo quando sua carga se completasse.  
       Apesar de acanhado e de pouco conforto, Geralo estava maravilhado,  Quis ver tudo, dos motores e da cabine do piloto at a cauda, o que retardou a partida e irritou o advogado, embora ele procurasse dissimular.  O piloto olhava-o, curioso.  Era um tipo raro, de que selva tinha sado?   Estava acostumado com os matutos, mas aquele parecia-lhe mais selvagem.  Divertido, procurou explicar o que podia, e s pde partir quando Geraldo deu-se  por satisfeito.  
        Olha, voc nunca voou e pode enjoar.  Se tiver nsia, tem esse saco da papel.  Cuspa dentro.  
       Geraldo no respondeu a Olavo.  Sua ateno fixava-se , vida, nas hlices que j comeavam a girar e na poeira que levantava-se  do cho.  Sentia um friozinho na boca do estmago e muita emoo.   Muitas vezes tinha contemplado os avies que passavam luzidios sobre sua cabana.   Agora,  milagre: ele estava num! 
       O avio decolou, iniciando a subida.  Ele estava maravilhado.  O advogado ajeitou-se .  Tinham algumas horas de vo pela frente.  At ali, tudo bem, Geraldo no tinha medo, felizmente.  O dia era quente e o sol ia alto.  Procurou descansar e logo conseguiu adormecer.  
       Acordou assustado, com rudo de nsia e um cheiro desagradvel.   Procurou por Geraldo,  em cujo lado sentara-se , mas o banco estava vazio.  Olhou para frente e viu Juvenal plido, curvado sobre o saco de papel.  Sentiu-se  enjoado.  Onde diabo teria se metido o caipira?  
       Levantou-se , abriu a porta da cabine do piloto e, para sua surpresa,  l estava ele, tranquilo e calmo, enquanto o piloto dizia:
        A direo est marcada nesse relgio,  uma bssola;esse ponteiro mostra o rumo que eu devo ir.  
        De modo que oc num carece do sol pra indica o rumo?  
        Chamamos a isso latitude e  ainda nosso ponto principal.  Norte,  MII, leste e oeste.  
       Olavo estava estupefato.  Como podia aquele selvagem conservar sobre assuntos tcnicos de aviao?  
       Resolveu sentar-se  em seu lugar.  Juvenal suava frio.  No podia fazer nada.  Felizmente, chegaram a So Paulo.  Estava escurecendo, j Geraldo viajara na cabine o tempo todo.  Olavo surpreendeu-se  quando, na sada do Campo de Marte, onde aterrissaram, o piloto apertou a mo de Geraldo com cordialidade.  
        Tive muito gosto em conservar com voc.  Quando quiser, venha por aqui e eu vou mostrar-lhe tudo.  Vai gostar dos hangares e tudo o mais.  
        Acho que v.   Foi uma grande viage.   Nunca v esquece.  
        Sabe  disse o piloto aos dois admirados passageiros  , ele tem alma de aviador.   Devia tirar o breve.  Se ele quiser, eu ensino.  
        Pode deixa.  Eu ainda vorto aqui.  Aprende a vo.  Puxa! 
        A deus  despediu o piloto  , esta viagem foi mesmo muito boa.  
       Juvenal, plido como cera, no teve nem foras para protestar.   Apanharam um carro de aluguel e foram para a casa do advogado.   Juvenal procuraria um hotel, mas o Dr.   Olavo no queria perder Geraldo de vista; por isso, hosped-lo-ia em sua casa.  Telegrafara para sua mulher prevenindo-a  e esperava poder controlar a situao.   Seu quarto de hspedes no era grande, mas deveria parecer principesco em confronto com a choupana daquele selvagem.   Estava emocionado e satisfeito.  
       Seu relacionamento com a mulher no era muito harmonioso, mas linha a certeza de que ela o ajudaria a tratar bem o hspede.  Apesar de no acreditar muito que Olavo pudesse encontrar o milionrio, D.   Marilda, que sempre criticara a viagem do marido, certamente agora teria at muito orgulho  em hosped-lo .  
       Eram 19 horas quando o carro parou em frente  casa confortvel da Av.   Anglica.  Embora no tivesse dinheiro, o advogado pertencia a ilustre famlia e herdara do pai a casa onde residia.   Achava importante manter a posio, e por isso lutava por conserv-la  em bom estado.  Tocou a campainha.  Rudos, passos e a porta abriu-se .   Uma criada com elegante uniforme surgiu, soltando exclamao de susto ao reconhecer o patro.   E em pouco tempo, Olavo era abraado por uma senhora alta, cabelos castanhos crespos e cortados bem curtos, busto volumoso e corpo ereto.  Recendia no perfume.  Geraldo, segurando a pequena mala, olhava assustado.  O hall, onde imponente lustre de cristal reluzia, era recoberto por grosso tapete vermelho o console  ricamente lavrado e patinado a ouro, estava a um canto, encimado por caprichoso espelho de cristal.  Flores delicadas em um vaso de alabastro, do outro lado a escada larga em mrmore branco, corrimo dourado de metal, recoberta pela passadeira tambm vermelha.  
       Geraldo teve receio de pisar com suas grossas botinas naqueles tapetes.  
        Como est meu querido,  disse ela com certo aceno formal  fez boa viagem?  
        Regular,  Marilda.  Mas quero que conhea nosso Geraldo.  Entre, no fique a na porta, a casa  sua.  Ele entrou srio e procurando pisar com leveza.  D.  Marilda a custo conteve o riso.  Parecia pior do que o Jeca Tatu.  Onde Olavo desenterrara tal criatura?  
       Habituada  vida em sociedade,  exibiu um sorriso amvel:
        Seja bem vindo, meu jovem.  Entre.  No faa cerimnia.  Tenho muito prazer em conhec-lo .  
       Geraldo teve vontade de fugir.  No gostou daquela mulher.  .  Tinha olhar de cobra quando queria pegar passarinho.  Sem responder nem apertar a mo que ela lhe estendia, tornou:
         Olha, seo doto Num carece eu fica aqui.  V imbora pra um hoter.  
        No.  Vou ficar ofendido.   uma honra t-lo em minha casa.  No posso consentir que fique num hotel.  No gostou daqui?  
        Num  isso.  S home simples num t acustumado co luxo.  Num quero d trabaio.  S vim assina os pape e vort.  
       D.   Marilda estava de boca aberta.  Lanou um olhar meio irnico para o marido.  
        Marilda, meu bem, gostaria de conversar com ele.  Pode deixar nos a ss?  
        Certamente.  Com licena.   Saiu, deixando uma onda de perfume no ar.  
        Geraldo, tem calma.  Eu disse-lhe que na cidade tudo  diferente.  
        T vendo, mai se eu fica no hoter, fico mior, num carece ser de luxo.  Num s home cumplicado.  
       Foi falando e foi saindo.  Olavo a custo encobria a contrariedade.   S esta faltava-lhe agora.  Depois daquela viagem dura ansiava por descansar, mas o imbecil no gostava de sua bela casa! 
       A custo dominou a irritao.  
        Geraldo, no seja criana.  Todos aqui queremos que voc fique confortvel.  Voc  um homem rico agora.  Precisa aprender a viver em sociedade.  Depois, no conhece ningum em So Paulo.  Isto aqui no  a sua vila.  No saberia nem andar na rua.  Alm disso, a cidade  perigosa, est repleta de ladres, malandros, mulheres perigosas.   Desejo defend-lo dos perigos.  Quero que fique conosco para proteg-lo .  
        Uai, doto, nesse caso vorto pra Dente de Ona aminh mesmo.  
       L s tem ona, mai a agente sabe lida co'elas.  O povo  tudo gente boa e dereita.  Num tem perigo de nada.  Meu falecido pai tambm falava isso.  Haver de s verdade.  Nesse caso, num  bom fica.  Vorto logo pra casa.  Olavo suspirou,  resignado.  
        Tambm, no  tanto assim, Quando voc conhecer tudo, no tem perigo de nada.  Mas se quiser ir para o hotel, eu levo.  Porm antes responda:por qu?   No havia concordado em ficar em minha casa?  
        , por certo.  Mai num gosto de luxo, e num gostei da cara da sua mui.  Ele falava isso com naturalidade.  Olavo quis modificar-lhe a impresso.     porque voc ainda no a conhece bem.  Marilda  uma boa pessoa, honesta, boa esposa e boa me.  
        Num t dizendo isso.   Mai qui ela  farsa, isso ela .  Num gosto de mi v mais num qu contraria o marido.  Si eu fica, ela vai fala de mim por detrs e eu v faz uns desaforo.    mior i simbora.   Num gosto de fingimento.  Comigo num carece no.  
       Olavo ficou sem argumento.  Apesar de irritado, admirou-se  da astcia de Geraldo, a quem um simples olhar revelara o carter de Marilda.   Resignou-se .  
        Est bem.  Vamos para o hotel.  Falaremos com Juvenal,  que ficar com voc.  Espere um momento.  Procurou a mulher, com quem conversou.  
        No adianta.  Ele no quer fica aqui.  Vou lev-lo a um hotel e j volto.  Marilda lanou-lhe um olhar irnico.  
        Faa pagar bem caro pelo trabalho, no se esquea.  Para mim e um alvio.  Apesar de cansado, Olavo apanhou o carro na garagem e disps-se  a levar o caipira para o hotel.  Mas sua odissia no terminou ali.  Geraldo no quis ficar no hotel onde estava Juvenal por ser de luxo, e Olavo queria que o reprter ficasse junto com o caipira para control-lo , mas Juvenal, por sua vez, bem instalado e cansado, no queria sair de onde estava, Geraldo no arredou p.  No ficava ali e pronto.  Depois de muita discusso Olavo conseguiu colocar os dois no carro e saram para procurar um hotel tipo mdio.  Mas Geraldo no gostava de nenhum.  Depois de muito rodar,  concordou com um hotel simples, porm limpo.  Finalmente, gostou do local, para alvio de Olavo e para raiva de Juvenal, que j queria usufruir do luxo e do dinheiro que esperava ganhar.  Reconhecia que algum precisava ficar com ele.  O homem podia meter-se  em apuros e arruinar todo o plano.  
       Foi a que Geraldo teve fome.  Eram 22 horas e o refeitrio do hotel estava fechado.  Olavo estava modo de cansao, mas Geraldo parecia bem disposto e sem sono.  Na roa dormia cedo, que diabo tinha ele que no se cansava?  Olhava tudo sem perder nada, admirava-se  das luzes, dos anncios coloridos, crivava os dois de perguntas que eles no sabiam responder.  Queria saber como acendiam e apagavam, como coloriam as luzes, como funcionava o telefone, se o fio tinha buraco e a voz andava dentro dele.  Olavo no aguentava mais.  No fosse pelo dinheiro, tinha-o mandado s favas.  Tirou dinheiro do bolso e entregou-o a Juvenal.  
        Preciso ir.  Compre alguma coisa para comer.  Amanh cedo estarei de volta.   Passem bem.  Fingiu no ver o ar contrariado do reprter e foi saindo.  Estava no limite da sua resistncia.  Juvenal falou:
        Pode acomodar-se .  Vou descer para comprar sanduches.  
        Sanduches?   O que  isso?  
         po com alguma coisa no meio.   Voc prefere queijo ou mortadela?  
        Eu gosto de quejo, mai se tive uns bolinho de mandioca ou uma broa de milho, eu quero.  
        Quer caf ou guaran?  
        Vou junto com oc.  Quero v o que tem pra come.  Despois, gostei de anda naquela coisa que sobe e desce.  
        No elevador.  
        , no elevador.  
       Juvenal mal conteve o riso.  Aquela hora, cansados da viagem, ele querendo andar de elevador! Acontece cada uma! 
       Desceram.  O hotel situava-se  na Avenida So Joo, que apesar de ser uma tera feira, estava movimentada.  A presena do caipira provocava alguns olhares admirados.   
       Juvenal resignou-se .   Que remdio.  Foram a um bar.  Sobre um balco,  vrios pratos com quitutes, mas Geraldo s tomou caf com rosquinhas.  Devorou um prato delas, que eram fritas na hora e cobertas com acar e canela.  Juvenal, ainda meio enjoado, no se conformava vendo-o comer tudo aquilo, doce.  
        T boa esta rosquinha.  Tava cum fome.  
       Quando saram do bar,  Juvenal estava morto de sono.  
        Agora vamos dormir.  
        V oc.  Eu v d uma vorta.  Quero olha a cidade.  
       E esta agora?  Juvenal irritou-se .  Aquele homem era de ferro.  No podia deix-lo .  Ele no tinha dinheiro e estava to mal vestido que nenhum batedor de carteira o assaltaria, mas podia perder-se .  Como deix-lo ?  
        Voc vai perder-se .    E melhor irmos dormir.  
        Eu num v drumi.  V anda um poo.  Pode i que eu fico.  Juvenal no teve outro remdio seno andar ao lado dele.  O caipira parecia incansvel, andaram, andaram, ele olhando tudo, perguntando sobre coisas que Juvenal no sabia responder porque to inusitadas e nas quais nunca tinha-se  detido para pensar.  Eram quase duas horas da manh quando conseguiu arrast-lo para o hotel.  Ficara no quarto ao lado do seu, e, assim que o colocou dentro, aliviado e exausto atirou-se  no leito para dormir.  
       
       
       
       CAPTULO 3
       
       
       No dia seguinte, pela manh, Olavo dirigiu-se  ao hotel.  Estava refeito e elegantemente vestido.  Recendia a lavanda.  Acordou Juvenal.  
        Bom dia, Juvenal.  E o nosso homem, onde est?  
        No quarto, penso.  Ontem ns andamos quilmetros.  Ele parecia ter asas nas pernas.  Caminhamos at quase duas horas da manh.  Acho que ainda dorme.  Olavo riu bem-humorado, pensando do que se safara.  
         natural, tem curiosidade de ver a cidade.  
        S espero que ele j tenha visto tudo  respondeu Juvenal,  desanimado.  
        No se aborrea.  Hoje mesmo j vou tomar as primeiras providncias legais.  Com os documentos que temos, certamente teremos causa ganha.    s uma questo de formalidade e de tempo.  
        Ainda bem, porque tenho pouco dinheiro.  
        Vou dar-lhe algum por conta.  V se o convence a comprar uma roupa decente.  
        Por que no tenta voc?  
        Vamos tentar os dois.  No  fcil lutar contra sua teimosia.  
       Entraram no quarto e o encontraram sentado em uma cadeira,  folheando com ateno uma revista.  
        Sempre gostei de v revista.  
        Melhor seria se pudesse ler o que est escrito.  
        Num faz mal.   Pelos retrato, penso no que t escrito.  
        Voc devia aprender a ler  fez Juvenal, tentando interess-lo .  
        Num carece.  Se fosse bo, meu finado pai tinha me ensinado.  Quando eu vort pra casa, num v carece de leitura.  Mai eu tava esperando pra fala com seu doto.  
        Fale,  Geraldo.  
        Eu t pronto para i conhece a casa de minha me.  Quero i l 'v tudo, o retrato dela,  tudo.  
       Olavo sentou-se  ao lado do caipira.  
        Por enquanto, no  possvel.  Preciso de uma autorizao legal  do juiz para que voc entre na casa.  Seus parentes no moram na casa, suas tias cuidam dela desde a morte de sua me, por ordem do juiz at que a situao se resolva.  Voc no pode ir l antes que prove perante a lei que  filho dela e seu nico herdeiro.  
        Mais eu v.  Num v deixa esses parente malvados que ela num gostava mexe nas coisas que era dela.  Por isso t aqui.  Quero i l agora mesmo.  E oc vai me leva l.  
       Olavo coou a cabea, contrariado.  
        No v que no convm?   Eles pensam que voc morreu.  No vo deix-lo entrar, podem at chamar a polcia.  
        Que chamem.  Num tenho medo.  Num s ladro nem criminoso.  Pode deixa eles chama a polcia.  Quero s v.  
        No.   No vou lev-lo l assim.  Olhe aqui, Geraldo, eu vou agora mesmo entrar com um ofcio e procurar o juiz que estuda o inventrio de sua me.   Provando sua identidade, certamente ele nos dar permisso para visitar a casa, e assim ningum poder impedi-lo.  
        Eu v fica l.  Num v visita.  A casa  de minha me.  Tenho direito.   Quero i l agora! 
       Dr.   Olavo coou a cabea, preocupado.  Era difcil lidar com aquele ignorante.  Ele tinha seus motivos para no aparecer aos parentes de Geraldo e pretendia faz-lo quando j estivesse com a lei a seu favor.   Aquele teimoso podia dificultar as coisas.  
       Tentou contemporizar.  
        Est bem.  Mais tarde levamos voc at l.  Agora no posso.  Fiquei muito tempo ausente dos meus negcios.  Meu escritrio est precisando da minha presena urgente.  Vou l agora cedo e depois,  tarde, levaremos voc l.  Enquanto isso, por que no vai conhecer a cidade?   Voc j viu o cinema?  
       O advogado sabia que o caipira era curioso, tentou induzi-lo a interessar-se  por outras coisas e distrair-lhe a ateno.  
        Cinema?  
        Sim.  Voc vai ver gente trabalhando, vivendo histrias como no filme.  Ele pensou um pouco e depois tornou:
        Teatro?   O que  isso?  
       Juvenal acompanhava a cena, divertido.  Olavo tentou explicar.  
        Ora, teatro  um lugar onde vrias pessoas renem-se  para fazer de conta que esto vivendo histrias, dramas, so os artistas.  E o povo vai l para asisstir.  
        Qu diz que gente grande mente e finge ser outras pessoas e inda o povo num tem vergonha de assisti?  
        Olavo sentiu-se  ridculo diante do jornalista.   Mal humorado,  aduziu:
        No s vai como paga para assistir.  
        Num arquedito!  Juvenal interveio:
        No  com inteno ruim, Geraldo.  Os artistas cantam, danam, contam coisas engraadas, coisas bonitas, histrias de amor, de homens valentes, de gente que trabalhou para o bem da humanidade.  Voc no conhece circo?  
        No, num conheo.  
        Nunca ouviu falar em Jesus Cristo?  
        No, num ouvi.  
       Agora era Olavo quem divertia-se  com a situao.  Juvenal irritou-se .  
        Voc no cr em Deus?  
        Eu s home que respeita a natureza.  Deus fez tudo isso.  O cu, as prantas, os passarinho, a gua, o sol, as estrela, tudo.  s veis,  costumo fala co'ele.  
        Pois , o teatro, o cinema, contam as histrias bonitas, alegres, e s vezes as feias, de criminosos, para exemplo contra o crime.  
        , deve de s engraado v essa gente brincando.  
        Eles no brincam.   Falam to srio que voc ri com eles, chora com eles, conforme eles fazem os seus papis.  
        ... Deve de s bo.  
        E , Geraldo.  Vou deixar cinco mil ris com voc.  V passear,  compre o que quiser, entre no cinema;depois, no fim da tarde, passo aqui e vamos ver o que se pode fazer com a casa de sua me.  Est bem?  
       Geraldo sacudiu a cabea concordando e Olavo suspirou, aliviado.   Saiu apressado e Juvenal o acompanhou.  
        Gostaria, se fosse possvel, que voc fizesse um contrato de trabalho entre ns.  Sabe como , negcios so negcios e eu tenho muitas despesas.  Depois, nunca se sabe o dia de amanh.  Deixei famlia em Cuiab e preciso mandar dinheiro para eles.  
       Juvenal mentia.  Tinha me e irmos, mas nunca lhes dava nada.  O irmo possua um stio e iam vivendo relativamente bem.  Era solteiro e sem compromissos.  No confiava no advogado.  Queria tudo bem documentado.  
        Est bem, Juvenal.  Vamos ver isso.  Agora, preciso ir.   melhor ficar de olho nele, porque nunca se sabe o que vai por aquela cabea.  Vou ver se converso com um juiz meu amigo e consigo permisso para Geraldo visitar a casa da me.  Vai ser uma bomba.  O Dr.   Marcondes julga-se  dono de tudo, vai ver todo dinheiro escorregar-se -lhe por entre os dedos.  
       Havia um brilho de satisfao nos olhos astutos do advogado.   Juvenal comeou a desconfiar que alm do interesse financeiro havia algum motivo para que Olavo se sentisse feliz em arrasar com os parentes de Geraldo.   Arriscou:
        Algum motivo especial para voc arrasar o Dr.   Marcondes, alm do dinheiro?  O outro estremeceu.  
        No.  Apenas no simpatizo com ele.  Orgulhoso e cheio de empfia.   Quero ver aonde vai seu orgulho quando tiver que trabalhar duro para comer.  
        Ele no  um homem rico?  
        Foi, meu caro, foi.  O filho botou tudo fora.  Agora, ele conta com a herana de D.   Carolina para sair do buraco.  Est visto que no vai conseguir.  
        Puxa!  Ele vai estrilar! 
        Ora, se vai!  Mas, por outro lado, conhece bem a lei,  advogado.   bacharelou-se  s para ter nome.  Voc vai ver.  Ter, como eu, prazer em derrub-los.  Gente intolerante, paulista de quatrocentos anos,  descendente dos bares do caf,  etc,  etc.  
       Juvenal perguntou:
        Voc vai mesmo levar Geraldo l hoje?  
        Claro que no.  Primeiro falo com o juiz, depois Geraldo assina l contrato comigo, procurao com plenos poderes sobre seus bens,  depois o lavamos l.  
        Ele no sabe assinar.  
        No faz mal.  Bota o polegar em baixo.  Depois que eu tiver essa procurao, ele pode voltar para seu Dente de Ona e sumir.  
        Espero que tudo d certo.  
        Dar.  Voc vai ver.  A documentao est em ordem.  Agora vou indo.   Qualquer novidade, tem meu telefone.  Se eu no estiver, deixe recado com a secretria.  
        Est bem.  Olavo afastou-se ,  apressado.   Juvenal entrou no quarto de  Geraldo, que calmamente folheava a revista.  Foi para seu quarto.   Estava cansado da vspera.  Iria descansar um pouco.  Depois convidaria Geraldo para sair.  Iria divertir-se  levando-o a um cinema.  Ia ser engraado.  Geraldo continuou olhando a revista.  Dez minutos depois, largou-a .   Foi int o guarda roupa e apanhou a mala onde suas poucas peas de roupas j estavam guardadas.  Depois,  decidido, colocou  o dinheiro no bolso e saiu.  Eram 11 horas e a cidade estava bastante movimentada.  Bondes, buzinas, gente, bares,  lojas.  Geraldo entrou na Av.   So Joo e foi caminhando.  Andou,  andou, andou;quando chegou na Praa Marechal Deodoro, parou.  Entrou num caf, sentou-se  em uma mesa e pediu um po com caf.  Enquanto comia, comeou a conversar com o empregado.  
        Moo, oc sabe onde fica a Venida Paulista?  
        Sei, sim.  Voc est muito longe.  
        Eu careo de i l.  Como eu posso i?  
       O rapaz coou a cabea,  pensativo.  
        No  difcil.   Aqui passa o bonde que vai at l.  
        Bonde?   Num d pra i de ap?  
         muito longe.  Voc vai demorar muitas horas.  De bonde, vai em menos de meia hora.  
       Geraldo pensou, pensou,  depois tornou a perguntar:
        Onde  que se amunta nesse bonde?  
       O empregado, que era do interior,  foi prestativo:
        Olha, voc vai ali, naquele lado da praa, e tem aquele poste pintado de branco no meio.  Ali  o ponto onde ele pra.  Sabe ler?  
        No, num sei.  
        Ento, pergunte pra algum l no ponto, que quando vier o Avenida eles ensinam.  
        S mai uma coisa.  
        O  que ?  
        O que  poste?  
       O rapaz olhou-o admirado.  De que mundo sara aquele caipira?  
         aquele cano de ferro como tronco de rvore que tem os fios da luz.  Nunca viu um poste?  
        No.   a primeira vez.  
       Enquanto o garom o olhava assustado, Geraldo calmamente terminou seu lanche.  Depois de pagar a conta, ficou admirado olhando o mao de notas que recebeu de troco.  
        Que foi?    perguntou o dono do bar que estava no caixa,   no est certo?  
        Acho engraado.  Eu dei uma s, bebi seu caf, comi seu po e ainda recebo todas essas nota... 
        Ora essa!   fez o portugus, bem humorado.   A  piada at que  boa! 
       E comeou a rir, bem disposto.  Geraldo apanhou o dinheiro, a mala, e foi calmamente para o ponto do bonde.  
       Perguntou a um soldado, que no s o avisou da chegada do bonde como tambm subiu junto.  Sentaram-se  lado a lado.  Era um bonde fechado.  Ficaram na parte dos fundos.  O soldado perguntou, curioso:
        A  que altura da Paulista voc vai?  
        A  que artura?  
        , em que nmero.  
        Nmero?  
       O soldado comeou a pensar que o caipira no era normal.  
        Num sei no.  
        A  avenida  muito comprida.  Se voc no sabe o nmero da casa,  no vai achar.  Vai trabalhar por l?  
        No.   V v a casa de minha me.  Ela morreu e eu careo de i l pra v se t tudo em orde.  O soldado assustou-se :
        Tem certeza de que  na Avenida Paulista?  
        Tenho.   uma casa grande.  S quero que quando chega l oc me avise.  
        Est bem.  Vamos passar por l.  Mas como voc vai achar?  
        Eu acho.  Num carece preocupa.  
       O soldado calou-se .  De onde teria sado aquela figura diferente?  
        Veio de longe?  
        Vim.  Mai logo quero vort.  
        No gosta da cidade?  
        Num  pra mim.  Tenho uma vida muito boa l em Dente de Ona.  Num careo de nada.  S quero resorv uns negcios por aqui e vort.  Mai  a primeira vez que ando de bonde.  Oc pode me diz cumo  que ele anda sem cavalo?  Como automvel?  
       O soldado olhou-o desconfiado.  Estaria divertindo-se   sua custa?   Mas o olhar franco e respeitoso de Geraldo o fez responder:
         diferente.  O que faz o bonde andar  a mesma fora que acende as luzes.   a eletricidade.  
        Eletricidade?   E o que  isso?  
        No sei.  Acho que ningum sabe.  Todo mundo usa mas ningum sabe.  
        Ah!  Sei.   .  .  
       - Olha,  estamos entrando agora na Paulista.  Essa  a avenida.  
        Ento v desce.  Moo, pra o bonde que eu v desce.  
        Calma.   Precisa passar na borboleta, pagar a passagem ao cobrador e puxar aquele cordo.  A, quando ele parar, abrir a porta, voc desce.  Geraldo apanhou a mala e foi tentar passar na borboleta.  
        O senhor no pode passar com a mala.  Pode descer que eu a entrego pelos fundos.  
        Por que no?   V desce com a minha mala sim sinh! 
       O cobrador retrucou,  malcriado:
        No vai, no.   contra o regulamento.  Desce logo que lhe dou a mala.  
        Num deso.  Sem mala,  num deso.  
       Geraldo agarrou a mala e tentou passar com ela.  O cobrador enfureceu-se :
        J disse que no passa, no passa  travou a borboleta, e por mais fora que Geraldo fizesse, no conseguia passar.  
       Irritado, pendurou-se  no cordo do sinal, acionando-o sem parar.  O motorneiro parou o bonde, abriu a porta e resmungou irritado:
        Que barulho  esse a?  
        Esse passageiro quer passar com a mala.  O soldado levantou-se .  
        Deixe ele sair pelos fundos mesmo.  Abra a porta.  
        Esses caipiras deviam ficar no mato  desabafou o cobrador,  irritado.   Geraldo olhou-o bem e retrucou:
        Poi l no mato todos so inducados.  
       Os passageiros riam-se  vendo aquele matuto agarrado  mala,  conservando uma calma invejvel, descendo lentamente do bonde, to lentamente que o motorneiro, nervoso, agitou o sinal, tentando apress-lo Mal ps o p no cho e j o bonde arrancou, e quase que Geraldo caiu.  Aprumou-se  e olhou em volta.  
       Era uma bela avenida.  Cheia de rvores e casas bonitas.  Seu corao enterneceu-se .  Sua me! Que saudade! 
       Como encontrar a casa?   O melhor era perguntar.  Bateu palmas no porto de uma casa.  O jardim era grande, e o palacete, de luxo.  Mas Geraldo no conseguiu ser ouvido.  Bateu com insistncia at que uma mulher saiu.  
        No sabe tocar a campainha?    resmungou contrariada.  
        Campainha?  
        Sim, campainha.   Olhe, hoje no tem nada.  Passa outro dia.  
        Num quero nada no.  S quero que oc me diga onde fica a casa de minha me.  
        E eu sei?   Estou cuidando do meu servio e vem voc a me empata.  
        Oc num sabe?   Ela morreu fai uns meses.   Era D.   Carolina.  
        Carolina de qu?  
        De qu?  
        , o nome todo.  
        Carolina Tavares de Lima.  
        Olha moo, num conheo no.  Agora vou entrar, tenho servio.   Geraldo comeou a bater de casa em casa em busca da informao.  
       Foi maltratado;alguns, vendo-o, simplesmente batiam-lhe a porta na cara, sem cerimnia.  At que por fim, endereando a pergunta a um velho jardineiro que tratava de imenso jardim, ouviu a resposta esperada.  
        D.   Carolina?   A finada D.   Carolina?   Conheci muito ela.   Trabalhei para ela enquanto viveu.  Cuidei do jardim, das flores que ela gostava.  Conheceu ela?  
       Geraldo estava emocionado.  
        Conheci sim.  Era minha me! O velho olhou-o admirado.  
        Sua me?  
        Era sim.   Meu pai dex ela e me levou co'ele.   S agora eu sube que ela tava viva.  
        Ento voc  o seu Geraldo?  ! ! ! 
        Me conhece?  
        Sim.  Quando seu pai levou voc embora ela ficou muito doente.  A vida inteira procurou o filho.  Se estivesse viva, estaria muito feliz.   
        .   Eu vim pruque foram me procura e contaram que os parente dela esto com tudo o que era dela e ela num gostava deles.  
         verdade.  Me mandaram embora quando ela morreu.  Tomaram Conta de tudo.  Dizem que vo morar na casa e j at mandaram o engenheiro para fazer a reforma.  Vo gastar dinheiro grosso.  
        Isso  o que eles to pensando.  Ningum vai faz nada.  Num v deix.  
       O velho jardineiro estava emocionado.  Tirou o leno do bolso e enxugou os olhos cansados.  
        Pobre D.  Carolina.  Voc quer tirar eles de l.  Mais vai ser difcil.  J tomaram conta.  Tem documentos para provar que  filho dela?  
        Tenho.  O advogado que foi me busca t cum todos pape.  Fala de minha me.  Ela era bunita, no era?  
        D.   Carolina foi mulher muito bonita.  Bonita e bondosa.  Todos os  empregados gostavam dela.  Enquanto ela foi viva, ningum passou necessidade.  Agora eu e minha velha temos sofrido muito.  Ningum  como ela.  Geraldo sentiu uma onda de ternura pelo velho empregado de sua me.  
        Pois, home.  Larga a enxada e vamo embora.  Oc vai cumigo.  
        Quer que eu lhe ensine a casa?  
        Quero.  Mai quero tambm que oc tome conta do jardim dela, como ela gostava.  
        Est falando srio?  
        T, home,  t.  
        Posso levar minha velha?   A gente morava l num quarto e cozinha que D.   Carolina fez para ns.  Minha velha chora todos os dias de saudades.  
        Pois oc vai comigo.  Amigo de minha me  meu amigo.  Vamo l.  T aflito pra chega.  
       O velho olhou Geraldo com temor.  
        Eles no vo nem deixar entrar.  
        To morando na casa?  
        No.  Morando, ainda no.  Tem l um caseiro encarregado de vigiar a casa.  E, anda armado.  No vai deixar voc entrar.  
       - A  casa  minha Eu v entra.  
       - Se  ele atirar em voc, tudo pode ser perdido.  Acho melhor ir com o advogado.  
        Ele tava me enrolando.  Eu quero v a casa, quero v os retrato dela.   T ansioso.  
        , mas o caseiro no vai deixar ningum entrar.   Ele no o conhece.  
        Acha que se eu fala co'ele,  ele num entende?  
        Ele s entende o patro, Dr.   Marcondes.   homem de confiana dele.  
        Mai eu quero tenta i l.  
        Est bem.   Eu vou com voc l.   Vamos ver o que acontece.    preciso ter muito cuidado.  No gostaria que nada de ruim acontecesse a voc.  
        T contente de acha um amigo.  
        Pode me chamar Antnio.  Voc foi criado no campo e eu acho que a turma da cidade no entende bem essas coisas.  Eles vo querer embrulhar voc por causa do dinheiro.  
        Vai s difcil.  Ningum fica com o dinheiro ou quarqu coisa da minha me.  Eu juro! 
        Vou guardar as ferramentas e j volto.   Espera s um pouco.  
       Enquanto Geraldo aguardava com certa impacincia, o velho foi para os fundos do jardim, sobraando algumas ferramentas.  Voltou logo depois, sacudindo a cabea.  
        Quem diria!  O filho de D.   Carolina!  Quando eu contar, minha velha no vai acreditar.  Vamos l.  Juntos, caminharam mais dois quarteires.   Geraldo estava emocionado e ansioso.  
         aqui  esclareceu Antnio apontando enorme palacete, de estilo antigo mas muito elegante.  O jardim, enorme, circundava a casa,  senhorial e bela.  Embora mostrasse um pouco de abandono.  Antnio no pode deixar de comentar:
        Veja s o jardim.  No tempo de D.   Carolina era uma beleza! Agora, mato e mau trato.  As plantas, todas secas.  Que judiao! 
       Mas Geraldo nem escutou.  A paisagem era-lhe familiar.  Lembrava-se  daquela entrada e principalmente da escada da varanda, e a porta de ferro caprichosamente trabalhada e envidraada.  Sua emoo era enorme.  
        Vamo entra.  
        Cuidado, Geraldo.   melhor tocar a campainha.  Tem cachorro bravo.   Conheo a cara dele.  
         do casero?  
        No.   Era de D.   Carolina, mas no conhece voc.  Melhor tocar a campainha.  
        Certo.  Pode toca.  
       Antnio comprimiu o boto e esperaram.  Nada.  Depois do terceiro toque foi que um homem apareceu preguiosamente dos fundos, e com cara  de  poucos  amigos foi se chegando  enquanto dizia:
        Voc outra vez.  Olha, no estamos precisando de jardineiro.  No adianta teimar.  
        No vim para isso, seu Jos.  Nosso assunto  outro, 
        Ento fale logo, que estou com pressa.  
        Pode deixa cumigo.  Eu falo.  S filho de D.   Carolina e vim pra viver em minha casa.  Pode abri as porta.  
       O outro olhou-o assustado:
        O qu?  !  Filho de quem?  
        De D.   Carolina.  Soube que ela morreu e vim toma conta das coisa dela.  Pode abri a porta.  
        Esse homem  louco?    perguntou Jos ao jardineiro.    D.   Carolina no tinha filho.  
        Tinha sim, seu Jos.   que o Dr.   Euclides, marido dela, saiu de casa levando o menino, nico filho dos dois, e disse-lhe que a me tinha morrido.  S agora foi que ele descobriu tudo.  Ele  mesmo o filho nico de D.   Carolina.  Ela sempre chorou muito por causa disso.  Eu sei de tudo.  
        Hum...   resmungou ele  pode ser.  Mas eu no creio.  Voc no tem cara de filho dela, que era muito fina;mais parece um mendigo.   Mesmo que ela tivesse um filho, certamente no seria esse bicho do mato.  Sabe o que eu acho?  Que querem me tapear e at assaltar a casa.   melhor ir andando, seno eu chamo a polcia.  
       Por entre as grades do porto, Geraldo enfiou a mo e segurou o caseiro pelo gasnete.  
        ia aqui.  Num t brincando no.  Oc qu chama polcia, mior.  
       Fui criado no mato mais tenho vergonha na cara.  Oc vai se d mal de fica contra mim.  S dono de tudo.  T tudo nas mo do advogado.   Tenho todos pape direitinho.  Oc abre j o eu  que lhe mando prende por entra na minha casa sem orde e querer rob o que  meu.  
       Jos empalideceu.  Seria um louco?  O olhar de Geraldo era firme e decidido.  Parecia seguro do que dizia.  E se fosse verdade?  E se ele fosse o dono mesmo?  Chamar a polcia no lhe convinha.  H alguns anos tivera problemas com a lei.  Melhor no mexer com polcia.  Mas,  por outro lado, conhecia o jardineiro como homem honesto e equilibrado.  No se metera naquela de gaiato.  O que fazer?  
        Um momento.  No precisa brigar.  Sou s um empregado.  Estou zelando pela casa por causa dos ladres.  Sou responsvel por tudo.  No posso deixar ningum entrar sem ordem do meu patro.  
        Abre o porto:eu t na minha casa, e se voc no deixa eu entra vorto aqui com a polcia.  Ocs vo tudo preso.  
       Jos comeou a tremer.  Arrependeu-se  de no trazer a arma no bolso.   Com rpido olhar percebeu que eles no tinham arma.  Certamente, se tivessem j  teriam empunhado para entrar.  
        Olha.  O que eu posso fazer  telefonar para o Dr.   Marcondes.  
       Ele resolve.  Eu sou s empregado.  No sei nada disso.  
       Por mais que Jos forasse para escapar da mo de Geraldo, no conseguia.  Parecia de ferro.  
        Antnio,  tira a chave do bolso dele.  
        Geraldo,  melhor voltar depois com o advogado.  
        Num carece.  Faz o que t mandando.  Tira a chave dele.  
       Com as mos trmulas, o velho apalpou os bolsos do caseiro e apanhou o molho das chaves.  
        Vocs no podem fazer isso!   um assalto.  
        Num  assalto coisa nenhuma.  T na minha casa e ningum vai impedi eu de entra.  Abre o porto, Antnio.  
       O velho obedeceu.  
        Agora , entra e segura ele do outro lado.  
       Antnio obedeceu.  Geraldo calmamente pegou a mala e entrou, mas Jos deu um forte empurro no velho jardineiro e correu a todo vapor para os fundos do jardim.   
       Geraldo no se incomodou.  
        Deixa ele.  Tamo co'a chave.  Vamo entra.  
       Comearam a caminhar pelo passeio principal quando o latido forte de um co os interrompeu.  
       - O danado soltou o cachorro, Geraldo.  Cuidado! 
       O velho jardineiro adiantou-se , chamando o animal pelo nome.   Sulto,  vem,  sou eu.  
       O animal enorme que vinha em desabalada carreira parou alguns instantes.  
        Vem,  Sulto.   Sou eu meu amigo.  
       Antnio caminhou para ele fixando-o nos olhos,  enquanto dizia a Geraldo:
        Deixa comigo e vai para dentro da casa.  
       O animal comeou a balanar a cauda com alegria, embora rosnasse para Geraldo.  Foi com facilidade que Antnio segurou-o pela coleira, acariciando-o.   Durante muitos anos tratara-o com desvelo e carinho.  Fora seu companheiro naqueles jardins caprichosamente cuidados.  Vendo Geraldo na varanda, esperou que ele entrasse e por sua vez foi para l.  
       A emoo de Geraldo era imensa.  Aquela casa falava-lhe ao corao.   O hall de mrmore com a escadaria imponente.  
        Acho que na outra sala tem um retrato dela.  
        Tem sim, meu filho, um retrato dela moa.  
       O velho, que a princpio temera participar daquela aventura, agora no tinha mais nenhuma dvida.  Ele era mesmo o filho de D.   Carolina.  Geraldo foi at a sala e, sobre a lareira, l estava: em rica tela a leo, o retrato de sua me! Cabelos castanho claros ligeiramente ondulados, que, apesar do coque opulento a cobrir-lhe a nuca, deixavam transparecer sua maciez.  Olhos grandes e castanhos,  belos e luminosos, colo moreno plido, tez delicada e perfeita.  
        Como era bunita!   declarou ele, extasiado.  Emocionado, ajoelhou-se  diante do retrato.  Em seus olhos havia o brilho de algumas lgrimas.  Comovido, Antnio comeou a rezar.  Era homem simples e de f.   Sabia o quanto aquela bondosa mulher, a quem sempre respeitara e a quem tanto devia, tinha sofrido por causa do abandono do marido e do filho.  Ele nunca soube o porqu.  Fazer o que o Dr.   Euclides tinha feito, s podia ser por dois motivos:outra mulher ou miolo mole,  loucura.  Geraldo permaneceu assim durante muito tempo, enquanto que,  em respeitoso  silncio, Antnio aguardava.  At que ele levantou-se .  
        V at meu quarto deixa a mala.  Tenho vaga lembrana do quarto.   Era l em cima.  Parece que quando cheguei aqui, conheo tudo.   Quando tava no mato, num lembrava de nada.  
         assim mesmo, seu Geraldo.  Foi s chegar para recordar tudo.  
        Pru que me chama de "seu"?  
        E que o sr.    mesmo meu patro e eu no posso cham-lo mais de voc.   No fica bem.  
       - Oc  meu amigo e os amigo se chama de voc o de tu.   Num quero mai ovi isso.  Oc precisa sabe que s home de palavra.  Oc vai mora aqui e toma conta de tudo.   meu nico amigo e eu lhe devo muita obrigao.  Antnio estava comovido.  
        Est certo.  Pode contar comigo.  Isso eu garanto.  Conheo o Dr.   Marcondes.  Ele no vai conformar-se .  Ouvi dizer que ele anda arruinado.  O filho perdeu muito dinheiro nas corridas de cavalo e ele est endividado.  Conta com o seu dinheiro para sair do buraco.  
       - Se  conta, t muito errado.  Que se arranje.  Minha me num gostava dele, no deve de s boa pessoa.  Se fosse, no queria fica com tudo.  
        .  D.  Carolina nunca convidava eles para virem aqui.  No gostavam dela.  Diziam mal dela.  
       - O qu?   Falavam de minha me?  
        .   .  Calnias,  despeito...  
        O que pudiam fala?  
       Antnio estava embaraado.  
        Bobagem.   Besteira.  
        Quero sabe tudo.  O que falavam dela?  
        Falavam que seu pai foi embora e que ela era a culpada.  Chegaram a falar da honra dela.  
       Geraldo ficou rubro.  
        Tivero corage?   Essa cachorrada vai se v cumigo! 
        Agora  no adianta.  A vingana s envenena nossa vida D.  Carolina sabia de tudo, no gostava deles, no os recebia, mas nunca os prejudicou nem falou nada deles.  Era uma senhora, muito boa, uma santa! .   Sofreu sempre calada.  
        Num quero faz nada que ela num gostasse.  Mai eu num v dex eles mexe em nada que era dela.  Vamo at o quarto, quero v tudo.  
       Enquanto eles se entretinham na casa, Jos, assustado, trancara-se  em sua casa nos fundos, a mesma que tinha pertencido ao jardineiro, e telefonava ao seu patro.   
       No queria nada com a polcia.  Depois, aquele maluco podia estar dizendo a verdade.  Sua voz tremia:
        Dr.   Marcondes?  
        Sim, Jos.  O que h?  
        Doutor, estou desolado.  Aconteceu uma coisa terrvel! 
        Fala,  homem.  O que foi?                  
        Tem um homem aqui, que veio junto com o Antnio, o jardineiro, e disse que  filho de D.   Carolina.  
        No pode ser, Jos.  Vai ver que  impostor.  O filho dela sumiu h muitos anos e deve ter morrido.  Deve ser algum aventureiro!  Mande-o embora.  
        Foi o que eu fiz, doutor, mas ele, sem esperar, agrediu-me   e entrou na casa.  Consegui escapar-me   e soltei o Sulto.  No adiantou nada.   A,  me fechei em casa e estou aqui com muito medo.  
        Voc  mesmo um banana!  Como deixou esse homem entrar na casa?   Devia chamar a polcia! 
        ,  sr.   doutor.  Eu no gosto de polcia, o sr.   sabe.  Eles me perseguiram anos atrs.   Simples implicncia.  
       Dr.   Marcondes estava exasperado.  
        Como  esse impostor?   Que aparncia tem?  
        Parece um mendigo.   um verdadeiro caipira.   alto, forte como um leo.  
        Eles esto ainda na casa?  
        Esto.  Ele veio com mala e disse que vai ficar e tomar conta de tudo que  dele.  Parecia decidido.  Disse que tem os papis com o advogado.  Marcondes sentiu um frio na barriga.  
        Est bem, Jos.  Vou at a imediatamente.  Vamos pr esse impostor para fora.  
       
       
       CAPTULO 4
       
       
       Dr.   Olavo estava tranquilo em seu escritrio.   Redigira a petio ar.   juiz, juntando os documentos necessrios e pedindo que fossem os mesmos anexados ao processo de inventrio de D.   Carolina.  No queria ir ao hotel porque pretendia evitar que o caipira teimoso invadisse a casa de D.   Carolina, causando-lhe aborrecimentos.  Eram duas horas da tarde quando Juvenal apareceu esbaforido.  
        Dr.   Olavo, nosso homem sumiu! 
        Sumiu?  ! 
        Sumiu.  Levou a mala e tudo.  Deixou o hotel.  
        E essa agora?   No o deixei vigiando aquele maluco?  
        Deixou.  Ele estava tranquilo, vendo revista no quarto.  Peguei no sono.  Ontem caminhei feito camelo, nosso homem no se cansava de ver as luzes da cidade.   No sou de ferro! 
        Ele vai perder-se .  No conhece nada nem ningum.  No sabe ler.  
       E agora?  
        Acho que ele deve ter sado para tentar achar  a casa da me.  
        teimoso como s ele.  
        , pode ser.  Mas deve estar perdido por a.  Olavo passou a mo nervosa pelos cabelos.  
       - Olha, vamos sair.  Passamos no Frum, entrego a petio na audincia que o juiz marcou e depois vamos at a casa de D.  Carolina.  O maluco pode aparecer por l.  Voc podia ir at l.  
        No conheo ainda aqueles lados.   Poderia perder me.  
        Est bem.  Iremos juntos.  Seja o que Deus quiser.  No fosse a audincia, iramos l agora mesmo.  Porm, no temos tempo.  Vamos embora.  Passando a mo na pasta elegante Dr.  Olavo saiu resmungando:
        Este maluco!  Onde se ter metido?  
        Ns o acharemos, doutor.   figura rara, fcil de ser identificada.   Onde passa,  todos olham.  
        Espero que assim seja.  O danado ainda no ps o polegar na procurao.  Se no fosse assim, podia ir para o diabo.  Logo que o achar, vai legitimar esse documento que j lavrei, onde concede-me   plenos poderes para administrar seus bens.  Depois disso, que v para o inferno! Juvenal concordou com um sorriso, e saram apressados rumo ao Frum.  
       O Dr.   Marcondes, tio de Geraldo, aps desligar o telefone chamou o motorista e ordenou que o levasse  Av.   Paulista.  Ia preocupado.  E esta, agora?  Quem seria o impostor?   
       Certamente algum espertalho que queria passar a mo na fortuna.  A histria do filho de Carolina fora contada aos jornais, explorada pela imprensa sensacionalista.   
       O jornal "O Dia" a tinha publicado vrias vezes.  Bem que ele queria ter evitado isso.  Com o inventrio aberto o prazo de um na concedido para a presena do filho de Carolina reclamar a herana,  o anncio no Dirio Oficial era obrigatrio, mas esse jornal ningum l, pensava, e por isso no o preocupava.  Entretanto,  reprteres abelhudos tinham descoberto o segredo e feito disso celeuma.  Era provvel que algum falsrio tivesse tido a idia de aproveitar-se  da situao.   No acreditava que Geraldo pudesse estar vivo.  Desde que o irmo sumira, nunca mais tinham tido nenhuma pista.  Carolina gastara muito dinheiro sem jamais ter conseguido a menor notcia.  Quanto a isso, podia estar sossegado.  Fosse quem fosse o abelhudo, s podia ser um impostor.  J entrara com recurso,  pretendendo que a morte de Geraldo fosse decretada e o bito assinado, uma vez que havia mais de vinte anos desaparecera sem vestgios.  Contava conseguir isso sem esperar o tempo prescrito pelo juiz em primeira instncia e poder, assim, receber a herana em breve tempo.  Sua situao era premente.   Tinha muitas dvidas, e vultuosos emprstimos a juros extorsivos tinha sido efetuados sob a garantia da herana iminente.  
       Suspirou fundo.  Ia disposto a acabar com aquela farsa.  Se fosse preciso, chamaria a polcia para prender o intruso.  
       Impaciente, remexia-se  no assento do carro, procurando dominar-se .   Durante anos esperara que a cunhada morresse.  A cada achaque de Carolina, comemorava j a herana cobiada, antegozando o que fazer com o dinheiro.  Odiava aquela mulher obstinada, que orgulhosamente os ignorava e nem sequer sabia usufruir da posio que ocupava,  vivendo reclusa como uma freira.  Finalmente,  Carolina morrera.   Finalmente, o sonho transformado em realidade.  Principalmente, em muito boa hora, quando os recursos eram escassos devido ao montante de suas dvidas.  Porm quando tudo era uma questo de tempo, eis que aparece aquele impostor.  Estava seguro de que no falava a verdade.   Principalmente por estar em companhia do jardineiro.  O Antnio fora vassalo de Carolina, faria qualquer coisa por ela.  Se conhecesse o paradeiro do seu filho, no iria calar-se .  Naturalmente, estava querendo vingar-se  por ter sido mandado embora sem nada, apesar de D.  Carolina mencion-lo com boa quantia no testamento, que ele,  Marcondes, tivera a sorte de encontrar no cofre forte de Carolina.   Se algum reclamasse em juzo, se procurassem, o testamento j estava devidamente registrado em cartrio.  Mas quem iria faz-lo ?   Ningum, a no ser Carolina e o seu tabelio, o conhecia, e como tanto um como outro j eram falecidos, o assunto s seria esmiuado por algum que soubesse da sua existncia.  Quanto ao documento original, ele o reduzira a cinzas porquanto Carolina tivera a preocupao de salvaguardar seus haveres das mos do cunhado,  dotando seus empregados fiis com uma importncia rgia, e deixara o restante ao filho desaparecido, com a ressalva de que no fosse encontrado, seu patrimnio seria distribudo a obras beneficentes.  
       Desaparecidos o testamento e o filho, Dr.   Marcondes legalmente herdaria tudo.  Certamente, o jardineiro, esperando parte da herana,  sentira-se  rancoroso e pretendia vingar-se .  S podia ser isso.  
       D.   Marcondes suspirou, mais calmo.  Sua mulher vivia atirando-lhe em rosto a dilapidao da fortuna e, o que  pior, acusando-o pelo comportamento desastroso do filho, jogador inveterado a quem incentivara dando-lhe cavalos de corrida e levando-o ao prado com frequncia, desde a infncia.  Arrependia-se  disso porquanto o Jorge transformara-se  em um sorvedouro de dinheiro que ele agora no conseguia mais conter.  Fora jogador inveterado, mas nos ltimos anos, pressionado pelo terror  misria, tornara-se  mais comedido,  enquanto que o Jorge mais e mais se desregrava.  Pelo menos havia Maria da Glria, a filha que era admirada por todos pela sua beleza e dotes de inteligncia;ela o animava a prosseguir vivendo em um lar que no fora as convenes sociais, pensara muitas vezes em abandonar.  Desposara Renata com grande aparato e juntara seu nome ao de uma tradicional e conceituada famlia, os Camargo.  Mas com o correr dos anos, perdera todos seus haveres e lanara mo aos recursos de sua mulher, o que motivara, da parte dos seus sogros,  uma corrida ao cartrio e a transferncia de vrias propriedades para o nome deles;esse bens s voltariam s mos da filha quando eles morressem.  Marcondes, enraivecido, tinha se recusado a assinar essa transferncia, mas, ameaado com o desquite litigioso pelos cunhados, tambm advogados, cedeu por fim, certo de que se o desquite se consumasse, estaria desmoralizado e nem sequer teria clientes  para trabalhar.  Dando-se  ares de vtima, cedeu, com gestos de um desprendimento que estava longe de sentir.  Assim, D.  Renata possua uma renda, porquanto seus  pais passavam-lhe s mos os  aluguis  dessas propriedades e isso abrigara-os das necessidades pessoais e tornara-a  mais independente.  Ao mesmo tempo, acabara o sentimento afetivo que no incio do casamento dispensara ao marido.   
       Casara-se  por amor;porm, desiludida e aviltada pela estupidez e pelo desregramento do Dr.  Jos, esse sentimento cedera lugar  indiferena e mesmo ao descaso.  Muitas vezes manejava a ironia salientando os defeitos do companheiro, menosprezando sua capacidade de manter o oramento domstico, ao mesmo tempo exigindo sempre que ele ganhasse para manter as aparncias e o nvel social a que estavam acostumados.  
       Quanto a isso, o Dr.   Marcondes pensava como ela.  Lutava com todas as armas para ostentar o luxo em que sempre vivera, e em seu escritrio de advocacia muitas vezes colocara-se  a servio do suborno e da corrupo.  Se no fora o jogo, ele teria conseguido manter-se .  Mas o vcio desenfreado tornava irrisria qualquer quantia,  por mais vultuosa que fosse.  O filho era digno do pai.  A princpio vira com orgulho o Jorge cercado de belas mulheres,  adulado, ostentando luxo, disputado pelas amizades mais proeminentes 
       da sociedade, e com prazer facilitava-lhe a exibio, no poupando recursos para que seus caprichos fossem satisfeitos.  Cavalos puro sangue eram sua paixo, mas o barco, a casa de veraneio na praia, o carro de luxo, tudo o tornavam o s mais comentado na sociedade.   Porm, as coisas tinham tomado rumo inusitado.  Ele exigia sempre mais.  Quando ouviu a primeira negativa acanhada e triste do pai,  rebelou-se  chamando-o de sovina e velho decrpito.  
       Assustado, o Dr.  Marcondes viu pela primeira vez o brilho rancoroso dos olhos do seu dolo, e a desiluso foi-lhe dura trava a penetrar-lhe o corao.  
        Ele est nervoso  pensou.    Vai passar.  
       Porm, no passou.  Vendo negadas suas pretenses, cada vez mais disparatadas por causa da situao difcil do pai, Jorge aliou-se   me e passou a trat-lo com desprezo e falta de respeito.   Ironizava quanto  sua capacidade intelectual e profissional, at diante dos seus amigos, que copiavam-lhe como sempre os gestos 
       e as atitudes.  A posse da fortuna de Carolina era para o Dr.   Marcondes um meio de ser gente frente  famlia.  Sabia a fora do dinheiro.  Se o possusse, eles o tratariam com reverncia e respeito.  O carro parou em frente ao palacete.  Aflito, abriu o porto e entrou.  Foi direto  casa dos fundos procurar o empregado.  
       A cara assustada do caseiro assomou  porta entreaberta.  
        Dr.   Marcondes!  Ainda bem que chegou.  Eles esto na casa.  
        Muito bem.  Conte tudo.  Como foi?  
       O Z relatou o ocorrido exagerando um pouco nos detalhes, dando uma verso prpria.  Marcondes tremia de revolta.  
        Vo se ver comigo.  No podem invadir propriedade alheia.  Vo todos para a cadeia! 
        Espere l,  seu doutor.  Se for chamar a polcia, eu vou-me embora.  
       No quero encrenca.  
       Dr.   Marcondes segurou-o com fora pelo colarinho:
        Faa isso e nunca mais sair da cadeia.  Sei muito bem o seu passado.  No se esquea de que fui eu quem o tirou de l.  Se me irritar,  volta na mesma hora.  
       O outro comeou a tremer.  
        Mas doutor, tem pena de mim.  Se me encontram vo investigar tudo de novo.  
        Cala essa boca.   Ningum sabe de nada.   Eu garanto tudo.   Lembre-se  de uma coisa: enquanto for-me fiel, ser um homem livre.  Se me trair, vai apodrecer na cadeia.   Agora, vamos.  Se eu precisar da polcia, vai testemunhar a invaso de domiclio.  No tem nada a temer,  com os documentos que possui.  No se preocupe.  O outro tentou acalmar-se .  Sabia que o patro ia defend-lo .  Tambm possua suas armas, que, se fosse preciso, usaria.  Conhecia muito sobre o Dr.   Marcondes, a ponto de torn-lo seu defensor constante.  Se abrisse a boca, no iria sozinho para o xadrez.  
       Resolutos, dirigiram-se  para dentro da casa.  No pavimento trreo no havia ningum.  Geraldo, no quarto, onde sentira aclarar-se  algumas imagens de sua infncia, permanecia silencioso, meditando, olhando para aquelas paredes pintadas de dourado, com desenhos delicados sob fundo azul suave.  Os retratos, a cmoda lavrada, onde num velho porta-retrato havia a fotografia de um belo menino de suaves e veludosos olhos castanhos, iguais aos da me, despertara em Geraldo um soluo de emoo.  No canto, em bela letra caprichosamente desenhada, algumas palavras que ele no pde entender.  Vendo-o,  olhos marejados, segurando com as duas mos o porta-retrato em funda emoo, Antnio aproximou-se ,  respeitoso.  
       D.   Carolina vivia olhando esse retrato.  Muitas vezes chorou de saudade.  Minha mulher viu quando ela escreveu essas palavras a.  
       Geraldo passou o dedo caloso sobre as letras delicadas.  
       - O que t escrito aqui?  
        Meu tesouro tem dois anos, eu tambm.   S.   Paulo, 18 de junho de 1910.  Era o dia de seu aniversrio.  Fizeram uma bela festa,  com bolo, tudo.   D.  Carolina estava muito feliz.  Dr.   Euclides tambm.  S andavam abraados.  
       Geraldo sentiu o n de sua garganta aumentar.  Compreendeu.  Sua me dissera que ele era seu tesouro.  Ela tinha nascido com ele.  Tal era o seu amor.   Ele no sabia explicar em palavras, mas as palavras singelas e apaixonadas de Carolina calaram fundo dentro do seu peito.   Forte sentimento de revolta contra o pai apossou-se  dele.   
       No se importava com o dinheiro.   Gostava da vida dura e simples da roa, mas roubar-lhe o carinho da me adorada fora crueldade que no conseguia entender.  Respeitava o pai, em quem reconhecia honestidade e fora moral.  Fora-lhe dedicado e amigo, companheiro e mestre, mas no podia perdoar-lhe o afastamento do calor materno.  
        Antnio, o que aconteceu?   Pru que ele foi embora?   Se eles viviam bem, se se gostavam, pruque ele fez isso?  
       O velho sacudiu os ombros,  desalentado.  
        No sei, Geraldo.  At hoje  mistrio.  O que posso contar  muito pouco.  Tudo ia muito bem at o dia em que um amigo do Dr.   Euclides ficou muito doente.   A mulher dele arranjou outro homem e ele procurou os dois para matar.  Tanto fez que achou e deu dois tiros no amante e trs na D.   Aurora, sua mulher.  Ele morreu logo e ela ficou muito ferida, mas escapou.  Foi levada para longe pela famlia,  acho que para a Europa.   Mas o Dr.   lvaro, desesperado, tentou o suicdio.   Felizmente, tinha s uma bala e errou o alvo,  estava nervoso e desatinado.  Deu um tiro no peito,  mas a bala passou entre as costelas e no atingiu nem o pulmo nem o corao, seno ele morria.  O Dr.   Euclides e D.   Carolina eram amigos do casal, e condodos, tentaram ajudar.   Dr.  Euclides lutou para salvar a vida do Dr.   lvaro, e depois de ficar um ms no hospital ele veio para c,  para recuperar-se .   Dava d.   Tinha uma filha de um ano que a famlia de D.   Aurora mandara com a me para a Europa, ele sofria muito as saudades dela.   D.   Carolina tratou dele com muito cuidado e tentava dar nimo.   Tanto ela como Dr.   Euclides tinham medo de que ele se matasse.  Ele no tinha vontade de viver.  Com o tempo, ele parecia melhor e recuperado.  J andava pelo jardim, perguntando das flores.  
        Como era ele?  
        Era moo.  Uns trinta anos, mais ou menos.  E muito fino.  Minha mulher dizia que ele era muito bonito.  Bonito e bom.  No entendia como D.   Aurora deixara um moo rico, formado, para se misturar com aquele malandro.  Achava at que era feitio.  
        Voc acha que foi?  
        No sei.   Eu no acredito nisso.  
        Carece aquerdit.   Nis do mato vimo muitas coisa.   Os ndio sabe esses segredo.  
       O velho ajuntou com simplicidade:
        Minha mulher acredita.  Eu no sei.  J vi de tudo, e no duvido de mais nada.  
        E depois?  
        Ele era um moo bom.   Conversava comigo, s vezes ajudava no jardim, mas tinha dia em que ficava sentado horas, cismando.  
        Ele mato um homem.  Num foi preso?  
        No.   Ele estava mal.  Houve processo, mas ele saiu livre.  No foi considerado culpado.  O escndalo foi grande.   D.   Aurora tinha outro.   Ele,  nem preso foi.  Geraldo suspirou.  
        Pobre home.   Por isso eu nunca v me casa.  
        Nem todas as mulheres so assim, Geraldo.  H mulheres que so verdadeiras santas.  D.   Carolina e minha mulher, isso posso afirmar, 
         como agulha em paieiro.  Difcil de acha.  Mai conte, e depois?  
        Eles ficaram ainda mais amigos.   Dr.   Euclides e Dr.   lvaro, D.   Carolina.  Estavam sempre juntos.  At que um dia, quando ningum esperava, o Dr.   lvaro apareceu morto no quarto.  Tinha bebido veneno.  Foi um choque muito grande para todos ns.   O moo era estimado e bom.   D Carolina ficou at doente, e o Dr.   Euclides ficou desesperado.   A polcia veio investigar, confirmou o suicdio.  Desde esse dia, tudo mudou nesta casa.   D.   Carolina vivia triste e abatida.   Dr.   Euclides parecia um morto vivo.  Duas semanas depois da morte do Dr.   lvaro, o Dr.   Euclides desapareceu durante a noite,  levando o filho,  e nunca mais ningum soube de vocs dois.   No deixou carta nem nada.  Sumiu.   D.  Carolina quase morreu.  Esteve muito doente, mas com a ajuda de Deus recuperou-se .  Nunca deixou de procurar.  Gastou muito dinheiro com detetive e tudo.  Mas nada.  Nunca se conformou.  Viveu toda vida triste e sem coragem.  S tinha uma esperana:encontrar voc.  
       Geraldo coou a cabea, cismando.    E nunca souberam pru qu?    No.   Ns pensamos que ele tinha outra mulher,  mas o Dr.   Euclides sempre foi homem fiel e amante da famlia.  Alm disso, adorava D.  Carolina.  
        Ele nunca teve otra mui.  Sempre viveu s.   Eu e ele.   Nunca percur mui nenhuma.  Fugia delas como o diabo da cruz.  
        , eu acredito.  Ento s pode ter sido uma coisa: loucura.  Um acesso de loucura.  Geraldo sacudiu a cabea.   
        Garanto que no.  Ele num tava loco.  Sempre foi calmo.  Sabia faz tudo, sem atrapai as idia.   No, loucura num foi.  
        Ento,  meu filho,  eu no sei.   S se foi feitio mesmo.  
        A tem coisa, Antnio.  T sentido com meu pai, mai ele era home bo e de honestidade.  Se dex minha me, arguma coisa foi.  Ela era uma santa, eu sei,  mai algum fez arguma mardade.   El v descubri e v tira a limpo.  
        Agora no adianta, Geraldo.  Voc vai sofrer e eles j morreram mesmo.  
        Eu v descubri.  Queria vort logo pro meu sussego no mato, mai agora s v depois que apura tudinho.  Ningum me enrola Antnio.   Ns vamo discubri tudo.  
        No sei no, vai ser muito difcil.  Ningum sabe o que aconteceu.   Os dois j morreram guardando segredo.  Como vamos saber?  
        Num sei, mai garanto que discubro.  
        Estou ouvindo barulho l embaixo.  Receio que seja seu tio.  
        Dexa ele cumigo.  Num tenho medo.  
        Eu vou ver.  
       Antnio saiu apressado, e Geraldo tranquilamente colocou o porta retrato sobre a cmoda e abriu o guarda roupa.  A um canto havia um sobretudo e algumas peas de roupas infantis.  Seu corao apertou-se  vendo com que carinho estava tudo arrumado, com delicados saquinhos perfumados.  Jeito de D.   Carolina, sem dvida, conservando suas roupas com carinho e saudade.  Em seus olhos brilhou uma lgrima.  O jardineiro desceu as escadas apressado,  e deparou com Dr.   Jos andando irritado de um lado a outro.  Fuzilou o velho com o olhar enquanto dizia:
        Espero que voc possa dar-me uma explicao bem convincente para esta invaso da casa antes da polcia chegar! 
        Dr.   Marcondes, no precisa alterar-se   comeou ele, respeitoso,  porm com voz firme.  Se tivera alguma dvida quanto  identidade de Geraldo, agora, depois de terem ido  casa, ela desaparecera.  Sua voz no tremeu.   Ele continuou no mesmo tom.    Garanto que no tem motivo.   Finalmente o sr.   Geraldo voltou para casa.  
        Que histria  essa?   Que besteira!  Sabe que posso p-lo s na cadeia por invaso de domiclio e roubo?  
       - O senhor engana-se .  A casa  dele e no houve roubo.  
        Como pode dizer isso?   Sabemos que Geraldo sumiu h muitos anos.   Carolina nunca conseguiu a menor pista.  Como apareceu agora, quando a herana est  disposio?   
       Acha que vou acreditar nisso?   Melhor pr-se  para fora antes que eu chame a polcia.  
        Vai ser difcil.  Geraldo recusa-se  a sair.  E no se importa se chamar a polcia.  
       Dr.   Marcondes estava apopltico.  A audcia do velho jardineiro parecia-lhe o cmulo da ousadia.  
        Onde est esse malandro?  Quero p-lo para fora a pontaps.  Assim se tratam os impostores.   Onde est?  Seus olhos fixaram-se  na figura alta de Geraldo, que calmamente descia as escadas, atrado pelos berros do tio.  Dr.   Jos ficou mudo.   Aquele era o impostor?   Nem ao menos tiveram o cuidado de arranjar um homem de classe, como deveria ser o filho de Carolina  se estivesse vivo.  Seu estupor foi  tanto que parou,  olhando-o perplexo.  
       Geraldo,  sem intimidar-se ,  dirigiu-se  a ele:
        Quem  o senhor?  
       Dr.  Jos olhou-o de cima a baixo com desprezo.  
        No deveria dar-lhe satisfaes, mas eu sou o dono da casa e
       fao-lhe a mesma pergunta.  
       Geraldo sorriu ligeiramente.  
        O nico dono da casa de minha me s eu.   Por isso,  acho que argum t mentindo.   Acho que  oc.   E quanto mais depressa sa daqui, mior.   Minha me num recebia oc, eu tambm num v recebe.   Acho mior sa logo, pruque num gosto de oi sua cara.  
       O rubor subiu e arroxeou a cara do Dr.   Marcondes.  
        Voc no passa de um grosseiro impostor.  Se queriam enganar.  
       deviam ter arranjado algo melhor.  No esse espcime, esse caipira,  esse selvagem.  D-me at vontade de rir.  
       E, num acesso nervoso, o Dr.   Jos foi acometido de riso enquanto continuava:
        Filho de Carolina! Voc no tem espelho?  No v que ela era uma mulher fina?  Jamais poderia ser a me de um traste como voc.  Acho
       melhor acabar com isso.   Pegue suas coisas e suma.   Voc deve ser louco.   De que manicmio fugiu?  
        Olhe,  t perdendo a pacincia.   T falando srio.   Mior sa daqui
       e num vort mais.  Com sua cara de raposa, quem num garante que apronto arguma pra meu pai ou pra minha me?  Se ela num gostava d'oc,  arguma coisa foi.  Fora, vamo, fora daqui.  
       Juntando o gesto  palavra, Geraldo segurou o tio pela lapela do palet e comeou a empurr-lo para fora.  O caseiro quis intervir,  mas Geraldo aplicou-lhe violento coice que o colocou gemendo,  fora de ao.  
        Tire,  as mos de mim,  seu vagabundo.   Vai pagar-me caro por isso.  
       Vou process-lo , no sair mais da cadeia.  
       Sem incomodar-se  com os gritos e esforos do tio para desvencilhar-se , continuou segurando-o imobilizando-lhe os braos,  e conduziu-o para fora.  Suas mos pareciam de ferro.  Apesar de ser homem forte, Dr.  Jos no conseguia livrar-se  delas.  
       Geraldo avisou,  calmo,  dirigindo-se  ao caseiro:
        Depois converso c'oc.  Trate de arrumar as coisa e ca fora.  J.  
       Dr.   Marcondes parecia um boneco agitado nas mos fortes de Geraldo.  Foi conduzido para fora, e no jardim ele ainda vociferava:
        Pode largar.  Retiro me.  Mas volto com a polcia.  Voc vai pagar bem caro.  
        Pois pode vort.  Garanto que num tenho medo.  Conduziu-o para a rua e ordenou ao assustado jardineiro, que abrisse o porto;depois,  colocou o tio na calada.  
        Oc num pe mais os p nessa casa.  Se entra de novo, parto-lhe as costela.  
       De vermelho, Dr.   Marcondes empalideceu.  Aquilo era o cmulo!  Empertigado, ajeitou a roupa e, vociferando ameaas, retirou-se  indignado.  
        Geraldo, esse homem  perigoso.  Aposto como vai  polcia.  Vamos ter barulho, ele no vai conformar-se  com a situao.  Voc vai ver.  Geraldo deu de ombros.  
        T co'a razo.   A polcia num pode faz nada.  
        Mas pode dar trabalho e aborrecimento.  Dr.   Jos  advogado, sabe lidar com essas coisas.  Acho melhor ter os seus documentos em ordem.  Onde esto?  
        Os papis?  Esto com Dr.   Olavo.  
        Ento  melhor cham-lo .   preciso ter tudo  mo se a polcia vier.  
        T certo.  Mai eu num sei i no escritrio dele.  
        Nem na casa?   Voc esteve l.  
        , eu tive.  Acho que  na Avenida Anglica.  Se for l, eu conheo a casa.  S que agora num quero sa daqui, seno ele vai pensa que fugi.  Fugi no  cumigo.   
       Vamo entra.  Farta pr aquele sem vergonha pra fora.  Voltaram  casa,  mas, para surpresa dos dois, o caseiro j tinha colocado seus pertences em uma mala e uma valise e preparava-se  para ir-se  embora.   Sabia que o Dr.  Marcondes voltaria com a polcia, e nessa hora queria estar longe.  Seu patro que se arranjasse.  No ia voltar para a cadeia.  
        No precisam brigar comigo  foi dizendo, conciliador.   Sabem que sou s um pobre empregado.  Vou-me embora.  No me meto em brigas
       de famlia.  
        Inda bem.  Agora, vamo v nessas mala se t levando s o que  seu.  
       Jos deu um pulo.  
        Sou um homem honesto.  No pense isso de mim.  Sem importar-se ,  Geraldo abriu a mala e, sob as roupas, encontrou um estojo de veludo.  Abriu e algumas jias brilharam.  
        Eram de minha falecida me.  Guardo de lembrana.  
        Mentira -a juntou Antnio.   Eram de D.   Carolina .  Como esto em seu poder?  Geraldo segurou-o pelo gasnete com olhos de fogo.   Teve corage de rob as jias dela!  Tem sorte de eu no lhe quebra todos os osso um por um.   Ele se desculpava.  
        No sei como isso veio parar a.   No sei.  
        A ntnio, reviste bem as coisas dele e ns vamos leva este ladro at a rua j.  D vontade de cuspi na sua cara.  D nojo.  Depois de revistada a bagagem, acompanharam-no at o porto e botaram-no na rua.  De volta  casa, suspiraram aliviados.   De repente, Antnio comeou a rir.  
        No posso esquecer-me  da cara dele quando achou as jias de D.   Carolina.  Que malandro! 
        Conheo as cara de cobra.  Nunca me engano.  S do mato.  Tenho mais medo de gente do que de bicho.  Agora t querendo toma um caf.   Vamo v se tem.  Se a despensa da casa estava fraca, havendo mais latarias, havia po, caf, queijo, na cozinha do caseiro.  Enquanto faziam um lanche, Geraldo lembrou:
        Esta casa  sua desde agora.  Pode busca sua mui.  Quero conhece ela.  
        Acho melhor esperar.  No quero sair antes de estar tudo resolvido com o Dr.  Marcondes.  Ele vai dar trabalho.  Mas minha mulher vai cozinhar para voc.  D.   Carolina gostava muito dos quitutes dela.   Tem mos de doceira.  Voc vai ver.  
        Vai me dex mole.  A comida num tem portncia, mai as coisa de minha me, carece s bem cuidada.  Acho que ela pode v isso.  
        Certamente.  Elisa ama essa casa.  Era mutio amiga de D.  Carolina.  O rudo insistente da campainha fez-se  ouvir.  
       -Ser a polcia?    perguntou Antnio, assustado.  
        Pode s, mas acho mior i v.  
        Pode deixar,  eu  vou.  
        Vou entrar na casa.   l que quero est quando eles chega.   Antnio foi at o porto.  
        O que desejam?    perguntou aos dois homens que estavam do lado de fora.  
        Uma informao.  Por acaso apareceu por aqui um moo do interior,  com uma barba, magro e alto?  
        Est referindo-se  ao sr.   Geraldo?  
         Conhece-o?  
        Certamente.  
        Quero falar-lhe;abra, faa o favor.  
        Quem  o senhor?  A quem devo anunciar?  
        Dr.  Olavo Rangel, sou o advogado dele.  Este  o meu assistente.  
        Pois no.  Queiram ter a bondade de entrar.  Chegaram em boa hora.  O  sr.  Geraldo estava querendo localiz-lo s.  
       Antnio abriu o porto, convidando-os a entrar.  Olavo trocou um olhar pasmo com Juvenal.  O matuto conseguira! Estava l.  Com porteiro e tudo.  Custava acreditar.   
       Foram encontr-lo na sala principal.  
        Geraldo! No sabe o susto que nos deu saindo dessa maneira.  
        Eu lhe disse que queria vir aqui o quanto antes.  
        Devia ter esperado.  Como o deixaram entrar aqui?  
        Botei o casero pra fora.  O malandro tava robando as jia de minha me.  
        Mas voc invadiu este domiclio.  A hora em que o Dr.   Marcondes souber, vai ser uma  tragdia.  
        J sobe.  Veio aqui.  
        Soube?  ! E como reagiu?  
        Botei ele pra fora.  Num gostei da cara dele.  Minha me tinha razo.  
        Voc usou de violncia, e agora?  
        Ele vai vort com a polcia.  Mior.  Assim vai sabe que s memo o fio de Carolina e vai me dex em paz.  
       Dr.   Olavo suspirou.  
        No  to simples assim.  A lei tem suas exigncias.  Voc precisa
       comprovar sua legitimidade.  Seu caso  especial.  Esteve fora durante muitos anos.  Ele no vai se conformar em perder toda a fortuna.  
        Eu quero aqueles pape que o dotor acho.   Co'eles posso prova que t co'a razo.  
        .  Os documentos esto em ordem.  No resta a menor dvida.  Estive hoje em audincia com o juiz que est procedendo ao inventrio de D.   Carolina e j dei a ele a cpia de todos os documentos que tive o cuidado de mandar tirar no cartrio, e ele autorizou sua instalao nesta casa enquanto aguardamos a audincia com todos os interessados, que ele vai marcar para o encerramento do caso.  
        Ento, est tudo certo.  
        Nem tudo.  Dr.  Marcondes pode entrar com recurso, embargando a ao,  e nesse caso vai demorar mais um pouco.  
       A campainha soou estridente.  
        Acho que  ele   ajuntou Antnio, um pouco agitado.  
        Num deixa aquele patife entra.  
       - Se  vier com a polcia?  
        Pode deixar, Geraldo.   melhor que entre, e conversaremos.  Como seu advogado, trato do caso.  
        T bem, Antnio.  V abri.  
        Deixe que eu fale.  Fique calado.  O caso  comigo.  Juvenal, veja os documentos na pasta, deixe-os  mo.  Alguns minutos de expectativa,  e logo aps a figura triunfante do Dr.  Marcondes ladeada por trs homens, que logo tomaram conta da situao, entraram na sala.   
       Um deles parecia chefiar o grupo, adiantou-se .  
        Somos da polcia.  Recebemos grave denncia.  Quem  que se faz passar por Geraldo Tavares de Lima?  
        Sou o Dr.  Olavo Rangel, advogado dele.  O senhor, quem ?  
        Sou agente policial.  Aqui esto minhas credenciais.  
        Muito bem.  Acho que houve um lamentvel engano.  Meu constituinte aqui presente  realmente Geraldo Tavares de Lima, como provam todos os seus documentos em meu poder.  Dr.  Jos estava plido.   Detestava aquele refinado patife, seu colega de m memria.  Ele estava metido naquela intriga.  Fora ele certamente quem liderara aquela farsa.  Mas se bem o conhecia, sabia que ele devia estar bem escudado para atrever-se  a tanto, jogando seu prestgio, seu nome,  sua posio.  
        Pode provar o que afirma?  
        Certamente.  Alis, j entrei com a documentao necessria em juzo e tenho j a devida autorizao para que o sr Geraldo se hospede nesta casa que  sua.  
        Posso v-la ?    inquiriu o policial, que diante do advogado perdera muito da arrogncia inicial.  
        Naturalmente.  E o Dr.   Marcondes tambm pode examinar estes documentos.  Ele adiantou-se  e, com ar desconfiado passou o olhar pelos documentos exibidos.  Pareciam-lhe autnticos, mas certamente que tinham sido forjados.  Recusava-se  a crer.  
        Eu estou lendo, mas no acredito.  Como pode ser?  Geraldo desapareceu h muitos anos e minha pobre cunhada procurou por ele toda a vida.  Nunca soube de nada.   Acreditava-o morto.  Agora, por causa da herana aparece este aqui.  Como acreditar?   Onde esteve durante tantos anos?   Por que jamais procurou pela me?  
        Posso explicar-lhe, doutor.  O Dr Euclides retirou-se  com o filho para um local chamado Dente de Ona, nos confins de Mato Grosso, e disse ao filho que a me tinha morrido.  Mas D.  Carolina no acreditava Ba morte do filho.  Apesar da falta de notcias,  encarregou-me  de procur-lo .  Infelizmente, s o encontrei agora,  
       depois que ela morreu.  Tinha uma pista, mas demorei muito tempo em encontr-lo naqueles ermos.  Por sorte, Dr.  Euclides guardara todos os documentos, e por isso no tive dvidas em conhecer Geraldo.  Agora,  ele est de volta e toda a herana pertence-lhe de direito.  Pelo que consta, D.  Carolina no deixou testamento.  Logo,  ele seu nico filho e herdeiro universal.  Dr.   Jos irritou-se .  
        No aceito isso.  E uma impostura.  E uma histria forjada para receber a herana.  Ele  um impostor.  No o reconheo como meu sobrinho! 
        Nem podia.  Ele saiu daqui com seis anos apenas, est agora com vinte e oito.  Acho que bem diferente do que era.  No posso deixar de reconhecer os mesmos olhos de D.   Carolina, um pouco do seu sorriso; e se Olhar bem, ver que tem as mos longas e a forma fsica do seu irmo.  O jardineiro de D.  Carolina, que o viu nascer, reconheceu-o muito bem.  No , Antnio?  
        Certamente.  Ele  o seu Geraldo mesmo.  No tenho nenhuma dvida.   Sem ver os papis eu o reconheci.   ele mesmo.  S sinto D.   Carolina no estar viva nesta hora.  O policial olhava visivelmente curioso para a figura estranha de Geraldo, que mais parecia um matuto e que herdara quela fortuna imensa.  Tratou de aproximar-se  dele com gentileza.  
        O senhor vai nos desculpar, sr.  Geraldo, mas as informaes que tnhamos eram contra o senhor.  Nossa obrigao  investigar todas as queixas.  Espero que esquea isso, queremos felicit-lo pela herana.  Dr.   Marcondes estava to perturbado que no conseguiu seno dizer entre dentes:
        Vocs no me enganam e no perdem por esperar.  Vou desmascar-los na justia.  Vocs vo ver! 
       Geraldo, que nada dissera,  tornou:
        Agora , rua.  Num quero ningum aqui.  Ocs pode i simbora.  Quanto  polcia, fazia mior se fosse prende os ladro que to por a.   Hoje memo o empregado dele que tava aqui ia leva as jia de minha me.  
        Onde est ele?  Podemos prend-lo .  
        Num carece.  J dei corretivo e botei ele na rua.  S home pra resorv meus pobrema.  Agora, acho que j podem i simbora.  Dr.  Olavo adiantou-se  e, enquanto acompanhava os trs policiais e o Dr.   Marcondes para o porto foi dizendo baixinho:
        No reparem.  Ele foi criado longe da civilizao.   um pouco rude, mas  homem de bem.  Dr.  Marcondes fuzilou-o com o olhar e,  ignorando a mo que ele lhe estendia em despedida, saiu pisando duro, abafando o dio e a revolta.  Dr.  Olavo distribuiu palmadinhas e piadas entre os policiais e escorregou algumas notas para que fossem tomar uma cervejinha.  De volta  casa, Juvenal divertia-se  ouvindo Antnio contar como conhecera Geraldo e tudo o mais.  Ria-se  a valer.  Afinal, o matuto tivera muita sorte.  Era valente tambm.  Dr.   Olavo estava mais interessado em negcios.  
        Geraldo, precisamos dar andamento nos papis.  O Dr.  Marcondes no vai conformasse.  Estava quase tendo um ataque.  Vai tentar tudo e dificultar ao mximo a ao da justia.  Eu preciso de que voc me assine, ou melhor, ponha seu dedo nos papis, para que eu possa trabalhar.  Est tudo aqui, e  s pr o dedo nessa tinta e colocar aqui embaixo.  
        O que ta a nesse pap?  
         rotina.  coisas da lei, para que eu possa represent-lo como advogado.  
        Que  representa?  
        agir em seu nome.  
        Como se fosse eu?  
        ,  mais ou menos.  
         Mais eu t aqui.  Num to morto.  Pra que precisa disso?  
       Dr.   Olavo impacientou-se .  
         da lei.  Se no assinar no posso ser seu advogado.  
       Ele olhou os papis desconfiado.  
        O que ta escrito a?  Antnio oc sabe l.  Vem aqui e l isso pra mim.  
        No  preciso.  Eu posso ler.  Depois essa desconfiana no se justifica.  Afinal, sou seu amigo e sinto-me ofendido com isso.  
        Num carece arrodi,  doto.   mior dex o Antnio l.  Ele  meu home de confiana.  Seno eu num boto o dedo a.  
       Antnio sentia-se  emocionado.  Suas mos tremiam quando debruou-se  na mesa para ler os papis.  A confiana de Geraldo deixava-o embargado.  
        Estou comovido, Geraldo.  Eu sou um homem pobre e simples, no tenho qualificao nenhuma...    
        Oc   meu amigo e home de confiana de minha me.   como se fosse meu pai.  Pode l.  
       Pigarreando, Antnio comeou a ler com voz um pouco insegura, mas aos poucos foi se firmando.  Apesar de ser simples jardineiro, era homem experiente e tinha viajado como caixeiro viajante nos tempos da mocidade.  Gostava de ler, e fora um desgosto que tivera que o forara a abraar a nova profisso.  A vida feliz em casa de D.   Carolina o deixara tranqilo e sem preocupaes com o futuro.  Ela sempre prometia deix-lo s amparados quando morresse.  Mas no tinham achado seu testamento.  Por isso,  tinham ficado na rua.  
       Leu tudo, e ao terminar Geraldo indagou:
        Agora , Antnio, me explica direitinho tudo.  
       Antnio engoliu em seco para tomar coragem e tornou:
       - Se  voc assinar isso, o D.   Olavo  seu procurador geral, para assinar tudo em seu nome.  Pode comprar, vender, empregar seu dinheiro, pode usar tudo o que  seu como se fosse dono.  
       Olavo estava irritado.  
        Isso me ofende.   uma questo de praxe.  Para trabalhar, eu preciso ter liberdade.  No posso vir atrs do Geraldo a cada requerimento que precisar fazer.  Vamos, assine que estamos perdendo muito tempo.  
        Num v assin isso.  Num concordo.  Oc pode compr e vend como se fosse eu.  J pens se quis vende a casa de minha me?  
        Isso  um absurdo.  Voc me disse que no se importava com a herana.  No queria nem vir para c.  Disse que ia assinar tudo e voltar para sua casa no mato.  Ento, fiz essa procurao para cuidar de tudo, administrar seus bens, e voc, se quiser, pode voltar para sua casa amanh mesmo.  
        Quem resorve minha vida s eu.  Vorto pra casa quando ach que t na hora.  Mai num v dex as coisa de minha me sem resorv.  Tem uns causo que quero apur.  Por isso, v fica.  Agora num v assina nada.  
        Diga a esse idiota  berrou Dr.  Olavo, irritado que se ele no me nomear seu procurador, no poderei ser seu advogado.  
       Antnio esclareceu:
        Dr.  Olavo, o senhor faz outra procurao, somente com poderes de represent-lo em juzo, e garanto que ele vai assinar.  Depois veremos o resto.  O contrato, com a especificao dos seus honorrios, e tudo de direito.  
        Mas isso no tem cabimento.   uma injustia, uma ofensa, uma ingratido.  D-me vontade de abandonar o caso.  
       - Se  fizer isso,  contratamos outro.  No vai faltar  advogado para isso.  
        Preciso ter liberdade de ao para trabalhar.  No posso ser vi guiado por terceiros, nem ter um constituinte que desconfia de mim.  
        O doto t complicando muito.  Qu o num qu continua?  
        Est certo.  Quero.  J me enterrei nesse caso.  Perdi meses para encontr-lo , fiz despesas, perdi clientes, tudo, agora recebo esta injria.  
        Ser reembolsado regiamente, doutor.  Tenho certeza de que Geraldo  homem honesto, mas sei tambm que detesta ser enganado.  Se o senhor trabalhar bem, no vai ter do que arrependesse.  
       Geraldo concordou  com a cabea.  
        Precisa providenciar os documentos dele.  Identidade, etc, para
       ficar com ele.  Nunca se sabe do que o Dr.  Marcondes  capaz.  
       Olavo suspirou, contrariado.  Nada mais tinha a fazer ali.  
        A manh cedo esperamos pelo doutor com a papelada em ordem.  
       Quando se despediram, iam calados e pensativos.  
        E essa agora.  Esses caipira parece que tem o diabo no corpo.   uma teima s.  Quem podia esperar que aquele velho jardineiro fosse to esperto?   desabafou Olavo, nervoso.  
        Esperto mesmo  o Geraldo.  Estou comeando a achar que no vamos conseguir nada dele.  O melhor  carregar nas despesas, seno vamos perder tempo.  
        Ora, Juvenal.   uma questo de dar tempo ao tempo.  O velho precisa ser afastado.  Se no estivesse l, o idiota teria assinado.  No sabe ler.  
        E.  Pode ser.  Mas burro  que ele no .  E no tem medo de nada.  Sabe como ele entrou na casa?  No murro.  Botou at o tio para fora  fora.  
        , mas se eu no estivesse l, teria ido preso.  A polcia queria ver os documentos.  Por um lado teria sido bom para ele.  Ir preso.  A eu o livraria, mas antes teria que assinar tudo.  Juvenal abanou a cabea, duvidoso.  
        No sei.  Ele  to astuto que sairia dessa muito bem.  
        No vou desistir dos meus intentos.  Voc vai ver.  Essa fortuna ser nossa.  
        Assim espero.  
        Por agora vou contemporizar, fazer o que me pede.  Ganhar sua confiana.  Depois, veremos.  Mas ainda mesmo sem dinheiro, eu no deixaria o caso s pelo prazer de ver o Marcondes de joelhos e sem um vintm.  Juvenal aventou:
        Por que odeiam-se  tanto?  
        Voc acha isso?  
        .  Ele olhava-o desfigurado.  Parecia que queria fulmin-lo .  
        So velhas histrias.  No vem ao caso.  Mas aquela raposa um dia ainda vai pagar me.  Enquanto isso, Marcondes rumou para casa.  No tinha condies para trabalhar.  Sua cabea doa e o estmago estava queimando.  Sua angstia deixava-o perder a respirao.  A situao parecia sria;e se o advogado estivesse dizendo a verdade?   E se aquele caipira fosse mesmo o Geraldo?  
       No podia subestimar Olavo.  Sabia-o inteligente e capaz.  Jamais se meteria naquela se no estivesse bem escorado.         
       Por outro lado, custava-lhe crer que aquele pobre diabo fosse filho da delicada e refinada Carolina.  Sua cunhada tinha sido sempre mulher de um requinte extraordinrio.   
       Sorriu irnico entre a raiva e o temor.  O que leria sentido se lhe apresentassem o filho como um selvagem?  Ser que Euclides fizera isso para vingar-se  dela?   Sacudiu a cabea.  Certamente que no.  Se assim fosse, teria voltado com ele antes que ela morresse.  Era muito esquisito que s agora Geraldo aparecesse.  Se ele fosse mesmo o filho de Carolina, sua presena ali devia-se  exclusivamente s maquinaes de Olavo, que pretendia desgra-lo .   lembrana do advogado sentiu uma onda de rancor.  O pior  que com ele no tinha condies de acordo.  Fosse outro qualquer e ele arranjaria tudo,  dividindo o dinheiro, mas com quele sabia intil.  Jamais concordaria.  Ainda mais se tivesse a certeza da identidade de Geraldo.  Estava muito preocupado.  
       O carro entrou pelos jardins, ele nem notou.  Sobressaltou-se  quando o motorista abriu a porta para que descesse.  Precipitou-se  casa adentro como um furaco.  Sua mulher encontrava-se  na sala de estar,  folheando uma revista.  Era mulher de estatura mdia, cabelos tingidos de um louro dourado e caprichosamente penteados, pele bem cuidada, quase sem rugas, apesar de estar com 50 anos.  Era elegante,  conservando-se  esbelta e vestindo-se  com muito apuro.  Enorme solitrio no anular dava mais requinte  sua mo alva, bem talhada e fina.  Vendo entrar o marido, surpreendeu-se .  
        Jos?  !  O que aconteceu?  
       Dr.  Marcondes nunca chegava antes das 21 horas para jantar, a no ser quando tinham algum compromisso social.  Sua presena naquela hora era um acontecimento.  
        Precisamos conversar.  Renata, aconteceu algo terrvel.  Renata levantou-se  assustada.  
        Alguma coisa com o Jorginho?  
        No, nada disso.  
        Com Maria da Glria sei que no foi porque ela est l em cima no quarto, metida com seus livros.  
        No, no foi nada com nossos filhos.  Foi algo terrvel.  Vamos para o quarto.  Tomou a mulher pela mo, conduzindo-a  para a saleta de vestir, ante-cmara do quarto do casal;fechou a porta e desfechou a novidade:
        Estamos arruinados.  O filho de Carolina apareceu! Renata deu um pequeno grito de susto:
        No! ! Tem certeza?  
        Bem, certeza, no tenho ainda.  Mas por enquanto, parece que os
       documentos dele esto em ordem.  No me conformo! O dinheiro j estava praticamente em nossas mos.  E agora?  
       D.   Renata passou a mo trmula pela testa, num gesto nervoso.  Deixou-se  cair em uma poltrona, aterrada.  
         impossvel! Depois de tantos anos.  Como pode ser isso?  
       Em pinceladas, dramticas, Jos contou-lhe o que acontecera e rematou, maldoso:
        Voc precisa ver o pobre-diabo.   um brutamontes, selvagem e grosso.  S no fosse por causa do dinheiro, ia morrer de rir.  
        Vontade de rir no tenho nenhuma.  O que vamos fazer?  
        O pior  que o Olavo  o advogado dele.  Isso toma as coisas ainda piores.  Se no conhecesse a ambio daquele velhaco, eu diria que ele foi descobrir Geraldo s para me arruinar.  
        E ser que no foi?  
       Os olhos de Renata brilhavam, rancorosos.  Sua fisionomia tinha se tornado dura, e perdera o ar delicado de momentos antes.  
        Em parte, claro que foi.  Moveria cus e terras para nos prejudicar,  mas acho que tambm pensa no dinheiro.  Para ele, vai ser fcil enganar aquele selvagem e ficar com boa parte da herana.  
        Se  ele ganhar a questo, o que de qualquer forma no podemos permitir.  
        , no podemos.  Voc sabe que os dois ltimos emprstimos foram por conta desse dinheiro.  No temos como pagar.  Teramos que vender todas as propriedades, os carros, tudo.  Ficar sem nada.  
        Isso nunca! 
        Pode ser tambm que ele seja um impostor.  A ser muito mais fcil.  
        Tem razo.  Mas o Dr.  Olavo  macaco velho.  
        No mete a mo em cumbuca.  Isso me preocupa mais.  
        Voc vai entrar com uma ao?  
        Bem... Eu posso ver os documentos anexados ao inventrio, juntar minhas dvidas, requerendo alguns detalhes periciais nos documentos inventados.  Oficialmente,  s o que a lei me permite.  Se tudo estiver em ordem e os documentos forem autnticos, ele  o herdeiro direto e legtimo de Carolina.  Quanto a isso, no vou poder fazer nada.  O que pretendo  contratar alguns homens para investigar o caso, inclusive indo ao local  onde ele viveu, etc.  Quero descobrir tudo.  Renata aprovou, pensativa.  
        Voc disse que ele  um pobre diabo.  Como se parece?   Marcondes distendeu a fisionomia, forando o riso.  Voc precisa ver! Contar no adianta.   alto, espigado, cabelos compridos e barba.   Pele queimada de sol.  A roupa  o que h.  Camisa quadriculada, cala branca ajustada e botinas cor de laranja, rangedeiras.  Agora as mos so compridas e finas, embora cheia de calos, certamente de cabo de enxada.  Voc precisa ver! Quando abre a boca, fala pior do que os pees da nossa fazenda.  Acho at que no sabe ler.  
        Deus meu, o que vai fazer com tanto dinheiro?  Que judiao! 
        Salvar essa herana  uma obra de caridade -a juntou ele com nfase.  
        E se voc embargasse o esplio como se ele fosse incapaz para gerir esses bens?  
        Ele  um tipo raro, mas no me pareceu um louco.  Pelo contrrio.   Acho at que  muito seguro de si.  
       Renata permaneceu pensativa.  Depois tornou:
        Jos.  Ele foi criado no mato, como voc disse, no ser difcil de levar.  Com jeito ns podemos conseguir o que queremos.  
        Como assim?  
        Voc vai ver os documentos.  Se os laudos afirmarem sua autenticidade, voc no vai ter muito a fazer.  Mas eu tenho uma idia melhor.  
        Qual ?  
        Enquanto voc manda investigar o lugar onde ele viveu, ns podemos nos tornar amigos.  Brigar no ser boa poltica.  
        Voc acha que devemos aceitar essa situao?  
        Claro que no.  Mas podemos ganhar tempo.  No s fingir que aceitamos, como envolv-lo em nossa amizade.   um matuto.  Deve estar maravilhado com a cidade, o dinheiro.  Podemos nos tornar amigos, e depois, quem sabe, voc pode at administrar-lhe os bens.  
       Jos olhou a mulher surpreendido.  
        ...  Isso pode ser tentado.  .  Em ltimo caso.  
        A final, voc  seu legtimo tio, irmo do seu pai.  
        Mas nem por isso ele teve complacncia.  Com certeza Olavo j lhe contou que Carolina no nos recebia, porque ele no teve dvidas de pr no olho da rua, pela fora, seu tio legtimo! 
        Certo, mas isso  porque ele sabe o que lhe contaram.  Olavo no nos elogiou.  No entanto, ns podemos estabelecer um plano para envolv-lo .  Deve ser ignorante e crdulo.  Podemos usar Maria da Glria.   uma linda mulher.  
        Nossa  filha tem vinte e dois anos apenas.  
        Mas  muito requestada e linda.  
        No creio que ela concorde em colaborar.  Tem a cabea virada pelo modernismo.  Nunca pudemos control-la .  
        Deixe comigo.  Sei lidar com ela.  
        Voc pode tentar.  Sempre  um caminho.  Mas desde j temos um obstculo.  Ele no nos vai receber.  
        Isso dificulta as coisas.  Tenho um meio e vou us-lo .  
        Qual?  
        Lucila.  
        Lucila?  
        .  Carolina gostava muito dela.  Era sua nica amiga.  
        Mas ns no temos muito relacionamento com ela.  
        Maria da Glria tem.   muito amiga de Ins, sua filha.  As duas esto sempre juntas.  
        Acha que conseguir?  
        Deixe comigo.  Vou conseguir.  Tantos interesses em jogo! No desanime.  V redigir a petio enquanto vou procurar nossa filha.   No temos tempo a perder.  
        Quanto a isso, concordo.  O tempo  precioso.  Todos os vencimentos tm data marcada.  Renata dirigiu-se  ao quarto da filha.  Antes de entrar, imprimiu  fisionomia um ar sereno.  Fez isso to bem que ningum poderia perceber a ambio que lhe ia na alma.  Bateu ligeiramente e entrou.  Maria da Glria, encolhida em agradvel poltrona, estava mergulhada em profunda leitura.  
        Minha filha.  
       A moa levantou o olhar admirada.  Tinha olhos grandes e castanhos,  cabelos escuros e curtos penteados com displicncia.  O rosto sem pintura, embora corado e expressivo.  
        O que deseja?   perguntou com voz indiferente.  
       Preciso falar-lhe.   Oh! mame.  O livro est muito bom.  No quero desviar o fio do momento.  No pode ser mais tarde?  
       No, filha.  O assunto  urgente e importante.  Est bem, concordou ela um pouco aborrecida, fechando o livro e colocando o marcador na pgina.   Espero que no seja nenhuma idiotice.  
       Claro que no.  Voc  anti social.  Uma moa!  Como  pode  ser assim.  
       Mame,  no vamos voltar ao assunto.  No aprecio seus amigos, so vazios e fteis.  No sou anti-social.  At estudo filosofia e sociologia.  Tenho muitos amigos, mas nenhum  vazio como os seus.  No foi para isso que voc veio aqui, no ?  
        No, no foi.  Deixe-me sentar.  O assunto  grave.  Seu primo Geraldo apareceu.  
        Geraldo?  Filho da tia Carolina?  
        .  Apareceu, e apesar de seu pai estar investigando sua identidade para termos certeza, tudo indica que  ele mesmo.  
       Nos olhos de Maria da Glria brilhou uma ponta de malcia.  
        Que azar, hein, mame! Papai j estava gastando por conta da herana.  
       Renata dissimulou:
        Certamente, esse dinheiro seria nossa salvao.  Mas que fazer?  Deus sabe o que faz.  Se ficarmos na misria, seu pai trabalhar mais e no nos h de faltar o po.  
       A moa surpreendeu-se :
        O que deu em voc?  Como vai largar sua vida social?  E Jorginho, como vai afundar mais no vcio?  
        No fale assim.  Seu irmo  muito jovem.  Com o tempo indireita.  Eu estou conformada.  Seja o que Deus quiser.  
       Algumas lgrimas brilharam nos olhos de Renata.  A filha estava admirada.  Jamais vira a me to submissa.  Esperou que ela continuasse:
        Pois .  O filho de Carolina foi descoberto pelo D.   Olavo Rangel, velho inimigo de seu pai, e envenenou Geraldo contra ns.  Seu pai foi l em casa de Carolina e ele o tratou com rispidez.  
         um direito dele.  No podemos fazer nada.  
        Mais diver esse pobre moo nas mos daquele patife, que certamente vai lhe tirar tudo o que tem.  O Dr.   Olavo  mau elemento.  
        Quanto a isso, no duvido.  As histrias que circulam sobre ele no so nada recomendveis.  
        Temo por Geraldo.  Afinal,  somos seus nicos parentes.  
        E tio Euclides?  
        Morreu h certo tempo.  
        Geraldo no  criana.   mais velho do que eu, quantos anos tem?  
        Deve ter uns vinte e oito ou vinte e nove.  
        Ento!  Deve saber defender-se .  Tia Carolina sempre foi excntrica.  Nunca nos recebeu.  No vejo razo agora para nos preocuparmos com seu filho, que j  um homem e deve saber defender-se  muito bem.  
        Mas ele foi criado na roa.  O Euclides querendo vingar-se  de Carolina, que o traiu, sumiu com o menino, e pelo que sabemos agora, foi viver nos confins de Mato Grosso.  No sabe nem ler.   um pobre diabo.  Ser presa fcil do Dr.  Olavo.  Acha justo deix-lo sem ajuda nessa hora?  Afinal, no tem culpa do problema da me.  
        Isso .  Tem certeza de que ele  assim?  
        Tenho.  Seu pai disse que se veste como um matuto e fala como caipira.  No sabe ler sequer.  
        Que graa! Deve ser um tipo raro.  
        Diz que .  Seu pai ficou com pena dele.  
        Mas ns no podemos fazer nada.  
        Como no?  
        No temos bom relacionamento com ele.  O Dr.   Olavo, com medo de que ns pudssemos ajud-lo , enche-lhe a cabea contra ns.  Devemos destruir essa impresso dele.  Tornar-nos amigos para que o Dr.   Olavo no possa engan-lo .   at obra de caridade.  
       A moa sorriu, incrdula.  
        Voc nunca se interessou em fazer caridade.  Qual o seu objetivo real?  Quer ver o sobrinho de perto ou quer arrancar-lhe parte da herana?  
        Minha filha! Que modos grosseiros! Saiba que eu e seu pai resolvemos aceitar a pobreza como condio irremedivel.  
        Seria muito bom se ficssemos menos ricos.  Porque a pobreza para voc j representa um bom nvel de vida.  Assim, quem sabe cada um se interessasse em trabalhar e fazer alguma coisa til.  
        No fale assim com sua me.  
        Vocs ainda vo arrepender-se  de tanta ociosidade.  
       Renata engoliu a raiva.  Sabia que irritar Maria da Glria no era a melhor poltica.  Precisava dela.  Contemporizou.  
        Voc vai arrepender-se  de ser to injusta com seus pais enxugou uma lgrima no existente e continuou Pensei em Lucila.  Era muito amiga de Carolina.  Ficar contente de saber sobre Geraldo e de v-lo .  Gostaria de falar com ela para que o convencesse a receber nos.  
        Para que?  
        Para que possamos conhec-lo e orient-lo .  Se estiver tudo certo, melhor.  Podemos desfazer esse mal-entendido que por tantos anos desuniu nossa famlia.   Maria da Glria ficou pensativa.  Tinha enorme curiosidade de conhecer o primo.  Como seria?  Sabia que Lucila teria muita alegria em saber da novidade.  Sofrera com Carolina.  Acompanhara de perto sua dor.  Vrias vezes Maria da Glria intrigara-se  com aquele mistrio.   No acreditava muito na maldosa verso de seus pais, culpando Carolina da traio ao marido.  A reputao da tia sempre fora inatacvel.  Embora no tivesse convvio com ela, a moa sabia que ela era respeitadssima pelas famlias mais austeras, e seu comportamento discreto, sua dor aps a ausncia do marido, tinham-lhe dado uma aurola de mrtir.  Lembrando-se  do seu semblante puro e altivo, Maria da Glria no aceitava o deslize que lhe atribuam,  principalmente por saber que seus pais torciam sempre as coisas conforme lhes convinha, sem nenhum respeito  verdade nem  dignidade alheia.  
       Olhando a fisionomia perscrutadora da me, a moa concordou:
        Est bem.  No me custa tentar.  Falarei com D.  Lucila.  Acho at que ficar muito feliz.  Vou j telefonar-lhe.  
        Isso, minha filha.  Faa isso.  Veremos o que podemos fazer.  Alis,  estou ardendo de curiosidade para conhecer essa rara criatura.  
        No se anime muito.  Pode ser que ele se negue a nos receber, e ns no vamos mendigar, no  mesmo?  
        Certamente, meu bem.  Ficaremos com a conscincia tranquila,  cumprimos nosso dever.  
       Maria da Glria olhou a me com certa ironia.  
        Mame,  no gostaria de ser sua inimiga.  
        Filha,  que injustia! 
        Deixemos isso.  Tambm estou curiosa.  Pensando bem, no vou telefonar.  Vou  casa dela pessoalmente dar-lhe a notcia.  Vai ser uma bomba! A moa levantou-se  de um pulo e com rapidez aprontou-se  para sair.  Na janela do quarto, D.  Renata viu-a  subir no carro e sorriu satisfeita.  
       
       
       
       CAPTULO 5
       
       
       Geraldo, sentado na varanda, olhava pensativo para o jardim, onde Antnio trabalhava feliz, cuidando de suas flores.  
       O velho jardineiro j se instalara de novo na casa em que sempre vivera.  Sua mulher, feliz e contente, j assumira a cozinha, e um cheiro apetitoso  anunciava a preparao do almoo.  
       Geraldo j tinha colocado suas digitais na procurao, e o Dr.   Olavo cuidava j de tudo para regularizar o inventrio de D.   Carolina, bem como a entrega da herana.   
       Fizera uma procurao delineando os seus poderes, conforme Antnio sugerira, e tudo caminhava bem.  O advogado contava ganhar a confiana do cliente para gerir-lhe os bens.  Conhecia o suficiente para saber que irrit-lo no era a melhor soluo.  Adiantara boa quantia para que contratassem empregados e cuidassem da manuteno da casa.  Antnio convencera Geraldo da necessidade de contratar uma arrumadeira e uma lavadeira.  Explicou-lhe que todas as coisas bonitas da casa, todos os objetos que tinham sido o gosto de D.   Carolina, precisavam ser bem limpos e bem cuidados para que no se estragassem.  Geraldo concordou, deixando Antnio praticamente na administrao da casa;este, por sua vez, deu esse encargo  sua mulher, que j o exercia ao tempo de D.   Carolina.  
       Ambos sentiram-se  emocionados com a confiana do moo e cuidavam de tudo com honestidade e carinho.  Antnio era o homem de confiana de Geraldo.  O amigo, o companheiro, o pai.  Foi ele quem convenceu-o a comprar um pouco de roupa.  
        Geraldo, voc precisa comprar roupas da cidade.  
        Pru qu?   Estas to boas  demais.  
        Tambm acho.  Mas na cidade essas roupas no so usadas.  Por isso voc fica muito diferente dos outros, e o povo no entende isso.  
        Oc  qu diz que eles vo caoa de mim?  
        Talvez.  
        Num ligo.  
        Eu sei.  Isso no tem mesmo importncia, mas D.  Carolina era elegantssima.  Suas roupas eram muito delicadas, como as de uma grande senhora.  O povo vai falar muito quando vir que voc no se veste com o mesmo  apuro  dela.  
        Qual, eu no sei onda compra ropa da cidade.  Fico atrapaiado.  
        Acho que voc deveria aprender a usar.  D.  Carolina ia gostar de v-lo muito bem vestido.  
       - Oc acha isso?  
        Certamente.  Quando voc estava aqui, tinha aquele armrio cheinho de roupas, sapatos, tudo do bom e do melhor.  D.  Carolina queria sempre v-lo impecvel.  Tinha que trocar de roupas trs vezes por dia,  tinha uma roupa para o almoo, outra para o jantar, uma pela manh.  
        Pra que tudo isso?   Minha me gostava?  
        Gostava.  Depois,  um costume nas famlias da alta sociedade.  Eles do muito  valor  roupa.  
        Quanta bobage.  
        .  Mas quando voc vive no meio deles precisa respeitar os costumes.  
        T poco ligando prs outro.  
         que vo comentar.  Dizer que o filho de D.   Carolina no sabe vestir-se  bem, e sua me ficaria muito triste com isso.  Por mais que estivesse infeliz ou triste, jamais apareceu para algum sem estar cuidadosamente penteada e vestida.  Era uma grande dama.  
        Num quero que tenha vergonha de mim.  Mai eu num sei compr essas ropa.  
        Sairemos juntos.  Compraremos o que for preciso.  Vou ajud-lo .  
       Sei o gosto de D.   Carolina.  
       Geraldo concordou.  Antnio tocara-lhe o ponto fraco.  O amor de D.   Carolina.  Impossibilitado de apagar todo sofrimento de sua me durante os anos de sua ausncia, empenhava-se  em descobrir-lhe os gostos para tentar compens-la  um pouco,  mesmo sabendo-a  morta.  
       Era com prazer que ouvia qualquer reminiscncia sobre ela.  E permanecia horas conversando com a velha Elisa, mulher de Antnio,  indagando das preferncias da me, seu prato predileto, suas roupas,  suas idias seus hbitos.  Vrias vezes acariciara com amor seus livros, pelo que soubera seu passatempo predileto durante aqueles anos de solido.  Folheava os volumes e surpreendera as anotaes de sua caligrafia delicada.  Sabia serem dela, pena que no as pudesse ler.  Sentia-se  impotente e intil nesses instantes.  Por vezes chegava a sentir certa mgoa contra o pai, que no quisera ensin-lo a ler.  Geraldo ocupava o quarto que fora o seu e permanecia durante horas pensando, pensando, tentando recordar-se  daqueles tempos.  Naquela manh, na varanda, sua aparncia era j diferente daquela que tinha no mato.   Vestia cala de l cinza e camisa branca esporte, muito elegante.  Calava sapatos de couro.  Antnio conseguira transform-lo .  Mas Geraldo ainda era o mesmo simples,  rude, sincero.  Aceitou a sugesto das roupas e vestiu-a s, pensando em ser agradvel  sua me.  Elisa bateu palmas quando o viu e declarou que ele estava muito chique.  Geraldo no sabia o que era isso e foi um pouco difcil para a velha serva explicar, mas no fundo ele  entendeu.  Sorriu com alegria.  
        O  senhor tem o sorriso de D.  Carolina.  Credo.  Parece at que  ela!  Me deu at saudade! 
       - Oc acha que pareo co'ela?  
        Muito.  Principalmente o sorriso.  Eu no tinha visto ainda, mas seu sorriso  to bonito! Como ela.  Quando sorria, encantava.  
       Geraldo ficou feliz.  A cada dia mergulhando no passado, na personalidade da me, no amor que sentia por ela, em meio  casa e ao ambiente em que vivera, mais e mais sentia-se  preso a ela, ao seu afeto to desejado e do qual fora privado.  
       Elisa foi at a varanda e, respeitosa,  tornou:
       - Seu Geraldo:est ao telefone D.  Lucila e quer vir fazer-lhe uma visita.  Quer saber se o senhor poder receb-la  hoje  tarde.  
       Habitualmente Geraldo no recebia ningum a no ser o advogado e seu assistente.  Fora muito procurado por reprteres, por amigos da famlia,  mas recusara-se  a v-lo s.  
        Num  recebo  ningum, oc sabe.  
       - Seu Geraldo, acho que gostar de conhecer D.   Lucila.  Foi a nica amiga de D.   Carolina.  Foi quem lhe fechou os olhos na hora da morte.  Estava sempre  aqui e  era estimada por sua me.  
        Num sabia disso.  Deve sabe muitas coisa sobre ela.  
        Por certo.  D.  Carolina ficava horas com ela conversando.  As duas diziam-se  como irms.  D.  Lucila chorou muito sua morte.  
        Diga a ela que pode vir.  Quero conversa co'ela.  
       Sim senhor.  Uma amiga de sua me!  Sua confidente.  Talvez fosse descobrir o motivo de tudo.  O grande motivo pelo qual seu pai fugira do lar,  separara-se   da me.  Foi com  ansiedade  que   Geraldo esperou a visita  de D.  Lucila.  
       Estava marcada para as 15 horas, e ele, impaciente, quase no suportava esperar.  Faltavam cinco minutos para a hora marcada quando o carro elegante cruzou os portes do palacete.  Geraldo aguardava na varanda.  Levantou-se  impaciente.  O carro parou em frente  varanda e o chofer desceu, abrindo com elegncia a porta do carro.  Uma senhora de meia-idade desceu com desenvoltura.  Estava acompanhada por duas moas.  Geraldo adiantou-se .  
        A  sra.   D.   Lucila?  
        Sim, meu filho.  Voc  o filho de Carolina! Que alegria.  Deixe- me abra-lo .  Sem que Geraldo soubesse o que fazer, ela abraou-o com carinho, depositando delicado beijo em sua face.  O moo ficou embargado.  Nunca recebera o carinho de uma  mulher.  
       A figura de D.   Lucila falava-lhe ao corao.  Era senhora de fisionomia clara, simptica, cabelos castanhos ondulados, olhos emotivos e sinceros.  Geraldo ficou mudo.   A sensao era-lhe desconhecida.   Procurou reagir.  
         muita bondade,  D.   Lucila.  
       Ainda abraada a ele,  a velha senhora tornou:
        Quero que conhea minha filha Ins e sua prima Maria da Glria.  
       Geraldo olhou as moas meio sem jeito.  Emoo para ele era fraqueza.  As moas eram muito bonitas.  Ins, rosto redondo e moreno,  s os cabelos castanhos e ondulados lembravam os de sua me, era alta e esguia.  Maria da Glria tambm era muito bonita, embora fosse seu tipo muito diferente da amiga.  Rosto claro, traos mais fortes e finos.  Geraldo dominou-se  e estendeu a mo para as moas,  apertando-as com fora.  Ambas olhavam-no com curiosidade.  
        Vamo entra.   Quero muito conversa co'a senhora.  
       D.   Lucila tomou o brao do moo sem cerimonia e foram entrando.  As duas moas, mais atrs, trocaram um olhar malicioso.  Maria da Glria contara tudo s amigas e descrevera Geraldo conforme a me o fizera.  Surpreenderam-se  com a aparncia do moo.  Bem melhor do que esperavam.  Embora fosse rude nas maneiras e na linguagem.  
       Na sala de estar, sentaram-se .  D.  Lucila no sof, ao lado de Geraldo,  e as duas moas nas poltronas.  No queriam perder uma s palavra do moo.  D.  Lucila estava muito emocionada.  Olhando o retrato de Carolina na parede, seus olhos encheram-se  de lgrimas.  
        Perdoe-me, meu filho.  Desde que ela partiu, nunca mais voltei aqui.  Estou emocionada.  
       Geraldo tambm tinha um n na garganta.  Aquela mulher entrara-lhe no corao.  Vendo-a  chorar de saudades de sua me, permaneceu silencioso, esperando que falasse.  
        Foi pena que voc s aparecesse agora, depois que ela se foi.   Rever o filho foi sempre seu maior desejo, falou nisso at na hora da morte.  
        A  senhora teve co'ela?  
        Sim.  At o fim.  Mas os desgnios de Deus so sbios, no devemos esquecer disso.  
       Geraldo,  magoado,  tornou:
        Pois eu num penso assim.  Bem que ele pudia dex eu vort antes dela morre.  
        No temos condies para julgar.  Se ele quis assim, deve ter sido melhor.  Deus sempre faz o melhor! 
        Num acho.  Mais quero sabe tudo.  Quero que a sra.  me conte tudo.  O que acunteceu?   Pru que meu pai fez isso cumigo?  
       D.   Lucila sacudiu a cabea, desalentada.  
        Deus sabe.  S sei que foi uma injustia grande com Carolina.  
        A  Sr.  a no sabe o que acunteceu pra ele i simbora e leva eu junto?  
        No sei,  meu filho.  S sei que ela sofreu muito.  
        Queria tanto sabe tudo.  Receio que argum fez maldade co'ela.  T aqui pra faz justia.  V descubri e o curpado vai paga.  
       D.   Lucila olhou-o penalizada:
        No faa isso, meu filho.  No  digno de voc.  S Deus tem poderes para fazer justia.  Quem faz mal paga.  
        Int agora minha me sofreu, meu pai sofreu, eu sofri, eles to mortos, mas os curpados esto bem e satisfeitos por terem feito mal a eles.  Num posso deixa isso,  num posso.  
        Meu filho, no envenene sua vida com o dio.  Carolina nunca
       teve dio de ningum.  Esquea.  Viva sua nova vida.  Voc  moo, rico, tem tudo.  Procure fazer alguma coisa boa com a fortuna que sua me deixou.   Um dia, voc saber de tudo e ver que o melhor mesmo foi esquecer e perdoar.  Geraldo emocionou-se  de repente.  Todo sentimento represado durante sua vida veio a tona naquele momento.  
       Quem pode me d de vorta todos os anos que passei longe dela! Quem pode me d o am que ela guard e eu nunca tive! 
       Havia um brilho to triste em seus olhos e um acento to doroloso em sua voz que as trs mulheres sentiram-se  comovidas:Dona Lucila abraou-o carinhosa enquanto as moas procuravam controlar as emoes:embora as lgrimas lhes afluissem os olhos.  
       Chega de tristeza, mame: No viemos visitar o Geraldo para entristec-lo .  Antes prefiro faz-lo sorrir: Porque no deixam as recordaes e as confidncias para mais tarde?  Estamos morrendo de curiosidade para saber o que ele achou da cidade, das moas da moda: Alis:est muito bem vestido:
       Geraldo, ouvindo a tagarelice da moa;fitando-lhe os olhos emocionados compreendeu que ela lhe oferecia chance para controlar as emoes:
       Com voz firme esclareceu;
       Nun conheo quase nada: Pra diz a verdade nun gosto dessa ropa:Mais se usa na cidade;num quero desgosta minha me:Ela gostava de me v vestido a sua moda :
        Sua roupa est muito bem: Acenta-lhe bem; No acha prima Glria?   
         verdade:E olha que disso ns entendemos.  
        Nun entendo nada, pra mim, ropa serve pra cubri o corpo;tando limpa  t bo: O resto  s val.  .  
        No aqui;  Geraldo  esclareceu Maria da Glria na cidade se voc no cobrir o corpo com roupa cara,  mal tratado por todos e ainda do risada de voc pelas costas.  
        Foi o que Antnio dissi, mais pra mim o ome nun tem val pela ropa que veste,  respeitado pela opinio e pelo que fais se  honesto e trabaiad, o resto nun voga.  .  
       A ropa quarqu um que tem dinheiro compra, mais a vergonha e educao, bondade e honestidade, quero v argum compra.  
       As moas olharam-se  admiradas: a ingenuidade do moo era comovedora.  
        Tem razo meu filho, h muitos velhacos vestindo-se  na ltima moda e frequentando alta sociedade.  
       As virtudes so conquistas de cada um adquiridas atravs do tempo e que ningum consegue comprar.  
        Primo vejo que voc  muito inteligente, para chegar a mesma concluso que voc , tenho estudado longos anos e observado a sociedade a prpria sociedade em que vivemos .  
       - Me chamou de primo! Nun  prima da filha da dona Lucila?  
       Meu nome  ins, Geraldo, gostaria muito de ser sua amiga.  
       O moo ficou meio embaraado:as moas eram lindas e perfumadas e Geraldo nunca tinha visto ningum como elas.  
        Sou sua prima Maria da Glria:No sabia?  
        Dona Lucila falou?  
        Minha prima?  
        Sim  fez a moa com ar gracioso.  
        Soube que voc botou meu pai da qui pra fora.  
        Voc  filha de seu Jos?  
       Sou,  minha me  Renata.  
       Geraldo corou um pouco mas no se deu por achado : 
        Nun to arrependido, se ele vort,  boto de novo na rua.  
       Nun tenho nada contra oc;mais o que sei sobre seu pai nun  coisa boa.  Ele veio aqui, me chamo de ladro e outras coisas mais e veio int com a polcia.  
       Mais eu to na minha casa e botei ele na rua.  
       A  que nis vamo ajust as conta.  
       Maria da Glria, muito sria, aproximou-se  do rapaz, cuja sinceridade e franqueza apreciava:
       - Se  houve alguma coisa no passado, posso afirmar-lhe que nunca participei dela.  Espero que aceite minha amizade, sentirei muita honra e muita alegria em  ter sua amizade.  
       Geraldo olhou a moa bem nos olhos, levantou-se :
       Seu olhar pareceu penetrar fundo nos olhos de Maria da Glria. Distendeu o rosto num leve sorriso:
       O c num tem curpa de nada, era muito criana, gosto do seu rosto sei que fala a verdade:quero ser seu amigo, oc minha prima:
       Apertou a mo da moa com ar solene:Maria da Glria estava profundamente sria: Sentia que o moo possua um magnetismo impressionante: Tinha sido sincera, a amizade dele era-lhe muito importante. Dona Lucila interveio:
        J que somos todos amigos, podemos conversar alegremente;a tristeza precisa ser combatida, sempre destri nossas foras e nunca resolve nossos problemas.  
       - O que pretende fazer com tanto dinheiro?   perguntou Ins com vivacidade.  
        Nun sei ainda, pra diz a verdade nun penso em fic com ele: Vo resolv tudo e vort pra minha casa no mato.  
       As Trs olharam- no admiradas :
        No pensa em  ficar?    tornou D.    Lucila.  
        Quero i simbora logo.  Mais por otro lado, num quero deixa a casa e as coisa de minha me.   s por isso que t aqui.  
        E o dinheiro?    fez Maria da Glria, boquiaberta.  
        Num tem importncia.  Sempre vivi bem sem ele.  Nunca me farto nada.   Sempre fui livre, trabaiei quando quis, descansei quando tive vontade, tinha o cu, as estrelas,  a mata, tudo.  Sossego e paz.  Pra que mais?  As trs estavam sem saber o que dizer.  No esperavam por aquelas palavras.  
        Ento voc no gostou da cidade?  
        ,  tudo bunito, mas pobre.  Quase no se v as estrelas de noite.  
       E tem tanto barulho que os passarinhos tm medo de chega.  Ocs precisam v a alegria da mata, o prefume das planta, o sol parece que tem vida;e quando chove, lava a alma da gente.  Depois da chuva, as planta, as rvore, tudo parece que canta, as foia fica verde, bem verde, e os broto tm fora de nasce.  O lu, ento,  to bunito que a gente pode sonha co'as coisa boa que Deus fez.  Na cidade,  mais difcil v Deus.  No mato, a gente encontra ele em todo lug.  
       D.  Lucila olhou-o com carinho.  
        Voc  bem filho de Carolina.  Tem toda razo.  O homem na cidade tem se esquecido de Deus.  S tem ouvidos para o rudo forte da civilizao, perdendo de longe o gosto do belo, distanciando-se  mais da Criao.  As moas estavam admiradas.  Para elas, o serto, o povo inculto e pauprrimo, era incapaz de tanta sensibilidade.  No podiam deixar de dar-lhe razo, mas Maria da Glria objetou:
        Voc ama a natureza, mas tem que ver tambm que o homem precisa do progresso.  No pode viver isolado no mato para sempre.  H grandes coisas que o homem precisa aprender, e para isso tem que socializar-se , criar centros de estudos e de pesquisa onde deve melhorar as condies da vida humana.  
        O que oc qu diz com isso?  
        Que se no fosse o progresso, na cidade, ns ainda no teramos tantas descobertas que aliviam o sofrimento.  Os remdios, por exemplo, os mdicos, os dentistas, etc.  Eu admiro a natureza, mas acho que ns precisamos conviver em sociedade para podermos aprender uns com os outros.  
        Pode s... Mai nis temo os remdio que os ndio j cunhecia,  que alivia nossas d e cura nossas doena.  Meu pai, agora eu sei que era mdico, da cidade, nunca us remdio de botica, mai sempre dos ndio.  Curo muita gente desse jeito.  
        So pontos de vista, meu filho-a juntou D.  Lucila, sorrindo.  
        Acho que neste mundo h necessidade de vrios ambientes onde cada um tem a experincia que precisa.  
        A  senhora qu diz que uns nasce pra vive no mato e otros na cidade pru vontade de Deus?  
        Isso mesmo.  Tem muita gente que nunca saberia viver longe da cidade, assim como voc prefere viver l.  As pessoas so diferentes umas das outras, e cada um est sempre no lugar que precisa para progredir e aprender.  
        A  Sr.  a acha que eu vim pra c pruqu Deus quis e preciso de fica aqui?  
        Talvez.  O que podemos compreender com certeza  que Deus no permitiu sua volta enquanto sua me e seu pai eram vivos.  Voc nasceu aqui, pertence a este meio, mas foi afastado por que, no sabemos.   Agora, de repente, Deus o conduz de volta, quase contra a vontade colocando em suas mos uma fortuna.  Sabe o que eu acho?   
       Que voc tem alguma coisa a fazer aqui e que no poderia afastar-se  antes disso.  Depois, antes de ter vindo para c voc s conhecia aquela vida;mas agora, ser que se voltasse seria feliz?  
        Acho que sim.  T pensando.  Tambm acho que tenho que faz arguma coisa.  Num sei o que .   s dispois posso i embora.  Acho que  descobri o que fizero pra minha me e castiga os curpado.  
        Deus jamais apoiaria a vingana.  Jesus sempre ensinou o perdo e o amor aos inimigos.  
        Jesus?   Ovi fala muito poo dele.  Era Deus?  
        No, meu filho.  Era um esprito muito puro, que vivia em um mundo iluminado e perfeito;com pena dos nossos sofrimentos, ele quis nascer na terra como homem, e nos ensinou tudo o que precisamos saber para sermos felizes.  
        Ah! A senhora  pessoa de f.  Cunheceu ele?  
        Foi h muito tempo, mas quanto mais os anos passam, mais demonstram que ele estava certo.  Um dia, espero conversar com voc,  contar sua histria.  Seu pai nunca lhe falou sobre isso?  
        No.  Meu pai num era um home de reza.  Dizia que Deus est na natureza, no comando de tudo.  Que o home  abusado e marvado e mata as planta, os animal e at seus irmos.  Que quando Deus se zanga,  manda as praga.  Tremor de terra, seca, inundao, peste, doena, tudo.   Por isso ele num gostava dos home, mas gostava muito dos bicho e das planta.  Sempre ajudava eles no que podia.  Dizia que os ndio era mais bondoso e inteligente que os branco.  
        Voc concordava com isso?    perguntou Ins admirada.  
        Eu concordo.  Os bicho s mata quando tm fome, e depois que come deixa os resto prs otro que precisa.  Os home qu s dono de tudo e tira o po dos otro mesmo que num gente mais come.  
       Elas riram, admiradas.  
        Concordo  fez Maria da Glria.    A  ambio, o egosmo e a avareza do homem so evidentes.  Nesse ponto, perdem muito para os animais.  Voc revela muito conhecimento sem ter estudado o assunto.  
       Voc convivia muito com os amigos?  
        No.   Meu pai sempre me falava disso.  E quando ia na vila, sempre ficava sabendo mais de crime ou maldade do que de coisas boa.  
        Fico pensando como o Dr.  Euclides, um homem to bom, culto,  equilibrado, delicado, pode ter se modificado tanto, ter-se  tornado to amargurado to descrente e to rude.  Deve ter sofrido muito  tornou D.  Lucila.  
        Que ele sofreu, eu sei.  Era muito pequeno, mas me lembro que ele vivia desesperado;perguntei muitas vezes, quando o via chora, o que tinha acuntecido.  E ele sempre respondia que era a morte de minha me.  Mas s vezes eu pensava que ele tinha dio dela.  Num gostava de fala nela.  Eu tinha muitas sodades, preguntava, mas ele dizia que queria esquece.  E parece que esqueceu.  Nunca falava no passado e eu me acustumei.  Mai a sodade de minha me sempre teve cumigo.  
       Nesse instante, a copeira entrou com o carrinho de ch.  As moas observaram o rapaz disfaradamente.  Ele permaneceu pensativo enquanto o ch era servido, no querendo nada do que lhes foi oferecido nem torradas, doces, salgadinhos, etc.   Apesar da irreverncia dos cabelos compridos e mal cortados da barba e do seu falar caipira, o moo no se tornava ridculo.  Possua tal magnetismo no olhar que as moas acabaram at esquecendo essas discrepncias.  Aqueles poucos momentos de conversao, onde a sinceridade e a Inteligncia de Geraldo evidenciaram-se , fizeram com que elas, moas da cidade, instrudas e habituadas  vida em sociedade, o respeitassem.  Eram sinceras, e D.  Lucila sentia-se  feliz.   O filho de Carolina era moo bom, apesar da maldade de que fora vtima, no tendo tido a bno da escola e da instruo.  
       Aps o ch,  D.   Lucila tornou:
        Meu filho, trouxe comigo uma carta de Carolina.  Sempre quando eu viajava, ou ela, nos correspondamos.  Mas esta, em especial, ela deixou para mim, antes de morrer.  Foi-me entregue quinze dias aps sua morte.  Achei que gostaria de l-la .  Tem aqui tambm um retrato que ela gostaria que chegasse a suas mos.  
       Geraldo emocionou-se .  Com mos trmulas, apanhou o envelope sobescritado pela letra cujos contornos j conhecia de tanto fix-lo s na fotografia em seu quarto.   
       Abriu o envelope, e junto com a carta, em delicado papel rosa- claro,  estava um carto duplo cinza claro, que Geraldo abriu;continha dois postais.  Num deles viu, emocionado,  sua me,  muito moa, linda e bem vestida, ao lado de seu pai, olhos alegres e felizes voltados para ela com muito amor.  Entre os dois, um menino de uns dois anos mais ou menos.  Ele, com certeza.  Com um n na garganta, Geraldo fixou aquela cena feliz e bela.  Do outro lado, o retrato de sua me, mais velha e cabelos grisalhos, olhos serenos mas tristes;embaixo,  palavras escritas que Geraldo fixou com avidez.  
        D.   Lucila, tem hora que sofro muito por num sabe l.  Parece que t cego.  Meu pai pudia pelo menos ter me ensinado.  O que diz aqui?  
       Com carinho e lgrimas nos olhos, D.   Lucila aproximou-se  e leu:     ""Nossa vida, feliz e cheia de luz quando estvamos juntos, viveu na minha lembrana todos esses anos, e agora, que vou partir, tenho a certeza de que o amor que nos uniu ir comigo, onde eu estiver.  E para sempre estaremos juntos em minha lembrana, at que Deus nos permita uma felicidade do reencontro.  "
       Geraldo estava to comovido que no conseguia falar.  As moas, em respeitoso silncio, guardavam discrio.  D.  Lucila tomou a carta e leu:
        "Querida amiga Lucila.  Muitos anos j vivi neste mundo.  Sei que minha passagem de volta j est marcada.  Voc sabe que no levo mgoa nem rancor.  Crucificada no amor pelo abandono e sofrendo a separao do meu amado filho, luz de minha vida, perdoei os que me feriram pelas costas, na certeza de que a justia  obra de Deus.   Um dia, tenho a certeza, todas as coisas sero esclarecidas e recolocadas nos devidos lugares.  Apesar disso, apoiada na inocncia,  tenho esperado a ventura maior de ver meu filho antes de partir.   Essa espera tem alimentado toda minha vida, e voc, querida amiga,  sabe como tenho lutado para encontr-lo .  Tudo intil.   
       Deus no o conduziu para os meus braos.    Um dia saberemos por qu.  Quando voc ler esta carta, j terei partido.  Voc sabe a minha gratido por tudo quanto fez por mim, nos negros dias da minha vida.  Sem voc, sem sua f, sem essa doutrina luminosa que  o Espiritismo, onde encontrei recursos para suportar a vida, que aprendi atravs do seu corao amigo, talvez eu tivesse fracassado.   Graas a Deus, estou em paz.  Tenho a certeza de que tudo tem uma causa justa, embora no possamos compreender.   
       Um dia, estaremos todos juntos novamente.  Entretanto, se voc tiver essa ventura, peo-lhe que fale do muito amor que sempre tive por ele.  Quero ainda dizer, diante da morte que me ronda os passos, que sou inocente de tudo quanto me acusaram.  Tomo Deus por testemunha.   D-lhe essas fotos e que ele as conserve sempre, como nosso elo de ligao.  Reze por mim.  Seu bondoso corao sempre  ouvido pelos emissrios do bem.  Deixo a voc os meus livros espiritualistas.   Para evitar dvidas, coloquei isso em testamento.  Beija-lhe as mos,  agradecida, a amiga de sempre  Carolina.  "
       Lgrimas corriam pelas faces de Geraldo.  Voz embargada, no pde falar D.  Lucila, fisionomia comovida, buscava serenar a emoo.  As duas moas, disfaravam,  discretas, voltando o rosto para os lados,  tentando inutilmente impedir as lgrimas de fluir.  Passados alguns instantes Geraldo disse, com voz que procurou tornar firme:
        Ela sofreu muito.  Se morreu afirmando inocncia, foi pruque argum a firiu.  Argum que foi curpado de tudo.  Argum que v discubri e castiga.  
       D.   Lucila suspirou.  
        No alimente idias de vingana.  Se quer estar com ela um dia,  no tenha maus pensamentos.  Ela perdoou, voc viu.  
        Ela era uma santa! Eu num s.  Os curpado vai paga.  Ela falo dos livro.  A senhora j levo?  
        No.   Achei muito estranho: ela falou em testamento, mas este nunca foi encontrado.  Assim, os livros nunca me foram entregues.  
        S tenho raiva de num sabe l.  s veis chegava em casa arguma revista veia, trazida da vila, mas o pai ficava nervoso, e se eu num escondesse  bem, rasgava e jogava fora.  Nunca quis que eu aprendesse a l.  Agora eu teria gosto de l tudo que minha me escreveu, os livro que ela gostava.  
       - Se  voc quiser, eu posso ensinar -ofereceu Maria da Glria. 
         Afinal, somos primos e amigos.  Eu poderia ensinar-lhe o que eu sei,  e depois voc poderia contratar outros professores.  
         muita bondade sua,  prima.  Acho que v gosta de aprende.  
        Podemos comear amanh mesmo.  
        Eu s muito burro.  Espero num d muito trabaio.  
        Acho que no vai ser difcil.  Voc no tem nada de burro!   Declarou Ins com alegria.  
        Se  quiserem, posso colaborar.   Prontifico-me a ensinar-lhe um pouco de arte, pintura, desenho.  
        Pintura! ?    perguntou ele,  admirado.  
        E.  Precisa ir visitar nos.   Quero lhe mostrar alguns trabalhos meus.  
        Est vendo esse retrato de D.   Carolina?   Foi pintado por um artista que copiou olhando o rosto dela.  
        Puxa!  Oc sabe faz isso?  
        No to bem quanto esse pintor, mas estou esforando me.   Gostaria de ver?  
        Gostaria muito.  Num sei como se faz.  
       A tarde declinava e a conversa no salo continuava animada.   Geraldo, sempre s, calado e introvertido,  na presena daquelas trs encantadoras mulheres sentia-se   vontade encantado com o mundo que elas iam descortinando  sua volta.  Um mundo novo, que antes ele nem sequer imaginara.  Um mundo de beleza, amor e amizade, de sentimentos nobres que, sem que o moo caipira pudesse explicar ou definir, despertavam novos anseios em seu corao.  Vontade de indagar, de saber, de abrir as comportas de sua inteligncia para enxergar mais, encontrar respostas s suas indagaes ntimas.  Mas,  alm de tudo isso, era um reencontro de almas que, embora mergulhadas no esquecimento da carne, reconheciam-se  o entrelaavam-se , com alegria e naturalidade.  
       Quando elas retiraram-se , iam felizes e bem dispostas.  Geraldo iria no dia imediato  casa de D.  Lucila, visit-la s.  No automvel, as duas moas no escondiam sua admirao, externando seu entusiasmo.  
        Jamais eu poderia esperar que ele fosse to simptico!   comentou Ins.  
        Simptico e inteligente.  Aposto que ningum consegue engan-lo .  A minha me achando que o Dr.   Olavo pode ludibri-lo .  Garanto que ele sabe defender-se  muito bem.  
        .  Tambm acho.  Mas ele tem alma de artista.  No viu como fala da natureza?  Pena que no tivesse estudado.  
        No caso dele, acho at que foi melhor.  Conservou sua autenticidade.  J pensou no que ele poderia ser se tivesse estudado em algum colgio de padres e freqentado a nossa sociedade?  Talvez se tivesse corrompido.  No acha, D.   Lucila?  
        Eu sei  que o meio ambiente pode influenciar o jovem, mas quando ele tem qualidades de esprito, quando possui certas virtudes, acaba vencendo o meio e se revelando.  Acho que o nosso Geraldo  desses.  Tem muito magnetismo pessoal.   possuidor de forte personalidade, que at nos faz esquecer sua falta de cultura.  Aposto nele.  
       As moas sorriram a um s tempo.  
        Mame, pelo que vejo ele j lhe conquistou o corao.  
         verdade.  Ele entrou em meu corao como um filho muito querido.  S tenho medo do seu desejo de vingana.  Isso poder destru-lo! 
        Pois eu acho que ele tem razo tornou Maria da Glria, com certa veemncia Foi privado de tudo, criado no mato feito um selvagem, tia Carolina sofreu a vida inteira, caluniada e s, tio Euclides quase enlouqueceu de dor.  Largou tudo, posio, carreira, famlia, tudo, foi viver no mato.  Isso foi uma verdadeira tragdia! Se algum provocou isso deliberadamente, acho que deve ser punido.  No  justo, D.   Lucila, que isso fique impune.  Se fosse comigo, faria a mesma coisa.  No perdoaria.  
        Concordo que isso no deve ficar impune.  Mas no acho que temos condies de julgar, nem de exercer a justia com as prprias mos.  
        Tambm sou contra a justia com as prprias mos.  Mas esse crime, no h lei no mundo que possa punir.  A calnia, a honra da mulher enxovalhada, no h como ser defendida.  Nesses casos, acho que podemos agir por conta prpria e castigar os culpados.  
        Isso voc diz porque no acredita na justia de Deus.  Mas ela  lei universal e funciona para todos ns, dando a cada um o que merece.  A felicidade do mau  apenas momentnea, e ele sempre ter seu encontro com a justia divina, onde colher de acordo com o que plantou.  
        Como filosofia,  maravilhosa.  Mas na vida prtica no funciona.  
        Voc  que pensa.  Tudo vem a seu preo.  O que eu no duvido  que cada um responda pelo que fez.  Voc, minha filha, viver o bastante para comprovar isso.  Depois, no vejo razo para um moo como Geraldo, cheio de qualidades, anuviar seu corao pelo dio e pela vingana.  Creia me,  filha, a vingana  faca de dois gumes, atinge sempre quem a abriga no corao.  
        Quanto a isso, concordo.  Geraldo  um moo bom.  Seria uma pena amargurar ainda mais seu corao.  J sofreu o bastante.  Se ele esquecer essa histria, viver em paz.  
        Esquecer vai ser difcil ajuntou Ins, pensativa.   Seu afeto pela me  profundo.  Raia at o exagero.  Parece que a carncia de afeto foi tanta que a figura da me se fixou dolorosamente.  E quando pensa nela, como sofreu por estar longe dele, o quanto o amava, mais e mais sente mgoa contra os responsveis.  A senhora acredita, mame, que eles realmente tenham sido vtimas de algum, deliberadamente?  
       D.  Lucila suspirou fundo.  
        No ouso afirmar.   bem possvel que tudo no passasse de um plano srdido para destru-lo s.  Mas  melhor deixar isso de lado.  De nada nos adianta comentar o passado.  
        A  senhora,  to amiga de tia Carolina, nunca soube o que realmente houve?  Ela nunca lhe contou?  
        Carolina tambm no sabia muita coisa.  O que ela afirmava sempre, e do que eu tenho a mais absoluta certeza, [e que lhe imputavam uma culpa que no tinha.  Protestou inocncia at na hora da morte.  
        Pobre D.   Carolina.  Como deve ter sofrido comentou Ins, pensativa.  
         verdade.  Sofreu intensamente.  Mas era uma extraordinria mulher.  Inteligente, bondosa, sensvel e culta.  
        Pena que no me tivesse aproximado dela comentou Maria da Glria Em casa, comentavam que ela era orgulhosa e intransigente.  Como a senhora sabe, no gostava de ns.  
        Carolina no era intransigente.  Era uma mulher culta, com anos na frente da nossa gerao.  Mas a tragdia que a abateu tirou-lhe o gosto pela vida, afastou-a  do convvio social.  Pena que voc no a tivesse procurado e conhecido melhor.  Tenho certeza de que seriam excelentes amigas.  Ela apreciava sua maneira de ser, franca e decidida, longe dos preconceitos.  Alis, vocs duas tm muita coisa em comum.  As vezes,  voc, minha filha, chega at a exprimir-se  com as palavras dela.  
        Pode ser.  Se a senhora diz, eu acredito.  Tambm, meus pais so to fteis que por vezes nem eu os aceito! No  de admirar que tia Carolina tambm no os aceitasse.  Estimo-os,  por necessidade ou por dever, mas no me afino com sua maneira de ser.   
        Vejo que  compreensiva.  Mas no deve ser muito rigorosa com eles.  Afinal, cada um tem sua personalidade, e precisamos respeitar os outros.  No seu caso, ainda mais porque o dever nos ensina a amar os pais.  O carro deixou-a s em casa de D.  Lucila, e em seguida Maria da Glria foi para casa.  A moa no podia ficar para jantar com as amigas.  Sabia que sua me a esperava com impacincia.  
       Mal entrou em casa, D.  Renata foi logo perguntando:
        Ento, que tal?  Conseguiram v-lo ?  
       A moa assentiu com a cabea, enquanto descalava as luvas e colocava a carteira sobre o console.  
        Venha, filha.  Estou impaciente por saber.  Como  ele?  Bicho do mato mesmo?  
       - Olha, mame.  O diabo no  to feio como parece.  H muito exagero sobre ele.  
       - Sente-se  aqui filha, no sof, e conte-me tudo.  
       A moa sentou-se , sacudindo a cabea enquanto dizia:
        No h muito para contar.  Exceto que voc est enganada.  Ele  um moo bom, honesto, e acho que no necessita da nossa tutela.   Sabe defender-se  muito bem.  
        Mas ele  ignorante, no ?   No sabe nem escrever.  
        Quanto a isso  verdade.  No sabe ler e escrever, fala como gente do mato, mas isso porque viveu longe da civilizao e o pai no o deixou aprender a ler.   
       Mas  muito inteligente, sabe o que quer e acho que ningum conseguir ludibri-lo .  
        Ser que voc no est enganada?  
        No.  No estou.  Conversamos boa parte da tarde D.  Lucila e Ins tambm so da mesma opinio.  
        , mas ele expulsou seu pai de l.  
        No que fez muito bem.  Papai no o procurou como um tio.  Mas
       como a um ladro.  Levou at polcia.  
       D.   Renata ficou rubra.  
        Voc no pode ir contra seu prprio pai e acatar esse selvagem! 
        Meu pai no tinha o direito de agir pela fora.  E foi muito pretensioso querendo expuls-lo da sua prpria casa.  A fortuna de tia Carolina f-lo perder a cabea.  
        Meu Deus!  -lamentou-se  Renata.   Como voc pode ser assim?  Seu pobre pai foi posto para fora com violncia por aquele brutamontes, que o agrediu pela fora.   
       E voc ainda o defende?  
        Conheo papai.  Sei que no  nenhum anjo.  Alm disso, sabia que tia Carolina no o recebia.  Antes de ir l, deveria ter-se  feito anunciar, entrar em contato com ele de forma mais delicada.  Assim,  acho que teria sido recebido.  Mas chegou impondo em casa alheia e saiu-se  mal.  Acho que Geraldo fez o que qualquer pessoa faria.  
        E incrvel! Voc sempre  contra ns.  At com estranhos.  
        Geraldo  meu primo, mas mesmo que no fosse  um moo honesto que sofreu muito e merece nosso respeito.  
        Ah!  Agora  a vtima.  Rico, invejado, com uma posio que no sabe nem avaliar, tendo tudo a seus ps.  Voc enlouqueceu?  
        No, mame.  Mas acho que ele foi privado de tudo durante todos esses anos.  Tem o direito de se sentir lesado.  
        E essa agora! 
        Ele acha que na tragdia que envolveu a vida de seus pais existiu uma trama proposital para separ-lo s.  Espera descobrir tudo e punir os culpados.  
        Que absurdo.  Se algum teve culpa, foi Carolina.  Tinha um timo marido.  Devia t-lo respeitado.  
        Acho que voc no devia repetir essa calnia.  Tia Carolina no era leviana nem foi infiel ao marido, se  o que voc quer insinuar.  
        Como voc pode saber?  Por acaso viveu com eles?  Voc era beb quando tudo aconteceu.  
        Mas sei que ela era excelente pessoa.  Que amava o marido.  Por que iria tra-lo ?  
        Vejo que no adianta falar com voc.  Est suficientemente preparada por Lucila.  Ela era amiga e confidente de Carolina.  Com certeza quer acobertar a amiga.   
       S porque ela est morta, no vejo razo para torn-la  santa.  Era antiptica, excntrica, acho at que meio desequilibrada.  
        Pois eu acho que voc no deve falar de quem no conhece bem.   Alis, se ela no os recebia, devia ter seus motivos.  Qual foi a pea que lhe prepararam?  Logo que ela se casou, recebia-os com muito carinho.  
        Voc quer mesmo irritar me.  Como pode defend-la  e ir contra ns?    nossa filha.  Aquela mulher era intolerante e orgulhosa.  
        Mas vov amava-a  muito.  Falava dela com muito respeito.  Enquanto que mal tolerava papai.  
       Outra injustia que aquela mulher cometeu.  Intrigava meu pobre sogro contra ns.  Sofremos muito por isso.  
       Renata enxugou uma lgrima inexistente.  Maria da Glria impacientou-se :
        Deixemos isso.  No tem importncia.  S quero dizer que no precisam preocupar-se  com Geraldo.   Deixem-no em paz.   Sabe defender-se  muito bem.  
        Gostaramos de ajud-lo .  Somos seus nicos parentes.  Talvez precise de ns.  
        Por enquanto no manifestou desejo de receb-lo s, pelo contrrio; foi at muito sincero.  
        O que foi que ele disse?  Sabia que voc era sua prima?  
        Sabia.  Apresentei me.  Disse-me que no estava arrependido de ter posto papai na rua.  
        E contra voc?  
        Recebeu-me com cordialidade.   um moo de idias prprias e sabe que nunca participei de nada nas brigas de famlia.  Ficamos amigos.  
       Amanh, vamos nos encontrar em casa de Ins.  Ele quer aprender a ler.  
        Ah!  fez Renata com entusiasmo.   Isso  muito bom.  Quem sabe  um primeiro passo.  Afinal, o melhor  colocarmos uma pedra no passado e sermos amigos.  Seria muito bom vivermos em paz com esse pobre moo.  
        Geraldo no  "pobre moo".  Deixem no em paz.  O tempo pode apagar o ressentimento dele.   um moo bom.   s vocs no se meterem com ele.  No vai tolerar isso.   Agora vou subir, mame.   Tenho que estudar.  Enquanto a moa subia as escadas com graa, Renata, sentada no sof, seguia a filha com um brilho de satisfao no olhar.  
       
       
       CAPTULO 6
       
       
       Quando as trs saram, Geraldo permaneceu sentado na sala durante muito tempo.  Estava emocionado.  Seu pai ensinara-lhe a temer as mulheres; no entanto, aquelas eram encantadoras.  Sentia-se  atrado por elas,  no ntimo do corao.  A bondade de D.  Lucila o inundara de alegria,  rompendo as barreiras da desconfiana.  As duas moas, embora muito diferentes uma da outra, eram bondosas e sinceras.  Ins, doce e carinhosa, e sua prima, segura de si, prtica, honesta e franca.   Gostara delas.  Eram as primeiras amizades que fazia questo de manter.  
       O jardineiro e a esposa, eram seus amigos, mas elas tinham entrado em seu corao de forma diferente.  No via hora que a noite passasse para chegar o momento de rev-las.  Aprender a ler! O sonho realizado! Poder folhear as revistas e compreender o que estava escrito.  Abrir os livros e entender tudo! Naquele momento, Geraldo esqueceu sua casa humilde, o cu cheio de estrelas, o canto dos pssaros.  A nsia de saber, conhecer, aprender, dominava-o inteiramente, apagando todas as lembranas.   
       No desejava voltar.  Ao contrrio.  Comeava j a sentir o fascnio da nova vida.  Antnio veio  arranc-lo desses pensamentos.  
        Est pronto o jantar.  Pode servir?  
        Pode Antnio.  Oc conhecia elas h muito tempo?  
        Principalmente D.  Lucila.  Muito bondosa.  Ns devemos a ela
       muitos favores.  Quando o Dr.  Jos nos enxotou da casa, ela nos arranjou onde morar e at pagou nosso aluguel durante trs meses.   Eu tinha vergonha de pedir qualquer coisa, mas ela ia a nossa casa e sempre levava um cesto com mantimentos.  Se no passamos fome, foi graas a ela.  
        Num sabia.  Mas logo vi que era pessoa de cunfiana.  Gosto dela.  Se minha me  era amiga dela, s  pudia s boa.  
        Isso  verdade, D.  Carolina era muito cuidadosa.  E a apreciava muito.  
        E as moa, oc conhecia?  
        J.  Ins conheo desde que nasceu,  to boa quanto bonita;sua prima conheo pouco, mas me parece muito diferente dos pais.  Alis,  tenho ouvido contar que ela no se d muito bem com eles.  
        Como sabe?  
        Os empregados sabem muita coisa, e contam uns aos outros.  Ouvi comentrio na cozinha.  
        , ela  muito boa no pode se entende bem co'eles.  
        Vamos jantar, Geraldo.  
        Vamos.  Amanh v na casa de D.  Lucila.  Maria da Glria vai me ensina a l.  Antnio sorriu, satisfeito.  
        Boa notcia, Geraldo.  Eu sabia que esse dia chegaria.  Sabia que voc no ia aguentar muito tempo essa fiao.  A leitura  um dos grandes prazeres da vida.   como se um novo r indo se abrisse aos nossos olhos:o mundo do pensamento humano.  
        Cumo  isso?  
        Voc vai saber como os outros homens pensam.  Vai conhecer pela leitura os fatos que outros experimentaram.  
        Qu diz que as pessoas conta seus causo nos livros?  
         isso.  Mas tem pessoas com muitos casos interessantes para contar.  Voc vai ver.  
        Num vejo hora que chegue aminh.  
       Antnio riu.  
        Quero ver se voc vai ser um aluno estudioso.  Se vai aprender logo.  Tambm, com uma professora daquelas, todo esforo  pouco.  
        Maria da Glria  moa bunita, mais v estuda muito.  Quero aprende depressa.  Num vejo hora de pode l.  
       No dia imediato, Geraldo aprontou-se  cedo.  Marcara para as 14 horas,  mas ao meio-dia j estava pronto e impaciente.  Pela primeira vez preocupava-se  com a roupa, demorando-se  na escolha do que ia vestir.  Para facilitar, Antnio, com muito carinho, organizara seu guarda roupa, separando os ternos e os conjuntos com as camisas e gravatas que deveriam ser usadas, explicando ao moo a maneira de combinar as cores.  Mas ele, muitas vezes no concordando com o gosto do jardineiro, modificava tudo  sua maneira.  Apesar disso, no demonstrava mau gosto.  Conseguia efeitos mais vivos e alegres, que no fim Antnio aprovava.  As horas pareciam no passar naquele dia.  Geraldo almoou e mostrava-se  to impaciente que Antnio objetou:
        Calma, Geraldo.  O tempo vai passar.  
        Acho que v agora.  Num sei pru que essa histria de relojo.  Nomato, a gente num liga pra essas coisa.  T cum vontade de i v uma pessoa, vai e pronto.  Na hora que qu.  Num sei pru que na cidade  assim.  
         que na cidade as pessoas trabalham, estudam, e tudo  feito com hora marcada.  Se no fosse assim, seria muita confuso.  
        Mai eu num trabaio.  Num careo de relojo.  
        D.  Ins estuda de manh,  e D.   Maria da Glria tambm.  
        Mai j deve di t em casa.  Acho que num guento espera mais.  V agora mesmo.  Arranja um carro pra mim.  
        Acho que precisamos falar com Dr.  Olavo para apressar o recebimento do dinheiro.  Seria bom contratarmos um chofer e comprar um carro  para lev-lo a toda parte.  
        .  Na cidade num d pra i de ap.  Agora, vai v o carro.  V agora mesmo.  
        A inda  cedo.  
        Num faz mal.  V agora e pronto.  
       Antnio tentou dissuadi-lo , mas teve muito trabalho explicando que no ficava bem antecipar a visita, principalmente quando era a primeira vez e no havia intimidade entre eles.  Geraldo no se deixou convencer.  Antnio teve mesmo que chamar o carro.  Quase uma hora antes do combinado, Geraldo tocava a campainha da casa de D.   Lucila.  Era uma bela casa de dois pavimentos, grandes janelas de madeira pintada de bege escuro, as paredes creme com seus relevos caprichosos em branco.  Um belo jardim ao redor da casa, e na frente enorme porto de ferro pintado de preto, artisticamente trabalhado.  
       Convidado a entrar pela criada, Geraldo subiu as alvas escadas de mrmore que o levaram  varanda.  D.  Lucila recebeu-o  porta com carinhoso abrao.  
        Entre, meu filho, seja bem vindo  nossa casa.  
        Obrigado, D.  Lucila.  Antnio me disse que num fica bem chega mais cedo da hora marcada, mais eu num guentava mais de vontade de vim.  Acho que os relojo quase num anda.  
       D.  Lucila sorriu, compreensiva.  
        Fez muito bem.  Sempre que quiser venha aqui, que nos dar muito prazer.  Venha, vamos at a sala; Ins no demora.  
       Sentado em um gostoso sof, Geraldo tornou:
        Espero num ter vindo atrapai.  
        De modo algum.  Veio disposto a estudar?  
        Vim, quero aprende.   Num i di hoje que tenho e na vontade. 
        Vai aprender depressa.  As meninas esto chegando.  
       Maria da Glria almoara com a amiga e vertia ainda o vestido gracioso e elegante amarelinho claro com o qual havia ido  faculdade, seu rosto estava corado e bonito, bem cuidado, estava distendido em alegre sorriso, Ins vestia delicado vestido azulado que estava muito bem e, sua tez morena e seus cabelos castanhos.  Ambas cumprimentaram o primo entre risos e palavras gentis.  
        Vim disposta a ensinar comentou Maria da Glria.
       - Acho melhor comear.  
        Voc j almoou, meu filho?   perguntou D. Lucila?  
        J, Podemo comea mesmo?  
        Primeiro estudaremos, e depois Ins nos mostrar seus trabalhos.  
        Como oces quis.  
        Venha, Geraldo.  Passemos para a outra sala, 
       Em poucos minutos estavam sentados ao redor de uma mesa, onde a moa havia colocado uma cartilha, um caderno, lpis, borracha, Ins de um lado, Maria da Glria de outro.  E comeou para Geraldo um mundo de encantamento.  Apesar do prazer delicioso que a proximidade das duas moas lhe causava, lindas, perfumadas, atenciosas e amigas.   Geraldo entregou-se  avidamente na aprendizagem.  A moa ensinava-lhe as primeiras letras, que ele como que fotografava com a memria sequiosa, demonstrando pressa e muita vontade de aprender.  Elas entusiasmaram-se , quando ele conseguiu ler as duas primeiras lies sem nenhum erro, aplaudiram com entusiasmo.   
       A aula prosseguiu com alegria, e D.  Lucila interrompeu-os dizendo;
        Vamos tomar caf.  H mais de duas horas que vocs esto estudando,  e agora  melhor fazer uma pausa.  
        J fez Geraldo, admirado.  O tempo passara to rpido que ele nem percebera.  Foram para copa, onde a mesa posta com deliciosas guloseimas os convidava ao lanche.  
       Apesar das maneiras requintadas de suas amigas, Geraldo no se sentiu inibido diante delas, sentou-se  a mesa, onde, apesar de tudo,  sua simplicidade no foi comprometedora.  Mesmo tende sido criado como um selvagem, o pai nunca lhe permitia hbitos grosseiros na maneira da comer.  Fora uma das caractersticas que o Dr. Euclides no conseguiu perder.  Em sua choupana simples, usava o garfo e a faca, sempre, e at o guardanapo.  Ensinara o filho a comer decentemente, sem rudo e com a boca fechada.  Nada o irritava mais ou causava-lhe repugnncia do que comer desleixado.  Por isso, ao contrrio do que elas poderiam imaginar ele tomou o seu caf,  serviu-se  de po, manteiga e queijo com naturalidad e despreocupao, enquanto mantinham a conversao.  
       Maria da Glria sentia-se  fascinada pela marcante personalidade do primo.  Estudiosa dos assuntos do comportamento humano, interessava saber at que ponto o meio ambiente pode influenciar quando o indivduo traz em si os genes de ancestrais cultos e civilizados.   Geraldo era um sui generis.  
       Ins empolgava-se  com a pureza do moo, que se refletia em seu olho brilhante, curioso e vido, ao mesmo tempo que no se mostrava isento de, malcia, inteligncia e bondade.  Olhando para Geraldo,  Ins de repente sentiu-se  triste.  Era pena, pensou ela, contaminar a beleza daquela alma com a podrido social.  Por quanto tempo conservaria ele a prpria autenticidade?  Como poderia defender-se  da maldade e da hipocrisia dos outros.  
       Vendo-a  pensativa e triste, Geraldo observou:
        Espero no ter aborrecido oc com meu assunto.  Acho que to pensando s em mim e t abusando.  
       Ins sorriu com doura.  
        Voc jamais nos aborrecer.  Certos pensamentos s vezes atrapalha nossa alegria, mas a gente os manda embora e tudo passa.  
        No.   que eu pensava no mundo l fora, onde as pessoas no pensam como ns.  Vivem na mentira e no interesse material.  
        Quando eu morava no mato, o lug era chamado Dente de Ona.  Desde pequeno elas rondava minha casa, mais nunca conseguira me pegar.  Eu conhecia seus golpe.  Sabia do que elas tinha medo e s vezes saia int de noite, mais levava tocha de fogo e elas num chegava.  Na cidade  que tem gente igu s ona, t sempre querendo abocanha a gente, carece conhece seus costume e pronto.  Elas num pode faz nada.  Ins riu, desarmada.  A impresso de medo desapareceu.  Geraldo lia-lhe o pensamento.  Como pudera sentir sua preocupao?  
       Maria da Glria observou:
        Gostaria de ver como voc vai se sair aqui na cidade, Contra as feras do mundo civilizado.  Note;Geraldo que elas aqui so mais traioeiras do que l.  Sorriem pela frente e atacam pelas cosias, 
       - Sei disso muito bem.   Acho at que foi como derrubaram minha me.   Mai t de olho aberto.  Num pense, Ins, que fao amizade fcil.  At agora, Antnio e a mui tivero minha cunfiana.  Confesso que c'ocs tudo foi diferente.  Parece que sempre conheci ocs.  Nunca acunteceu isso cumigo.  T falando verdade, ocs entraro no meu corao como pessoa que quero muito bem.  Tenho a certeza de que so amigas de verdade.  Eu sinto isso.  Por isso t to feliz aqui.  Por isso num via hora de vim pra c.  Por isso t abusando tanto, falando o que penso e o que t sentindo.  Nunca acunteceu isso cumigo antes.  Foi a primeira vez.  
        Meu filho, fico comovida com sua sinceridade.  Pode abusar quanto quiser, nos dar muita alegria.  Espero que faa desta a sua casa a qualquer momento em que sentir vontade.  
        A  senhora  muito boa.   Acho que agora preciso ir-me embora.  
        De forma alguma fez Maria da Glria, aparentando severidade.  Voc no sai daqui to cedo.  A professora sou eu e ainda no o dispensei.  
       Ele olhou para Ins, como que querendo ouvir sua opinio.  Ela ajuntou:
         isso mesmo.  Depois, sou eu que deseja mostrar-lhe os meus trabalhos.  Acho mesmo que no ter outro remdio seno jantar conosco.  O olhar penetrante e firme de Geraldo tornou-se  suave e terno, enquanto dizia:
        Desse jeito, num tenho otro remdio sino fica.  
        Vamos  aula.  J perdemos muito tempo fez Maria da Glria, com energia.  
       Passaram para a outra sala, onde a moa ensinou o primo a escrever as primeiras letras e passou-lhe lio de casa.  E, quando deu por encerrada a aula;foi a vez de Ins conduzi-lo s a uma pequena sala que lhe servia de atelier, onde mostrou seus trabalhos.  Dona de delicado senso artstico, Ins tinha telas alegres e harmoniosas.   
       Algumas paisagens, alguns retratos, principalmente de crianas.  
        Gosto de pintar as crianas explicou ela porque guardam ainda muita sinceridade.  Falam o que pensam, sem fingir.  So mais autnticas do que os adultos.  
       Sobre uma mesa, uma pilha de desenhos a crayon, que foram folheando.  
        So trabalhos antigos, feitos h alguns anos.  
        Este eu conheo fez Geraldo, surpreendido.  
       Em cores pastis e com muita fidelidade, o retrato de um menino de rosto expressivo e inteligente.  
        Sou eu.  Num sabia que tinha feito o meu retrato.  
       A moa ficou um pouco embaraada.  
        ... Fiz.  Vi muitas vezes o seu rosto e quis pint-lo .   Minha me tem um retrato seu e eu o reproduzi.  Geraldo estava radiante.  
        Est mais bunito.  Merece faz um quadro, pindur na  parede.  
         um trabalho simples.  Se voc gosta, pode ficar com ele.  Apanhou uma caneta e  escreveu uma dedicatria:"Que a beleza pura do seu rosto de menino continue dentro de voc, mesmo quando a vida endurecer seus traos na experincia e a realidade se fizer mais rude.  Seja sempre assim.   
       Ins.  "Sem ler para ele, a moa enrolou o retrato e amarrou-o com uma fita azul.  
        Leve-o, Geraldo.  Uma lembrana minha.  
       Ele sentiu-se  emocionado.  No soube o que dizer.  Maria da Glria quebrou o instante um pouco embaraoso do moo comentando com alegria outros desenhos.  S s 21 horas foi que Geraldo saiu daquela casa.  Por ele ficaria at mais, mas teve medo de abusar.   Combinaram aula para o dia seguinte.  O moo ia feliz e emocionado.   Parecia-lhe que a vida tornara-se  maravilhosa.   
       Segurando o retrato com uma das mos, exultava ao pensar no dia maravilhoso que passara.  Aprendera as primeiras letras e sonhava poder ler.  Pena que ainda no pudesse.   
       Gostaria de ler o que Ins escreveu no retrato.  Ins era uma artista.  Nunca imaginara que algum pudesse ser assim, to inteligente.  Principalmente uma mulher.  Sempre pensara que a mulher fosse um ser perigoso e ftil, traioeiro e falso.  Seu pai sempre repetia essa opinio.  Agora sabia por qu.  Amara sua me, julgara-se  trado, sofrera muito.  
       Geraldo crispou as mos.  Algum levantara a calnia.  Sabia que seu pai era homem equilibrado.  Algo grave teria acontecido para que ele abandonasse tudo.  Sabia o quanto ele tinha sofrido.  Ouvira-o chorar muitas vezes nas longas noites de sua infncia, quando acordava com seus soluos que no ousava interromper.  Quando era pequeno ia abra-lo penalizado, e Euclides, contendo o pranto, procurava acalmar-se .  O menino percebia que era por causa de sua me.   Pensava em sua morte e na dor que; o pai sofria.  
       Contudo, agora que conhecia parte da verdade, podia avaliar a dor do seu pobre pai.  Quem seria o responsvel?   Tinha a certeza de que a me era inocente.  Algum planejara tudo.  Com que fim?   Acabaria por descobrir.  Eles estavam mortos.  Tinham sofrido muito e os culpados estavam impunes.  Tinham que pagar.  
       Quando o carro de D.   Lucila o deixou em casa, Geraldo entrou,  pensativo e srio.  Antnio perguntou:
        Como foi?   Teve algum problema?  
       A fisionomia do moo desanuviou-se .  
        Tudo muito bom.  Gente boa t l.  Num dexaro eu vim simbora.  
       Parece que eu tava na minha casa.  Aprendi a l as primera lio,  escreve e ganhei um retrato meu que a Ins tinha feito.  ia que beleza!  V p no quadro e pindur na parede pra todos v.  
       Abriu o retrato e Antnio apreciou.  
        Est muito bom.  
        L o que ela escreveu.  
       Ele leu e Geraldo ficou pensativo.  
        Que oc acha que ela quis diz?  
        Ela quis dizer para voc no mudar por dentro.  Apesar de rico,  moo e tudo, ter sempre o corao bom e puro que ela v em voc.  
        Ento ela qu que eu fique como eu sou?  
        .  Ela pede para voc no mudar por dentro.  Sabe que voc vai aprender muitas coisas na cidade.  Vai ler, escrever, conhecer gente,  pede para voc continuar sendo sempre bom como voc .  
        Ento ela acha que eu sou bom?  
        .  Aprecia sua simplicidade.  Na cidade, as pessoas so falsas.  
       Geraldo ficou pensativo alguns instantes.  
        Eu sei.  Meu pai me falava.  E minha me sofreu por isso.  Era o que eu pensava quando cheguei.  Mas v resolve tudo.  Oc vai v.  
       Naquela noite, Geraldo teve sono agitado, via o rosto de Maria da Glria repetindo as letras sem parar, o rosto de Ins suplicante,  ora via-se  no mato em sua cabana e uma ona querendo entrar, e por mais que fechasse a porta e a janela, uma sempre ficava aberta.   Acordou cedo e indisposto.  Vendo-lhe a fisionomia atormentada,  
       Antnio murmurou:
        A  emoo de ontem foi muito forte.  A aula,  tudo se embaralhou na sua cabea, e voc no dormiu bem.  Toma seu caf e tente descansar um pouco.  
        Num dianta.  Acordo cedo mesmo.  Oc sabe.  Mi  estuda.  Num quero faz feio e preciso aprender depressa.  Oc vai me ajuda quando eu tive atrapaiado.  
        Est bem.  Posso ajudar mesmo.  
       Assim que tomou o caf, o moo pegou o caderno e fez cpias sem parar.  Leu, releu as lies dadas, e na nsia de saber queria passar para frente, obrigando Antnio a ensinar-lhe o que no sabia.  
        Acho bom voc ir dar uma volta no jardim e descansar um pouco a cabea.  No vai aprender a ler em um dia.  Se ficar muito cansado,  no dar uma boa lio hoje.   
       Descanse, almoce, durma um pouquinho e se sentir bem para ir estudar  tarde.  
        Acho mi mesmo.  
       Espreguiou-se  e foi dar um passeio pelo jardim.  
       
       
       
       CAPTULO 7
       
       
       Nos dias que se seguiram, Geraldo continuou naquele encantamento de aprender.  Fazia rpidos progressos, e  medida que aprendia a ler ia percebendo as diferenas da sua maneira de falar.  No mato todos falavam igual a ele, mas na cidade o povo falava diferente.  Seu pai tambm falava como eles.  Tinha deixado Geraldo habituar-se  com o palavreado da vila sem interferir.  J que ele ia viver para sempre ali, pensava ele, o melhor era ser como os outros.  Mas agora, o moo,  inteligente e observador, percebia que sua forma de expressar-se  era incorreta.  Infelizmente, no sabia como melhorar.  
       Conversou com a prima a respeito, e ela aconselhou: No se preocupe.  Voc  muito inteligente.  Conforme for aprendendo a ler,  ir melhorando seu modo de falar.   
       No se apresse.  Deixe acontecer com naturalidade, para voc no ficar com defeitos no falar difceis de consertar.  
       Geraldo concordou, e as aulas continuaram regularmente, com evidente progresso do moo.  Maria da Glria estava orgulhosa do aluno, e no se cansava de comentar em casa com entusiasmo.  D.   Renata achava timo que o primo tivesse aceitado Maria da Glria, e acariciava o projeto de poder melhorar o relacionamento deles com o moo.  
       As coisas iam de mal a pior.  Todas as pesquisas resultaram na comprovao da autenticidade dos direitos de Geraldo, e quando o juiz determinasse o fechamento do inventrio ele seria certamente o herdeiro legtimo de tudo.  
       Por outro lado, a cada dia o Dr.   Marcondes tinha mais dificuldades em manter as aparncias de uma riqueza que j no possua.  O ltimo golpe do Jorginho nas corridas, fora arrasador.  Tivera sria altercao com o filho, a quem acusou de perdulrio e irresponsvel, e apopleticamente lhe dissera que no mais lhe pagaria nenhuma dvida.  Mas o jovem sacudiu os ombros, sem preocupar-se .  Sabia que o "velho" daria um jeito.  Gostava muito de manter as aparncias, no ia querer passar vergonha.  Queria ver o que ele diria quando o visse ganhar.  Sem pensar mais nisso,  arrumou-se  com esmero e perfumado, elegante,  saiu  em busca  da  sua pequena.  D.   Renata socorreu o marido trmulo e descontrolado,  recomendando pacincia e cuidado com o corao.  No que ele fosse doente, mas sua presso sangunea sempre subia nessas crises.  Tudo isso trazia o casal sob forte tenso.  A nica esperana tantos anos acariciada, a herana de Carolina, se lhes fugia das mos, tudo por causa daquele caipira indesejado e impertinente.  
       Dr.   Marcondes tinha mpetos de mat-lo .  Sentia-se  capaz disso sem o menor remorso.  Porm, sabia que no podia faz-lo .  Ir para a priso no era seu desejo.  Na verdade, o ideal seria mandar algum fazer o servio.  Mas no podia confiar em ningum para isso.  
       D.  Renata tentou conversar com o filho, pedindo-lhe quase suplicante que no fosse s corridas pelo menos por algum tempo.  O moo respondeu com displicncia.  
        Nesta terra sem graa, o que vou fazer o tempo todo?   No d,  mame, no d mesmo.  
       Ela suspirou, triste.  Parecia-lhe humilhante mencionar ao filho que estavam arruinados.  Vencendo a vergonha, comentou, tmida:
       - Seu pai atravessa sria crise financeira.  No tem como pagar as dvidas de jogo.  Est devendo muito dinheiro e cada vez se afunda mais.  
        Isso  porque ele no tem mais pulso para os negcios.  Ele  matreiro.  Gosta de queixar-se .  Ainda mais agora, que o caipira arrancou-lhe das mos a cobiada herana de tia Carolina.  A crise dele  por isso.   muito ambicioso.  Isso passa.  No se preocupe,  mame.  Ele est blefando.  
        E se no for assim?   E se o dinheiro acabar?  
        No quero pensar nisso.  Enquanto tiver,  para gastar.  .  E voc nunca foi "po-dura".  Vamos, sorria.  
       Renata procurou sorrir mesmo sem vontade.  O filho era to bom, to jovem, to confiante, pensava, to longe dos problemas da vida que ela no devia choc-lo .   
       Por isso, no tocou mais no assunto.  E as coisas a cada dia tornavam-se  piores.  Nutria esperana de poder fazer amizade com o sobrinho e conseguir para o marido a administrao dos bens.   Afinal, ele era irmo do pai de Geraldo.  Porque no podiam tornar-se  amigos?  Maria da Glria no queria aproximar seus pais do rapaz.   Embora sua me voltasse sempre ao assunto, insistindo para que ela tentasse a reconciliao, a moa duvidava dos propsitos de ambos.  No tinha iluses quanto ao seu carter.  Sabia que ambicionavam.  No queria problemas para o primo,  a quem muito apreciava.   Renata insistia.   Falava de seus bons propsitos de apagar a m impresso do moo para com eles.  
       Deixava a moa indecisa.  Se fosse s isso, seria bom que se conhecessem.  Geraldo poderia ir  sua casa e esse desentendimento desagradvel teria fim.  Mas por outro lado duvidava da sinceridade dos pais.  Como saber?   Prometeu interceder, pediu mais tempo.  
       Renata tinha pressa;mas, apesar de insistir, no conseguiu demov-la .  Naquela tarde de outono, Dr.  Marcondes chegou em casa desolado e plido.  Renata, vendo-o, assustou-se .  
        Jos, em casa a esta hora! O que houve?   No se sente bem?  
       Ele tirou o agasalho e deixou-se  cair no sof, desalentado.  
        Fala, homem.  Voc est plido.  O que aconteceu?  
        Tudo, Renata.   a vergonha.  O fim.  Hoje venceu uma letra do Jorginho de duzentos contos.  No pude levantar o dinheiro.  Os bancos no quiseram emprestar e no vamos poder pagar.  
       Renata perdeu a cor.  
       - O que vai acontecer?  
        Vo protestar.  E se no pagarmos ele poder ser at preso.  
        Precisamos fazer alguma coisa  balbuciou ela, torcendo as mos.    Nosso filho no pode ir parar na cadeia.  Que vergonha! 
        .  Eu sei.  E o pior  que vai sair nos jornais.  
        Nos jornais?  No pode impedir isso?  
         de lei.  A nica maneira seria pagar.  Mas como no temos o dinheiro... 
        E se voc procurasse o credor, pedisse para esperar mais algum tempo.  Afinal, ningum pode levantar uma importncia dessas de uma hora para outra.  
        J fiz isso.  Ele esperou dois meses e recusa-se  a esperar mais.   Jogou na minha cara que quem no tem dinheiro no deve jogar tanto.  O deslavado.  Ter que aguentar essa humilhao j foi muito duro.  Quisera ter o dinheiro para atir-lo com desprezo a seus ps.   Mas no temos.  
       Dr.   Marcondes tremia tanto que parecia ter febre.  Renata tomou herica resoluo.  
        Vou vender as minhas jias.  
        No as de famlia.  
        No sei se poderei poup-la s.  Poderia empenh-la s na Caixa Econmica.  
        Deus nos livre! Pagam pouco, e depois, somos muito conhecidos.  Meus amigos ficariam sabendo.  Foi uma idia boa.  Tenho a certeza de que esta crise  temporria, e depois lhe darei outras mais lindas.   Vamos vend-la s.  Apuraremos mais.  Sei de um judeu que compra tudo.    astuto negociante, mas honesto.  Conheo o preo real de cada jia sua.  Acho que faremos negcio e levantaremos a importncia necessria.  S o seu relgio de brilhantes vale bom dinheiro.  Veja-me as jias.  Vou agora mesmo.  
       Renata sentiu as pernas pesadas como chumbo.  Lentamente foi ao seu quarto e abriu a gaveta de jias.  Ela as venerava, todo dinheiro que lhe caa nas mos era para comprar jias.  Seu marido, conhecedor dessa predileo, presenteava-a  somente com elas.  Mandara embutir uma gaveta com segredo na cmoda, e nem os empregados sabiam que elas estavam ali.  Costumava apregoar que as guardava no banco, e sempre que tinham uma recepo, na frente dos criados, pedia ao marido para traz-la s.  Tinha horror de ser roubada.  Apanhou uma toalha de cetim que usava para envolv-la s e comeou a escolher as que venderia.  A cada uma que tirava da gaveta e colocava no pano, parecia que ia desfalecer.  Estava fazendo pelo filho seu sacrifcio mximo.  Quando pelos seus clculos julgou suficiente, fechou cuidadosamente a gaveta, enrolando as jias no pano e entregou-a s ao marido.  
        Ficaram quase que s as de famlia.  
       - Sei o que isto significa para voc, mas eu juro que vamos ter dinheiro novamente.  Custe o que custar.  No passaremos por humilhaes.  Renata tentou sorrir para o marido, mas as lgrimas rolavam de seus olhos pintados.  Dr.  Marcondes nunca a tinha visto chorar.  Sentiu-se  arrasado.  Tinha que tomar providncias com urgncia.  Soltando dolorido suspiro, apanhou as jias, colocou-a s na pasta e rpido saiu.  Quando Maria da Glria chegou da casa de Ins e olhou para a me, plida, abatida, macerada, sentada no sof,  compreendeu que algo de muito grave tinha ocorrido.   
       Nunca a vira daquele jeito.  Assustada, aproximou-se  indagando:
        O que foi, me, por que est assim?  
        Minha filha, aconteceu uma tragdia.  Ah! Que infelicidade! 
        O que foi?  Por acaso papai est doente?  Ou foi o Jorginho?  
        Antes fosse, minha filha.  Antes fosse.  Foi muito pior.  
       Renata contou o ocorrido com dramaticidade.  Maria da Glria suspirou fundo.  
        Fico admirada da lgica de vocs.  Isso tinha que acontecer mais cedo ou mais tarde.  E o pior  que ele nem  to culpado.  Vocs lhe deram tudo para ser como .  
        No fale assim.  Ele vai mudar.   muito jovem.  Vai aprender.  
       A moa irritou-se  e procurou controlar-se .  
        Quem vai ensinar?  S se for a vida, a cadeia e a pobreza.  Vocs so incapazes de traz-lo  responsabilidade.   absurdo pagar tudo,  acobert-lo nas coisas erradas que faz.  
        Como pode falar assim?  Ele  seu irmo! 
        Por isso mesmo.  Se fosse meu filho, eu o educaria diferente.  No lhe abriria as portas da vaidade excessiva, nem agasalharia seus erros.   J pensou que um dia ningum mais conseguir det-lo e ele acabar na sarjeta?  
       De plida, Renata tornou-se  rubra.  
        No lhe dou o direito de falar assim do seu irmo e com sua me.  
        Mas eu falo.  No posso me calar.  H anos assisto sem poder impedir ao que vocs fazem com ele.  Voc sabe a fama dele a fora?  Sabe?  As aventuras calamitosas, imorais, o desrespeito s moas, algum j lhe falou a respeito?  
        Ele  homem.  Quem tem filhas que as segure.  
         intil conversar com voc.  No quer entender.  E posso prever o que vai acontecer.  O dinheiro acabou, o que era de esperar se papai o atira fora de um lado e Jorginho do outro com uma pressa invulgar.  Agora, o que fazer?  Vender a casa na hora em que as jias acabarem?  E depois, e que far ele?  Trabalhar para sustentar-se ?  
        Que horror! Ele  muito criana para trabalhar! 
        Vinte anos.  H pais de famlia com essa idade ou pouco mais.  No podendo trabalhar porque, mesmo que resolvesse, no sabe fazer nada de til, o que far?  Quem o sustentar no luxo a que se habituou?   O roubo?  O crime?  
        Voc me mata! Nunca vi filha to perversa.  Parece que odeia o irmo.   isso.  Deve ter cime dele porque sempre foi o predileto.  
        Pense o que quiser.  Minha conscincia est tranquila.  Tenho pena dele.  Despreparado para enfrentar a vida.  Voc no v o abismo em que o esto colocando?  No percebe que ele precisa ser responsabilizado pelos seus atos para que consiga compreender o que fez?  Acho que papai no devia pagar essa dvida.  
        Deix-lo ser preso?  
       - O  susto seria salutar.  
        Nos odiaria.  
        Muito mais os vai odiar quando compreender as falhas da educao que recebeu.  
        No acredito.  Voc nem parece da famlia.   malvada, insensvel.  
       Maria da Glria suspirou,  resignada.  
        Voc se engana mais uma vez.  Previno-a  que de hoje em diante no cruzarei mais os braos.  Vou comear a agir.  
        O que vai fazer?  
        Falar com ele.  Tentar mostrar-lhe a realidade.  
        Probo-a  de envolver-se  com seu irmo.  Certamente pretende dizer-lhe essas barbaridades e que me disse.  
        Trata-se  de uma realidade que cedo ou tarde ele vai encontrar.   Como pode ser to cega?  No v que no h outra sada?  At quando conseguir iludir-se ?   No v que ele continuar jogando, perdendo,  gastando, e que papai no tem mais como pagar?   Acha que os credores tero complacncia?  Renata sabia no fundo, que a filha tinha razo; porm, ainda esperava um milagre, algum golpe fortuito que os tirasse do buraco.  
        No podemos desesperar.  Seu pai dar um jeito.  Tem nome, profisso,  trabalha, vai ganhar dinheiro.  
       -se  Jorginho parasse de gastar, no duvido que papai pudesse pelo menos manter nossa vida normal.  Porm, ele no ter condies de pagar as dvidas de jogo, e voc sabe disso.  Falarei com ele quer voc queira, quer no.  No posso pactuar com sua queda no abismo sem tentar pelo menos salv-lo .  
        Deixe-o em paz.  Para que perturb-lo ?  
       Maria da Glria ia responder mas conteve-se .  O que adiantaria?   Olhou o rosto da me e sentiu pena.  Avaliou o leviandade daquela criatura, que inconscientemente atirava o filho ao despenhadeiro do vcio a pretexto de am-lo e poup-lo .  Subiu ao seu quarto ruminando sua revolta.  No era o dio, pensava ela, que prejudicava as criaturas.  Quem nos odeia pode ser evitado, aliviado do nosso convvio.  Ela achava pior os que dizem amar e sob este pretexto corrompem e acovardam os seres amados.   
       Seus pais no tinham feito outra coisa a vida inteira com Jorginho.  Ele no era mau no fundo, pensava ela, mas fora totalmente estimulado a tornar-se  o jovem leviano, irresponsvel,  exibicionista que era.  Ele era o menos culpado.  A moa sentiu um aperto no corao.  As perspectivas no eram boas para o futuro.  No temia a pobreza.  Para ela no faltaria um bom emprego, j estava terminando a faculdade.  Assim que isto acontecesse, iria trabalhar.   Sabia que seus pais no aprovavam mas a moa estava disposta a enfrent-lo s com coragem.  A brigar e a deixar o lar, se preciso fosse.  Sempre fora preterida ao irmo, cujo temperamento cheio de artimanhas com os pais era bem diverso do da moa, mais objetiva,  mais leal, no aceitando o que julgasse errado ou prejudicial.   Tinha forte personalidade, o que no acontecera com o Jorge, fraco e leviano.  Os pais dificilmente conseguiam dobr-la .  Era firme obstinada quando tomava alguma resoluo, o que os enraivecia.  Mas a moa sabia que fora esta circunstncia que a impedira de sofrer tambm os desacertos afetivos do irmo.  Considerava o amor de seus pais perigoso, e no se deixava envolver por eles.  Era;porm, justa,  respeitosa.  Atenciosa e solcita.  Jamais deixava de reconhecer um erro seu.  Infelizmente, quase sempre eles  que estavam fora da realidade e no queriam enxergar.   
       Mesmo revoltada com a filha, D.  Renata inconscientemente a procurava quando tinha problemas.  E, mesmo no aceitando sua verso,  instintivamente sentia que ela estava com a razo.  
       Por isso, as palavras da filha a tinham deixado pensativa e assustada.  E se o que ela tinha dito fosse verdade?  E se Jos no conseguisse mais reaver a fortuna perdida?  O que seria deles?  
       Um arrepio de horror sacudiu-lhe o corpo, e ela no quis pensar nisso.  Certamente, seu marido conseguiria resolver o problema mais uma vez.  Pensou na imensa fortuna que fora parar nas mos daquele caipira.  Teve mpetos de mat-lo .  Se ele morresse, tudo se resolveria.  
       Era madrugada quando Maria da Glria escutou o irmo entrando em casa.  Esperara lendo, porque queria conversar com ele.  Desceu as escadas exatamente no instante em que ele, despreocupado, entrava na copa procurando algo para tomar.  Tinha sede.  Pelo cheiro, Maria da Glria percebeu que andara bebendo.  
        Voc acordada a esta hora?  Est doente?  
        No.  Estava lendo.  Ouvi voc chegar e acho que precisamos conversar.  
        Conversar?  A esta hora?  Tive uma noite cheia.  No foi nada boa.  
       Estou cansado e com sono Deixa para amanh, no  melhor?  
       Maria da Glria teve mpetos de gritar.  Olhou o rosto jovem conturbado, olhos injetados pelo excesso de lcool, voz empastada.   Teria tempo de tentar alguma coisa para afast-lo da runa?  Sentiu o peito oprimido e teve vontade de chorar.  Engoliu as lgrimas que no chegaram a sair.  Sabia controlar-se .  Teve muita pena dele, to jovem e to mal orientado.  Num mpeto, abraou-o dizendo:
        Jorginho, gosto muito de voc, sabe disso, no ?  
       Ele olhou-a  surpreendido.  
        Claro.  Voc  uma irm batuta.  Mas o que h?  
        H que no posso v-lo neste estado, jogando sua vida fora e perdendo tudo o que h de melhor.  
        Ora, ora.  Sermo a esta hora?  No v que estou cansado?  
        No  sermo, Jorge.  Voc sente-se  feliz fazendo o que faz?  
        Claro.  Sou feliz dentro desta estpida vida tanto quanto posso.   Procuro tirar tudo o que ela pode me dar.  
        Isso o torna feliz?  
        Enquanto estou l fora, esqueo tudo.  Mergulho nas emoes e no posso parar.  Em casa, durmo para esquecer.  O que posso querer mais?   Sou menino de sorte, tenho tudo! 
        Jorge, voc sabe que hoje mame vendeu suas jias para pagar suas dvidas de jogo?  
       Ele parou, surpreendido.  
        Tem certeza?  
        Tenho.  Quando cheguei em casa, ela estava plida e sofrida.  Voc sabe como ela gostava delas.  
       Por alguns instantes ele ficou srio.  
        Ento ela vendeu algumas jias! Foi um bonito gesto para salvar a pele havia um brilho irnico em seu olhar.  
        Salvar a sua pele.  
        No.  Eles pagam porque no querem passar vergonha.  Foi para salvar a pele deles.  Eles gostam do luxo.  Ficam felizes quando fao bonito.   No  qualquer um que pode gastar no jogo tanto dinheiro.  
        Mas o dinheiro acabou, Jorge.  Voc no percebe isso?  O dinheiro acabou.  Estamos arruinados.  Somos pobres.  
       O moo deu uma gargalhada.  
        Pobres?  Ns?  Est falando como o "velho".  Ontem ele veio com essa de no ter mais dinheiro.  Acho que  golpe dele.  
        Infelizmente,  verdade.  Acha que mame se privaria de suas jias se ele tivesse onde arranjar o dinheiro?  
       Ele ficou pensativo por alguns instantes.  
        , ela  apegada aos brilhantes.  Mas com certeza  coisa passageira.  Fase que qualquer um pode atravessar.  
        No , Jorge.  Eles no queriam preocup-lo , mas h mais de um ano nossas finanas vo de mal a pior.  Perdendo dinheiro, tudo, tudo,  podermos mudar o rumo das coisas, e voc, com suas dvidas de jogo,  contribuiu para isso.  Voc j tentou fazer um clculo de quanto j perdeu em dinheiro nestes anos todos?  
       Por um momento ele ficou srio, preocupado;depois, seu rosto distendeu-se  em sorriso.  
        Nossa fortuna  muio grande.  No pode acabar assim.  
        Mas acabou.  Estamos cheios de dvidas.  Os bancos no emprestam mais a papai e ele no pde levantar os duzentos contos que voc tinha que pagar hoje.  Por isso venderam as jias.  Por isso estou contando a voc.   preciso parar de jogar, mudar de vida.  Porque quando acabarem as jias, o que venderemos?  A casa?  Os objetos de arte?  O piano?  E depois?  Depois que perdermos tudo, ainda perderemos o nome porque no poderemos pagar as dvidas nem manter nossa vida como at aqui.  
        Jamais serei pobre.  Odeio a pobreza.  Ela alisou os cabelos dele com carinho.  
        No acha mais lgico no fazer mais dvidas, evitar o jogo?  
        No.  No acho.  Se estamos perdidos, s o jogo pode nos salvar.  Posso ganhar numa noite de sorte tudo quando perdi nesses anos todos.  
        Voc sonha longe da realidade.  O jogo no d dinheiro a ningum.   Ele tem servido para sustentar apenas quem o explora como negcio,  nos clubes e nos cassinos.   
       O jogador acaba sempre na misria e, o que  pior, s vezes nos negcios escusos.  Voc  jovem, inteligente, pode tornar-se  um homem til, trabalhar, vencer na vida.   
       Por que mergulhar no vcio deste jeito, comprometendo sua sade,  seu futuro, seu bem-estar?  
        Voc sabe que eu no sirvo para ganhar dinheiro, s sei gastar.   Sempre achei que o burro trabalha e o esperto gasta.  Eu me considero esperto.  Depois, no teria jeito para submeter-me ao trabalho a troco de uns mseros mil ris.  Seria humilhante.  
        Quando nos ocupamos com alguma coisa til, nem sempre  s por causa do dinheiro.  Podemos sentir a gratificao de criarmos ou realizarmos alguma coisa importante.   
       O prazer de construirmos o progresso ou de nos sentirmos capacitados e teis.  
        Isso no  para mim.  No tenho essas idias.  No saberia o 'que fazer.  Detesto estudar.  Depois, ainda  cedo para preocupar-me com a vida.  Quando eu acertar e derrotar a banca, voc vai ver que eu tinha razo.  Maria da Glria olhou para o irmo com infinita tristeza.  Como faz-lo entender?  
        Eu gostaria que voc percebesse que est destruindo sua vida,  colocando muitas iluses em sua cabea.  No v que a realidade  muito diferente?  Voc j viu algum tornar-se  rico  custa de jogo?   S os banqueiros.  O que temos visto  runa, desespero, e at suicdio,  como o caso do Dr.  Renato no ano passado.  
        No fique agourando.  Ele no teve sorte.  Comigo ser diferente.  
       Voc vai ver.  
        E se no for?  E se voc perder e nossa misria aumentar?  
       O rosto de Jorge contraiu-se  num ricto conformista.  
        Pobre eu no fico.  Posso jurar.  Se o dinheiro acabar, sempre se
       pode casar com moa rica;ou, se no der, a vida no vale muito mesmo.  Tendo tudo j  to sem graa, to montona, que pobre deve ser bem pior.  No encaro o suicdio como uma tragdia.  Acabar com tudo pode ser um alvio.  Mas estou cansado.  No tenho cabea para pensar nessas coisas desagradveis.  Voc tem cada uma! 
       Maria da Glria estava em pnico.  Percebia que seu irmo j fora muito mais longe do que ela ousara pensar.  Talvez fosse tarde demais para salv-lo .  Abraou-o com carinho, sentindo um peso no corao.  
        Jorginho.  Pelo menos prometa-me que por algum tempo no vai mais jogar.  O rapaz riu, despreocupado.  Abraou a irm, dando-lhe sonoro beijo na testa.  
        Sabe o que voc parece?  Uma velha mame.  Sei o que estou fazendo.  Se estamos com pouco dinheiro, agora  que no devo parar.  
       Ou tudo ou nada.  A sorte vai decidir.  Ou eu ganho tudo ou perco tudo.   emocionante.  No se preocupe por mim.  Sei cuidar da minha vida.  Agora, Mariinha da Glorinha, vamos dormir.  
       Ela suspirou,  preocupada.  
        Certo.  Vamos dormir.  Mas prometa pensar no que eu lhe disse.  
       No quero que voc sofra.  A desiluso  muito triste.  
       Ele sorriu confiante.  
        Comigo ser diferente.  Nasci com uma boa estrela.   Voc ver.  
       Maria da Glria no conseguiu conciliar o sono naquela noite.  Seu
       irmo parecia-lhe perdido.  Cnico, parecia divertir-se  com a preocupao dos pais em relao a ele.  Chegava at a querer provoc-la .  Como mostrar-lhe o abismo em que descuidadamente se atirava?  Como faz-lo enxergar?  
       No dia seguinte, a moa estava abatida e muito cansada.  Porm, no quis perder a aula, foi  faculdade.  No viu ningum em casa quando voltou.  Seu pai no viria para o almoo.  A me, sofrida e mal  dormida, no sara do quarto, l tomando a refeio;o irmo, como sempre, dormia.  Isso deixou-a  mais deprimida.  Mal tocou nos alimentos e, muito antes da hora costumeira, dirigiu-se   casa de Ins.  A aula do primo seria mais tarde, mas ela precisava do apoio daquelas excelentes amigas para poder acalmar-se .  
       D.  Lucila abraou-a  com carinho.  
        Ins est no atelier.  Voc quer ir l?  
        Gostaria de falar um pouquinho com a senhora.  Estou precisando de uma injeo de nimo.  Infelizmente, estou muito preocupada.  
       - Sente-se  aqui, minha filha, e fale.  
         meu irmo, D.   Lucila.  
       Segurando a mo da moa com carinho, D.  Lucila deixou-a  extravasar toda preocupao.  Ouviu em silncio, porm com muita ateno.  Seu rosto bondoso refletia compreenso e solidariedade.  Maria da Glria terminou:
        Estou chocada.  Acho que ser difcil fazer alguma coisa por ele.   J  muito tarde.  Devia ter tentado h mais tempo.  Mas me omiti.   Tambm tenho culpa.  Pago por omisso.  
        No diga isso, filha.  Nunca  tarde para tentar salvar algum da queda.  Voc fez muito bem conversando com ele.  
        Foi intil.  Ele no concordou comigo.  No consegui nada.  
        Voc semeou a verdade.  Por mais que ele se defenda no querendo v-la  ou aceit-la  para no ter que lutar para mudar, suas palavras estaro dentro dele, como uma semente.  Tudo quanto plantarmos de bom no corao dos outros dar frutos um dia.  
        Acredita ento que ele poder mudar?  
        Todos podemos mudar quando queremos.  O importante  querer.  
        .  Isso ele no quer.  
        Mas voc deve continuar a conversar com ele.  O dilogo amoroso opera verdadeiros milagres.  Voc fez muito bem em no criticar suas atitudes.  Ele precisa de afeto e compreenso para poder enfrentar a realidade que ele teme e repudia.  Seu irmo  um esprito fraco.  S conseguir vencer o problema se voc o ajudar.   
       Voc  uma moa forte e lcida, sabe discernir.  Com ele, o amor, a compreenso, o carinho  que vo dar acesso ao seu raciocnio todo deturpado em conceitos fora da realidade.  
        O que acha que eu posso fazer?  
        Conversar com ele.  O mais que puder.  No mencione mais o Jogo ou pea para ele abster-se .  
        Mas ele no pode jogar mais.  Meu pai no tem dinheiro para pagar.  
        Voc sabe disto.  Ele recusa-se  a ver.  Quer continuar acomodado,  levando a mesma vida de sempre.  Quem sabe a impossibilidade de seu pai saldar uma dvida o conscientize da verdade?  
        Tenho medo da sua reao.  
         por isso que eu acho importante seu apoio amoroso.  Converse com ele, tentando pouco a pouco interess-lo em alguma coisa boa.  Jorginho no  mau.  Acredito que possua talentos ou qualidades ocultas que voc precisa descobrir, trazendo  tona.  Valorizar suas qualidades  fator mais importante para que ele se modifique.   
       At agora ele tem se apoiado no dinheiro, no nome da famlia, no prestgio social que tem lhe aberto todas as portas.  No se julga capacitado a viver de outra forma.   
       Voc precisa desenvolver nele a autoconfiana na prpria capacidade.   preciso que ele enxergue e saiba que tem outras opes na vida.  Pelo que me consta, ele pensa que s pode viver como sempre viveu.  Chegou at a valorizar o suicdio como alternativa rebelde de no aceitar a verdade.  
         isso o que eu temo.  
        Voc sabe que ele no ser poupado pela vida.   isso o que a preocupa.  Ver que ele tem plantado iluses e certamente sabe que fatalmente dia vir em que elas cairo por terra.   natural.  Por isso teme que ele no possa suportar o choque da dura realidade.   Voc pode tornar-se  para ele o apoio afetivo, a criatura em quem ele confie, a ponto de procur-la  quando sentir-se  infeliz ou desiludido.  
        Ah! Se eu pudesse! Acho que isso o ajudaria muito.  
        Voc pode.  Tem todas as qualidades para isso.  Seu irmo vive muito s, apesar de mimado.  Procure-o para conversar.  Assuntos agradveis mas construtivos, sem aluses ou indiretas aos problemas dele.  Sem tentar ministrar-lhe lies de comportamento.  Isso anularia todo seu trabalho com ele, colocando-o na defensiva.   preciso que voc esquea as fraquezas dele.  Nunca as mencione nem por distrao.   Seja sincera, o que lhe  fcil, seja interessante com ele, o que tambm no lhe ser difcil.   
       Voc tem uma conversa muito atraente e agradvel.  Discuta com alegria e inteligncia sobre todos os assuntos.  Procure descobrir-lhe as preferncias e converse, sem questionar seu comportamento,  apenas valorizando-o como pessoa humana.  Ver como ele vai responder a essa atitude tornando-o seu amigo, voc tem muita chance de ajud-lo .  S assim poder conseguir o que deseja.  
        Tem razo, D.  Lucila.  Ele precisa confiar em mim.  Eu j devia ter feito isso h muito tempo.  Conseguirei agora evitar o mal?  
        O futuro pertence a Deus, mas quando semeamos o bem tudo pode acontecer.  Depois, voc tem o recurso da prece.  Deus pode fazer tudo quanto ns no podemos.  A f remove montanhas.  
        Quisera ter f como a senhora! Infelizmente, a religio no me seduz.  No consigo aceit-la .  
        Talvez voc no esteja seno recusando aceitar a religio dos homens.  
        A  senhora pensa diferente.  Eu sei.  Algumas vezes fico pensando se a vida continua mesmo como a senhora acha.  Confesso que tenho um pouco de medo.  
        De qu?  De descobrir que continuamos a viver depois da morte?  
        No sei explicar.  Este assunto sempre me arrepia.  
       Lucila sorriu, calma.  
       -se  voc quiser, tenho livros sobre o assunto que certamente vo dar-lhe uma viso muito clara e objetiva  base da cincia.  Acho mesmo que j  hora de ler essas coisas.  
        D.  Lucila.  Se a sua crena tem-lhe dado tanta serenidade, tanta fora, tanta compreenso, no precisa de outro argumento.  Terei prazer em ler esses livros e em conversar sobre eles com a senhora.  
        Muito bem, minha filha.  Hoje mesmo escolherei um para voc.  Tenho a certeza de que vai gostar e interessar-se  muito.  
        S em falar com a senhora j estou mais calma.  Quanto a prece quer faz-la  por mim?  Acho que Deus a ouvir melhor.  
       Lucila sorriu com certa malcia.  
        No acredito.  Um corao franco e sincero como o seu certamente tem muito crdito l em cima.  Certamente farei preces por vocs,  mas experimente conversar com Deus com toda sinceridade.  Disse Jesus que quando quisermos orar no precisaremos de muitas palavras.  Basta nos recolhermos ao compartimento secreto do corao e Deus nos ouvir.  Por que no experimenta?  Sentir-se   mais forte e mais calma com os recursos da prece.  
       Maria da Glria olhou-a  com seriedade.  
        Tentarei murmurou pensativa.  
       Quando Geraldo chegou, vinha cheio de pacotes.  Pedira a Antnio sugestes, porquanto a amizade e os favores daquelas mulheres o comoviam muito, Desejava retribuir a gentileza de alguma forma.  
       Antnio sugerira algumas guloseimas para o lanche, j que o moo sempre lanchava na casa, ficando muitas vezes para jantar.  Achava que no momento era o mais adequado para no ferir a suscetibilidade e a delicadeza daquelas criaturas.  Encomendara doces e salgadinhos finos e bombons.  Geraldo parecia uma criana em dia de festa, o que fez Maria da Glria perder um pouco o ar de preocupao.  Dava gosto v-lo enquanto as moas abriam os pacotes e comentavam que a aula seria prejudicada pela vontade de tomar o lanche mais cedo.  H dois meses que Geraldo frequentava as aulas,  quatro vezes por semana.  Tal era seu entusiasmo que j terminara a cartilha e iniciara-se  no primeiro livro.   
       Possua memria prodigiosa e dificilmente esquecia o que ouvia em aula.  J conseguia ler, com alguma dificuldade, trechos das noticias dos jornais e das revistas, o que provocava-lhe grande entusiasmo.   Sua maneira de falar tambm modificara-se  um pouco.  J agora misturava palavras com menos sotaque caipira, embora ainda conservasse basicamente a mesma forma de expresso.  Mas,  medida que aprendia a ler e escrever as palavras corretamente, soletrava-a s e procurava pronunci-la s com perfeio.   
       Sua insistncia nesse ponto divertia as moas, que compreendiam o esforo dele para aprender a falar certo.  Mas, no conversar, ele muitas vezes queria empregar essas palavras e misturava-a s,  provocando hilariedade delas, que o aconselhavam a no se preocupar excessivamente com esse ponto;eram de opinio que, quando ele melhorasse bem a leitura, venceria certamente o problema.  
        No se preocupe, Geraldo, quando conversa, em pronunciar as palavras como no livro.   Essa preocupao no momento dificulta sua forma de expresso.  Tenha pacincia, que quando estiver mais desembaraado na leitura, exigirei que leia em voz alta todos os dias durante uma hora, e ento ver que naturalmente sua maneira de falar ir se tornando correta sem afetao nem distoro.  
        Eu, particularmente, adoro seu modo de falar, to espontneo e pitoresco.  Pena que queira mudar comentou Ins.  
       Geraldo olhou-a  surpreendido.  
        Acho que quando falo s diferente das pessoas daqui.  No quero envergonha meus amigos.  
        Na verdade, tem razo concordou Maria da Glria.   Sua posio social requer educao e apresentao.  Eu tambm aprecio sua maneira, de ser, de falar, sua simplicidade, tudo, mas infelizmente em sociedade essas coisas so importantes! Sc voc quiser, posso orientar seus estudos para que represente dignamente na sociedade o nome da famlia,  sem que ningum possa criticar sua maneira de ser.   Mas ainda acho que o mais importante ser sempre sua maneira de agir, sua honestidade e sua moral.  Isso realmente voc tem e sempre ser respeitado, embora alguns mais fteis possam comentar suas maneiras simples.  
        Gostaria de no ser motivo de anedotas como j li num jornal.  
       Voc entende.  A piada sara como uma aluso a Geraldo, um caipira arrebatando um saco com um cifro enorme, rindo sorrateiro e dando uma rasteira num cidado super- refinado, que caa no cho ao lado de um carro, enquanto dizia:"O bom- bocado no  para quem o quer mas para quem o come.  " Modificando o provrbio, mas certamente referindo-se  ao Dr.  Marcondes, cuja situao j comeava a ser conhecida.  Se Geraldo sentira-se  chocado com a charge, Dr.  Marcondes quase tivera uma sncope.  Telefonou ao jornal e os ameaou de processo se continuassem com a brincadeira.  Estava indignado.   Intil, entretanto, sua indignao.  Jornal dedicado a piadas e muito lido na poca, reproduziu na semana seguinte outra charge:uma raposa meio velha e de rosto meio parecido com o Dr.   Marcondes presa numa armadilha, enquanto um caipira com cara de malcia saboreava lindos cachos de uvas de uma parreira.   
       Dizia a legenda: "A astcia do caipira vence a velha raposa da cidade.  "D.  Renata a custo conseguiu evitar que o marido fosse ao jornal para uma briga.  
        No adianta.  Voc no v que esse pasquim s vive do escndalo?   Quanto mais voc se irrita, mais eles tm assunto.  O melhor  esquecer.  
        Voc diz isso porque no v o jornaleco nas mos dos meus amigos,  que me olham com malcia.  At no frum ele anda circulando para me desmoralizar.  Quando penso que aquele maldito caipira  a causa de tudo, tenho mpetos de estrangul-lo .  
        Calma.  Sua irritao de nada vale.  Maria da Glria est em bom relacionamento com ele.  Quando pudermos nos relacionar, tudo ficar bem.  Os maldizentes tero que calar.  Depois, precisamos do dinheiro.   Ainda no desisti da idia de voc administrar aquela fortuna.   de direito e muito justo! 
         s isso que me segura.  Seno, acho que eu acabaria com ele.  
        Para acabar os dias na cadeia?  
       Dr.  Marcondes suspirou fundo.  
        Como tenho sofrido! Ter que aceitar essa injustia! Esse boal pavoneando-se  com o dinheiro que ele nem sabe usar.  E o cmulo do desperdcio! 
        Estive pensando.  Maria da Glria gosta muito dele.  Est ensinando-o a ler.  Quem sabe isso no termina em casamento?  
        O qu?  ! ! Casamento?  Ela, com a cultura que tem, com um idiota daqueles?  No acredito.  
        Ele no  nenhum idiota.  Ignorante sim, mas esperto, isso ele .  Se os dois se casassem, a fortuna seria nossa! 
        Puxa! Eu nunca pensei nisso! 
        Pois .  Eu pensei.   Ela fala muito nele.  Gosta dele, aprecia-o.  Quem sabe se isso j no  um comeo de namoro?  
        Alis, j era hora dela pensar em casamento.  J est passando da idade.  Logo mais, ser difcil casar.  At agora, recusou todos os pretendentes.  Se casasse com um homem rico, poderia resolver nossa situao.  Seria boa soluo.  
        Por que no com ele?  
        Embora eu o deteste, o dinheiro viria em boa hora.  Voc acha mesmo que h alguma coisa entre eles?  
        Bem, ela no conta, mas pode bem ser.  Afinal, nossa filha  muito bonita.  
        E, mas muito instruda.  Isso a prejudica, na minha opinio.  Mulher deve ter classe, ser bem educada, mas no muito instruda.  No h homem que aguente a sabedoria da mulher.  
       Renata suspirou.  
        Aquela menina  muito independente.  No aceita nossa orientao.   Se ouvisse meus conselhos, j estaria muito bem casada e feliz.  
       - Se  no podemos cas-la  com um homem rico, o Jorginho  mais malevel.  Quem sabe, talvez se decida a um bom casamento para solucionar nossos problemas.  Afinal, ele  quem mais precisa de dinheiro.  No sabe viver sem ele.  
        Jorginho  muito criana.  Quem tem idade para casar  a Maria da Glria.  E o partido ideal ao primo.  Depois, a fortuna tambm nos pertence de direito.  Seria de justia que nos viesse s mos.   Poderamos administr-la .  Ao passo que ele, sabe Deus o que far com tanto dinheiro.  Dr.  Marcondes ficou pensativo por alguns instantes.   Seu ar preocupado acentuou-se .  
        Renata, seja o que for, case-se  ela com quem puder, ou quiser, o que sei  que no vamos poder manter nossa situao por muito tempo.   Se nos aparecer alguma conta grande, no vamos poder pagar.  A, nem quero pensar.  .   .  
        Acho que est na hora de insistir com ela.  Deixe comigo.  Vou comear a agir.  Na casa de D.  Lucila, o ambiente estava alegre e tranquilo.  Maria da Glria adorava aquelas horas em que se reuniam ali, numa atmosfera alegre e serena.  Aquela casa, aquelas amizades,  representavam para a moa verdadeiro refgio do ambiente desagradvel de sua prpria casa, onde a tenso e os desentendimentos pareciam insolveis.  Ali, eles se afinavam, falavam de assuntos interessantes e trocavam gentilezas com simplicidade.  
       Geraldo afinara-se  com elas a tal ponto que a diferena de instruo e de cultura no chegava a dificultar, porquanto ele,  vivo e inteligente, tinha personalidade marcante, opinio prpria, que expunha  sua maneira mas com uma lucidez que as deliciava.  Por vezes, ao lanche, elas contavam algum fato, social, poltico, histrico, que ele com ateno procurava entender e analisar, perguntando os detalhes em sua curiosidade em enxergar o mundo do qual vivera sempre afastado.   Ele ento falava contando a linguagem da floresta, os costumes dos ndios que conhecera de perto, os segredos da natureza que aprendera a observar no seu estreito contato com ela.  As trs ouviam no maravilhadas, esmiuando os detalhes de tudo, na revelao de um mundo fascinante que lhes era completamente desconhecido.   Assim, as horas decorriam agradveis, e para Maria da Glria representavam verdadeira injeo de bom nimo.  
       Reunidos em volta da mesa bem posta na copa, eles conversavam.  D.   Lucila, na cozinha, verificava alguns problemas domsticos quando a criada avisou que tinham visita.  Ins levantou-se  para atender e Geraldo, aproximando-se  da prima, perguntou:
        Oc  t triste.  O que aconteceu?  
       A moa sobressaltou-se .  
        D para perceber?  
        No tanto.  Mas eu sinto que oc t triste.  Posso ajuda?  
       Havia um aceno especial na voz do rapaz.  Sentia um carinho muito grande para com ela, to inteligente e culta, dando-se  ao trabalho de ensin-lo a ler.  
        Acho que no.  Problemas de famlia.  
        Algum doente?  
        No.  So vrios problemas.   Principalmente com meu irmo.  
        No qu me conta?  No tem confiana em mim?  
        No  isso, Geraldo.  No tenho direito de entristec-lo com meus problemas pessoais.  O moo ficou srio.  
        Num fala assim.  Sou seu primo e muito seu amigo.  Quando sou amigo, sou mesmo.  Se no me conta, vou pensa que no confia em mim.  
       A moa sorriu, reconfortada.  Sabia que o primo era sincero.  
        Est certo.  Prometo que conversaremos sobre isso.  J que quer
       carregar o peso das minhas preocupaes.  
       A moa sorria, mas havia emoo em seus olhos.  No chegou a terminar, exclamando surpreendida:
        Mame! Voc por aqui?  
       Renata, acompanhada por Ins, entrava na copa.  Geraldo levantou-se  um pouco constrangido.  Maria da Glria, um pouco ruborizada pelo inesperado da situao.  Felizmente D.  Lucila voltava, e vendo Renata abraou-a  com delicadeza.  
        Ora, que alegria.  Finalmente nos visita.  Como vai?  
        Muito bem.  Passei por aqui apenas por alguns minutos, no quero incomodar... Mas tenho um ch beneficente e preciso falar com voc.  Sei que entende desses assuntos.  
        Terei gosto em fazer o que puder.  Deixe-me apresent-la .  Acho que ainda no conhece o sr.  Geraldo, ou j?  
        A  ltima vez que o vi,  tinha dois anos.  Jamais o teria reconhecido.  Como vai, meu filho?  
       Apesar do tom amvel, a presena daquela mulher o incomodava.  
       Olhando-a  de frente, tentando deixar de lado os ressentimentos por causa de Maria da Glria, antipatizou com ela.   falsa, pensou decepcionado.  Renata no tirava os olhos dele, com curiosidade.  No o achou to mau como pensara.  Os olhos de Carolina e a postura dos Marcondes.  O deixou pronunciado do pai.  S ao v-lo sabia que realmente era da famlia.  
        V bem, obrigado.  
        Aceita lanchar conosco?  Nos dar muito prazer convidou Lucila,  querendo coloc-lo s a vontade.  
       Enquanto Renata acomodava-se  em frente a Geraldo, Maria da Glria,  mais refeita da surpresa, a custo controlava a contrariedade.  Devia ter percebido que a me no aguentava mais a curiosidade.  Era bvio que estava tentando uma aproximao com o sobrinho.  De repente, a atmosfera ficou tensa.  Geraldo emudeceu, Maria da Glria perdeu o assunto e tanto Lucila quanto Ins procuravam, com delicadeza,  conduzir a conversao de maneira impessoal e agradvel.  Mas Renata estava decidida a falar com Geraldo.  Mal tocou no ch beneficente que dizia pretender realizar, mas tentava conversar com o moo, que mal respondia a suas perguntas.  
        Est gostando da cidade?  
        T.  
        No estranhou o barulho?  
        No senhora.  
        Ah! ... Tem passeado muito?  
        Um pouco.  
        Voc  sempre assim to pouco falante?  
        Depende.  Falo quando tenho vontade.  
       A voz do moo estava um pouco tensa.  Maria da Glria interveio:
        Mame.  Voc est sendo um pouco insistente.  Afinal, no veio tratar do ch?  
         sim, filha, vim.  Mas como encontrei aqui o famoso sobrinho, de quem voc fala tanto e to bem, fiquei emocionada.  Desde que chegou eu tinha vontade de visit-lo .   
       Afinal, voc  da famlia, est s.  Mas fiquei acanhada.   No quis incomodar.  Voc tem os mesmos olhos de Carolina.   mesmo muito parecido com ela.  Os olhos de Geraldo lampejaram por breves segundos.  Decididamente, no gostava daquela mulher.  Entretanto, no querendo magoar Maria da Glria, a quem apreciava muito, tentou ser mais amvel.  
        Minha me era muito bonita.  Parecer com ela  uma alegria.  
       Renata serviu-se  de alguns docinhos e comentou:
        Isto no  um lanche,  uma festa.  Lucila, voc tem excelente gosto.  
        Hoje foi Geraldo quem nos ofereceu as guloseimas do lanche.  O bom gosto  dele.  Renata realmente surpreendeu-se .  
        No me diga!  no esperava que o caipira pudesse ter gosto to requintado.  Olhou-o com curiosidade.  At que ele era bonito.  Se melhorasse os cabelos, podia at ser elegante.  As roupas eram de muito bonitas de boa qualidade e de classe.  Os sapatos, de couro alemo, que ela sabia carssimos.  Uma ponta de inveja a acometeu.   Afinal, ele parecia arranjar-se  muito bem sozinho.  O assunto arrastou-se  forado.  A espontaneidade fora quebrada.  Maria da Glria queria ir embora, levando a me, que parecia muito  vontade.  
        Vamos mame.  Acho que est na hora.  
        Que  isso, menina, to cedo! Est to agradvel aqui.  
        Esteja  vontade, Renata.  A casa  sua ajuntou Lucila com delicadeza.  Maria da Glria, que se levantara, tornou a sentar-se .  No se iria deixando a me sozinha ali.  Certamente seria inconveniente.   Geraldo olhou-a , e havia certa malcia em seus olhos.  Pareceu-lhe to calmo que a moa, por sua vez, acalmou-se .  No queria aborrec-lo .  Vendo-o sereno, aceitou melhor a situao.  Afinal, se acabasse o ressentimento dele com os seus seria melhor.  No confiava nas intenes da me, mas sabia que ele no era ingnuo.  Seria divertido v-lo sair-se  das armadilhas que ela certamente desejava preparar-lhe.  Renata suspirava e encenava seu papel de esposa mrtir e dedicada.  
        Pobre do meu marido.  Anda descontrolado, nervoso, teve ameaa de enfarte.  Quase morreu.  Ele tem trabalhado muito, sempre se sacrificou pela famlia.  Mas, sabem como so essas coisas, os filhos crescem e so ingratos.  
        Voc tem dois filhos excelentes, Renata- ajuntou Lucila com voz firme.  No lhe agradava ver aquela mulher dizer tudo aquilo na frente da filha, sensvel e inteligente.  
         verdade.  No me queixo.  Eles so maravilhosos, mas, sabe, esto crescidos, no aceitam mais nossos conselhos, querem fazer tudo sozinhos e isso  muito triste.  
        Mame, mudemos de assunto.  Falemos de coisas alegres.  
        V o que eu disse?   assim.  Nunca nos do ateno.  No acha que tenho razo?   perguntou ao sobrinho.  
        Fui criado na roa.  Num entendo dessas coisas.  Mas l tem um ditado que diz:"Pela fala  que se conhece a madureza".  Tem criana que fala como veio e tem veio que s fala como criana.  Quem quis sabe s da idade num carece ouvi, e s oi os dente.  
       Renata quase engasgou com o ch.  Maria da Glria a custo dominou o riso.  Ins sentia vontade de dar um beijo em Geraldo.  O moo falara manso e pausado e parecia at que carregando o sotaque caipira de propsito.  Renata, de repente, desistiu de continuar e convidou o sobrinho para ir  sua casa, dizendo que o mal-entendido com o tio j fora esquecido.  Maria da Glria respirou aliviada quando a viu despedir-se .  
        No precisa vir comigo.  No vou para casa agora, tenho algumas
       compras a efetuar.  Compreendo que queira ficar.  lanou um olhar lnguido para o sobrinho e despediu-se  amavelmente.  Lucila acompanhou-a  at a porta com gentileza.  Maria da Glria suspirou e sentou-se  dizendo:
        Lamento.  Infelizmente no posso mud-la .  Geraldo olhou-a  srio.  
        E sua me.  Estar com a me  uma felicidade.  Mesmo quando ela parece criana em vez de me.  Maria da Glria sorriu, descontrada.  
        Tem razo.  Minha me ainda no cresceu.   como uma criana mimada e estragada pelo luxo.  Pena que ela no me deixe ajudar.  Quer continuar criana.  Quando procuro mostrar-lhe a verdade, recusa-se  a enxergar.  Tem medo.  
         preciso dar tempo ao tempo comentou Lucila.   Pacincia, minha filha.  Enquanto D.  Lucila cuidava dos problemas domsticos, os trs jovens continuaram conversando.  Renata chegou em casa satisfeita.   Afinal, o diabo no era to feio como pintavam.  Seu sobrinho era moo bonito e de personalidade.  Tinha bero, pensava com orgulho.   
       Seu modo horrvel de falar  que destoava, mas com o tempo certamente teria que melhorar.  Tambm, com tanto dinheiro, podia ser at que ele lanasse moda.  Em sociedade, tudo  possvel.  
       Quando o Dr.  Marcondes chegou, encontrou-a  muito animada.  
        Pelo que voc me contou, pensei que ele fosse muito pior.  Estava elegantemente vestido e bem posto.  Parece que tem bom gosto.  
        Bom gosto, aquele parvo?  
        .  Cheguei  hora do lanche e a mesa estava coberta de iguarias finssimas.  Quando elogiei Lucila, ela fez questo de dizer que Geraldo trouxera o lanche.  
        Por acaso, com certeza.  Um sujeito inculto como aquele no pode ter bom gosto.  
        Voc no pode esquecer que ele tem bero.  Isso conta muito, meu querido.  
        Bem.  Vejo que voc veio muito entusiasmada por ele.  Era s o que me faltava.  
        Vim, sim.  Tinha imaginado encontrar algo muito pior.  E parece que tudo caminha muito bem.  Esto se entendendo s mil maravilhas.  No me admiraria at se eles j estivessem namorando.  
        Acha mesmo?  
        Trocaram olhares entendidos e Maria da Glria nunca me pareceu to cordata.  Dr.  Marcondes deu de ombros.  
        Acho bom se decidirem depressa.  Se estoura uma dvida, no sei como vamos pagar.  O Jorginho no quer ouvir me.  Continua jogando.  
        Coitado do menino.  Est habituado a esta vida.  No aceita a nossa misria.  
        Estou desesperado, Renata.  Se ele no aceitar, no sei onde vamos parar.  Voc j pensou nisso?  
        Temos que dar um jeito.  
        E se esse casamento no sair?  E se demorar?  
        No seja pessimista, homem.  Se eles resolverem casar, no precisam esperar.  Geraldo tem tudo e muito dinheiro.  Por que esperar?  
        No sei.  Esta indeciso me irrita e preocupa.  Ainda acho que o Jorginho deveria casar.  Assim, tudo se resolveria.  
        Nosso menino, to jovem! 
        Voc esquece que eu me casei quase com a mesma idade.  
        Vamos aguardar um pouco mais.  
       E Renata teceu planos to agradveis que pareciam j em vias de realizao.  Entretanto, naquela tarde, Geraldo saiu da casa de Lucila acompanhando a prima para deix-la  em casa.  Assim que se acomodaram no carro, o moo indagou:
        No vai me contar a causa da sua preocupao?  
        Quer mesmo saber?  
        Quero.  Talvez possa ajudar.  
        Refere-se   minha famlia.  Meu irmo.  Ele no  mau, mas muito sem juzo.  A moa contou ao primo suas preocupaes, o problema financeiro dos pais.  
        Ningum conversou com ele sobre tudo isso?  
        Eu.  Mas parece que ele no quer aceitar.  Est acostumado  vida que leva.  No acredita que tudo esteja acabado.  Acha que papai sempre "dar um jeito".  
        Ento  mesmo verdade.  Seu pai est arruinado.  
        .  temos com o que viver mas nenhuma reserva para os gastos extras e as loucuras do Jorginho.  Preocupo-me com ele.  Sei que no vai aceitar a pobreza e a desonra.  Meu irmo  fraco.  Temo pelo que possa fazer, pelas loucuras que possa cometer.  Para ser franca, o dinheiro para mim no  to fundamental, ou melhor, at acho que 
       ser salutar trabalhar para ganhar o necessrio.  Talvez meus pais deixem de lado tantas futilidades.  E isso at pode melhorar nosso relacionamento.  Mas o Jorginho foi estragado pela educao errada,  e agora temo que seja difcil evitar o pior.    Eles to vivendo de iluses.   certo que um dia tero que encontrar a verdade.  Ela vai trazer sofrimento, mas pode tambm ser o remdio da cura.  
       A moa olhou-o admirada.  
        Voc acha?  
        Acho.  Acredito que seu irmo, quando seu pai no pude mais defende ele pagando suas dvidas, vai senti o peso do que faz, e embora isso deixe ele arrasado, envergonhado, vai faz dele um homem.  
        Tenho medo de que ele faa besteira.  
        O que, por exemplo?  
        No sei.  Que roube, que se suicide, sei l;o desespero  mau
       conselheiro.  
        Oc  conversa com ele.  Ele  seu amigo.  Isso  muito bom.  Sua amizade pode faz com que ele queira lutar e vencer.  Ns na roa costumamo diz que o homem sem am  como cavalo do mato, num conhece disciplina nem obedece ordem.  Corcoveia, d coice e mata.   Mas quando algum o domina, ento se torna dcil e obediente.  Assim o amor.  Quando a gente ama algum, de verdade, uma me, uma irm, uma esposa, um amigo, vale a pena disciplinar nossas vidas.  Faz esforo de ser obediente.  
       Maria da Glria comoveu-se .  
        Geraldo, como voc  bom.  D.  Lucila tambm me deu esse conselho.  O amor cobre a multido dos pecados.  Voc chega a ser sbio.  
        No  nada disso.  Eu sei o que  isso.  Minha vida teve sempre um vazio de amor.  Minha me, famlia.  Tive pai bom.  Morreu.  Fiquei inimigo do mundo.  Num queria v ningum.  Vim para c para recolher o que restava de minha me e vingar-mede quem nos separou, me roubando A felicidade.  E teria sido muito difcil suportar essa vida, esse mundo to folio da cidade, se no tivesse o amor e a amizade que voc e D.  Lucila me deram.  Eu mudei, prima;e, de duro e desconfiado,  fiquei sentimental, e tudo quanto tenho feito, estudado, se deve mais ao amor de vocs trs do que a outras coisas.  
       Maria da Glria estava muito emocionada.  As palavras do moo tocavam fundo seu corao.  
        Eu acho que seu irmo precisa de apoio e amor.  Ns fazemos tudo,  lutamos, sofremos, temos vontade de vencer, quando algum torce por ns e sofre conosco.  
        Geraldo, voc  admirvel.  
       Num gesto espontneo, a moa beijou-lhe a face morena.  Geraldo enrubesceu um pouco;depois de alguns segundos, ajuntou:
        Em todo caso, se eu puder ajudar em qualquer dificuldade, me procure.  Gostaria de conhece esse menino.  Quem sabe posso ajuda?  
        .   uma boa idia.  Vamos arranjar isso.  
       De qualquer forma, a moa sentia-se  mais calma e mais segura.  O apoio do primo dava-lhe tranquilidade e confiana.  Sempre se sentira divorciada da famlia.  Seus pontos de vista nunca eram sequer examinados.  A certeza de que no se enganara com relao ao irmo, oferecia-lhe condies de continuar lutando a fim de ampar-lo melhor.  O carro parou em frente  casa e Maria da Glria desceu.   Renata observava por uma fresta da janela e exultou vendo que o primo despedia-se  da moa com afetuosidade.   
       Com ar triunfante aproximou-se  do marido, que lia os jornais,  sentenciando:
        No disse?  Ele acaba de deix-la  aqui  porta.  Acompanhou-a , 
       naturalmente queriam estar a ss.  
       Dr.  Marcondes olhou-a  desconfiado.   Espero que voc tenha razo.  
       Ia dizer mais alguma coisa, mas calou-se  vendo a filha entrar na sala.  Realmente, a moa parecia muito bem.  Deveria atribuir-se   amizade com o primo?  Maria da Glria cumprimentou o pai e subiu para os seus aposentos.  Queria evitar os comentrios maternos sobre Geraldo e tambm uma possvel discusso com ela.  Estava mais interessada no irmo do que nas maquinaes da me.  Naquela noite esperaria por ele.  Se tudo desse certo e ele fosse dormir em casa,  poderiam conversar.  Era quase dia claro quando Jorginho chegou.   Vendo luz na sala, aproximou-se  admirado.  
        Maria da Glria, acordada a esta hora?  O que houve?  
       A moa abraou-o com carinho.  
        Estava sem sono.  Peguei um bom livro, e nem vi o tempo passar.  
       J  muito tarde?  
        J passa das quatro Olhou-a  curioso.   Preocupada?  
        No.  Tudo vai bem.  
       -Sei.  .   .  Mas voc sempre se recolhe cedo.  A moa aproveitou o interesse dele.  
         Mas hoje senti-me muito s.  Queria deitar com bastante sono para dormir bem.  
        Voc est s porque quer.  Sei de meia dzia de almofadinhas que s esperam um gesto para preencherem sua solido.  
        No exagere.  So vazios  sem graa.  Acha que se valessem a pena eu os deixaria escapar?  Jorginho riu divertido.  Parecia de bom humor,   e a moa resolveu tirar partido disso.  
        Pelo que ouvi mame preocupa-se  com seu futuro.  J enumerou
       vrias listas de candidatos que se transformaram e ricos e dedicados maridos.   s escolher.  
        Com o "gosto" que ela tem, imagino o que me ofereceria.  
        No posso jurar, mas o ltimo deles parece-me ser o nosso priminho caipira.  
        O  qu?   sobressaltou-se  Maria da Glria.   Voc tem certeza?  
        Claro.  E a ouvi convencendo papai de que seria a soluo ideal para nossa fortuna.  No sabia?  
       A moa estava indignada.  Por isso Renata fora at a casa de Ins.   Seu rosto ruborizou-se  de raiva.  
        E papai, aceitou a idia?  
        Bem, o velho pareceu-me contrariado, mas ela usou o mximo argumento:o cifro.  Logo, ele resolveu concordar.  
        Isso  um absurdo desabafou ela.  -se  ela tentar alguma das suas,  vai se haver comigo.  
         mais do que absurdo.  Um caipira analfabeto.  J pensou nas anedotas que fariam nossos amigos?  
        Isso  o que menos importa.  Nosso primo  homem bom e honesto.  O que lhe falta em cultura sobra em inteligncia.  Qualquer mulher se sentiria feliz em ser amada por ele.  No se trata disso.  
       Jorginho olhou surpreendido e desconfiado.  
        Por acaso voc o aprecia?  
        Muito.  Gostaria que voc o conhecesse para poder formar um juzo mais claro.  
        Ento...  Se voc o defende tanto, pode ser at que a idia de mame no seja to absurda.  
        Entre apreci-lo como amigo e como pessoa e am-lo vai longa distncia.  Entre uma boa amizade de prima e um casamento falta muito.  Jorginho abanou a cabea.  
        No a entendo.  Voc o defende tanto, tem-lhe amizade, isso no  fundamental no casamento?  
        No.  Para mim no .  Precisa existir algo mais forte.  H que haver amor, e amor  coisa diferente.  Geraldo  um excelente amigo,  que inspirou-me muita confiana pela sua integridade e pelo seu carter.  Confio nele mais do que outras pessoas.  E no quero que esses mexericos possam pertubar a espontaneidade da nossa amizade.  Vou cortar isso logo, falar com mame antes que ele fique embaraado.  Esses mal entendidos so muito desagradveis.  
        Mame, quando decide algo,  persistente.  Voc vai ver.  
        Eu sei.  Mas deixa comigo.  Sei o que fazer.  Gostaria muito de que voc o conhecesse.  No tem curiosidade?  
        Tenho.  As garotas vivem perguntando-me coisas sobre ele.  As mulheres gostam dos mistrios.  Chegam a ach-lo bonito.  Veja s o que faz o dinheiro.  
        Voc o acha feio?   perguntou a moa, divertida.  
       - Sei l! Nunca reparei.  No o conheo pessoalmente.  Deve ser engraado, caipira fantasiado de gentleman.  
        No o acho engraado, mas, como sabe, ele  meu amigo.  Admiro-o.  No quero falar muito, melhor conhec-lo .  
        Acabei ficando curioso.  Voc sempre foi to exigente com as amizades! Como conseguiu ele conquist-la ?  
       - Se  quiser, amanh poderemos ir at a casa dele.  Que tal?  
        .  Pode ser.  Amanh no tenho nada para fazer.  Vamos visit-lo , vai ser interessante.  
        Combinado.  Vamos at a copa, posso fazer um lanche para voc.  Que tal um suco de laranja?  
        timo.  
        E voc, como anda com as garotas?  
       Enquanto providenciava algumas guloseimas, a moa procurava mostrar seu interesse pelos assuntos um pouco fteis do irmo, feliz por sentir que ele recebera seu esforo de aproximao com boa vontade e retribua.  No dia imediato pela manh, s 10 horas, Maria da Glria, acompanhada pelo jovem irmo, tocou a sinete da casa de Geraldo.  Jorginho estava impaciente.  Apesar de impressionado com a opinio da irm, no acreditava que o primo, criado de forma to rude, pudesse ser muito interessante.   
       Atendera ao convite mais para ter o que opinar quando os amigos mencionassem o assunto.  No gostava das indiretas e das anedotas entre seu pai e o primo.  Principalmente o incomodavam as notcias humilhantes sobre sua situao financeira.  No acreditava to ruim.   Seria uma boa resposta seu bom relacionamento com o primo.  At que,  se algum reprter os fotografasse juntos, seria ideal para tampar a boca aos maldizentes.  Antnio abriu a porta, cumprimentado-os com cortesia.  Conduziu-os  sala de estar.  Geraldo lia os jornais, e vendo-os levantou-se  atencioso.  Apertou a mo da prima com alegria e olhou de frente para Jorginho.  O moo estendeu a mo, que Geraldo estreitou com firmeza.  
        Ainda no tinha encontrado voc, Jorge.  
        E.  No tivemos oportunidade.  H muitos anos no venho a esta casa.  Desde que...  
        Desde que...  
        Desde que eu era pequeno.  Tia Carolina era ainda viva.  O olhar de Geraldo abrandou-se .  
        Voc se lembra dela?  
        Claro.  Era muito bonita.  Seu rosto  difcil de esquecer.  Depois,  tratou-me sempre com ateno e carinho, apesar de que, pelos problemas da famlia, voc sabe, no vivemos sempre juntos.  
       Geraldo ouvia encantado.  Qualquer referncia a Carolina o embevecia.  
       - Sentem, por favor.  Jorge, continue, peo-lhe.  
        Fale o que se lembrar.  Geraldo adora saber de tia Carolina.  
        No tenho muito a contar.  Enquanto vov era vivo, mandava buscar-me regularmente para visit-lo .  Gostava muito de mim, mas no queria ir  nossa casa.  Suas relaes com papai e mame no eram muito boas.   Eu era muito criana.  Recordo-me perfeitamente  dele conversando comigo como se eu j fosse grande, monstrando-me seus livros, sua coleo de gravuras, e tia Carolina abraava-me e beijava-me e algumas vezes chorava, o que me preocupava muito.  Eu gostava dela,  era linda e muito boa.  Tinha um perfume delicioso que sempre usava e que eu adorava.  Tanto me agradavam que eu gostava muito dessas visitas.  Minha me ficava enciumada, e se no fosse por causa da herana que eles esperavam receber, no teriam mais permitido minha vinda aqui.  Quando vov morreu, nunca mais pude voltar a v-la .  Hoje,  estou recordando.  Espero no t-lo aborrecido.  
        De modo algum.  Tambm adoro o perfume dela que ainda est em suas roupas e seus guardados.  Quer dizer que ela o apreciava.  
        s vezes, quando tinha lgrimas em seus olhos, e eu perguntava por que, ela me falava das saudades do filho.  Queria-o muito.  
        Eu sei.  S lamento no ter sabido disso antes.  
       Jorginho era sincero.  O primo lhe parecera pessoa simples e o acolhera com naturalidade.  As lembranas tambm o tinham deixado um pouco emocionado.  O carinho que recebera naquela casa o sensibilizara porque diferia do seu ambiente domstico.  Sua me,  que o adorava, cumulava-o de guloseimas, mas raramente dispunha-se  a ouvi-lo e a dar-lhe ateno.   Apesar de mimado,  a governanta,  fria e formal,  o irritava.   Era como se estivesse sendo vigiado por um soldado que o impedisse de fazer o que quisesse, obrigando-o a coisas desinteressantes e desagradveis.  
       O afeto do av, sua ateno carinhosa e paciente conversando com ele e interessando-se  em ouvi-lo , o carinho da tia, colocando-o no colo, contando-lhe histrias, fazia-lhe enorme bem.  As horas naquela casa escoavam-se  com rapidez, e na hora de ir embora ele sempre relutava.   Aquela casa representava momentos felizes de sua infncia, que parecia sepultada e distante.  Jorge sentia-se  sensibilizado;sem Saber explicar o que lhe acontecia, tinha deixado esquecida por instantes sua indiferena habitual, seu verniz social.  Os olhos brilhantes e magnticos de Geraldo estavam fixos nele com carinhosa ateno, e Jorge como que se deixava envolver mais e mais pelas lembranas.  
        Afinal, -ajuntou com certo acento de amargura na voz faz tanto tempo que at parece nunca ter acontecido.  
        Mas aconteceu.  Voc teve a felicidade de ter estado aqui com eles enquanto eu, sozinho no mato, sofria a saudade sem remdio.  
       Jorge olhou-o admirado.  
        Voc se lembrava dela?  
        Sim.  Seu rosto estava sempre comigo, mas eu pensava que ela estivesse morta.  
        Morta?  ! No sabia que ela vivia aqui?  
        No.  Meu pai dizia que ela tinha morrido.  
       Jorge franziu a testa, pensativo.  Lembrando-se  dos comentrios desairosos que ouvia em casa, resolveu no insistir no assunto.  
       Deve ter tido suas razes.  Mas voc se viu privado de tudo, no meio do mato, com tanto dinheiro por aqui, sofrendo privaes e levando vida dura.  
       Geraldo olhou-o admirado.  
        Nisso voc se engana.  A vida no mato  melhor do que esta.  S lamento a falta da me.  
       Jorge abanou a cabea.  
        Isto eu no concordo.  Comparar a cidade, o conforto, a civilizao com a roa no tem cabimento.  
        Geraldo olhou-o com certa malcia.  
        No fale do que no conhece.  A vida na roa  melhor do que na cidade.  Aqui, ningum faz o que gosta.  O relgio comanda.  O homem anda muito e caminha pouco.  
       Jorginho surpreendeu-se .  
        Que quer dizer?  
        Aqui,  tudo complicado.  Pra voc faz alguma coisa, d muito trabalho, d muita volta.  Anda muito e faz nada.  Faz muito barulho mas aproveita pouco.  Fala em felicidade mas no  feliz.  
       Maria da Glria ouvia com ateno.  Jorginho ficou um pouco abespinhado.  
        No  bem assim.  Quantas coisas boas temos aqui.  O progresso, o avio, o telefone, o rdio, tudo-se  no fosse a gente de cultura da cidade, no teramos nada disso.  Geraldo no se deu por achado.  
       , isso  verdade.  Mas, e a felicidade?  O homem com tudo isso  mais feliz?  
       Jorginho sentiu-se  abalado.  Felicidade no era prato habitual no seu requintado ambiente.  Ao contrrio, a hipocrisia, a ostentao, a necessidade de ser aceito e subir socialmente, o reinado do dinheiro e da poltica no lhe mostravam nada de positivo quanto  felicidade.  Com certa frieza ele retorquiu:
       - Ser feliz  outro problema.  Isso  uma utopia.  Neste mundo, o que vale  o dinheiro, o poder, a fora do que tem mais.  O resto  iluso.  Se eu no tiver mais dinheiro, meu carro, nem posio, amanh estarei sozinho.  Acho que at as mulheres que me adulam vo sumir.  
        .  Talvez.  Eu vivia muito melhor sem dinheiro.  
       Jorginho riu, nervoso.   No acredito.  Quer dizer que trocaria tudo pela roa?  ! ! .  
        Claro.  Talvez faa isso mais tarde.  Na roa eu no precisava de nada.  Tinha amigos, poucos, mas verdadeiros.  Tinha o que comer, tinha roupa, me sentia rico.  O tempo era todo meu para ver a natureza,  aprender o que ela ensina, conhecer a vida como ela .  Sem as complicaes da cidade.  No imagina como  bonito.  V a vida brotar da terra, os bichos conversa, as plantas cresce e d frutos.  O cu,  as estrelas, tudo tem uma conversa que voc precisa ouvi pra entende.  Geraldo, olhos perdidos nas lembranas de sua vida na roa,  comeou a falar descrevendo a linguagem rica da floresta, seu mitos, seu encantos, seus mistrios, os ciclos da vida, com tanta originalidade que, apesar do seu vocabulrio simples, conseguiu fascinar a imaginao de Jorge, que o ouvia com admirao.  
       Para ele, que nunca olhara as coisas do campo com interesse, era como se tudo aquilo fosse novo.  Geraldo parou e sorriu.  
        Acho que estou aborrecendo vocs com minhas idias.  
        No,  fez Jorge de modo algum.  
       Maria da Glria olhava o interesse do irmo surpreendida.  Logo ele,  to metropolitano, to social.  
        Nunca tinha reparado nisso disse o rapaz com interesse.  
        Voc precisa conhecer.   tudo perfeito.  Tudo tem seu ciclo, sua linguagem, sua razo de ser.  Se voc acompanha a gua da chuva, vai ver como ela procura jeito de achar sua corrente e caminhar para o leito do rio.  s vezes  difcil e voc v que ela pacientemente se infiltra na terra para procurar a veia, como chamamos, o que a levar ao rio.  Sabe que nessas veias d'gua existe uma corrente de fora que leva ela e faz com que ela caminhe at onde precisa?  No caminho vai dando vida nas razes das plantas, matando a sede dos bichos e das rvores, e a nossa.  Se voc ficar olhando a gua, vai aprende muita coisa.  Ela nunca pra.  Se no puder andar,  espera o calor do sol para se mudar em fumaa e subir at as nuvens.  Quando esfria, volta a cair como chuva.  No  maravilhoso?  
       Jorge estava admirado.  Nunca via essas coisas na gua, elemento inodoro e sem graa, fora de moda e sem beleza.  
        Acho que t falando muito.  Quando comeo a lembrar da terra, fico emocionado.  A vida  muito bela de se olha! 
        No protestou Jorge.   Nunca vi ningum falar como voc.  Conte mais sobre a natureza.  Uma coisa voc tem razo, aqui a gente no sabe nada disso.  
        Preciso conta como as plantas se casam.  
        Plantas se casam?   fez Jorginho, divertido.  
       - Ser verdade?  
       Geraldo comeou a descrever em sua linguagem simples a procriao das plantas machos e fmeas, sua inseminao e suas particularidades.  Jorginho estava empolgado.   
       Sem perceber, deixara-se  envolver pelo forte magnetismo do primo,  suas idias interessantes e sua vivncia to natural, bem diferente do que estava habituado.  Maria da Glria interveio lembrando a hora, mas Jorge no estava com vontade de retirar-se .  Ficaram para o almoo, e quando resolveram-se  a ir embora, o rapaz estava bem humorado e disposto.  A conversa com Geraldo fizera-lhe enorme bem.  
       J no carro, Maria da Glria olhou o rosto distendido do irmo.  Seu rosto perdera o ar debochado e adquirira um aspecto mais jovem e infantil.  A moa estava satisfeita.  Conseguira entros-lo s.  Seu irmo era influencivel e um tanto fraco.  A amizade de Geraldo, homem de carter e equilbrio, s o podia beneficiar.  
        Voltarei aqui amanh para trazer-lhe um livro sobre as plantas que vi em casa.  Quero que me explique mais sobre elas.  
       Geraldo acompanhou-os ao jardim.  
        Nunca plantou nada?   perguntou.  
        No.  Nunca.  Acha que poderia?  
        Claro.   emocionante preparar a terra, plantar, ver crescer, florir.    como se voc fosse dono de grande poder.  O de faz-la s multiplicar-se .  V esse canteiro?   
       Era vazio, eu o plantei.  Juntei vrias flores diferentes e agora est assim como voc v.   Ajudei-as a viver e elas me cobrem com seu perfume e com sua beleza.   Eu mesmo as alimento.  Dou-lhe gua todos os dias.  Jorginho olhava o primo boquiaberto.  Tanta simplicidade o desarmava.  De fato, o canteiro estava coberto de flores variadas de alegre colorido e odor delicioso.  
        E ento?  O que achou dele?   perguntou alegre, 
        No existe.  Parece diferente de todo mundo.   duma pureza impressionante.  Tenho pena dele.  
        Por qu?  
        Tenho pena do que o dinheiro vai fazer com ele.  Parece-me to feliz com sua vida simples que os nossos lobos da sociedade vo devor-lo , destruir tudo isso.  Parece que estou vendo.  
        Eu no penso assim.  Ele  puro de idias, mas  muito astuto.  
       Mesmo sem saber ler, e nunca tendo vindo  cidade, saiu-se  muito bem de todas as investidas que lhe fizeram.  Inclusive a do nosso pai.  
        .  Tem razo.   um homem de bem.   fascinante.  Nem parece caipira.  S a linguagem ainda denota sua vida na roa.  Vocs o civilizaram muito depressa.  
         muito inteligente.  Aprende com rapidez.  Sua personalidade  marcante, no nos deixa prestar muita ateno aos seus erros de linguagem.  Voc tambm o apreciou.  
         simples e informal.  Recebeu nos com simpatia.  Creio at que se no tivesse gostado de mim, no se daria ao trabalho de dissimular.  
        Isso  verdade.  J pude v-lo diante de pessoas que ele no aceita.  Que gostou de voc, no tenho dvidas.  Voc devia aproximar-se  mais dele.  Poder ajud-lo a adaptar-se  melhor em nosso meio.  
        Tem razo.  Afinal,  nosso primo.  Vai ser divertido ensinar-lhe as manhas da sociedade.  As pequenas vo adorar.  
        Veja l o que vai fazer com ele! 
       Estava alegre e sorridente.  Jorginho aceitara sua sugesto.  Tocara lhe a vaidade, fazendo-o acreditar que pudesse ensinar algo ao primo, quando o que pretendia era justamente o contrrio.  
       Naquela tarde, na casa de Lucila, estava contente e mais serena.  Foi com entusiasmo que comentou com Geraldo e as duas amigas as impresses de Jorginho e seu interesse pelo primo.  
        Ele gostou de voc.  No lhe ser difcil influenci-lo .  Sou-lhe muito grata.  Meu irmo precisa muito da sua amizade.  
        Ele  sensvel, mas est mal acostumado.  Se deixa levar pelas pessoas.  Farei o que puder, mas no tenho muita chance.  Em casa, fora delas, todos contribuem para que ele seja assim como .  Se pelo menos ele pudesse se afastar dessas influncias...  mas no  fcil.   Em todo caso, tem bom corao e nobreza de sentimento.   
       Pena que fosse criado to sem freio.  
         verdade tornou Lucila com seriedade.   Mas sua influncia
        muito boa para ele, tenho certeza.  Vamos confiar, porque quando pretendemos fazer o bem com despreendimento, nunca sabemos at que ponto Deus intervm e faz o resto.  
        A  senhora, que tem tanta f em Deus, talvez saiba porque eu na minha infncia, que tanto pedi e rezei, que confiei em Deus, nunca pude saber que minha me era viva.  Por que tive que sofrer essa orfandade sem remdio?  
       Tudo tem uma razo justa para acontecer.  Deus no erra.  E perfeito e sbio.  Se disps assim, certamente foi por um bom motivo.  
        No creio que Deus o tivesse.  Acho, isto sim, que ele se omitiu.  
       Que pessoas tramaram a destruio da minha famlia e que ele no as impediu; certamente no vai agora justi-las, e eu pretendo descobrir tudo e fazer justia! 
       A voz de Geraldo estava amargurada, e seu rosto, entristecido.   Lucila lanou-lhe um olhar afetuoso.  
        No pense assim, filho.  Quem pode saber os desgnios de Deus?  
       Quem pode conhecer a verdade que esconde atravs de vidas passadas e os compromissos que assumimos uns com os outros?  Quem pode saber os sofrimentos e as provaes que envolvero os que erraram no futuro prximo?  No basta confiar em Deus e esquecer o passado?  
        No, D.  Lucila Esquecer eu no posso.  E o que digo cumpro.  Vou descobrir tudo.  No descanso enquanto no souber o que aconteceu.  E depois os culpados vo pagar, isso eu juro! 
       D.  Lucila no insistiu, embora essa preocupao de Geraldo fosse lamentvel.  Confiava na ao do tempo, enquanto ela procuraria tirar aquelas idias da sua cabea.  Era moo inteligente e bom, certamente mudaria de opinio.  
       Ele continuou:
        A  senhora talvez possa me ajudar.  Deve se lembrar de muitas coisas.  Foi amiga ntima de minha me.  No acha que devia me contar tudo?  Lucila pousou no rosto do moo os olhos brilhantes, onde havia um reflexo de funda tristeza.  
        Engana-se , meu filho.  Fomos muito amigas, mas neste assunto jamais fui sua confidente.  Nunca fiquei sabendo o que aconteceu de fato naquela trgica semana.  Esse assunto era intocvel.  S posso dizer que Carolina sofreu muito.  Era inocente e afiano-lhe que soube sofrer.  Nunca a vi desejosa de qualquer vingana.  Acredito mesmo que ela jamais a tenha desejado.  Em seu nome, e de acordo com seus desejos, eu peo:esquea seus propsitos.  Procure viver sua vida em paz.  Afinal, o tempo passou e eles j partiram deste mundo.   Esto em um lugar onde tudo se esclarece e se descobre.  A morte arranca o vu de todos os enganos vividos no mundo e cada um descobre a sua verdade.  
       Geraldo a olhou um tanto admirado.  
        A  senhora acredita nisso?  Pois eu acho que ela sofre por ter sido
       caluniada, por ter sido roubada em seus direitos de me.  Quero lutar para esclarecer tudo.  Quero que a verdade aparea aqui, para que todos saibam do seu valor e da sua pureza.  Quero desfazer os enganos que turvam sua memria.  Concordo quanto a isto.   nobre de sua parte essa inteno.  O que no acho vlido  a vingana.  Tenho a certeza de que Carolina jamais aprovaria.  
       Geraldo cerrou os lbios firmes com determinao.  
        , pode ser.  Ela era muito boa, mas eu no sou.  Eles vo sentir o peso da minha revolta, por ter sido impedido de viver com ela toda minha vida.  
        Deixemos de tristeza- ajuntou Ins, procurando desviar os dolorosos pensamentos que se refletiam no rosto emotivo de Geraldo.  
        Vamos estudar, que hoje temos muito o que fazer.  Voc vai terminar aquele desenho e j tenho nova tcnica para ensinar.  Venha, quero mostrar-lhe.  Geraldo procurou sorrir.  A graa de Ins sempre o alegrava.  Quando os dois se dirigiram ao atelier da moa, Lucila comentou:
        Precisamos dissuadi-lo dessas idia.  S lhe traro prejuzo.  
        Tambm acho, mas por outro lado sinto que ele tem razo.  O que fizeram com eles foi brutal.  A senhora acredita que tenham sido vtimas de algum plano maldoso?  
        Acredito.  Tudo leva a pensar que a tragdia tenha tido origem em alguma trama srdida.  Conheci Carolina.  Nem por um segundo duvidei da sua sinceridade.  Vivia para o amor do marido, a quem adorava, e do filho muito amado.  Depois, era mulher de alto nvel moral, jamais cometeria uma leviandade.  
       Maria da Glria balanou a cabea,  pensativa.  
        Quem teria tramado tal crime?  A senhora no desconfiou de ningum?  
         difcil saber.  Na vida em sociedade, a falsidade  uma constante.   A inveja, a intriga, o boato, a malcia e o excesso de imaginao existem em toda parte.   
       Como poderemos saber?  
         por isso que no gosto da vida em sociedade.  Muitos desentendimentos mame so por causa disso.  Eles do a vida para estar nesses ambientes falsos e frvolos, onde a futilidade e a hipocrisia so marcantes.  
        Faz bem.  Um dia certamente eles tambm compreendero isso.   Precisamos dar tempo ao tempo.  Gerado naquela tarde no estava muito disposto.  A conversa com o primo fizera-o reviver a imensa saudade materna, e sentia certa inveja por no ter podido 
       usufruir do convvio de Carolina, ainda que durante pouco tempo.   Quando saiu da casa de Lucila, ia pensativo e preocupado.  Chegando em casa, chamou por Antnio e desabafou:
        Antnio.  Precisamos fazer alguma coisa.  Quero investigar tudo do tempo de minha me.  Quero descobrir toda a histria.  Voc vai me ajudar.  Preciso saber de tudo! 
        No  fcil.  O tempo passou e tudo ficou diferente.  
        Tenho dinheiro.  Com ele vai ser mais fcil descobrir.  Li na revista que nas cidades tem detetive particular para descobrir os crimes.   A gente paga, eles trabalham.   
       Quero que voc me arranje um desses.  
         preciso muito cuidado.  Precisa ser algum de confiana.  
        Decerto.  Voc procura uma pessoa dessa e traz aqui.  Antnio olhou-o preocupado.  
        E se descobrir tudo, o que vai fazer?  
        Os culpados vo me pagar.  Disso voc pode estar certo.  
       Seus olhos brilhavam, enrgicos, e seu rosto se crispava,  determinado.  No dia seguinte, recebeu a visita de um agente que Antnio descobrira.  Tratava-se  de um moo de aparncia discreta e bem vestido, a quem exps seus objetivos.  Depois das primeiras indagaes, Geraldo o contratou.  Como primeira providncia, o investigador tirou pequeno bloco de anotaes e realizou uma coleta de todos os dados possveis.  Durante mais de duas horas conversou com Geraldo, Antnio e sua mulher, procurando extrair todos os detalhes dos acontecimentos passados, principalmente aquela semana terrvel.  De incio havia uma dificuldade quanto  data exata em que o Dr.   Marcondes deixara o lar.  
         fcil lembrou Antnio.   Podemos ir ao cemitrio ver a sepultura do Dr.  lvaro Medeiros.  Ele morreu pouco tempo antes da tragdia.  
        S sei que a guerra na Europa andava acessa.  D.  Carolina teve medo que o Dr.  Euclides fosse embora para a guerra.  
       O agente anotava, anotava.  Geraldo o observava com ateno.  Quando ele se deu por satisfeito, observou:
        Tenho pressa.  Deixe tudo para trabalha no meu caso.  Eu pago.  
       Antnio, d ao sr.   Moreira dinheiro para as primeiras despesas.   Quero que voc trabalhe s para mim.  Juro que no vai se arrepender de interessar-se  bem para descobrir o que preciso saber.  
       Moreira olhou o rosto enrgico de Geraldo.  J tinha ouvido comentrios sobre ele, mas nunca tinha imaginado conhec-lo de perto.  Era honesto e trabalhador.   
       Apertou a mo de Geraldo com firmeza.  
        Pode deixar comigo, sr.  Geraldo.  Vou descobrir tudo, doa a quem doer.   Comearei a trabalhar agora mesmo.  Assim que tiver alguma coisa,  voltarei.  
        D notcias, mesmo que no descubra nada.  Quero saber como vo as coisas.  
        Todos os dias passarei por aqui.  Quando no puder, telefono.  
       Quando o moo saiu, Geraldo sentiu-se  mais calmo.  Afinal, estava fazendo alguma coisa.  Tinha um pouco de remorso porque, deslumbrado com a amizade das moas, de D.  Lucila e com as coisas novas que estava aprendendo, demorara a tomar providncias a fim de deslindar aquela trama, causa principal de sua permanncia em So Paulo.  
       Na verdade, preferia sua vida simples da roa, mas sua curiosidade,  aliada ao desejo de limpar a memria de sua me, fazia-o permanecer firme.  Durante dois dias o Moreira limitou-se  a telefonar,  informando que coletava dados, e s no terceiro dia foi que apareceu.  Geraldo recebeu-o ansioso.  Acomodados na sala de estar,  o moo perguntou:
        E ento?  
        Consegui algumas informaes.  A data da morte do Dr.   lvaro, a 20 de setembro de 1914.  Pelos dados que colhi, houve uma suspeita em torno de D.  Carolina com o Dr.  lvaro, que por isso o Dr.  Euclides deixou o lar.  
       Geraldo ficou rubro.  
        Como soube disso?  Quem teve a coragem?  
        Acalme-se .  Estou trazendo os fatos que colhi com pessoas da sociedade daquela poca que estavam o par dos mexericos.  
       Geraldo cerrou os punhos.  
        Quero descobrir tudo.  A verdade tem que ser mostrada a toda gente.  
        O sr.   vai me desculpar, mas estou investigando e preciso usar de franqueza.  Sinto que o sr.   fique to magoado.  Mas, quanto  verdade,  haveremos de chegar l, isso eu prometo.  Vamos ao caso.  Sendo assim,  resolvi investigar a famlia do Dr.  lvaro e descobri que ele tentou matar a mulher por adultrio.  O caso est registrado nos jornais da poca, e o processo,  arquivado.  Precisamos de um advogado para ler o processo e dizer como aconteceu.  S os advogados podem fazer isso.  Isso  fcil.  Antnio, telefona ao Dr.   Olavo.  Pede para ele vir aqui agora.  Enquanto o velho empregado dirigia-se  ao telefone, Geraldo continuou:
        Voc acha que eles podem ter alguma coisa com o nosso caso?  
        Acho.  Pense bem, o Dr.  lvaro tentou matar a mulher e depois quis suicidar-se .  Veio para c para o Dr.   Euclides cuidar dele.  A j temos dois suspeitos, a famlia do homem que ele matou e era seu rival e a da esposa, que no deve ter se conformado com o escndalo.  Soube que a famlia dela era gente da mais alta sociedade.   Um escndalo desses...  
        ɗ fez Geraldo, pensativo.   De fato, pode ser.   Que mais
       descobriu?  
        Por agora, quase nada mais.  Preciso dados mais completos no
       processo, saberemos os nomes completos dos implicados.  Assim poderei
       investigar cada um, e depois tiraremos nossas concluses.  
       Antnio voltou, esclarecendo:
        Ele no estava.  Deixei recado para ele vir aqui urgentemente.  
        Ento, eu vou indo concluiu Moreira.   O sr.  faz o seguinte, pede para seu advogado conseguir tirar o processo do arquivo e traz-lo aqui.  Amanh cedo eu telefono para saber a que horas ele o trar.   Virei aqui para anotar tudo que preciso.  
       Quando o investigador se foi, Geraldo ficou pensando, pensando.   Estariam na pista certa?  Estava indignado.  As pessoas da sociedade julgavam sua me leviana.   
       Haveria de provar o contrrio.  
       Era quase noite quando o advogado o procurou.  Atrs do amvel sorriso havia um brilho curioso no olhar.  No podia queixar-se  de Geraldo, que pagava regiamente os seus honorrios, as despesas que ele estipulou, as viagens para localiz-lo , etc.  Mas, no fundo, a decepo ainda o machucava.  Pensava ter descoberto a mina,  mas o caipira soubera coloc-lo no devido lugar.  Ainda por cima, tinha que suportar a ironia e os gracejos de Juvenal, que no conseguira muito dinheiro de Geraldo mas ganhara bem com a reportagem que fizera sobre o assunto.  Continuava a trabalhar para Olavo, era seu homem de confiana, e ao mesmo tempo escrevia seus artigos para os jornais e os vendia a quem melhor pagasse.  Seja para polticos influentes, seja para os jornais da crnica policial que apreciavam os assuntos criminais.  
       Geraldo foi direto ao assunto.  
       Mandei chamar o doutor porque preciso dos seus servios.   Estou s ordens Geraldo.  Enquanto tomava assento, o advogado observava o caipira, admirado.  Nem parecia o mesmo homem que trouxera do mato.   Fazia dois meses que no o via e encontrava-o bastante mudado.  As roupas elegantes, as maneiras, e at a linguagem estava bem melhor.   Olhou-o curioso.  
        Vejo que est progredindo- arriscou, bem humorado.  
       Geraldo nem pareceu ouvir.  
        O problema  o seguinte:estou investigando o passado.  Quero
       saber por que meu pai foi pro mato e me levou junto.  Contratei um detetive.  Precisamos do processo do Dr.   lvaro de Medeiros.  
       Olavo olhou-o admirado.  
        Para qu?  
        Investigar.  Sei que s advogado  que pode trazer ele aqui.  Voc vai fazer isso.  
        No  fcil.  Precisa ser localizado e preciso justificar meu pedido para poder obt-lo .  Sabe que  contra a lei.  
        Ora, Dr.  Olavo,  voc sabe o jeito de fazer isso.  Traga o processo aqui o quanto antes.  Precisamos dele pro detetive anotar tudo.  
        Vou ver o que posso fazer.  Mas... afinal, por que remexer tudo isso?  
        Eu quero.  Vou saber tudo.  
        Pode descobrir coisas desagradveis.  No  melhor deixar como est?  
       - Se  no quer fazer isso, arranjo outro advogado.  Num tenho medo da verdade.  Tenho a certeza de que minha me  inocente.  Voc sabe de alguma coisa que no me contou?  
       O olhar de Geraldo, cravado no rosto do advogado, tentava penetrar
       O fio de seus pensamentos.  
        Nem pense nisso.  Tudo que sabia j contei.  Mas remexer velhos processos nem sempre  boa escolha.  
        Deixe comigo.  Vou at, o fim, doa a quem doer.  
       - Se   assim, vou fazer o que me pede.  Se lhe da prazer dissecar defuntos, que seja.  
       Geraldo estava ansioso.  No dia seguinte, na casa de Lucila,  tardinha, comentou com ela o assunto.  
        A  senhora sabe alguma coisa sobre isso?  
        Pouco.  Lembro-me bem dele, moo bonito e bom.  Foi muito infeliz.   Amava a mulher com desespero.  Conheci o casal em casa de Carolina.  
       Eram muito amigos Dr.   lvaro e seu pai estimavam-se  como irmos.  
        E a mulher do Dr.   lvaro, como era ela?  
        Muito bonita, muito fina.  De famlia requintada.  Gostava da vida em sociedade e participava ativamente de festas, espetculos, vida social.  Era alegre e bem humorada.  Dr.   lvaro morria de cimes, mas ao mesmo tempo orgulhava-se  dela.  Era um belo casal.  
        E ela, onde est agora?  
        Na ocasio do escndalo, assim que se recuperou, foi para a Europa com a filha.  Porm, eu soube que, depois que o Dr.  lvaro morreu, ela voltou ao Brasil; parece-me que se casou novamente, com um homem muito rico.  
        No sabe o nome dele?  
        No sei.  Alis, eu nem procurei saber.  No gosto da vida social,  nunca mais a vi depois da tragdia.  
        Acredita que ela ou sua famlia possam ter alguma coisa a ver com o que houve com minha me?  
       Lucila sacudiu a cabea,  pensativa:
        No sei.  No os conheo bem.  Voc acha que ela possa estar envolvida?  
        Por enquanto no sabemos, mas estamos investigando.  Se ela teve,  vou descobrir.  
        s vezes, Deus nos oculta a verdade para nos poupar.  
        No deve dizer isso.  No posso admitir que minha me seja considerada leviana.  
        Tem razo quanto a isso.  Sua memria  sagrada.  Ela;foi uma mulher superior.  
        Preciso provar isso a todos que duvidaram.  
         nobre de sua parte.  S no acho bom pensar em vingar-se .  No cr que Deus distribua a justia melhor do que ns?  
        Acho que no.  Ele permitiu que isso acontecesse.  Que duas pessoas inocentes sofressem.  Eu tambm era criana e paguei por um crime que no fiz.  Lucila respirou fundo.  O rosto de Geraldo estava determinado, e seus olhos, profundamente tristes.  
        Meu filho, voc acredita em reencarnao?  
        Reencarnao?  O que  isso?  
        J tenho algumas vezes mencionado isso.  Voc cr que a vida continua depois da morte?  
        Certamente.  Acredito que minha me deve estar em algum lugar.  As almas dos que morreram costumam rodear os vivos.  No mato se sabe dessas coisas.  
        Voc sabe o que estamos fazendo no mundo?  Por que Deus nos mandou para c?  
        Acho que  pra sofre.  E  isso que eu num posso entende.  Nesse mundo, tanto sofrimento, tanta injustia.  Uma vez vi um padre fala que os filhos pagam pelo pecado dos pais.  Achei ele burro.  Se Deus fosse bom, no ia faz essa injustia.  Que culpa tenho eu do pecado dos meus pais?  
        Nenhuma.  Mas se eu lhe disser que Deus  bom e justo e d a cada um segundo merece, voc duvidaria?  
        Duvido.  Esse  o ponto de minha briga com Deus.  O que ele fez comigo no foi justo.  Criana no tem pecado.   inocente.  Acredita em tudo, tem vontade de ser boa.  Tudo isso acaba com as maldade dos homens.  
        Voc est vendo s a vida atual.  E antes?  
        Antes, como?  
        Antes de voc nascer no mundo, voc nunca fez nada de mal?  Foi sempre bom e confiante?  
        Isso num sei.  Como posso saber?  Num lembro de nada.  Acho que no existia antes.  
        Geraldo, pense nisto:voc admira a natureza, sabe como  bela e perfeita.  Deus  o criador de tudo.  Criou tambm as almas dos homens e as colocou neste mundo para aprenderem a ser boas e perfeitas.   As almas dos maus so almas crianas que vo aprender com o tempo.   H j aquelas que aprenderam e so bondosas.  Mas qualquer aprendizagem para a alma requer tempo e vivncia.  Por isso, os que viveram e morreram na Terra voltam a nascer de novo para continuarem a aprender.  
        Quer dizer que minha me pode nascer de novo?  ! ! 
        Certamente.  Em outro corpo novo, de um beb, sua alma se encarna e nasce na Terra.  
         difcil acreditar! 
        Se  observar os fatos, ver que no.   No v como as pessoas so diferentes umas das outras?   porque umas so almas mais velhas e mais experientes, e outras no.  
        Se    assim por que no lembramos de nada?  
        Porque Deus  bom e nos permite esquecer o passado.  Quer que nos amemos como irmos e no guardemos nenhum ressentimento.  
        Num  justo esquecer o que me fizeram de mal.  Assim o culpado fica sem punio, vai abusa mais.  
        De maneira alguma.  Se voc esquece o que lhe fizeram noutra encarnao, tambm o que voc fez aos outros fica temporariamente esquecido, e o peso do remorso e do arrependimento se ameniza.  Mas se os homens esquecem temporariamente o passado, as leis de Deus que cuidam do equilbrio de tudo regulam os acontecimentos e ajudam cada um a aprender novos conceitos mais elevados, bem como permitem a quem errou refazer o mal.  
        Parece complicado.  
        No .  A vida na Terra, alm de educar a alma, ainda lhe permite refazer o que em sua ignorncia destruiu.  
        Mas no  justo.  Agora eu no me lembro.  Como vou saber?  
        No seu caso mesmo.  Nunca lhe ocorreu que, embora possa ter havido algum que provocou a tragdia de vocs, Deus no tenha corrigido esse erro enquanto sua me viveu?  
        Isso prova que ele no tem pena do nosso sofrimento.  
        Prova mais, que vocs precisavam passar por essa prova dura em resgate de alguma falta que, se no foi cometida na vida atual,  pode bem ter sido em outra antes dessa.  
        Quer dizer que ns merecemos passar tudo isso?   perguntou ele assustado.  
        Por mais que eu respeite sua me, por mais que eu o estime, acho que Deus  justo.  Se vocs no precisassem passar por tudo isso,  ela certamente os teria encontrado antes.  Nunca lhe ocorreu isso?  
        Sempre me revoltei por causa disso.  Como aceitar essa injustia?  
        Com a calma voc ver que s pode ter sido assim.  Se Deus  equilbrio e perfeio em tudo.  Dispe das foras da natureza com tanta sabedoria;porque s com os homens seria diferente?   S por que o homem tem livre escolha nos caminhos da Terra j se acha auto suficiente?   A morte acaba com essa iluso de um sopro.  
       Geraldo baixou a cabea, pensativo.  Aquela teoria o perturbava muito.  Por outro lado, no duvidava da existncia de Deus, que aprendera a respeitar ao contato com a vida simples do mato.  Mas com os homens, tudo se complicava.  
        A  senhora cr mesmo nisso?  Acha que podemos j ter sido outro em outro corpo?  
        No acho que fomos outros, mas que somos sempre os mesmos, usando diferentes corpos, como uma roupa que vestimos e tiramos quando no nos serve mais.   Acha que pode entender de outra forma o mundo em que vivemos?   Onde as crianas nascem aleijadas, surdas, mudas,  disformes, enquanto que outras so lindas, inteligentes,  ricas e parecem privilegiadas?          , 
        Isso  verdade.  
        Olhando o gnio e o imbecil, como entender a vida na Terra sem a reencarnao?  De acordo com sua vida passada, com o que voc fez de bom ou de ruim, voc reencarna na Terra.  Vai aprender de novo.  
        Quer dizer que, no seu entender, eu mereci o que passei.  
        Em princpio, se aconteceu, s pode ser por uma razo justa.  Se a causa no est na vida atual, s pode estar nas vidas anteriores.  
        O que terei feito para merecer tudo isso?  
        Quem pode saber?   O abandono de filhos na orfandade, a desvalorizao da famlia, da me, do lar.  Quanto a isto, s quando voltamos para o outro lado da vida  que poderemos saber.  
        O que me disse  novo.  Precisamos conversar mais.  
        Sempre que quiser, meu filho.  Essa teoria tem me ajudado a viver em paz e deu-me muita fora.  A cada dia, quanto mais penso nela e analiso os acontecimentos, as pessoas que nos cercam, mais ela se confirma.  Jamais foi desmentida pelos fatos.  A justia de Deus jamais falha.  Se parece-nos omissa,  porque no enxergamos alm da vida presente.  Se possussemos uma viso do conjunto passado, presente e futuro, veramos que ela  perfeita e sempre d a cada um segundo suas obras.  
        Gostaria de entender, sua paz sempre me fez bem Adoro sua casa,  conversa com a senhora;talvez algum dia eu tambm tenha essa certeza.  Por enquanto  difcil.   
       A revolta me deixa inconformado.  Eu preciso descobrir a verdade.  
        Que Deus o proteja.  Conversaremos quando quiser.  Gostaria de contar-lhe algumas histrias que Jesus contava.  Qualquer dia desses, falaremos sobre isso.  As meninas esto ansiosas.  No as faa esperar.  Na tarde do dia seguinte, Geraldo no foi  casa de D.   Lucila.  Impaciente, esperava, juntamente com o detetive, a presena do Dr.  Olavo.   O sr.  Moreira no conseguira mais nenhuma descoberta, e aguardavam esperanosos a presena do advogado a fim de conhecerem os detalhes do caso do Dr.   lvaro.  
       Era j 16h30 quando o Dr.  Olavo chegou.  Trocados os cumprimentos,  Geraldo foi direto ao assunto.  
        Ento, Dr.   Olavo?  
        Consegui.  O processo est aqui comigo.  No foi fcil,  tive que escorregar a nota, mais ei-lo aqui exibiu uma pasta meio descorada,  e um tanto volumosa.  Pelo que pude ler continuou ele- a  situao resumiu-se  no seguinte:o Dr.  lvaro, desconfiando do comportamento da esposa, seguiu-a  e viu-a  entrar em uma casa em local retirado.   Esperou certo tempo e, tomando a arma que trazia, deu volta  casa,  conseguindo acesso pela porta dos fundos, escondeu-se  e viu quando sua mulher, na sala, conversava com um homem, surpreendendo-os em idlio amoroso.  No suportando mais, saiu de onde estava e atingiu a tiros os dois amantes.  Depois, desatinado, tentou o suicdio.  No conseguiu seu intento.  Eis a os fatos resumidos.  
        Deixe-me ver o processo, doutor.  Quero fazer minhas anotaes.   Posso ficar com ele hoje?  
        Sinto muito, sr.  Moreira.  Preciso devolv-lo .  Sou responsvel por ele e no posso emprest-lo .   contra a lei retir-lo dos arquivos.   Pode dar at cadeia.  
        Conheo a lei, doutor.  Sei como vocs trabalham disse ele sorrindo  No importa, vou trabalhar aqui mesmo.  Deixe-me   ver.  S que o doutor vai ter a bondade de  esperar.  
        Vai anotar tudo isso?   fez ele com ironia.  
        Se precisar, vou.  E agora, se me permitir... 
       Pegou a pasta e dirigiu-se  a uma mesa a um canto da sala.   Colocando ao lado seu caderno de notas e um lpis, comeou a ler os autos do processo.  
       Enquanto isso, o Dr.  Olavo procurou manter conversao com Geraldo.   No lhe passava despercebida a grande modificao que o moo sofrera.  Enquanto saboreava a xcara de cafezinho que Elisa lhes servira, no escondia a curiosidade.  
        Vejo com prazer que voc se acostumou muito bem na cidade.  
        ɗ fez Geraldo , por enquanto.  
        Eu me lembro de que voc no queria vir.  E ainda que pretendia ver-se  livre do dinheiro e voltar o quanto antes para o mato.  Eu sabia que voc ia mudar! O dinheiro tem grande poder.  
        Continuo gostando mais do mato.  Dinheiro no me faz falta.  O que me segura  descobrir a verdade.  Juro que ainda descubro, e quando conseguir, ai daqueles que foram os causadores da nossa desgraa! 
       Geraldo disse isso com tanta veemncia que Olavo ajuizou:
        No gostaria de estar na pele deles.  
        Melhor no.  
        E como pretende se vingar?  J pensou que pode estar enganado?  
        J.  Mas, a cada dia, mais e mais vejo que no estou.  A vingana vai s dura, isso eu garanto! 
        No frequenta ainda a sociedade?  Meus amigos tm me perguntado sobre voc.  As moas, principalmente.  Nunca aceitou um convite nosso para frequentar nossa casa.   
       Marilda est muito sentida.  
        Ora, doutor.  Eu num v mesmo.  Num aprecio estas coisa.  Quero vida sussegada.  
        O povo tem falado que voc no sai da casa de D.  Lucila.  Comentam at que voc namora a filha dela.  
       Geraldo irritou-se .  
        Ningum tem nada com a minha vida, ou com meus amigos.  
       Diga tambm ao Juvenal que eu li o artigo que ele escreveu no jornal e ele num precisava fala tantas mintiras.  
       Olavo surpreendeu-se : J sabe ler?  
        Estou aprendendo.  
        Ele no fez por mal.  Todo reprter exagera um pouco.  Mas at que ele falou bem de voc.  
        Num carece fantasia.  Pra qu?  O que ele queria mesmo era que o povo lesse pra ele ganhar mais dinheiro.  Num acho que ele fez isso por mim.  Olavo suspirou.  
        O que lhe falta em instruo sobra em inteligncia.   pena que no pense em ficar na cidade.  Tenho a certeza de que em pouco tempo poderia progredir muito.  Mas eu acredito que voc ainda resolva ficar.  Quem sabe uma moa bonita possa segur-lo .  
        Num  quero nada com mulher.  J tenho muito problema.  
       Eram quase 18 horas quando o Moreira, entregou o calhamao que manuseara.  
        Pode lev-lo , doutor.  Se eu precisar dele novamente, aviso.  
        No acha que anotou o bastante?  O que espera encontrar em um caso to simples?  
        No  me parece to simples.  Veremos.  
        Vocs detetives vem mistrios em tudo.  Exageram muito.  Tambm h que valorizar o seu trabalho, no ?  
        Em investigao, no se pode deixar escapar nenhum detalhe.  Quase sempre resolvem a questo.  
        Pois eu acho que neste caso  tempo perdido.  Alm de fazer muito tempo, o que dificulta tudo, ainda os interessados diretos esto todos mortos.  Depois, eu pessoalmente acho que o que aconteceu no foi planejado por ningum.  De que adianta remexer coisas mortas e passadas?  
        O doutor conheceu D.  Carolina, no ?  
        Certamente fez Olavo com nfase.  
        Disse ao sr.  Geraldo que foram amigos.  
        ...  
        O que sabe sobre a separao do casal?  O advogado riu um pouco forado:
        Ora.  Quase nada.  Sei o que todos sabem.  Era amigo de D.   Carolina mas no tinha intimidade.  Era uma pessoa muito retrada, nosso relacionamento foi social apenas.   
       Quanto aos seus problemas ntimos, no os conheci.  Sei o que todos sabem.  
        Mais tarde, gostaria de falar mais um pouco sobre o assunto.   Quando eu tiver mais informaes do caso.  
        Nada h a acrescentar.  O que sabia j disse.  Sobraando a grossa pasta, despediu-se  apressado.  Pensativo, Moreira tornou:
        Acho que ele sabe mais do que disse.   homem matreiro, e pelo que sei tem fama de raposa.  
        No confio nele nem um pouco.  
        Nem deve, sr.  Geraldo.  Mas vou descobrir.  Pode deixar comigo.  Quanto ao caso, anotei os nomes completos de todos os envolvidos e vou investigar tudo.  O homem que o Dr.  lvaro matou era pai de famlia.   Tinha esposa e dois filhos.  Famlia de classe mdia.  
        Acha que eles podiam ter alguma coisa com o nosso caso?  
        Ainda no sei.  Esse homem morreu assassinado.  Sua famlia tinha bons motivos para querer vingar-se  do Dr.   lvaro.  
        Isso  verdade.  Mas ele era culpado.  Estava roubando a mulher de outro.  
        Pouca gente se interessa pelo que  justo.  A morte de pessoa da famlia  golpe duro.  
        .  Pode ser.  Mas onde entra minha me nisso?  
        Seus pais ajudaram o assassino.  Estavam do lado dele.  Isso so suposies.  S o futuro pode dizer.  Agora vou indo.  Tenho material para continuar meu trabalho.   
       Assim que tiver notcias, eu volto.  
        No aguento ficar esperando.  Quero saber tudo.  
        Virei sempre.  
       Quando Moreira se foi, Geraldo ficou pensativo.  Nem se deu conta de que a noite descera, e somente voltou  realidade quando Antnio acendeu as luzes, convidando-o para jantar.  
       
       
       
       CAPTULO 8
       
       
       Nos dias que se seguiram, Geraldo permaneceu preocupado.  Nem a tertlia fraterna em casa de D.  Lucila, nem as aulas sempre to apreciadas conseguiram apagar dos seus olhos aquela melancolia e aquela ansiedade.  
       A boa senhora fez o que pode para faz-lo sair daquela faixa mental, mas o moo, embora amvel e atencioso, demonstrava continuar pensando da mesma forma.  
       Quando o Moreira o procurou, foi com presteza que o recebeu.  
        Tenho alguns informes.  Estive em casa da viva do sr.  Eurico, 
       O homem que o Dr.  lvaro matou.  Falei com ela.  A princpio no queria me atender.  Ficou muito assustada.  Disse que no gosta da polcia.   Mas a custo consegui saber que seu marido era vendedor de uma  firma e ganhava bem;embora no fosse homem de muita cultura, era o que as mulheres chamam de atraente.  Bonito e bem falante, vestia-se  com muito apuro, gostava de perfumar-se  e adorava vida noturna.   Festas, teatros, bailes, etc.  No levava a mulher e viviam sempre brigando.  Apesar disso, ela gostava muito dele e sofreu com sua morte.  Quanto aos familiares dele, se resumiam no pai, velho e doente, na me, que visitava de vez em quando desde que se separara do marido, e uma irm casada morando em Minas Gerais.  
        Que acha?  
        Acho que dali no me parece que tenha aparecido complicaes.  
       A mulher de Eurico no me pareceu vingativa, e inclusive lamenta a sina triste do Dr.  lvaro.  Diz que tem pena dele.  Parece sincera.  
        ...   fez Geraldo, pensativo.   Dali acho que num foi.  
        Em todo caso, esto sob observao.  Tentei uma entrevista com D.   Aurora Sampaio Viana, piv do crime.  Sua secretria atendeu-me e,  informada dos motivos da minha visita, no me quis receber.  Como eu insistisse, ela, mandou-me dizer que ficou traumatizada com o caso e que no quer falar do assunto.  Sua secretria tentou convencer-me  de que ser intil.  D.  Aurora, segundo ela, ficou longo tempo em tratamento em uma casa de repouso na Sua, e seu mdico aconselhou-a  a esquecer.   
       Foi o que fez e no quer mais voltar a um assunto doloroso, que considera encerrado.  Achei melhor no insistir.  Tratei de investigar a famlia.  Dr.   Afonso, seu marido,  homem respeitado, engenheiro;sua filha mais velha, filha do Dr.  lvaro, Maria Luza,  moa bonita e requestada na sociedade.  At a nada de mais.  Porm, h o velho Dr.   Sigifredo de Arruda Sampaio, mdico, pai de Aurora, que pareceu-me odiar o Dr.  lvaro profundamente.  Consegui localiz-lo .  Apesar da idade,  catedrtico em medicina e, embora no lecione mais, ainda presta assistncia aos professores.  Fui at a faculdade e encontrei-o l.   Recebeu-me sem saber do que se tratava e apresentei-me, oferecendo-lhe meu carto.  
        Sr.  Moreira fez ele, admirado.  
        Detetive.  Acho que est enganado.  No  a mim que procura.  Fez um gesto para tocar a campainha chamando a secretria.  
        Enganasse, doutor.   o senhor mesmo.  
        O que deseja?  Seja breve.  Estou muito ocupado.  
        Serei breve.  Estou investigando o caso do sr.   Geraldo Marcondes.   Sei do seu relacionamento com a famlia do Dr.   Euclides Marcondes,  pai do  meu patro, mdico como o  senhor.  
        Conheci o Dr.   Marcondes de forma superficial.  Nem sequer fomos amigos ou nos relacionamos.  No vejo em que possa ser lhe til ele falava secamente, mas sua voz pareceu-me irritada.  
        Seu genro, Dr.  lvaro, D.  Aurora, eram seus amigos ntimos.  
       Ele levantou-se  indignado.  
        No me fale nesse assassino que arruinou a minha famlia.  
        Desculpe se a recordao o aborrece.  Mas no meu trabalho eu preciso mencionar os fatos.  
        Nem sei por que eu estou ouvindo-o.  Mas, j que quer saber, posso informar que esse cidado que em m hora desposou minha filha, e que felizmente j morreu, atirou lama na esposa para cobrir sua prpria maldade.  Veio para falar da mancha que carregamos com a calnia levantada contra Aurora, mas eu posso atirar no rosto desse Geraldo uma verdade de que ele no vai gostar! 
        Que verdade, doutor?  
        Carolina era amante desse cavalheiro desclassificado.  Tanto que,  se voc quer saber, o Dr.   Euclides descobriu tudo e largou dela,  foi-se  embora e nunca mais voltou.  
       Geraldo ouvia plido, trincando os dentes com fora para segurar a indignao.  
        Sinto, sr.  Geraldo, mas precisamos saber a verdade.  Por isso estamos investigando.  No posso recear ofend-lo neste caso.  Estamos ouvindo o que os outros dizem.  
        Esse homem  um mentiroso murmurou ele enraivecido.  
        Eu diria um exaltado, que odeia muito.  Se continuarmos as investigaes, sei que o sr.   vai aborrecer-se .  Estas intrigas sociais so muito desagradveis, mas sem  isso nunca chegaremos   verdade.  Geraldo suspirou.  
        Tem razo.  Pode falar, num v me importa com isso.  Melhor conhecer a verdade.  E eu sei que eles vo se arrepende do que falaram.  
        Muito bem.  Vi que o Dr.  Sigifredo estava plido e muito nervoso,  mas eu queria aproveitar para arrancar dele o que pudesse.  
        O senhor lembra-se  de como as coisas aconteceram?   perguntei interessado.  
        Eu estava ainda indignado com a morte daquele pobre pai de famlia, e com a sade de Aurora, cuja bala perfurara o abdmen e por pouco no lhe causou a morte.  Minha filha ficou arrasada.  S fazia chorar de vergonha e de pena do pobre homem.  Temia que o patife do marido morresse.  Pobre filha, to boa e dedicada! Faz-me mal recordar essas coisas, mas se eu o fao  para que a verdade se restabelea.  Esse moo quer saber como seus pais separaram-se .  Que seja.  Euclides foi inocente.  Acreditou nas mentiras de lvaro e levou-o para casa.  Mas ele ignorava que lvaro amava Carolina.  
        Como sabe disso?  
        Andavam sempre juntos.  Vrias vezes preveni Aurora de que no devia sair e deix-lo s sozinhos em casa.  Mas ela era confiante.  At que descobriu tudo.  Ficou desesperada.  
        Mas o que eu sei  que o Dr.  lvaro surpreendeu-a  com outro homem.  
        Calnia.  Pobre filha.  Arranjou aquela entrevista para enciumar o marido, mas por causa de Carolina.  Depois, ele fingiu acreditar nessa histria porque lhe convinha.  Mas ele era amante de Carolina.  Todos sabiam e comentavam.  Essa foi a tnica do desquite.  
        D.  Aurora desquitou-se ?  
        Claro.  Enquanto ela refazia-se  na Europa, providenciei o desquite.  
        Foi amigvel?  
        Acha que poderia?  Foi litigioso.  Infelizmente no consegui evitar que ele recebesse parte da nossa fortuna, o que no foi justo.  Mas,  depois da sua morte, Maria Luza herdou tudo.  Como v, a justia de Deus tarda mas no falha.  O canalha morreu, como um co, minha filha desposou um homem bom e honesto e hoje tem um lar feliz.  
        O sr.  foi amvel em receber-me.  Agradeo-lhe muito.  
        No gosto de recordar esses assuntos.  Mas esse jovem precisa saber a verdade.  Ouvi dizer que ele viveu no mato com o pai durante todo esse tempo.  
         verdade.  
        Euclides nunca perdoou a mulher! 
        Gostaria de conversar com D.  Aurora, no me recebeu.  Se o doutor pudesse ajudar-me...  
        Impossvel.  Minha filha ficou traumatizada.  No seria bom para ela.   Receio pela sua sade.  O que tinha para ser dito, j disse.  
        Muito obrigado, doutor.  Passar bem essa foi a nossa conversa.  
        No acredito no que ele disse.  
        Ele mente em vrios pontos.  Quer inocentar a filha, mas, pelo que consta e ficou demonstrado nos autos, D.  Aurora vinha mantendo encontros com o amante havia vrios meses.  Segundo depoimento da caseira, era comum eles encontrarem-se  ali duas vezes por semana.  
        Por  que no  lhe  disse  isso?  
        No convm irrit-lo .  Queria ver at onde ele ia.  
        Acho que eu num dava pr investiga.  Num tinha ficado quieto.  
        E preciso.  Se ele pensar que acreditamos em sua histria, quem sabe intercede com a filha em receber me.  
        Pode ser.  Estou impaciente pra descobrir tudo.  
         difcil penetrar nesses ambientes na sociedade.  Todos desconfiam de um detetive.  Se eu pudesse frequentar a sociedade sem que ningum me conhecesse... Poderia descobrir muita coisa! 
       -se  o sr.  Geraldo frequentasse, o sr.  poderia ir com ele, como secretrio, ou amigo ajuntou Antnio, pensativo.  
       -se ria timo! 
        Eu num gosto dessas coisa.  Num sei como faz nesses lugares
        E se sua prima ou D.  Lucila ajudar?  Elas so bem relacionadas.  
        Seria bem mais fcil- aduziu o detetive.   Poderia conversar com todos sem que soubessem minha profisso.  Garanto que descobriria tudo em pouco tempo.  
        Se  assim, concordo.  Num vejo a hora de desmascarar os culpados.  
       O detetive fitou Geraldo bem nos olhos e, colocando a mo em seu brao, tornou com voz grave:
        No tem medo de se machucar?  
        No respondeu Geraldo com voz firme.   Tenho a certeza de que meus pais so inocentes.  
        Muito bem.  Iremos  at o fim.  A verdade aparecer.  
       Naquela tarde Geraldo conversou com D.  Lucila sobre seus planos.  
       Ela objetou:
        Meu filho, a vida em sociedade  cheia de tentaes.  Acha que poder enfrent-la s?  
        Claro.  
        Sei  que  tem  carter, mas falta-lhe traquejo  para  safar-se    do envolvimento que isso ocasiona.  No ser melhor deixar que o detetive raa o trabalho sozinho?  
        Estou ansioso.  Quero ajudar.  No aguento mais ficar parado esperando sem fazer nada.  Sei que no tenho jeito nem finura para isso, mas quero tentar.  
        Nesse caso, tudo farei para ajud-lo .  Temo por  sua segurana.  
        No se preocupe.  Sei como fazer as  coisas.  
        Deve pedir ajuda das moas, principalmente da Maria da Glria, ela  muito bem relacionada.  Ela o ajudar.  
        Foi o que pensei.  Hoje mesmo falo com ela.  A moa ouviu-o atentamente e ponderou.  
        Posso ajudar.  Acha que aguentar?  
        Pra descobrir o que quero, fao qualquer coisa.  
        Quando pretende comear?  
        O quanto antes.  
        Preciso conhecer o sr.   Moreira.  Acha que saberia portar-se  em sociedade sem que ningum desconfie de sua profisso?  
        Como assim?  
        Ela quer saber se ele  um homem bem arrumado, educado  esclareceu Ins.  
        ɗ tornou Geraldo.    moo e bem vestido.  Fala muito bem.  
        Preciso conhec-lo .  Prepar-lo para frequentar nossa roda.  No pode cham-lo aqui?  
        Agora ?  
        .  Tem telefone?  
         difcil.  Posso conseguir que venha aqui amanh, e ento combinaremos tudo.  
        Enquanto isso, precisamos pensar numa maneira de fazer isso.   Primeiro deve aceitar os convites para jantar na casa do Dr.   Olavo;o Jorginho dever lev-lo para conhecer seus amigos, e eu, s confeitarias, cinemas e chs com as amigas.  Vamos fazer uma lista.  
       Naquele dia, apesar dos planos novos, Maria da Glria no deixou de ministrar sua aula, dobrando a lio para casa.  
       No dia imediato, quando o Moreira chegou, o grupo j estava reunido.   Depois de apresentado, comentou.  
        Precisamos falar.  Tenho novidades.  
        Fala.  No tenho segredo para elas.  
       Vendo a indeciso dele, elas queriam afastar-se , mas Geraldo impediu.  
        Se esto me ajudando, acho que precisam conhecer tudo.  Fala,  Moreira.  
        Est bem.  Concordo que, se vamos trabalhar juntos, precisamos estar todos acompanhando o caso.  Mas proponho que nossa conversa no saia daqui.  Para o tipo de investigao que pretendemos, todo sigilo  pouco.  Se descobrem nossa inteno, tudo ter sido intil.  
        Concordo tornou Maria da Glria.   Da minha parte, serei um tmulo.  
        Tem razo concordou Lucila.   Ns tambm guardaremos segredo.  
        Muito bem.  Sabem quem foi o advogado do desquite de D.  Aurora com o Dr.  lvaro?  Foi o nosso Dr.  Olavo! 
       Geraldo saltou da cadeira.  
        Claro.  Tenho um carto dele.  Fui conhecer o processo de desquite.   Arranjei um amigo advogado e fui com ele.  Conseguimos descobrir vrias coisas.  O Dr.  Olavo foi advogado de D.  Aurora.  E o advogado do Dr.  lvaro foi um famoso causdico, que no s foi o instaurador do processo como teve amplo ganho de causa.  A briga foi sria, a tnica do Dr.  Olavo em sua defesa foi a tentativa de envolver a moral do Dr.  lvaro para justificar o comportamento leviano de sua cliente,  que ficou demonstrado no decorrer do processo.  
       Geraldo estava plido.  
        Miservel! Disse que tinha sido amigo de minha me.  Talvez tenha sido o autor da calnia.  Bem que eu no gosto de sua cara de raposa! 
        Calma, meu filho.  Se quer descobrir os fatos, no pode deixar-se  levar por impulsos que podem dificultar o conhecimento da verdade.  
        Esse cachorro me paga!  tornou Geraldo trincando os dentes.  
       Seus olhos expeliam chispas.  
        D.  Lucila tem razo.  O Dr.   Olavo  homem interesseiro.  Por dinheiro  capaz de tudo.  Foi regiamente pago para defender os interesses do Dr.   Sampaio.  
        Mas quando falamos do Dr.  lvaro, por que ele no contou que conhecia eles?  
        Naturalmente quis evitar que o sr.   descobrisse e se desgostasse.   Afinal,  seu cliente, ele no quer perd-lo .  
        No dou mais um tosto para aquele patife.  
       -se  vamos trabalhar, no pode fazer isso agora.  No quero que ele saiba que j descobrimos isso.  Vamos ver o que mais ele est ocultando.  
        .  Pode ser que o malvado esteja encobrindo mais coisa.  
        O pior  que ele sabe que eu trabalho como detetive.  Gostaria que pensasse que ns desistimos de investigar.  
        Levante-se , sr.   Moreira tornou  Maria  da Glria, olhando-o
       fixamente.  O moo olhou-a  sem compreender.  
        Levante-se  e deixe-me ver.  
       Ele levantou-se , meio encabulado.  Ela olhou-o de alto a baixo, f-lo virar e caminhar um pouco.  O moo, pouco  vontade:
        O que foi?  
          tornou ela em tom formal , acho que d para passar.  
        Para passar o qu?   fez o moo, admirado.  
        Estou pensando em prepar-los para o debut.   moo, tem postura,  olhos interessantes.  Creio que, melhorando o guarda roupa e os cabelos, vai dar certo.  
       O moo olhava-se  um pouco chocado.  Sempre primara pela elegncia e julgava-se  muito bem parecido.  Sentiu-se  ofendido, mas a moa falava com seriedade e em seus olhos no havia nem o mais leve sinal de caoada.  
        Acha que estou mal vestido?   fez ele meio sem jeito.  
        No quis dizer isso -argumentou ela.    Mas nas rodas em que vamos os moos do muita importncia  etiqueta da loja,   procedncia das roupas,  ao calado,  
       s combinaes de cores,  ao perfume francs.    preciso no destoar para no chamar a ateno.  
        Isso  uma bobagem  tornou Geraldo,  irritado.    Perfume! 
        Se quer frequentar,   bom estar de acordo.   Pessoalmente no ligo para essas coisas,  mas eles acham essencial.   Em primeiro lugar,  tm que procurar um bom barbeiro.  Os cabelos dos dois esto fora de moda.  
        Meu cabelo eu mesmo corto  fez Geraldo,  teimoso.  
        Pois eu gosto do meu corte de cabelo  rebateu o sr.   Moreira.  
        Como  o seu nome?    fez Maria da Glria.  
        Humberto.  
        No  mau.   Vamos fazer assim.   Vou falar com meu irmo,  que vai acompanh-lo s e organizar um bom guarda roupa para os dois.  
        Tenho roupa de sobra  protestou Geraldo.  
        Olha,  Geraldo,  se quer que eu o ajude nisso,  tem que atender o que  preciso.  
        Ela tem razo  ponderou Lucila,  divertida com a atitude deles.  
        Jorginho est sempre ao par de tudo e pode nos ajudar.   S que no vamos contar-lhe nosso plano.   Ele fala muito e no guarda segredo.   Vou dizer-lhe que voc desistiu de descobrir a verdade,  no conseguiu nade e agora quer esquecer o passado,  divertir-se ,  usar o dinheiro.   Em se tratando de gastar,  ele  mestre.   O Humberto pode ser-lhe apresentado como um amigo recm chegado do Rio.  
        Precisamos arranjar uma histria para ele  tornou Ins,  pensativa.    Vo perguntar.   Precisamos combinar para no haver contradio.  
          concordou Lucila.  
        J sei  tornou Maria da Glria.    Ele est sozinho em So Paulo,  onde veio esquecer um amor impossvel.   Ser um sucesso!  O mistrio,  o ar de tristeza,  vai ser maravilhoso.  
        Acho que exageram  protestou o Moreira,  meio assustado.  
        Nem um pouco.   Voc brigou com a famlia,  interrompeu os estudos na faculdade e veio para So Paulo esquecer sua amada.  
        E onde entro eu?    perguntou Geraldo,  achando graa no jeito da prima.  
        Voc  o homem rico.   Pode ser o que quiser,  ser sempre original.   Tudo combinado?  
        Farei como quiserem - admitiu Humberto.   
       - Se  acham que  preciso,  o que eu quero mesmo  poder trabalhar e chegar ao nosso objetivo.  
         Ento,  deixem comigo.   Hoje mesmo convoco o Jorginho,  que vai gostar muito.   J que tornou-se  seu amigo.  
        Quando comeamos?    interveio Humberto.  
         Assim que estiverem prontos,  transformados em almofadinhas,  com brilhantina nos cabelos e alfinete na gravata.  
       Naquele dia a aula foi um pouco diferente.   As moas,  com toda seriedade,  deram aulas de etiqueta que foram do coquetel ao banquete de gala com mesa posta e tudo.   
       Ensinaram a sair com uma dama e quase no continham o riso vendo a figura de Geraldo,  indcil e personalssima,  tentando transformar-se  em um educado cavalheiro.   
       No final da tarde,  D.   Lucila,  ao despedir-se  do moo,  olhou-o com muito carinho.  
        Meu filho,  acha que tudo isto  necessrio?   No seria melhor deixar as coisas a cargo da providncia divina,  que tudo sabe,  tudo prev e tudo pode?  
         No  fez Geraldo com seriedade.    Para isto ainda estou aqui.   S descansarei quando souber de tudo.   Quero desmascarar os culpados.   Vingar-me! 
        E isso o que me preocupa.   Voc vai levantar um vu que a vida achou prudente colocar por agora.   No acha que vai remexer segredos de criaturas que j partiram deste mundo para um lugar onde tudo se sabe, e que a esta altura possivelmente estaro em situaes diversas das que viveram neste mundo?  
        D.   Lucila,  a senhora  como uma me.   Procure entender.   Minha vida s tem sentido por causa desse segredo.   Tenho direito de saber o que aconteceu.  
        No duvido.   Mas a vingana,  meu filho,  tira ao vingador o crdito da justia e o torna to culpado quanto o adversrio.   Pense bem.   Jamais sua me aprovaria esse sentimento.   Vai com Deus,  meu filho.  
       Ele beijou-a  com carinho.   Comovia-o seu interesse amoroso e solcito.   Mas no podia atender-lhe a rogativa.   Sempre que pensava no assunto,  revoltava-se  e no podia conter os mpetos  de vingana.  
       No dia imediato comearam os preparativos para pr o plano em prtica.   Jorginho aceitou com entusiasmo.   Maria da Glria pintou para ele a figura do Moreira como a de um jovem tmido,  cerceado pelos pais,  que,  vitimado por uma paixo impossvel,  fugira para So Paulo para dar o brado de liberdade.   Conhecia o irmo e tocou-lhe o ponto fraco.  
        D um banho de atualidade nele -aconselhou.    Parece antiquado e sem traquejo.   Quanto ao Geraldo,  acho que no precisa mudar muito.   Ser um original.  
        Isso  verdade.   As moas tm vindo perguntar por ele e,  por incrvel que possa parecer,  acham no bonito! 
        Mas ele  encantador!   tornou ela,  entusiasmada.     por isso que no precisa mud-lo .    Vai agradar em cheio.  
        Voc parece-me entusiasmada.  
        Adoro Geraldo.   Mas como um irmo.  
        Isso  que no sei.  
        Pois pode saber.    meu maior amigo.   Hoje eles o esperam para os primeiros planos.  
        Ainda bem que ele esqueceu as idia de descobrir o passado.   O melhor mesmo  viver e aproveitar a sorte que Deus lhe deu.  
        E.   Espero que ele  no se  deixe arrastar demais.  
       Nos dias que se seguiram os preparativos foram intensos,  e no domingo Geraldo ofereceu um almoo aos amigos como teste final.  
       Na chegada,  foram  recebidos pelo  Antnio,  transformado  em mordomo,  que os  conduziu  varanda,  onde,   chegada  das  trs mulheres,  os dois  rapazes levantaram-se .   
       Jorginho no  comparecera  para deix-lo s agir  normalmente,  a fim de as trs ajuizarem o aproveitamento.  
       Humberto fixara residncia no palacete,  e,  vendo-o,  as trs quase no o reconheceram.   Pareceu-lhes mais alto e mais esbelto.   A mudana do corte dos cabelos,  agora penteados,  assentados e brilhantes,  to ao gosto da poca,  tinha ressaltado o tamanho dos seus olhos castanhos e profundos.   As mos,  manicuradas e com um anel no dedo mnimo de extremo bom gosto,  faziam nas parecer mais longas e finas.  
        Meu filho,  como voc mudou!    tornou D.   Lucila,   admirada.  
        Melhorou! 
        Bastante! 
       Corado com os comentrios das trs,  ele no soube o que dizer e todos riram alegremente.  
        Profisso,  a que me obrigas!   tornou ele,  tentando controlar a inibio.  
        E eu  fez Geraldo dando  uma volta.  
        Voc,  acho que deve j lavar sua cabea.   No gosto do que lhe fizeram,   Maria da Glria a custo continha o riso.   O primo no ficava bem com aquele tipo de cabelo requintado,  mas to distante da sua personalidade.   Ele suspirou aliviado.  
        Num gostei,  mas como num entendo disso...  
       Sentiu-se  muito melhor quando tirou a brilhantina e deixou seus cabelos revoltos e soltos como sempre usara.  
       O almoo decorreu alegre e ultimaram os planos para a estria durante a semana.   Iriam aos lugares pblicos frequentados e aceitariam o convite do Dr.   Olavo.   
       Depois de certa resistncia,  Geraldo concordou com o plano do detetive,  para usar com o Dr.   Olavo as mesmas armas dele,  a astcia e a mentira,  para descobrir mais.  O advogado,  avisado pelo Antnio de que Geraldo pretendia ingressar em sociedade,  reiterou prazerosamente o convite sempre renovado para  um jantar em sua casa e comentou  com Marilda.  
        Eu sabia que ele ia ceder.   Ningum resiste  tentao do dinheiro  vendo-a  concordar,  continuou.   -a final,  esse matuto sai-se  mais esperto do que eu julgaria.   
       No se apressou.   Primeiro preparou-se  e  agora vai lanar-se .    ...     ele sabe fazer as   coisas! 
        Como voc  quer esse jantar?  
        Pouca gente,  mas muito importante.   No viriam  nossa casa se no fosse pela curiosidade de conhecer o homem mais famoso e comentado dos nossos meios.   No vou perder essa oportunidade.   Preciso aumentar meu prestgio.  
       D.   Renata no conteve sua alegria quando viu os preparativos da filha,  esmerando-se  em escolher com cuidado seu guarda roupa,  ocupando-se  com detalhes de elegncia.   
       Finalmente Maria da Glria interessava-se   pela   vida   social,   comentou  com  o  marido:
        Jos,  acho que as coisas caminham melhor do que espervamos.  
       Finalmente Geraldo vai frequentar a sociedade,  e Maria da Glria e
       Jorginho vo  ciceron-lo .   No   timo?  
       Dr.    Marcondes pareceu  animar-se .  
        Menos mau.   Pode ser que isso melhore nosso crdito,  que anda baixo.   E vo acabar com os boatos e as gracinhas que fazem sobre essa malfadada herana.  
        S isso?   No v que Maria da Glria est interessada nele?   Nunca a vi esmerar-se  tanto,  estava linda.   Disse-me que ia tomar ch na Vienense com o primo,  Ins e um amigo dele do Rio que ele hospeda.   Acho que logo estaro comprometidos.   Mal posso esperar! 
        Tudo vai bem,  mas no sei no!  Ele  bronco e vai conhecer lindas mulheres.   Pode virar a cabea! 
        Isso .   Mas Maria da Glria  inteligente.   No vai perder a parada.  
       - Assim espero.   Porque o Jorginho anda fazendo das suas.   A custo vou tapando os buracos.  
         s uma fase.   Vai passar.  
       Naquela noite,  aps o ch,  reuniram-se  era casa de D.   Lucila,  alegres e sorridentes.   A entrada dos quatro na confeitaria elegante chamou a ateno geral.   Geraldo sentiu-se  meio ridculo diante do maitre,  mas as moas,  muito  vontade,  logo quebraram o impacto,  com discrio e naturalidade,  escolhendo a mesa onde se instalaram.   
        noite,  Maria da Glria contava a D.   Lucila com entusiasmo o interesse despertado por eles.  
       - Amanh vo chover os telefonemas para minha casa.   Espero convites tambm.   Mas vamos esperar um pouco para aceit-lo s.  
        Por qu?    perguntou Geraldo,  admirado.    No estamos indo bem?  
        Esto.   Mas precisamos valorizar nossa presena.   Vamos deix-lo s insistir um pouco e depois iremos.  
        Isso mesmo -a provou Ins.    Mas as moas ficaram muito interessadas.   Acha que vo resistir?  
        No reparei nisso -a juntou Geraldo, srio.    No estou interessado.    S quero cuidar do nosso assunto.  
       - Ainda bem.  Elas podem atrapalhar tudo  fez Maria da Glria, um pouco preocupada.  
       D.  Lucila sorriu e considerou:
        Claro que vocs chamaram a ateno.  So quase desconhecidos,  jovens e bem postos.  Mas acho que esto exagerando.  Com o tempo,  tudo se tornar natural e vocs podero trabalhar  vontade.  
       - Assim espero.   Nunca tive um caso to intrincado.   Amanh  o jantar na casa do Dr.   Olavo.  
        Nesse iro apenas os dois.   Ns no somos convidadas.   Acho que tudo vai sair bem.    Maria da Glria sorriu e continuou:  Espero que se divirtam! 
        Voc est caoando.   Conhece a mulher dele?    reclamou Geraldo.  
        D.   Marilda  a digna  representante do marido.  
        Pois .   No gosto dela.  Como vou aguentar esse jantar?   Acho que,  se me provocar, sou capaz at de dizer uns desaforo.  
        Pelo amor de Deus, Geraldo.  No ponha tudo a perder.  Se vai representar, tem que fazer tudo direitinho.  
       O moo olhou a prima com ar assustado.  
        Mas que vai ser duro isso, vai.  
       Todos riram do ar desamparado do moo.  Maria da Glria ficou sria,  e colocando a mo no brao de Humberto, olhando-o fixamente,  tornou:
        Confio em voc.  Cuide de vigi-lo para no pr tudo a perder.  
       Sabe controlar-se  melhor.  
       O moo sorriu.  
        Pode deixar.  
       Foi com ansiedade que as trs mulheres aguardaram as novidades no dia seguinte.   Logo  entrada dos dois rapazes elas levantaram-se .   Maria da Glria foi logo indagando:
        E  ento?   Como foi tudo?  
        Mal  disse Geraldo.    Gente aborrecida e perigosa.  
        Mal?    tornou a moa,  assustada.  
       Foi  Humberto  quem  esclareceu:
        Mal porque foi aborrecido e Geraldo no gostou das pessoas.  
       Mas muito bem quanto aos nossos planos.  
       As trs suspiraram aliviadas.  
        Que susto,  Geraldo.  
        No gostei.   Gente cheia de nove horas e muito diferente de vocs.  
        Geraldo ainda no se acostumou  etiqueta formal.  Foram muito amveis e alguns ofereceram a casa, at insistiram para irmos.  
        Quem estava?    perguntou Lucila.  
        Eis a relao dos nomes que tive o cuidado de anotar.  
       Humberto apresentou uma lista, que  a velha  dama percorreu com o olhar.  
        Gente da alta.  Conheo-os todos.  Posso afirmar que o advogado aproveitou o prestgio de Geraldo para projetar-se  nesse meio,  onde nem sempre  bem visto.  
        Mas ningum me conhece  protestou Geraldo.    Por que tenho prestgio?  
        Seu nome, sua famlia, seu dinheiro, sua histria, tudo provoca a curiosidade e desejo de conhec-lo .  
        Esse povo da cidade  mesmo abusado! 
       Eles riram e Geraldo ficou um pouco encabulado por ter usado aqueles termos.  Tinha tanta finura de observao que percebia sempre quando voltava a expressar-se  com a ingenuidade matuta do que fora.  
        E o Dr.   Olavo?    perguntou Maria da Glria.    No estranhou sua presena?  
       - A princpio sim  tornou Humberto, animado  , mas eu o chamei em particular e pedi sua colaborao.  Disse-lhe que ganhava mal como detetive e que Geraldo resolvera desistir daquele projeto de vingana;vendo-me aborrecido, desempregado, propusera-me o posto de cicerone, ou melhor, de um secretrio que o ajudasse a entrar na sociedade.  Agora, o que ele queria era esquecer o passado e aproveitar o dinheiro.  
        E ele?    tornou a moa.  
           - Aceitou logo.   Deu-me palmadinhas amistosas nos ombros e,  olhando-me com malcia,  afirmou: "Isso mesmo,  rapaz!  Fez muito bem.   Aproveite a chance que  nica.   
       Ser investigador  para gente que no tem a sua classe.   No resta dvida de que  homem de sorte.   Pode contar comigo.    claro que conto tambm com a sua colaborao.   
       Sabe, o Geraldo no entende bem as coisas.  Se voc ajudar me,  faremos grandes coisas! "
        Que patife!   comentou Geraldo com raiva.    Nunca gostei dele.  
        O mundo est cheio de oportunistas  fez Lucila.   -a inda bem que voc  inteligente e astuto.  
        Tive que concordar.  Interessa saber at onde ele vai  considerou Humberto.    Penso at em simular que concordo.  Se ele acreditar que pode tirar vantagem da situao, vai dar o servio todo.  
        Cuidado,  Humberto  tornou Ins, pensativa.    Esse homem  perigoso.  
        De malfeitores sei cuidar muito bem  sorriu o moo.  
        Devia sorrir mais amide  tornou Maria da Glria com seriedade.  
       O moo perdeu o jeito, e ela continuou:
        Tem um belo sorriso, magntico, e bons dentes.  
        Voc deixa ele sem ao  comentou Geraldo, divertido.  
        Falo srio.  Se tenho que torn-lo elegante, preciso salientar seus ngulos favorveis.  
        Mas ele  um jovem que esconde um amor contrariado.  Precisa ser triste  comentou Ins, divertida.  
       A moa no se deu por achada.  
        .  Mas pode sorrir um sorriso meio triste.  Fica romntico.  Essas mocinhas tolas vo gostar muito.  
       Humberto irritou-se .  
        No pretendo agradar mocinhas tolas.  Vou fazer um trabalho srio e pretendo desempenh-lo bem.  No espero conquistar as mocinhas,  que me irritam e que parecem avezinhas  espera de uma serpente que as engula.  
        Calma  Maria da Glria sem alterar-se .    No estamos exigindo tanto nem perguntando se gosta delas.  Seus sentimentos no entram.  
       Mas se quer obter xito no que se prope, no pode prescindir da amizade delas, que lhes vo abrir no s as portas das casas em que querem entrar como dar todas as novidades e boatos dos sales.  
        Desculpe se me irritei.  No gosto de ser observado como voc faz,  como um objeto.  Deixa-me nervoso.  Reconheo que no tenho esse direito.  Peo-lhe desculpas.   
       No vai acontecer de novo.  
       - Assim espero.  Sabe que fao isso por causa do nosso objetivo.  J que estou participando, quero fazer tudo direitinho.  
        Vamos tomar nosso ch  tornou Lucila, conciliadora.  Conversando animadamente, o grupo dirigiu-se   saleta onde seria servido o lanche.  
       Os dias que se seguiram foram de intensa atividade para eles.   Geraldo tinha saudades das tardes calmas da casa de D.   Lucila,  quando apenas interessava-se  em aprender a ler.   A moa continuava a ministrar-lhe aulas,  que ele aproveitava ao mximo, apesar dos horrios to diferentes dos que gostava e do torvelinho em que se metera.  Jorginho estava no auge do entusiasmo.  Era tarde de gala no Jockey e eles no podiam perder.  J os tinha levado para assistir s corridas e Geraldo entusiasmara-se  com a beleza do espetculo.   Quanto ao jogo,  simplesmente abominava.  Mas, aconselhado por Humberto e pelas moas, resolveu apostar, dispor de uma quantia que ele achou enorme mas as moas julgaram razovel  sua posio.   Jorginho ofereceu-se  para orientar nas apostas, 
        Pode deixar que eu fao o jogo.  Olha, no primeiro vai dar 12 na ponta e 23 na dupla.  
       Enquanto o moo foi ao balco das apostas, os dois moos olhavam enlevados a beleza do espetculo.  A assistncia requintada, belas mulheres, elegantes cavalheiros, o gramado, tudo parecia uma gravura colorida de um grande pintor.          
        Que beleza!    comentou Geraldo.          
         um grande espetculo.  
        S o jogo estraga tudo.  
         ele quem sustenta esse cenrio, os empregados, tudo.  Sem jogo,  nada disso podia existir.  
       Geraldo comentou:
        Tudo que o homem faz  belo por fora e podre por dentro.  
        No est sendo muito severo?  
        Dinheiro de jogo  dinheiro malvado.  Tem quem deixa a famlia sem nada por causa do vcio.  
        Isso .  Mas s joga quem  fraco.  Eu, por exemplo, no tenho dinheiro e no gosto de jogo.  Dificilmente ele me levaria o dinheiro.  
        .   Mas quem se deixa iludir est perdido.  Veja o Jorginho.  Quero ver se tiro o vcio dele.  Mas agora, at eu t precisando jogar.   Pode ter situao mais besta?  
       Humberto riu, divertido.  A convivncia com Geraldo tinha-lhe feito enorme bem.  Habituado a lutar muito em ambiente adverso para poder progredir, tinha se tornado desconfiado e fechado.  Jamais se abria com quem quer que fosse.  Havia aprendido a desconfiar das pessoas.   Mas com Geraldo era diferente.  Sua franqueza s vezes at rude, sua ingenuidade, seu corao bondoso, sua simplicidade acompanhada da retido de carter e sua inteligncia arguta tinham de incio conquistado seu respeito, Mas agora j ia da simples admirao at um profundo sentimento de amizade, integraram-se  tanto no papel que pretendiam desempenhar que acabaram por descobrir que apreciavam-se  e era com prazer que trabalhavam juntos.  
        Conhecer o mundo dele vai torn-lo mais seu amigo.  Isso pode facilitar as coisas para voc.  Acha que se lhe fizesse sermo contra o jogo ele aceitaria?  
        Isso no.  Est apaixonado pelo vcio.  Ficaria com raiva de mim.   Mas jogar tambm  demais! 
       Jorginho voltava eufrico.  Suas mos tremiam e seus olhos brilhavam dominados pela emoo.  
       - A  outra vez, voc no jogou.  Agora vai ver realmente o que  emoo.  Vamos ver, que j vai largar.  
       Segurando a pule, Geraldo observou o espetculo e disfaradamente olhava o rosto contrado do jovem primo.  Jorginho suou, gritou,  torceu as mos, para cair extenuado e abatido.  
        Era barbada.  No entendo como perdeu.  
        Hum  fez Geraldo.    Eu entendo.  Aquela gua jamais ganharia essa carreira.  
        Mas agora, deixa comigo.  O prximo  nosso.  Sei com certeza quem vai ganhar.  
        Se voc no se importa, eu num gosto de botar dinheiro fora.  Se no v o bicho, num aposto.  
        Voc no conhece os cavalos.  Deixe comigo.  Sei tudo sobre eles.  
        Est bem.  Mas antes quero ver os bichos que voc vai escolher.  
        Vamos dar uma volta.  Quero ver se tem algum conhecido.  
        Num grande prmio, quem no est?    comentou Jorginho com nfase.  
       Saram.  O hall fervilhava,  murmrios, flertes, palpites.  A presena dos trs provocava comentrios por onde passassem.  As moas cochichavam e sorriam para Jorginho, querendo que o rapaz parasse para falar-lhes.  Mas o moo estava imerso em sua paixo e no podia pensar em nada naquela hora que no fosse o prximo preo.  
       Aproximaram-se  da entrada das cavalarias, onde os cavalos j alinhavam se, encaminhando-se  nervosos para a pista.  Alguns at j dirigindo-se  para os boxes de largada.  Geraldo olhou fixamente para eles.  Ento  disse Jorginho.    Vamos apostar antes que seja tarde.  
       Agora vai ganhar o nmero sete e na dupla o cinco.  
       Geraldo  sacudiu  a   cabea.  
        Qual nada.  Esse cavalo num est muito bem.  Nem parece disposto a correr.  
        Isso no.  J ganhou vrios prmios e  o favorito.  
        Pois o meu dinheiro voc bota no 3 e no 9.  
       Jorginho assustou-se .  
        No 9?   Esse nunca vai ganhar.  Todas as opinies so contrrias.   Estava mal no treino de ontem.  
        J disse, o meu dinheiro voc joga nesses dois.  
        Est bem  suspirou Jorginho, conformado.   -a final,  seu o dinheiro.  
       Enquanto o moo foi fazer a aposta, os dois retornaram a seus lugares.  Humberto olhava Geraldo divertido.  Podia ser que os cavalos perdessem, mas no podia deixar de reconhecer que ele tinha forte personalidade.  Era essa firmeza, essa confiana em si mesmo que ele muito apreciava.  Geraldo estava muito  vontade, olhando tudo com tranquilidade.  Humberto tornou:
        Tem certeza de que eles vo ganhar?  
        Pelo menos eram os melhores.  Cavalo  preciso conhecer.  So Como gente.  Tem dia que esto bem e com vontade de lutar, e tem dia em que esto desanimados, cansados.  
        Pode ser.  Mas como ver tudo isso assim, numa olhada?  
        J lidei muito com cavalos.  Posso at dizer que durante muito tempo eles foram para mim os nicos amigos.  
        No sabia que entendia disso.  
        Gosto deles.  Por isso acho que os homens judiam muito e se aproveitam dos pobres animais.  Quando menino, soltei muito cavalo de peo malvado e de fazendeiro ruim.  Nunca mais acharam eles.  
       Jorginho voltava.  O preo ia comear e os alto falantes j anunciavam a largada.  
        Tome suas pules.  Voc quem pediu.  
        Voc apostou?  
        Claro.  Mas no nesses.  
       Foi anunciada a largada e o suspense comeou.                                                                             
       A multido sfrega, e o clamor aumentava  medida que eles disputavam os primeiros lugares.  Jorginho vibrava com seu cavalo na frente, mas seu entusiasmo esmoreceu ante a avanada dos concorrentes.  Gritou, ficou rouco, torceu, mais enrubesceu de raiva.   Ganharam o 3 e o 9: 
       Geraldo acertara uma verdadeira barbada.  
         muita sorte.   o que eu digo, dinheiro chama dinheiro.  Foi isso.   Puro acaso de novato.  No  possvel.  Geraldo continuou impassvel.  
        Sabia que eles iam ganhar.  
        Como?  Como pde?  
        Foi fcil.  Eles tinham garra.  Logo vi.  Estavam felizes.  Jorginho explodiu na risada.  
        Felizes?  ! Veja, Humberto, cavalos felizes! E dizer que deu certo.  
        J disse que cavalo  como gente.  Se trabalha feliz, rende tudo que pode.  
        Vamos receber e fazer as apostas.  
       Para Geraldo isso no era muito importante.  O que o preocupava era a fisionomia do primo, sua avidez, a volpia apaixonada de seus olhos,  suas mos nervosas e trmulas.  Sentiu imensa pena dele.   Conseguiria arranc-lo do vcio?  O moo parecia mergulhado at o fundo.  Enquanto  Jorginho foi retirar o dinheiro, Geraldo comentou:
        Preciso dar um jeito nele.  O pobre menino est possesso.  
        No vai ser fcil  comentou Humberto.  Profundo observador, ele tambm temia pelo futuro do moo,                                                                                                                                                                                                                                                             notando-lhe o ricto nervoso e o mergulho nas emoes descontroladas.  
        Vou ganhar a confiana dele.  Preciso jogar hoje e ganhar para ele me admirar mais.  Assim, vai fazer o que eu disser.  
       Humberto sorriu:
        Voc entende de psicologia.  Como, eu no sei.  Mas para ganhar todos os preos, precisa ser at adivinho.  Acha possvel?  
        Vou tentar.  Vou olhar os bichos.  Acho que posso ver quais os
       melhores.  Palpite, eu sempre tive bom.  Olho uma pessoa e sei se presta ou no.  Os cavalos so a mesma coisa.  Olho e sei se so bons ou no.  
       No tinha lgica, mas Humberto divertia-se  a valer.  Geraldo era um tipo raro.  Quanto ao seu "faro", parecera-lhe sempre fino e apurado,  porquanto, apesar de criado no mato, ningum o conseguira ludibriar.  
       Jorginho, que da outra vez duvidara, agora no comentou.  Ouviu a
       opinio de Geraldo e apostou nela.  Ficou eufrico.  O primo parecia ter um raio x no olhar.  Batia o olho e dava o palpite.  Tudo certo.  Da dvida passou a extrema alegria.  Tinha descoberto uma mina de ouro.   Com o primo ao lado, ganharia uma fortuna.  Devolveria ao pai o dinheiro que ele perdera e ainda construiria seu futuro.  
       Enquanto o primo no percebia nada alm dos animais e das corridas, Geraldo observava as pessoas ao redor nas sociais onde estavam.  Divertia-se  imaginando que tipo de pessoas seriam.  Muito bem vestidas, procurando dar um ar divertido s fisionomias, mas nem todos felizes.  Mais atrs, uma senhora em companhia de um 
       cavalheiro e uma moa, cuja beleza atraiu a ateno de Geraldo.  H algum tempo que a observava.  Parecia indiferente ao que se passava na raia.  Seu olhar parecia ansioso, e com certa insistncia, que buscava dissimular, fixava as fisionomias como se procurasse por algum.  
       Tipo moreno, pele delicada, cabelos escuros quase negros, apesar de penteados com cuidado, deixava perceber suas ondulaes suaves.   Parecia triste e angustiada.   
       O que teria?  Geraldo olhava-a  curioso, e quando seus olhos se encontraram em instante rpido o moo no pde esconder sua admirao, sem saber se diante do azul profundo daqueles olhos enormes ou do contraste extico que formavam naquele rosto moreno.   Fixou-o com indiferena, mas o moo pde perceber com a argcia que lhe era peculiar que ela parecia distante, como que procurando algum, e Geraldo sentiu mais do que viu a ansiedade da moa.  
       Devia ser moa fina, pensou ele, vestia-se  muito bem e era lindssima.  No estava feliz, embora tentasse controlar-se .  Por qu?  
       Enquanto isso, Jorginho, no auge do entusiasmo, gritava na torcida,  e at Humberto,  entusiasmado com o palpite de Geraldo vibrava contente.  S ele estava distrado, observando a moa disfaradamente enquanto que ela, com um binculo, parecia  acompanhar o desenrolar do preo.  
       De repente, ele a viu estremecer.  Sua boca linda e bem desenhada contraiu-se  em um ligeiro ricto de susto, enquanto que pareceu-lhe que ela titubeava.  
       Seguiu-lhe a direo do binculo e procurou perceber o que a incomodava.  No era o preo em andamento, com certeza.  No conseguiu descobrir o que a agitava tanto.  O local regurgitava, era difcil distinguir quem a emocionava a ponto de faz-la  quase perder o controle.  Jorginho o abraou eufrico:
        Ganhamos, Geraldo! Ganhamos!  sensacional.  Um corpo e meio na frente!  Puxa, que sorte! 
       Pulava feliz e  Geraldo sorriu.   Parecia em forma com seu palpite.  
       -Agora , o ltimo preo, o mais importante.  No podemos perder.  
       Vamos l ver os bichos.  
       No seu entusiasmo, Jorginho chegava a falar como  Geraldo.  
        No vai receber?    perguntou Humberto, divertido.  
        Claro.  Mas antes vamos ao  prximo palpite.  
       Jorginho foi arrastando o primo entre a multido.  Conformado,  Geraldo procurou examinar os animais e deu sua opinio.  Dessa vez,  at Humberto apostou.  Geraldo, enquanto os outros dois dirigiam-se  aos guichs, foi andando pelo interior do Clube.  No hall, divisou a moa dos olhos azuis e imediatamente foi atrs.  No tencionava abord-la .  Era apenas curiosidade.  No bar, um rapaz muito requintado.   Ela dirigiu-se  a ele.  Parecia descontrolada.   um almofadinha,  pensou Geraldo.  No podia ouvir o que diziam, mas pareciam discutir.   Ele tentando explicar, ela nervosa.  Geraldo observava-os discretamente.  
       Saram para o jardim e o moo, como que atrado por um m, seguiu-os.  Procuraram um canto solitrio e sentaram-se  em um banco sob uma rvore.  
       Geraldo, oculto sob um arbusto, observava-os.  De repente, o almofadinha retirou-se , deixando-a  s.  Ela, que at ento se controlara, depois que o rapaz a deixou caiu em pranto convulso,  lutando para abafar o som dos soluos que teimavam em sacudir-lhe  o peito oprimido.  
       Penalizado, Geraldo no sabia o que fazer.  No suportava ver gente sofrer.  Ficou acanhado, mas, no podendo resistir, aproximou-se  comovido.  
        Posso ajudar?  
       Com ligeiro grito de susto ela tentou voltar-lhe as costas,  procurando dissimular.  Mas a emoo era muito forte e a moa no podia controlar o tremor, embora engolisse o pranto envergonhada.  
       Geraldo, com calma, tomou o leno e ofereceu-o.  A moa olhou seu rosto expressivo e srio.  Apanhou o leno, escondendo o rosto nele.  
        Desculpe  tornou ela com voz trmula.    Foi mais forte do que  eu.  Mas j  vai passar.  
        Pois chore  vontade.  Nesse mundo louco, todos temos vontade de protestar.  s vezes,  nosso nico direito, chorar! Desabafe que faz bem, Eu tambm j chorei muito.  Sei que alivia.  
       A moa, como que confortada pelas palavras do moo, chorou sentida mente.  Ele  observava-a   discretamente, condodo  pelo seu   desespero.  Quando serenou, ela observou com voz triste:
       Preciso retocar a pintura.  Minha me no pode saber.  Ele, muito menos.  Tomou a bolsa e apanhou o estojo de p-de-arroz, abrindo-o e olhando-se  no espelho, 
        Que lstima.  Meus olhos esto vermelhos.  Como fazer?  
        Pode dizer que entrou cisco.  
        .   Vou colocar culos de sol.  
       Enquanto a moa refazia sua maquilagem, Geraldo a observava curioso.  Era mais linda de perto, embora o rosto um pouco descomposto.  
        Que tal estou?    perguntou olhando-o de frente.    D para perceber?  
        Eu j tinha visto sua ansiedade quando voc estava l dentro,  mas como se controla muito bem acho que ningum vai perceber.  
        Deve pensar que sou desequilibrada  tornou ela, envergonhada.  
        Pelo contrrio.  Nunca vi tanto controle.  Voc esteve o tempo todo procurando algum.  
        Notava-se  tanto?  
        No.  Pode ficar sossegada.  Mas eu estava perto.  No gosto muito de carreiras;por isso, olhava  as pessoas.  
       Ela observou-o um pouco curiosa.  Que tipo raro! Roupas finssimas,  rosto muito simptico, mas no sabia o que era diferente nele.   Nunca o tinha visto antes, o que de certa forma confortava-a .  Se algum conhecido a tivesse visto, que vexame! 
        Por que veio, ento?    indagou mais por polidez e para dar tempo de se controlar e voltar para o lado dos pais.  
        Porque meu primo est viciado neste negcio e eu quero ver se ajudo ele.  
       Que linguagem diferente! , pensou ela.  Querendo distra-la  de suas preocupaes, ele continuou:
        Pois .  Preciso tirar o vcio dele, mas no  fcil.  Perdeu toda a fortuna do pai e agora est afundando a famlia.  
        O jogo  uma desgraa.  Sem querer desanim-lo , acho difcil.  
        Eu tambm.  Hoje tentei um plano para ganhar mais a confiana dele.  Achei que se acertasse todos os preos ele me ouviria.  
       Ela no pde deixar de sorrir, apesar de sua tristeza.  Que original!  Estaria divertindo-se   sua custa?  
        Claro.  Num  muito fcil.  Mas eu acho que vou conseguir.  O primeiro ele escolheu, e como  a primeira vez que aposto, deixei.  Mas como ele perdeu, fui ver os cavalos e assim  fcil ganhar.  Acertei todos os outros.  S falta esse que est correndo agora.  
        Tem muita sorte  tornou ela, admirada.  Estaria dizendo a verdade?   Olhando o rosto srio do moo, ela viu que ele no brincava.  Tentou ser amvel.  
        Vem aqui pela primeira vez?  
        .  
        Nunca quis vir antes?  
        No.  Eu morava no mato.  Vivi em Mato Grosso muitos anos.  Por isso conheo cavalos, mais do que gente.  
       A moa compreendeu porque ele era diferente.  
        Preciso ir  levantou-se .    Muito obrigada pela ajuda.  Desculpe a cena desagradvel.  
       - Ainda  cedo.  No aprecia  a minha  conversa?  
       A franqueza do moo deixou-a  surpreendida.  
        Pelo contrrio.  Voc  muito agradvel.  Mas minha me espera-me,  deve estar me procurando.  No quero que ela perceba o que houve.   Por isso, preciso ir.  
        Pelo menos posso saber seu nome?  O meu  Geraldo.  Tenho carto.  Se voc quiser um amigo para desabafar, lembre-se  de mim.  J sofri muito na vida, sei o que  sentir solido.  
        Como sabe que me sinto s?   Vivo com meus pais.  
        Tem mais sorte do que eu, que sou rfo.  Mas, ainda assim, acho que se sente s.  Ficaria contente em ver voc de novo e em ter sua amizade.  O olhar do moo era to franco e simples que ela apanhou o carto, apertou-lhe a mo com cordialidade e disse, gentil:
        Foi bom conhec-lo , ainda que numa hora difcil da minha vida.   Agradeo-lhe o interesse.   Sei que nos veremos de novo.   Sou Maria Luza.   Muito obrigada por  tudo.  Geraldo, olhando dentro daqueles olhos azuis, sentiu-se  bem.  A moa parecia-lhe sincera.  Vendo-a  afastar-se  elegante, deixando uma onda de perfume no ar, ele pensou:
        Quem  diria que carrega  tanto sofrimento no corao! 
       Apesar da euforia do primo tendo ganho o grande prmio, e das comemoraes e brincadeiras, onde  Geraldo a custo procurou impedi-lo de consumir todo dinheiro ganho, e que era quase uma pequena fortuna, o rosto da  moa no lhe saa do pensamento.  Quanta emoo naquele rosto diferente.  O que fizera-a  chorar tanto?  Um caso de amor?  Talvez, porquanto surpreendera o moo que discutira com ela ao lado de uma jovem muito bonita, que estava languidamente pendurada em seu brao, no deixando dvidas quanto ao relacionamento amoroso entre eles.  Seria esse o problema?  Traio?   
       Cime?   Abandono?   Haveria de descobrir.  
        Jorginho -apressou-se  a perguntar  , conhece aquele moo?  
        Qual?  O de terno cinza?  
        Sim.  
        Conheo.   o Roberto.  Por qu?  
        Curiosidade.  O que ele faz?  
         de muito boa famlia.  Estuda Direito.  
        E a moa, o que   dele?  
        Deve ser novata.  No a conheo, mas parece namorada, pelo jeito.   Gostou dela?  
        No  isso.  S queria saber.  
       Quando conseguiram desvencilhar-se  do primo eufrico j era noite,  e Geraldo  foi  para  casa com   Humberto.  
        Geraldo.  O que houve com voc hoje l?   Geraldo sorriu, alegre.  
        No nega que voc  detetive.  Num escapa nada.  
        .   Acho que aconteceu alguma coisa.  Voc ficou pensativo, srio.  
        segredo?  
        Nada disso.  Voc  meu amigo.  No tenho segredo nenhum.  
       Geraldo relatou seu encontro com a moa.    Voc precisava ver.  
       Nunca vi tanta coisa nos olhos de uma mulher.  
        Cuidado com ela, Geraldo.  Pode abalar seu corao.  
        Qual o qu.  Estou s curioso.  Depois, num posso ver gente sofrer.    Ainda mais ela, to bonita.  
        Por que no perguntou o sobrenome?   Poderamos procur-la .  No gostaria de rev-la ?  
        Claro.  Mas acho que isso vai acontecer.  Dei meu carto a ela.  
        Quando nos interessamos por algum,  melhor no perder de vista.   So Paulo  muito grande.  Voc corre o risco de no mais a encontrar.  E se ela no o procurar?  
         verdade.  Ela vai lembrar-se  de mim.  Acho que ficamos amigos.  
       Humberto sacudiu os ombros.  
        Com voc, tudo pode acontecer.  Depois do que fez hoje, no duvido de mais nada.  
       - Aquilo dos cavalos foi pura sorte.  Conheo os bichos, mas no tinha certeza  se podia acertar tudo.  
       - Agora , prepare-se .  Seu primo no vai mais sair de perto.  Acha que encontrou uma mina de ouro! 
        Isso ele pensa! Deixe comigo.  Vou dar um jeito nele.  
        Estou comeando a pensar que com voc ningum pode.   bem capaz de vencer a parada.  Alis, eu fao votos e ajudo se puder.  Viu como ele tremia de emoo?  
        Vi.  Vai ser duro mudar.  Mas gosto dele.  No  ruim, e depois, Maria da Glria pediu.  O que ela quer  ordem.  
        Voc gosta dela?  
        Claro.  
        Est apaixonado por ela?   Geraldo olhou-o com ar matreiro.  
        Gosto dela como de uma irm.  E voc?  
        No brinque.  Sou um pobre coitado sem eira nem beira.  Jamais poderia pensar nela.  
        Por qu?   S pelo dinheiro?  
        No  s isso.  No tenho nome, posio, cultura, nada.  Ela nunca me aceitaria, se eu a amasse.  
       Geraldo olhou-o de frente.  
        Fala srio?   Gosta dela?  
        Esquea o que eu disse.  Por favor.  Foi um pensamento bobo.  
        Num acho.  Voc anda pensando nela.  Confesse.  
        Na verdade, nunca vi uma mulher como ela, linda, culta,  inteligente.  Sabe o que quer, tem opinio.  Franca, sincera valente.  
       Geraldo riu divertido.  
        Voc j caiu no lao.  
        No brinque.  Isso seria impossvel.  O que posso oferecer?  
        Voc  bom e trabalhador.  Conheo minha prima.  Se ela gostar de voc, no vai pensar em mais nada.  
        Mas ela no gosta.  Nem sequer me olha.  Sempre pensei que estivesse apaixonada por voc.  
        Engano seu.  Nos queremos muito bem, mas amor  outra coisa que eu  nunca senti e ela nunca teve.  Se gosta dela, trate de lutar por isso.  Voc se esquece de  que a famlia dela  muito importante e o Dr.   Marcondes jamais consentiria em nosso amor.  J pensou nisso,  pelo jeito  gracejou ele.  No.  Acho que no.  Foi um pensamento que me ocorreu agora.  
        Sem razo de ser.  O que  ele, seno um homem arruinado?  
       Acho que at est pobre.  Depois, se ela quiser, ningum vai impedir.  
       Humberto suspirou.  
        Se ela quiser! Para ela eu nem sou gente.  No v como me trata?  
        No vejo, no.  Parece-me que ela o aprecia.  
        Voc  meu amigo.  V tudo com bons olhos.  Preciso tirar isso da minha cabea.  
        s vezes eu gostaria de conhecer o amor.  Mas qual, o melhor  no deixar-me levar.  Pobre de minha me, como sofreu.  E meu pai, ento!  No.  Acho que eu nunca vou amar.  No vale a pena.  
       E o moo, pensativo, fechou os olhos, enquanto que pelo seu ntimo comeou a reviver as cenas dolorosas de sua vida.  Esqueceu a moa,  os primos, tudo, para lembrar-se  apenas de que precisava descobrir a verdade para poder se vingar.  
       
       
       CAPTULO 9
       
       
       Jorginho chegou em casa cedo naquela noite.  Ia feliz e excitado.   Encontrou os pais na sala.  Dr.  Marcondes lendo os jornais e D.   Renata folheando uma revista de moda.  Vendo-o, admiraram-se .  O moo nunca voltava cedo para casa.  
        Meu filho! O que aconteceu?    inquiriu Renata, levantando-se .  
       O moo abraou-a , radiante.  
       - A  fortuna, mame.  Estamos feitos.  De agora em diante voltaremos a ter dinheiro como antes.  
       Dr.   Marcondes deixou o jornal, interessado.  
        Como assim?    indagou ela.  
        Descobri um jeito de ganhar sempre.  
       - Ah!  isso  resmungou Dr.  Marcondes, desanimado.  No acreditava em vitria no jogo.  Fora dessa forma que atirara todo seu dinheiro fora, e s parara porque o filho o tinha superado na queda vertiginosa.  
        Falo srio! Hoje ganhei em quase todos os preos.  Olha! 
       Alegre, tirou um mao de notas e jogou-a s displicentemente sobre a mesinha.  
        Hoje, por acaso  fez o pai, descrente.    Mas amanh esse dinheiro volta para eles.  Pode crer.  Eu joguei mais de vinte anos e nunca vi ningum enriquecer com o dinheiro de jogo.  Com exceo dos banqueiros.  Mas vi muitas fortunas consumidas e alguns suicdios escandalosos.  Foi s.  Por isso, parei.  
        Comigo ser diferente.  Descobri um meio de ganhar sempre.  De agora em diante, tudo vai mudar.  
       Renata feliz com a alegria do moo, tornou, conciliadora:
        Deixa seu pai.  Conta o que aconteceu.  Como  essa forma de acertar sempre?  
        Foi o primo.  Ele parece que tem um raio X nos olhos.  Olha os bichos como ele fala, e zs,  vem o palpite.  No errou uma vez sequer.  Acertou at as barbadas.   
        Como pode ser isso?  
       No sei.  A princpio, foi no meu palpite e perdemos, mas do segundo
       Preo em diante no errou um, e eu, claro, fui no palpite dele.   Acreditem, achei uma mina de ouro! 
       Renata estava boquiaberta.  Esse homem parecia ter parte com o diabo.  Dr.   Marcondes irritou-se :
        Isso foi porque ele era nefito.  Quero v-lo repetir a faanha.   Depois, o miservel tem tanto dinheiro e tanta sorte que  capaz de ganhar mesmo.  
        Voc fala dele de um jeito que eu no gosto.  Geraldo  meu amigo e eu aprecio-o.  
        Um caipira analfabeto e ignorante  resmungou o pai, enraivecido.  
       Jorginho enervou-se :
        Pode ter vindo do mato e no conhecer a cidade, mas garanto que
       ele conhece coisas que voc nem pensa e tem tanta inteligncia que no admira se em pouco tempo ele tornar-se  o homem mais importante desta cidade.  No clube, no Jockey, em todos os lugares, ele tem feito muito sucesso.  Todos esto ansiosos por conhec-lo de perto, e quando o conhecem o admiram.  
        Tambm, com tanto dinheiro!  claro que vo beijar o cho onde
       ele pisa! 
        No  s por isso, no.  Ele  nico, original, e vocs sabem como
       no meio de tanta gente banal um original pode liderar.  No dou muito tempo para os almofadinhas copiarem seus modos, seu corte de cabelos, seu jeito.  
       Vocs vo ver.  Ainda mais agora, que ele desistiu de vingar-se  e vai viver em sociedade.  
        Ele pretendia vingar-se .  De qu?  
        Ele queria descobrir quem foi o culpado pela separao de seus pais.  Acha que algum planejou tudo de propsito.  
        Que idias!   fez Dr.  Marcondes com voz trmula.  
        .  Contratou at um detetive particular para investigar.  
        No diga!  -admirou-se  Renata.    E o que descobriu?  
        Nada.  Desistiu.  Achou melhor levar a vida e aproveitar o dinheiro.   Afinal, ele  moo! 
        Fez muito bem.  O passado foi claro e no h nada para descobrir.   Foi uma idia maluca  tornou Renata com frieza.  
        Isso no importa.  O que  bom  ter dinheiro, e isso agora vai ser fcil.  
        No tenho o seu otimismo  tornou o pai, desanimado.  
        Pois voc ver.  Tome mame, este dinheiro.   um presente.  Compre o que quiser.  
       Renata apertou o mao de notas com orgulho.  Era o primeiro dinheiro que seu filho lhe dava.  Iriam as coisas melhorar?  Sorriu, satisfeita.   Finalmente.  Quando o moo, cantarolando alegre, subiu para seus aposentos, Renata permaneceu absorta por alguns minutos.  Depois,  tornou:
        Que bom.  Jos.  Finalmente parece que as coisas vo mudar.  
        Parece-me muita fantasia.  Pura sorte.  Isso eu no nego que ele tem.  Mas a sorte  caprichosa, varia muito.  Nunca vi ningum ganhar sempre.  
        Eu acredito.  Ele pode ser vidente.  Ter o sexto sentido.  
       D.   Marcondes riu nervosamente.  
        Essa no! S a sua brilhante inteligncia podia pensar nisso.   Vidente! Isso no existe.   alucinao.  O mundo est cheio desses charlates e voc j deu muito dinheiro a eles para saber o nosso futuro.  Algum viu algo de bom para melhorar nossa vida?  
        Isso no  assim como voc pensa.  Voc no acredita, s eu que vou fazer as consultas.  Mas j tirei voc de muitos embrulhos na casa de D.   Mariquinhas.  
        Coincidncia.  Pura coincidncia.  Por que ela no d o nmero do bilhete da loteria?  Assim, todos nossos problemas se resolveriam.   Qual, no acredito nisso.   
        coisa de gente ignorante.   Ela mesma mora no subrbio.  Por qu?   No consegue nem melhorar a prpria vida.  Como pode ajudar os outros?  Levou nosso dinheiro, isso sim.  
        No adianta falar com voc sobre isso.  Ela acertou muita coisa.   O dinheiro era preciso para ela comprar o material.  Voc no quer que ela financie seu futuro! Seria demais.  Depois, ela tem que viver.  Se trabalha, deve ganhar.  Acho justo.  
        Pois eu acho besteira.  Isso serve de nada.  Essa ento do primo ganhou!  E voc ainda aceita!  No v que no vai dar certo?  
        Pois eu acho que vai.  Ele pode mesmo ter o sexto sentido.  Ver o cavalo que vai ganhar.  Na Frana tem um homem que conseguiu isso.   Eu li na revista.  
        Est bem, no vamos, discutir.  Seria at bom que fosse verdade.  J nem digo para ganhar sempre, mas que pelo menos ele conseguisse no perder.  Porque na verdade, Renata, se ele perder agora uma s quantia mais volumosa, no vou poder pagar.  At nem sei se terei dinheiro para pagar todas as letras e as contas deste ms.  
        Para as despesas da casa eu tenho, do meu,  claro, graas aos
       Meus queridos pais.  Porque de voc s espero desgostos.  Tambm, com o seu pessimismo! Pobre Jorginho, no tem apoio do pai para nada.  
       Enraivecido, o Dr.   Marcondes apanhou o jornal e mergulhou nele; porm seus pensamento de revolta e de dio alcanaram a figura do prprio pai nos acontecimentos passados e acabaram na figura de Geraldo, em quem ultimamente se concentrava o seu rancor.  Se ele no tivesse aparecido...   Se ele no tivesse voltado, todos os seus problemas estariam resolvidos.  
       Os dias que se seguiram deixaram o Dr.   Marcondes mais acabrunhado.   Na verdade, no gozava de grande conceito como advogado.  Ganhar dinheiro com uma profisso da qual no gostava muito e pouco uso fizera era-lhe difcil.  As causas que lhe apareciam eram de alguns clientes pobres e mal lhe proporcionavam verba para cobrir as despesas.  Precisava arranjar um scio.  Talvez unindo-se  a outro pudesse melhorar suas condies.  As coisas iam de mal a pior.  
       Jorginho, entretanto, estava feliz, gastando por conta da fortuna que iria ganhar.  Tal era seu devaneio que mal podia esperar.  Quando no sbado Geraldo disse-lhe que no iria ao hipdromo no domingo,  ficou muito nervoso.  
        Como?  No quer ir?  Geraldo, voc est na fase boa da sorte, tem que aproveitar! 
        Voc sabe, primo.  No gosto de jogo.  Fui s conhece, fazer-lhe companhia.  
        Voc conseguiu a maior faanha do sculo e desiste?  No acredito no que estou ouvindo.  No pode ser verdade! 
        Mas .  Eu no gosto mesmo de jogo.  Que tal fazermos outro passeio?   Voc vem almoar comigo e depois vamos a um cinema.  Gostaria tambm que voc conhecesse algumas amigas minhas.  
       Jorginho a custo continha a decepo.  
        Olha, Geraldo, eu estou precisando de dinheiro e contava ganhar
       amanh.  Voc podia ir comigo  tarde ao Jockey e depois, na sada,  iramos ver seus amigos.  
       Fitando o rosto ansioso do primo, Geraldo tornou, conciliador:
        Bem, amanh ao almoo resolveremos.  E hoje, onde vamos?  
        Gostaria de ir ao teatro?  
        Isso.  Acho que Humberto vai apreciar.  
        O Procpio Ferreira est no Boa Vista com "Deus Lhe Pague".  Vale a pena.  Eu j vi, mas irei novamente com prazer.  
       Jorginho evitou falar novamente no assunto que lhe interessava.   noite poderiam voltar a ele, e guardava a esperana de convencer Geraldo a acompanh-lo s corridas.  
        noite, a platia do teatro regurgitava, casa lotada.  Em uma frisa os trs moos conversavam animadamente.  Binculo nas mos, Jorginho perpassava os rostos femininos da platia.  
        Veja, Geraldo, quanta moa bonita! 
       Geraldo tomou o binculo e curioso percorreu os rostos para surpreendido, fixar-se  em dois enormes olhos que j conhecia.   Interessado, perguntou ao primo.  
        Conhece aquela moa de vestido azul, sentada na frisa  esquerda?  
        Deixe ver... -apanhou o binculo  qual, a que est com o Dr.   Viana?  
       - A  moa morena, de grandes olhos azuis.  
        J sei,  a Maria Luza.  
        Esse  o nome dela.  Voc a conhece?  
        Claro.  E moa da sociedade.  Tem olhos maravilhosos.  
        Fale-me dela.  O primo riu.  
        Interessado?  
        Conversamos no outro dia.  Quero saber quem .  
         filha de D.   Aurora.  Alis, por coincidncia os pais dela foram amigos de seus pais.  
        Como assim?  
       Humberto interveio.  
        Ela  filha do Dr.  lvaro, cujo drama todos conhecemos?  
        Exatamente.  
       Geraldo empalideceu.  
        O que sabe sobre isso?    perguntou, tentando encobrir a ansiedade.  
        Pouco.  Na ocasio, eu nem tinha nascido.  Sei o que ouvi comentar.   D.   Aurora foi apanhada com outro pelo marido, que atirou em ambos.   Quando ela melhorou, foi para a Europa com a filha, que tinha meses,  o outro morreu.  O Dr.   lvaro tentou o suicdio.  Alis, foi seu pai quem tratou dele.  Era muito seu amigo.  Houve que insinuasse que Maria Luza  no era filha do Dr.   lvaro.  Mas tiveram que dobrar, a lngua, porque a menina  parecida com ele, de quem herdou esses olhos azuis maravilhosos.  
       Geraldo procurou controlar sua emoo.  
        E as outras pessoas que esto na frisa?  
        So os pais dela.  D.   Aurora e o segundo marido.  Alis, um engenheiro muito respeitado.  Dr.   Viana  muito conceituado.  E Aurora,  depois do escndalo do primeiro casamento, tem sido irrepreensvel.   Hoje, tudo foi esquecido, e se algum menciona o caso, pe em dvida sua veracidade, achando que Dr.   lvaro pode ter se enganado ou,  quem sabe, armado uma farsa.  
       Foi com esforo que Geraldo manteve o controle.  O primo no devia saber que ele continuava investigando o passado.  Era afoito,  poderia por tudo a perder.  Apesar da pea ser envolvente e Geraldo fingir-se  interessado, no conseguia tirar o pensamento da moa.   Quando o Jorginho no intervalo afastou-se  um pouco para cumprimentar alguns amigos, Geraldo comentou:
        Precisamos nos aproximar deles.  Como fazer?  
        Voc j conhece a moa, o que foi muita sorte.  Pode mostrar-se  interessado por ela e ningum desconfiar de nada.  Afinal, voc no vai mentir mesmo.  
        .  Ela  diferente.  Mas o que me interessa  descobrir o passado.   Acha que devo procur-la .  
        Claro.  A ocasio  nica.  Olha, ela est saindo do camarote, talvez seja a ocasio.  
       Levantaram-se  rpidos e saram por sua vez para o hall, onde as pessoas trocavam idia e cumprimentos.  Geraldo dirigiu-se   moa com firmeza.  
        Como vai, Maria Luza?  
       Ela parou surpreendida.  
        Voc! Que surpresa! 
        Por que, no esperava ver me?  
        No teatro, confesso que no.  Gosta de teatro?  
         engraado.  Gente grande brincando de faz de conta.  
       Ela riu, divertida.  
        Fiquei esperando, voc no me telefonou.  
        Sinto muito.  Sabe que estou com seu leno?  Pretendia devolv-lo .   mas fiquei acanhada de incomod-lo .  Esperava um encontro casual para isso.  Andei com ele na bolsa e, por incrvel que parea, no o trouxe esta noite.  
        Pois eu quero o leno e vou busc-lo em sua casa.  
       A moa surpreendeu-se .  Respondeu delicada.  
        Certamente.  Terei muito prazer em receb-lo e apresent-lo  minha famlia.  Contudo, posso mand-lo por um portador.  
        Sabe por que no mandou?  Porque eu no ia gostar e voc sabia que eu preferia conversar pessoalmente.  Voc no me aprecia?  No aceita minha amizade?  
       A moa riu, desarmada.  Geraldo tinha o dom de quebrar a formalidade e ser natural.  Olhou-o firme nos olhos.  Ele parecia-lhe bom e leal.   Estendeu a mo.  
        Claro.  Somos amigos.  
       Ele apertou a mo nervosa da moa.  
        Desejo muito sua amizade.  Quase toda a minha vida tenho vivido s, no mato.  Cheguei aqui e no conheo quase ningum.  Agora, estou fazendo amigos.  
        Certamente.  
       Maria Luza abriu a bolsinha delicada e retirou um carto.  
        Eis meu endereo.  V em casa tomar um ch conosco.  s quintas feiras sempre recebemos amigos.  Aparea s 17 horas.  
        Certo.  Irei com prazer.  
       A moa despediu-se  e o corao de Geraldo batia descompassado.   Humberto aproximou-se :
        Ento?  
        Estou emocionado.  Quinta feira iremos a um ch em casa dela.  As coisas esto comeando a dar certo.  
        timo.  Precisamos no despertar suspeitas.  Controle-se .  
        Tem razo.  
        Cuidado.  Nunca vi olhos to bonitos.  
        Parece uma gata.  Nunca vi ningum assim.  Humberto riu.  
        Vamos, que vai iniciar o segundo ato.  
       Durante o resto do espetculo, Geraldo, embora fixasse o palco,  tinha a ateno voltada para frisa de Maria Luza.  Sua me era uma bela mulher, conservada e fina.  O padrasto, um homem distinto,  cabelos grisalhos, fisionomia austera porm agradvel.  Maria Luza,  porm, estava mais linda.  O brilho de seus cabelos, o penteado,  o vestido azul escuro realando a cor de seus olhos, os brilhantes que enfeitavam suas orelhas, o tom aveludado de sua pele, faziam na parecer uma gravura ou um quadro de um grande artista.  
       Ia ser difcil para Geraldo esperar o dia aprazado.  Jorginho, por sua vez s pensava em como levar o primo s corridas no dia seguinte.  Resolveu no contrari-lo .  Afinal, sem ele nada adiantaria.   O primo era teimoso, tinha que ter pacincia e ser jeitoso.  
       Foi almoar com ele conforme o combinado, e na varanda, enquanto
       saboreavam o caf, voltou ao assunto.   medida que o horrio se aproximava ia se sentindo nervoso.  
       Geraldo, vamos agora at o hipdromo.  Passaremos uma tarde agradvel e eu resolvo meu  problema financeiro.   Estou sem dinheiro para passar a semana.  Acho que preciso libertar-mede meu pai.  Que diabo,  sou um homem! 
        Concordo plenamente.   disse Geraldo Voc precisa libertar-se  financeiramente.  
        Ento.  Se me ajudar a ganhar, vou fazer minha independncia.  
        No acredito.  
       Jorginho se doeu.  No estava habituado a ser contrariado;pelo contrrio, sua me alimentava suas fantasias.  
        O que fez da pequena fortuna que ganhou no domingo?  Tinha o
       suficiente para passar bem no s a semana como vrios meses.  
       O moo perturbou-se .  
        No foi muito.  Tinha dvidas a pagar e dei para minha me.   Contava ganhar hoje.  
        No acha que est contando com o ovo antes da galinha botar?  
        ... Acho que me precipitei.  Mas tambm nunca vi ningum como voc.  Juntos, vamos quebrar a banca.  
        Jorginho, isso  iluso.  O jogo  caprichoso.  A sorte muda.  
        No com voc.  Est com a bola branca.  Vamos l, primo, s hoje e eu prometo que no gasto o dinheiro  toa.  Fiquei eufrico, nunca vi ganhar desse jeito.  
        Olha, Jorginho.  Hoje no.  Proponho a voc irmos ver minhas amigas.   Podemos passar a tarde com elas e  noite veremos o que fazer.  
       Fingindo no ver a palidez do primo e sua decepo, Geraldo mudou de assunto decididamente.  Jorginho estava profundamente abatido.  Ia perder a grande chance.  
       Humberto, vendo-o desconsolado e abatido, segredou-lhe piedoso:
        Quem sabe no prximo domingo.  
        Isso  pensou ele  , no prximo domingo.    No devia irritar nem contrariar o primo.  Era caprichoso e teimoso.  Se se mostrasse dcil,  podia conseguir obter o alvo.  Procurou sorrir.  
        Est bem, Geraldo.  Se quiser, posso ir com vocs ver seus amigos.  
       - Amigas.  Jorginho animou-se :
        Conheo?  
        Acho que sim.  Quem voc no conhece?  
       Eram 15 horas quando tocaram a campainha da casa de D.   Lucila.   Ins abriu a porta e recebeu-os com alegria.  
        Conhece meu primo Jorge?  
        Claro.  Como vai?  Sua irm est aqui.  
        No sabia que era reunio de famlia  fez ele, bem humorado, a moa conduziu-os  sala de estar, onde Lucila palestrava com Maria da Glria.  Levantaram-se , trocaram cumprimentos e a conversa animou-se , alegre, amena.  Jorginho, bem disposto e conversador, acercou-se  de Ins.  
        Faz tempo que no nos vemos.  Na ltima vez, creio que usava tranas e vestido curto.  
       A moa riu, divertida.     
        Faz muito tempo isso.  
        Confesso que ele foi bom para voc.  Ela abanou a cabea.  
        No precisa ser amvel.  Voc  o irmo da minha melhor amiga.   Pode ser sincero.  
        Est certo.  Serei.  Voc est muito bonita, Ins.  Em criana no prometia isso.  Quer maior sinceridade?  
        Maria da Glria, ele  sempre assim?  
        No sei, no.  Mas cuidado com ele.  
       A moa sentia-se  feliz porque ter o irmo ali quela hora era realmente um milagre.  Geraldo o conseguira.  Nada para ele era to importante quanto as corridas.   
       E a moa estava ansiosa para saber como o primo tinha alcanado semelhante vitria.  Quando achou oportunidade, chamou Ins e pediu:
        Ins, precisamos fazer tudo para tornar esta tarde maravilhosa para Jorginho.   muito importante, compreende?  
        Claro, farei o que puder.  Deixe comigo.  
       Enquanto Lucila providenciava o lanche, Ins tomou o brao de Geraldo e Jorginho, dizendo:
        Venham comigo.  Quero mostrar-lhes algo no atelier.  
       Seu rostinho delicado refletia alegria, espontaneidade, e foi com prazer que eles deixaram-se  conduzir.  Quando Humberto ia acompanh-los, Maria da Glria o deteve.  
        Espere um pouco.  
       Ele parou.  
        Como foi que Geraldo conseguiu isso?  
         Isso?        
        .  Jorginho a esta hora por aqui! Estou surpresa.  
       Seu rosto irradiava alegria.  O moo aproximou-se , olhando-a  fixamente.  
        Voc  linda  tornou, absorto.  A moa perdeu o jeito.  Procurou conter-se .  
        Estou perguntando sobre meu irmo repetiu.  Ele pareceu acordar.  
        Desculpe.  Estava pensando.  Geraldo recusou-se  a ir ao prado e convenceu-o a vir para c.  Foi isso.  
       A moa, que j tinha se recuperado da surpresa e estava feliz com o problema do irmo, perguntou:
        Voc costuma sempre pensar em voz alta?  
       Ele perturbou-se .  
        Por qu?  
        Para um detetive, no acho prudente.  
        Disse alguma coisa que a ofendesse?  
        No.  Voc no disse nada.  Vamos ter com os outros.  
       Humberto sentiu-se  triste.   No conseguira sentir alegria, apesar do ambiente estar festivo e calmo.  Ins procurou entreter os rapazes,  brincou, versejou, desenhou caricaturas de todos os presentes e surpreendeu Humberto e Geraldo, que tinham na em conta de moa discreta e simples.  Jorginho estava deliciado.  No se cansava de olhar para a sua caricatura e ria a valer.  A moa desenhara-o de 
       corpo inteiro, salientando o brilho dos sapatos, o cuidado com o lencinho de bolso e com as mos, e realmente esse eram os pontos de que Jorginho mais cuidava em sua aparncia.  Ela, de um s golpe,  captara essas particularidades e as transportara para o papel.  
       Depois, ela pediu  me para tocar piano e D.   Lucila atendeu com prazer.  E, para surpresa dos rapazes, ela conhecia todas as msicas em voga.  O ambiente era to alegre que Jorginho cantou um foxtrote com voz melodiosa e delicada.  E Humberto, animado, cantou com voz grave a agradvel uma valsa romntica.  Entre risos e entretenimentos as horas se escoaram rapidamente, e o lanche saboroso coroou aquele dia feliz.  A noite desceu e eles ainda se entretinham na palestra amena.  
       Geraldo, em voz baixa, contava a Lucila os ltimos acontecimentos.   Jorginho brincava no piano com Ins, imitando cantores americanos,  e ela o acompanhava.  Maria da Glria aproximou-se  de Humberto.  
        Est triste.  Por qu?  
        Eu?   No.  Sou assim mesmo.  
       A moa sentou-se  a seu lado no sof.  
        Deve ser aborrecido para voc trabalhar sem ter folga.  Afinal, voc  um profissional.  Nunca faz o que gosta?  
        No precisa lembrar-me disso.  O fato de Geraldo tratar-me como amigo no me faz esquecer minha humilde posio.  Sei que continuo sendo um pobre detetive particular, sem eira nem beira.  O luxo, o ambiente no me subiram  cabea, se  o que quer dizer.  
        Por que  to agressivo?  Acaso o ofendi?  
        Isso no importa.  Sei o meu lugar.  
        Por acaso o fato de ser pobre o irrita?  
       Humberto olhou-a  admirado.  Ela ia direto ao assunto e no admitia circunlquios.  
        Se quer saber, sempre ganhei o suficiente.  Para ser franco, no invejo dinheiro e posio de ningum.  Prefiro a paz de esprito e a liberdade de ser o que sou, sem precisar servir aos preconceitos e preceitos sociais.  
        Ento, por que est to amargo?   Simplesmente perguntei se voc gostaria de estar em outro lugar.  
        Como assim?  
        Parece infeliz.  Estamos alegres.  Voc isola-se .  Tive a impresso de que por causa da sua profisso est aqui a contragosto.  Talvez preferisse outro lugar, outras pessoas.  
       Ele colocou a mo nervosa sobre o seu brao.  
        Foi isso?   Naturalmente engana-se .  No trocaria este dia por nenhum outro, nem a companhia de voc por nada no mundo, mas eu no
       tenho o direito de participar.  No sou da mesma condio social.   No posso iludir-me.  Sou humano, compreende?   -apertou o brao dela com fora.   
       - At quando vou poder isolar-me?   At quando vou poder dominar meus sentimentos?  
       A moa olhou-o firme.  
        Os sentimentos, quando bons e sinceros, no precisam ser escondidos.  Depois, acho que deve deixar de lado os preconceitos sociais.   Diz que por ser pobre no lhes presta obedincia.   mentira.  Voc tem preconceitos e por isso divide as pessoas pelas classes a que pertenam.  No penso assim.  Divido as pessoas pelo carter e pelas qualidades morais que possuem.  
       Voc diz isso, mas o mundo no pensa assim.  Voc d importncia aos outros a ponto de ignorar sua razo e sua prpria conscincia?  
       Os olhos da moa brilhavam enrgicos e ele sentiu-se  profundamente emocionado.  Em seus olhos brilhou uma lgrima.  
       Voc  um homem de carter e eu o aprecio muito tornou ela, sem desviar o olhar.  
       Eu a amo  tornou ele.  O corao dela bateu descompassado.  
       Era por mim que estava se amargurando?  
        Era.  Desculpe.  No quero ofend-la .  No fui encorajado para dizer-lhe isso.  Pelo contrrio.  No pude conter me,  acho que no vai mais acontecer.  
        Envergonha-se  de gostar de mim?  
        No  isso.  No quero molest-la .  No pude evitar.  Aconteceu.  Lutei e perdi.  Ela sentiu uma onda de ternura por aquele rosto perturbado e enrubescido.  Tomou a mo dele e apertou-a  com fora.  
        Seu amor foi o presente mais belo que j recebi.  Acredite que me aquece o corao.  
        No est zangada?  No pretendia confessar, foi sem querer.  
        Humberto, no sei o que , mas sinto muita ternura por voc.  
       Ele apertou a mo que tinha entre as suas, levando-a  aos lbios com delicadeza.  
        Maria da Glria, gostaria de abra-la  e beij-la  muito.  Mal posso conter-me.  Se estivssemos a ss! 
        Calma.  
        Queria conversar a ss com voc.  Vamos dar uma volta pelo jardim?  
        No acho prudente.  Outro dia, conversaremos melhor.  
        Sair comigo para isso?  
        Sim.  
        Quando?  Depois falaremos.  
        Custa-me deix-la .  Queria trocar idias.  Agora h tanto que dizer! 
        No se apresse.  Quem ama sabe esperar.  Outro dia falaremos.  
       Humberto sentiu uma onda de alegria banhando o corao.  Aquela realmente tinha sido uma tarde diferente.  Havia um encantamento grande no ar.  
       Era j noite quando Geraldo conseguiu arranc-lo s de l.  Estava satisfeito.  Seu plano estava dando certo.  Sabia que Jorginho no iria resistir ao encanto daquelas criaturas, to diferentes das mocinhas dengosas que eles conheciam.  Enquanto levava Jorginho e Maria da Glria para casa, Geraldo perguntou:
        Que tal, como foi a sua tarde?  
        Maravilhosa.  Nunca vi gente to alegre.  Por isso Maria da Glria vive a com elas.  
        Cansei de convid-lo a vir comigo  tornou a moa, bem disposta.  
        .  Mas mame sempre fala de D.  Lucila por ser amiga da tia
       Carolina.  E eu fazia dela idia diferente.  Dizem at que ela lida com Espiritismo! 
        O que  isso?    perguntou Geraldo.  
         uma seita que acredita que se possa falar com os mortos.  
        Como?  
       - A  histria  complicada, Geraldo.  Ela evoca os espritos dos mortos e conversa com eles.  
        E eles vm?  
        No acredito  tornou Jorginho, com ar superior.    Mas ela acha possvel.  
        D.  Lucila num mente.  Se ela diz,  porque  verdade.  
        Que idia! Voc, to inteligente, pensando nisso?  Se fosse verdade,  quando seu pai foi embora ela podia ter sabido onde vocs estavam.   Nunca descobriu.  Geraldo ficou pensativo.  
        Jorginho, acho que voc no deve falar sem conhecer, D.  Lucila  pessoa muito sria e digna.  Se afirma isso, eu acredito.  Depois, no mato, a gente ouvia contar muitas histrias de espritos.  Eu acredito neles.  Nalgum lugar ho de estar e de viver.  Se no esto aqui, devem ter outro mundo onde moram, porque tenho a certeza de que o esprito vive depois que morre na Terra.  Minha me tem que estar em algum lugar esperando-me.  
        Geraldo tem razo  tornou Humberto, srio.    No tenho famlia.   Vivo s.  Mas acredito firmemente que meus pais continuam existindo num outro lugar.  
        Olha, no discuto, mesmo porque depois de um dia to gostoso o assunto  muito ttrico.  No me atrai.  
       Humberto abanou a cabea.  
         ttrico porque voc pensa na morte como tragdia, velrio,  velas, panos pretos.  Isso o homem criou.  Penso nos meus pais como vivos, com a mesma alegria de sempre e iguaizinhos ao que eles eram.  Por que seria diferente?  
        Eu tambm, anuiu Geraldo, lembro minha me como quando era viva, e meu pai tambm.  
        , mas esse assunto d-me calafrios.  Veja como estou gelado.  
        Est gelado e tremendo.  Por qu?  
        Quando eu falo nessas coisas, d-me esse negcio.  Por isso vamos mudar de assunto.  
       O moo tremia como se tivesse febre, e a irm segurou suas mos para aquece-lo .  Ficou preocupada,  porquanto na infncia Jorginho tivera alguns ataques inexplicveis, que os mdicos no tinham sabido diagnosticar.  Preocupada, ajuntou:
        Fazia tempo que no via Ins, que tal?  
        Encantadora.  D.  Lucila tambm.  No as tinha imaginado assim, caso contrrio teria aceito seu convite.  
       Geraldo sentiu-se  satisfeito.  Finalmente, Jorginho parecia ter encontrado outros entretenimentos e outros assuntos que no as corridas.  
       Humberto tambm parecia feliz.  Geraldo, ao ver-se  em seu quarto,  sentiu-se  profundamente s.  Mas precisava continuar at descobrir o que queria.  Se os mortos podem falar aos vivos, por que sua me no vinha para conversar?  Ela, que o esperara tantos anos, agora sabia onde ele estava e podia ajud-lo a descobrir a verdade.   
       Por que no vinha?   Naquela noite, custou-lhe adormecer.  Seus sonhos foram repletos de pesadelos e ele acordou angustiado.  Precisava conversar com D.   Lucila.  
       No dia seguinte, pela tarde, foi procur-la .  
        D.   Lucila, estou angustiado.  Tive pesadelos e uma idia persegue-me.  
        De que se trata?  
       - A  senhora acha que o esprito de quem morreu pode vir conversar
       conosco?  
        Acho, em certas circunstncias eles fazem isso.  
        Foi o que me disseram.  Ento eu quero conversar com minha me.   Preciso falar com ela.  
        No  to simples assim.  
        Por que no?   Acha que ela no gostaria de falar comigo?  
        Pelo contrrio.  Acho que gostaria muito.  Mas, meu filho, ela est do outro lado da vida, num mundo diferente, e precisa submeter-se  s condies desse mundo.   
       Nem tudo lhes  permitido fazer.  
        Acha que no deixariam ela vir ver me?  
        No sei.  Carolina sofreu muito e era uma mulher muito boa,  equilibrada.  Deve desfrutar de um mundo feliz.  Mas intervir na vida das pessoas  outra coisa.  
        Mas os espritos vm perturbar.  Na vila tinha uma mulher que caa tomada de esprito.  Passava mal.  Todos diziam que ela era possessa, 
        Pois .  Os espritos doentes desobedecem  Lei de Deus e no respeitam os homens, mas os bons agem diferente.  S vm se for para o seu bem, e se Deus permitir.  
        Pede para ela vir.  Quero conversa com ela! 
        Podemos fazer uma sesso.  Mas no posso afirmar que ela vir.   Podemos evocar e esperar.  Se Deus permitir...  
        Claro que vir.  Ela estava ansiosa por me ver, falar comigo.  
        Isso era naquele tempo.  Agora ela v tudo diferente.  
        Quer dizer que no gosta mais de mim?  
        Isso no.  O amor vai conosco at depois da morte.  
        Ento ela deve vir e falar comigo.   Pode me contar tudo quanto quero saber.  
        Para qu?   Para vingar-se ?  
        Claro.  Hei de punir os culpados.  
        Tenho certeza de que no vir.  Para isso no.  
        Por qu?  
        Porque ela no quer vingana.  O que ela passou na Terra s Deus sabe a razo.  E mesmo que algum tivesse tramado tudo, se ela no tivesse que passar por isso, as coisas teriam sido diferentes.  Ela deve saber o que realmente aconteceu, porque est no mundo da verdade, onde podemos lembrar o que fizemos em outras vidas.  
        Outras vidas?  Fala srio?  
        Falo.   Que outra forma pode explicar o que aconteceu a vocs?  
        Eu explico muito bem.  Foi a maldade de algum que vou descobrir.  
        Esse foi o meio que Deus no produziu mas depois aproveitou,  revertendo-o em benefcio.  
        Benefcio?  ! 
        Sim.  Ns cremos em reencarnao.  J vivemos outras vidas na Terra em corpos diferentes.  J falei sobre isso.  Repito.  Nascemos,  crescemos, vivemos, envelhecemos, morremos, vamos para outro mundo,  voltamos a nascer conforme a necessidade.  
         estranho! 
        A gente troca de corpo conforme as necessidades do esprito.   Cada vida  progresso, aprendizagem, esforo, reajuste.  Se vamos mal,  cometemos erros, precisamos corrigi-lo s.  Para isso Deus criou o mundo, para o esprito aprender e progredir.  
        Essas coisas me confundem.  Minha me teria tido outras vidas?  
        Certamente.  Ela, eu, voc, todos.  Esquecemos por misericrdia de Deus, para que o reajuste seja menos doloroso e mais eficiente.  Ns dois  certamente j nos conhecemos h muitas vidas, pois nossos laos de amizade so profundos e sinceros.  
       Acho que isso  verdade.  Parece que sempre conheci a senhora.  
       Tudo isso  regulado por leis de Deus que funcionam sempre per feitas e nos conduzem de acordo com as nossas necessidades.  Deus  bom, perfeito.  Se passamos por provaes,  para reajustar nossos espritos, corrigindo erros passados.  
        Minha me era to boa!  Como foi castigada?  
        No se trata de castigo, mas de necessidade de progresso do esprito, que muitas vezes solicita a prova antes de nascer.  
        Acha que ela tinha pedido isso?  ! 
        Por que no?  Era um esprito abnegado.  Se no precisava resgatar erros passados, deve ter se sacrificado para que vocs pudessem resgatar, ou, quem sabe, algum, por sua causa, tenha sido abandonado ou ferido em sua honra.  Quem pode saber, seno Deus?  
       - Ah! Isso no.  Recuso-me a crer que ela tivesse sido capaz disso.  
        Ela, como  agora, ou como a conhecemos, realmente no seria capaz.   Mas no se esquea de que o esprito, quando  mais jovem,  mais inexperiente, e no h ningum na Terra que em tempos passados, em reencarnaes mais remotas, no tenha cometido erros.  
       - A  senhora acha que ela poderia ter feito algo errado?  
        Sem dvida.  Ningum  criado perfeitamente desenvolvido.  Deus cria o esprito como uma semente que a vida vai trabalhar para germinar e que tem a inteligncia e o raciocnio para usar as oportunidades que lhe vm s mos e as leis de Deus para control-lo e reconduzi-lo de volta ao equilbrio sempre que se transviar.  Somos todos iguais na dor.  Todos necessitamos experiment-la  nas lutas da carne para saber e compreender que no devemos causar mal a ningum.  
       Geraldo abanou a cabea, confundido.  
        Nesse caso, ento, os que fizeram as maldades contra ns no tm culpa?  No posso aceitar isso! 
        Claro que, se realmente algum deliberadamente prejudicou vocs,  sendo responsvel por tudo quanto aconteceu, vai responder por isso.  A justia de Deus jamais deixa impune um culpado.  Mas por outro lado, apesar de tudo, o mal poderia ter sido sanado logo.  Tudo poderia ter sido esclarecido se no passado de vocs no houvesse erros que justificassem esses sofrimentos.  
        Quer dizer que Deus aprovou o que nos fizeram?  
        No se trata disso.  Deus  amor e o bem supremo.  O mal nunca foi criao dele.  Jamais ele o aprovaria.  
        No posso entender.  
        Olhe.  Vou mostrar-lhe.  
       D.   Lucila foi  escrivaninha, apanhou um vidro de tinta de escrever, um pedao de vidro e outro de papel.  Simplesmente colocou os dois sobre a mesa.  Abriu o vidro de tinta e derramou algumas gotas sobre a superfcie do vidro, e depois algumas gotas sobre o pedao de papel.  Geraldo olhava-a  atento.  Calma, ela apanhou o mata borro e o imprimiu sobre a tinta derramada.  O vidro ficou limpo e sem mcula;mas no papel, a mancha de tinta permaneceu.  
        Que quer dizer com isso?    tornou Geraldo, admirado.  
        Que os erros nossos cometidos no passado tornam nos permeveis ao mal tanto quanto o papel  tinta, que depois de derramada no mais poder ser tirada completamente.   
       Se no tivssemos pecado, seramos como o vidro.  O mal nos atingiria superficialmente e poderamos alij-lo com facilidade.  Tanto quanto a tinta que derramei sobre ele e no penetrou.  E note que a tinta  a mesma,  igual;a diferena est no corpo ou local em que ela  derramada.  
       Geraldo estava pensativo.  A lgica de D.   Lucila deixava-o sem argumentos.  Ela prosseguiu:
        Note que somos livres na Terra para escolher.  Podemos ser como o papel ou como o vidro,  s questo de comportamento.  
       Geraldo ficou mudo, cismando, cismando.  Depois tornou:
        Esta histria  muito complicada.  Mas de tudo isso, o que eu quero mesmo  falar com minha me.  Acha que vir?  
        No sei.  Podemos esperar.  
        Espero que me conte tudo quanto aconteceu.  Lucila balanou a cabea.  
        Pode crer que s falar o que quiser, ou puder. 
        Quando poderemos fazer isso?  
       - Amanh  noite.  Venha jantar conosco.  Depois faremos a sesso.   Vamos ver.  Mas desde j no podemos prometer nada.  Espero que voc evite pensamentos angustiosos de revolta.  Podem dificultar o nosso trabalho.  
        Farei tudo que disser.  No vejo a hora.  Finalmente poder falar Com ela! Que felicidade.  
       Lucila sorriu com ternura.  
        Isso.  Alegria e bons pensamentos.  
       Conversaram durante mais algum tempo, e quando Geraldo saiu estava mais calmo.  No dia seguinte, Maria da Glria preparava-se  com esmero.  Jorginho, vendo-a , perguntou alegre:
        Vai sair?  
       Vou.   casa de Ins.  Quer vir comigo?  
       Hum...  Estou sem programa mesmo.  Acho que vou aproveitar.  
       No vou incomodar?           
       A moa sorriu, alegre.  
        Nem um pouco.  Ins disse-me que Geraldo e Humberto vo jantar l e convidou me.  
        Ser que no interrompo?  
        O qu?  
        No sei.  Ins  moa bonita.  No est comprometida?  
        Nem um pouco.   No h nada que eu saiba.  Jorginho olhou-a  um pouco malicioso.  
        Que diabo, Geraldo e o secretrio no saem de l.  Pode ser que um deles a esteja cortejando.  
        Acho que quem est interessado no  nenhum dos dois... 
        No respondeu  minha pergunta.  
        No h nada.  Se quer saber, Humberto interessa-se  por mim.  E Geraldo nunca demonstrou nada alm de amizade.  
        No gostaria de magoar o primo.  
       Maria da Glria sorriu, bem disposta.  
        Pois no magoa.  Ele no pensa seno no passado.  Tem grande amizade por ns trs, que o ensinamos a adaptar-se  na nova vida.  Mas seu corao ainda no sabe o que  o amor.  Vamos embora que dar grande alegria aos nossos amigos.  
        Acha mesmo?  
        Claro.  Geraldo tem grande estima por voc.  Acha-o capaz de fazer grandes coisas.  
        Ele  meu amigo.  Bem diferente desses almofadinhas que querem explorar-me.  
       A moa admirou-se .  Antes ele no via que andava em pssima companhia.  No caminho, a moa tornou:
        Hoje parece uma ocasio especial.  Geraldo, por causa da nossa
       conversa de domingo, insistiu com D.   Lucila e quer falar com tia Carolina.  Jorginho pulou.  
        Est brincando! Por acaso ele acredita nisso?  
       - Acredita.  Para dizer a verdade, eu acho impossvel.  Mas D.  Lucila disse que vai tentar.  Depois do jantar vai fazer uma sesso.  
        Voc sabe que no me dou bem com essas coisas.  Melhor eu voltar.  
        Pois eu quero ver o que acontece.  D.  Lucila  pessoa sria.  No nos vai enganar.  Se tia Carolina vier, eu quero ver.  
        Isso  bobagem.  No se deve perder tempo com essas coisas, vou-me embora.  
        Se no acredita, de que tem medo?  
        Medo, eu?  
        , medo sim.  
        Voc sabe que eu sinto-me mal com essas coisas.  Sabe tambm que fiquei assim por causa daquela bab que me contava histrias de assustar.  
       Maria da Glria deu de ombros.  
        Voc  quem sabe.  Mas o que eu acho mesmo  que um homem como voc devia vencer esse medo.  Agora j no  mais criana.  Por que deixar-se  escravizar por terrores supersticiosos?  
       Jorginho suspirou fundo.  
        Tem razo.  Na verdade, tambm gostaria de ver o que vai acontecer.   Ser que ela vai aparecer ali, para ns?  
        No sei.  Acho que vai falar.  Tambm estou curiosa.  
       O jantar em casa de Lucila transcorreu alegre, embora a expectativa estivesse no ar.  D.  Lucila explicou:
        O jantar foi leve de propsito.  No  conveniente alimentos muito
       pesados antes de uma sesso.  Depois poderemos tomar um lanche.   Ainda so sete horas, temos portanto uma hora para conversar antes da reunio.  Podemos ouvir msica.  
       Geraldo comentou:
        No podemos comear mais cedo?  
        No.  Ficou combinado s 8 horas e certamente nossos benfeitores espirituais estaro prontos nesse horrio.  
       Lucila falava com segurana, o que diminua a ansiedade dos presentes.  Interessados na reunio de logo mais, tornaram o assunto tema de interesse geral, e Lucila procurou elucidar todas as indagaes.  
        Tia Carolina vai aparecer?   indagou Jorginho, tentando aparentar calma.  
        No temos mdium de materializao.  Logo, ela no vai aparecer fisicamente entre ns.  Mas Ins  mdium, e se Carolina puder,  manifestar-se   atravs dela.  
        Como assim?    perguntou Maria da Glria, curiosa.  
        Os que j partiram esto separados de ns apenas porque esto vivendo fora do alcance dos nossos cinco sentidos.  Sabemos que existem muitas coisas que no podemos pegar, ver, ouvir, cheirar ou comer.  Simplesmente porque nossos rgos fsicos no alcanam.  Mas h pessoas que possuem o sexto sentido.  Uma sensibilidade que as coloca em ligao com esse mundo, do qual todos viemos para o mergulho na carne e ao qual voltaremos quando nosso corpo morrer.  
        Ins pode sentir isso?    inquiriu Geraldo, admirado.  
        Pode.  Mas tem suas limitaes.  Uns podem sentir mais, outros menos.   Ela pode anular sua prpria vontade ou personalidade e deixar que um esprito que tenha esse desejo se expresse atravs de sua voz.   Mas no devemos esquecer nos de que s o faro se desejarem.  Os espritos so seres independentes, com vontade prpria, iguais a ns, que vm at ns apenas quando querem ou podem.  Tm seus afazeres, suas limitaes, e devem obedincia s Leis de organizao do mundo onde esto.  
        Parece incrvel -a juntou Jorginho.    Como pode ter certeza disso?  
        J li um timo livro -aduziu Humberto, srio  , que esclarece o assunto amplamente, foi escrito por um grande educador francs do sculo passado, que usou o pseudnimo de Alan Kardec.   Chama-se  "O Livro dos Espritos".  Se voc o ler, ver como tudo  lgico e possvel.  
        Realmente -aduziu Lucila, satisfeita.     a obra mais completa sobre o assunto.  E, segundo o autor, ela foi escrita e revisada pelos espritos.  Ele formulava as perguntas e os espritos as respostas.  
        De que forma?   perguntou Jorginho, interessado.  
       - Atravs de vrios mdiuns em diferentes lugares.  Kardec as selecionava pela lgica, pelo bom senso e pela coincidncia de respostas.  
       O assunto prosseguiu e o grupo perguntando, D.  Lucila respondendo.  
        Estamos na hora.  Vamos preparar nos.  
       Jorginho sentiu arrepios pelo corpo, enquanto que suas mos tornaram-se  geladas.  No se conteve.  
        D.   Lucila, por que todas as vezes em que se fala em espritos sinto-me mal?  O mdico garantiu-me que  um trauma provocado pela minha bab, que assustava-me contando histrias de terror.  
       Lucila fixou-o com olhar sereno.  
        Depois da sesso conversaremos sobre isso;por enquanto, procure acalmar-se .  No deve sentir medo.  Vou ficar do seu lado o tempo todo.  Saiba que estamos protegidos por espritos bons e que nada acontecer de mal.  O que voc precisa para acalmar-se   no fugir do problema.  Deve enfrent-lo .  Deixar acontecer, seja o que for, ir at o fim, saber a causa de tudo.  Garanto-lhe que se sentir bem melhor depois disso.  
       A voz segura de D.  Lucila infundiu coragem ao moo.  Afinal, ela estava com a razo.  Por que fugir do problema?  No seria melhor venc-lo?   No fundo, Jorginho sentia despertar um lado curioso.  E se tudo fosse verdade?  Queria saber, ver o que ia acontecer.  
       Convidados pela dona da casa, tomaram assento ao redor da mesa, onde sobre delicada toalha havia uma jarra com gua.  Apanhando um exemplar de "O Evangelho Segundo o Espiritismo", D.  Lucila abriu-o ao acaso e leu: "Amai os vossos inimigos".  Quando terminou,  murmurou fervorosa prece,  pedindo a presena dos espritos e,  se fosse possvel, a comunicao de Carolina.  Todos os presentes encontravam-se  atentos.  Geraldo, profundamente emocionado, pensava no doloroso exlio a que se vira obrigado.  Lgrimas rolavam por seus olhos ansiosos.  Estavam na penumbra.  Humberto sonolento, Jorginho agitado, sem conseguir dominar o tremor, lutava para manter o equilbrio.  Maria da Glria, assustada com a agitao do irmo,  comeou a rezar um pouco mecanicamente, dividida entre o receio do que pudesse se passar com ele e a necessidade que sentia de pedir a ajuda de Deus.  Ins, serena, concentrava-se  em prece.  A certa altura, Jorginho tornou:
        Quero ir embora.  No posso ficar aqui.  Preciso ir embora.  Maria da Glria ia responder, mas um sinal de Lucila a conteve.  
        Jorginho, tenha calma.  Procure orar em seu corao.  Jesus o ajudar.  O moo, plido, transpirava, e sua respirao tornava-se  ofegante.  At que, de repente, deu violento murro sobre a mesa,  enquanto gritou:
        Vou acabar com isso! Vou acabar com todos vocs.  Malditos! 
        Ningum se preocupe.  Vamos orar em favor dele  tornou Lucila com voz serena, porm firme.  Dirigindo-se  a ele, continuou:  Por que est to zangado?  
        Ele no devia vir aqui.  At que eu j tolerei muito.  Mas, previno,  chega de interferncias.  Ele  meu.  Somos companheiros de muitos anos.  
        O que deseja dele?  Por que o segue?  
        Vingana  Jorginho riu com voz cava.    Vingana, entendeu bem?   Estou cobrando os meus direitos.  
       A voz dele estava rouca e diferenciada.  Maria da Glria tremia assustada, enquanto balbuciava preces automaticamente.  Geraldo olhava admirado, sem entender bem.   
       S Humberto e Ins estavam serenos e em prece.  
       Lucila objetou:
        No acha que a justia pertence a Deus?  Que s ele tem competncia para julgar?  
        Deus est longe, se  que existe, e eu vou cobrar o que me pertence, h muitos anos espero por este momento.  Agora que estou conseguindo, ningum vai me afastar dele.  Ningum.  Quem se puser entre ns sofrer o peso do meu dio.  
        Por que no deixa ele escolher livremente o seu caminho?  Deus d a cada um segundo suas obras.  Quem fere as leis de Deus certamente ser compelido pela vida a se modificar.  No tem medo de prejudicar deliberadamente a vida de Jorge?  O moo riu nervosamente.  
        No.  Ele  o culpado de tudo.  Foi ele quem me fez perder tudo quanto eu tinha de bom e de mais sagrado.  Jamais o perdoarei.  Por causa dele tornei-me a sombra que sou.  Por causa dele sofro as agruras do inferno.  Ainda tem coragem de me condenar?  
        No estamos condenando ningum.  Longe de ns a idia de julgar,  mas sabemos que no devemos interferir no livre-arbtrio alheio sob pena de sermos responsveis pelo que vier a acontecer.  Tememos pela sua felicidade e desejamos sinceramente que voc aprenda a reencontr-la.  
        No adianta.  Para mim, tudo est acabado.  Vou afast-lo daqui; l no jogo que ele vai se destruir! Ningum vai me impedir.  Vou arrasar com a famlia toda.   
       No adianta.  
        Vamos orar  tornou Lucila com doura.    Todos vamos mandar pensamentos amorosos ao nosso visitante.  
       Enquanto ela proferia sentida rogativa em favor dele, Jorginho agitou-se  e depois caiu sobre a mesa.  Lucila, orando ainda, colocou sua mo sobre a testa do moo, que aos poucos foi serenando at parecer tranquilamente adormecido.  
        Vamos agradecer a Jesus por essa oportunidade de ajudar, e continuemos em prece silenciosa.  
       Fundo suspiro saiu do peito de Ins, enquanto que ela, ereta, parecia ter se tornado mais alta.  Seu rosto sereno, olhos abertos e extticos, refletia paz.  Em voz clara e firme, tornou:
        Jesus vos abenoe.  Amai vossos inimigos.  Ensina-nos o Evangelho.  
       E ns verificamos que a vingana  faca de dois gumes, que fere tanto a vtima quanto o agressor.  No julgueis, disse nos o Mestre,  porquanto no estamos de posse de toda a verdade e por isso mesmo inabilitados para proceder a um julgamento justo.  Quantas vezes temos nos enganado na rede ilusria das aparncias?  Quantas vezes temos nos deixado arrastar pelas paixes e nos transformado em meros escravos do dio, unidos aos nossos desafetos, infelizes e amargurados, ao peso do crime e da injustia?  
       Quanto tempo levaremos para entender que s o perdo liberta,  constri e nos leva  felicidade almejada?  Meditemos em torno do assunto e busquemos orar por nossos inimigos, que hoje nos buscam o corao carregando o peso dos nossos enganos de ontem, sem condies de pronta libertao.  Roguemos a Deus por eles! Que Deus vos abenoe.  
       Ins calou-se .  Falara com voz firme e mais grossa do que o usual,  e"Geraldo olhava-a  admirado, pois ela lhe parecia outra pessoa,  mais alta e mais forte.  Teve momentos em que a via vestida com roupas de um azul muito claro, diferente.  Abriu os olhos para ver melhor, mas j agora tudo tornara-se  como antes.  Fora alucinao?   
       Certamente.  
        Continuemos em prece  tornou Lucila com voz calma.  
       O silncio fez-se  absoluto e a expectativa era grande.  Jorginho agora estava tranquilo, cabea pendida, parecendo adormecido.  De repente, seu corpo foi sacudido por um estremecimento.  Remexeu-se  na cadeira, enquanto dizia angustiado:
        Carolina!  Carolina!  Onde est voc?   Onde?   -a  voz de Jorge tornara-se  rouca e um tanto fanhosa.  Geraldo estremeceu, tocado de emoo.  
        Continuemos em prece  pediu Lucila com voz serena.  
        Carolina gemeu Jorginho,  eu quero ver voc.  Estou arrependido.   No pode perdoar me?    Ele soluava desolado e Geraldo olhou para Lucila, assustado;mas ela, dirigindo-se  a Jorge, pediu:
       - Acalme-se .  
        Como posso acalmar-me?   Como posso entender esse pesadelo terrvel?  No v que sofro muito?  Ele no me deixa em paz.  Vem cobrar-me a dvida.  E ela?  Onde estar?   
       Oh!  Deus, eu enlouqueo.  Por que no me detive naquela noite?  Por que no se abateu sobre minha mo a justia de Deus me destruindo?  Oh!  Como sofro! Ela, to boa, to nobre, to bela.  Como pude?  Quem me poder ajudar?  
        Vamos orar, meu amigo.  A prece nos ajudar a receber o que necessitamos.  
        Mas eu no posso orar.  Eu sou um assassino! O que posso esperar?  
       O que posso querer, seno o fogo do inferno?   justo que eu pague pelo meu crime.  Mas ele no me deixa em paz e persegue-me sem cessar.  Por favor ajude-me.  Esta noite de angstia ser eterna!  Jamais serei libertado.  
       Jorginho soluava, enquanto lgrimas corriam pelas faces de Geraldo, tocado de emoo, embora a curiosidade o ferisse fundo.   Quem era aquela criatura?   Por que chamava por Carolina e se dizia assassino?  
       Vamos orar  pediu Lucila.  Com voz comovida, murmurou sentida  rogativa por aquela criatura infeliz.  Jorginho pareceu acalmar-se  e murmurou:  
        Conheo sua voz.  Onde estou?  Em casa de amigos que o querem ajudar.  
       Lucila!  voc! Depois de tudo quanto fiz, no me odeia?  Voc que tudo sabe e a amava tanto, no me odeia?  
        No.  Quem sou eu para julgar?  Vejo seu sofrimento e lastimo.  Mas sei que Deus jamais nos desampara.  Se voc tiver pacincia e lutar,  conseguir refazer sua vida.  No desanime.  
        Estou arrependido.  Deus sabe como me arrependo! Mas agora  tarde.   Ela se foi para sempre e jamais me querer ver.  Eu a amo! Tanto! .   .  .   Sempre a amei, e agora, pelo meu crime, devo ser castigado.  Sei que no poderei v-la  mais.  
        Deus  quem sabe.  Lute, trabalhe no bem, ajude a quem prejudicou e certamente um dia ver que tudo passou.  
        Deus a abenoe por isso.  Suas palavras me fazem grande bem.  
       Estou mais calmo, embora a ferida ainda sangre.   oc no me acusa,  mas eu no posso perdoar-me.  Fui louco e destru tudo.  Como pude?  
       Lgrimas rolavam pelas faces de Jorge, e Geraldo, emocionado,  lembrava a figura do pai, como se ele estivesse ali, chorando desesperado.  
        No voltemos ao passado por agora.  Busquemos foras para caminhar rumo ao futuro.  Se voc quiser, certamente nossos benfeitores espirituais o ajudaro.  Vai em paz e que Deus o abenoe.  
       Enquanto Jorginho, com um ligeiro estremecimento, parecia acordar,  Geraldo foi tomado de sbita emoo.  Seus olhos arregalaram-se  enquanto que de seu peito partiu um grito angustiado:
        Me!  Voc veio! 
       Foi um instante breve, mas a figura luminosa de Carolina apareceu diante dele.  Com o rosto delicado refletindo emoo e amor,  enquanto que seus braos abertos e estendidos queriam abra-lo .   Geraldo levantou-se ,  mas seus braos em vo procuraram a figura de Carolina.   Caiu sobre a cadeira,  dizendo emocionado:
        No me deixe de novo, me.  No me deixe! Fica comigo! Quero abra-la , v-la , falar-lhe.  No v embora.  Estou to s! 
       Sacudido por soluos, Geraldo no continha a emoo.  Vira-a .  Era ela!  To linda como sempre.  Aos poucos foi sentindo uma aragem delicada envolvendo seu rosto e foi se acalmando, sentindo ainda o olhar amoroso de Carolina.  
       Lucila, com voz um tanto embargada, tornou:
        Senhor Jesus! Hoje recebemos a ddiva sublime do vosso amor.  
       To grande  a vossa bondade que no temos palavras para vos agradecer.  As bnos desta noite enriquecem nos o esprito e nos acalentam o corao.  Que possamos merec-la s, Senhor  murmurando sentida prece, encerrou a sesso.  Acendeu a luz.  Jorginho estava calmo, embora um tanto plido.  Maria da Glria, curiosa e emocionada.   Coisas estranhas se tinham passado ali.  
       Seu irmo jamais iria prestar-se  a uma farsa.  O que teria acontecido?  Geraldo ainda estava preso de intensa emoo.  
        D.   Lucila disse emocionado  ela estava aqui! Eu a vi! Como pode ser isso?  Teria sido uma alucinao?  
        Certamente que no, meu filho.  Carolina esteve aqui realmente.  
        Como posso ter certeza?  Foi to rpido.  No seria fruto da minha imaginao?  No seria o meu desejo de v-la  que me faria imaginar tudo?  
        Isso seria possvel se as coisas fossem diferentes.  Voc emocionou-se  muito, e se ela realmente no estivesse aqui, voc no teria sentido o que sentiu.  Conte como a viu.  
        Linda.  Foi um instante.  Parecia uma fotografia.  S que de lindas cores.   Ela olhava-me com amor e me estendia os braos.  Quis atirar-me neles e abracei o nada.  
        Naturalmente.  Carolina no  tangvel para voc.  No tem mais o corpo de carne.  E ns no temos mdium de efeitos fsicos.  Mas ela veio e certamente o abraou.  
        Por que no falou comigo como os outros?  Eu estava to ansioso! Queria perguntar tantas coisas.  
        No sabemos por que.  Mas posso afirmar que tudo  disposto em nosso favor.  
       Jorginho remexia-se  na cadeira,  inquieto.  
        D.   Lucila, o que aconteceu comigo?  O que eu tive foi uma catarse?  
       Eu estava ouvindo as bobagens que eu dizia, queria parar e no podia.  Sentia tambm muitas emoes diferentes.  
       Lembra-se  de tudo quanto falou?  
       Acho que sim.  Estou ficando louco.  Como posso ter dio de mim?   Ser algum trauma?  Senti tanto dio que desejei me ver arrasado, mas ao mesmo tempo tinha medo e queria fugir.  Como pode ser isso?  
       Voc  mdium, Jorge, e foi envolvido por um esprito que deseja vingar-se  de voc por causa, de desentendimentos que tiveram em vidas passadas.  
       Isso no  possvel.  Nunca fiz mal a ningum! 
       Agora, talvez no Mas em outras encarnaes com certeza vocs tornaram-se  inimigos, e agora ele quer vingar-se .  Deseja arruin-lo e usa o jogo para isso.  Jorginho passou as mos trmulas pelos cabelos um pouco desordenados tentando ajeit-los.  
       -Absurdo no sou um viciado.  Jogo porque gosto.  Quando quiser parar eu paro.  
        Certamente, meu filho.  Estou apenas repetindo palavras dele que voc deve ainda estar lembrado.  No convm desafiar nossos inimigos.  Antes, voc deve orar por ele para que o perdoe.  
        E o outro, quem era?    perguntou Humberto, interessado.    Falou em D.  Carolina e em um crime, o que pode ajudar nossas investigaes.  
       Lucila tornou sria:
        Ele no se identificou, respeitemos seu silncio.  Trata-se  de algum que sofre muito.  No vamos remexer sua ferida.  
        Mas ele disse que ama minha me.  Lembrou-me meu pai, que durante muitos anos eu ouvi chorar s escondidas.  Mas meu pai no cometeu nenhum crime.  Como entender?  
       Um brilho de emoo luziu nos olhos de Lucila.  
        Como eu j disse, s Deus pode julgar.  Ns desconhecemos toda a verdade.  Lembremo-nos dele com carinho e faamos preces em seu favor, sempre que possvel.  
        Mas foi estranho, D.  Lucila.  Enquanto eu falava aquelas coisas,  sentia pungente sofrimento, via em minha mente a figura de tia Carolina e a amava com desespero.   
       Como explicar isso?  Estarei ficando louco?  
       Lucila sorriu.  
        Voc  mdium, Jorge, repito.  Os espritos aproximam-se  de voc e usam no como um instrumento para comunicar-se  conosco.  E como eles unem-se  ao seu sistema nervoso, h um entrelaamento das emoes.   Voc sentiu o que ele estava sentindo naquela hora, e ele certamente tambm,  sua maneira, sentiu o que voc pensava.   
        tudo muito simples e natural.  
        Para a senhora.  Mas eu continuo achando tudo muito estranho.  Por que no pude controlar me?   Tudo me parece incrvel.  No ser apenas uma iluso dos sentidos?   
       Afinal, quem falou tudo aquilo fui eu.  
        Certo.  Foi voc, mas no expressou seus prprios pensamentos.  E o fez sob a ao de outra vontade que se imps  sua, de maneira irresistvel.   claro que o esprito ia usar sua voz.  Ele no dispe mais de um corpo de carne, com rgos vocais para utilizar.  Alm da sua voz, deve utilizar as palavras do seu vocabulrio,  que representa o material que ele tem ao seu dispor nesse contato.  
        Mas, nesse caso, como saber que no sou eu quem est falando?  
        Porque voc no consegue produzir o fenmeno quando quer e como quer.  Ele acontece independente da sua vontade e s vezes contra ela e termina quando eles querem.  Alguma vez conseguiu impedir os arrepios e as emoes que sente sempre que se fala neste assunto?  
        Isso  verdade.  Mas posso ser sugestionado.  
       Lucila sorriu.  
        Vamos dar tempo ao tempo.  Por ora posso dizer apenas que deve estar atento a esses envolvimentos, porque podem arrast-lo a crises emocionais e atitudes impensadas que o faro arrepender-se  mais tarde.  Seria bom estudar o assunto, lendo, meditando, para poder preservar-se  do desequilbrio.  
        Estes assuntos no so do meu gosto.  Acho melhor esquecer tudo.  
       O que eu quero mesmo  gozar a vida.  As coisas srias so boas para os mais velhos.  
       Lucila sorriu com bondade, embora por seus olhos perpassasse leve onda de tristeza.  Geraldo estava pensativo.  Tornou, impressionado:
        Como  que Ins ficou to diferente?  Ela me pareceu ter crescido e ficado mais gorda.  Seu vestido ficou azul e parecia um guarda p de viagem.  Por um momento, pareceu-me ver outra pessoa sentada a.  
        Geraldo, voc parece-me possuir o dom da viso.  
        O que  isso?  
        O que muitos chamam de vidncia.    a facilidade de poder enxergar o outro lado da vida e os espritos.  
       -a  senhora acha?    tornou ele, admirado.  
        Acho.  Primeiro viu o esprito de Joana, a dedicada amiga que nos visita sempre e que j foi vista por mim da mesma maneira que voc descreveu.  Foi ela quem se comunicou atravs de Ins.  Depois, viu seu pai e por fim Carolina.  No acha o bastante para o primeiro dia?  
       Mas eu sempre via vultos quando era criana, e na mata vrias vezes vi luzes e claridades que me davam muito bem-estar.  
       Naturalmente sempre pde ver, embora no se preocupasse com isso.     Agora vamos ao lanche, acho que precisamos dele.  
       Enquanto Lucila, na copa, providenciava a mesa e o caf, na sala cada um estava imerso em seus pensamentos.  
       Ins, aproximando-se  de Jorge, sorriu com gentileza.  
       Jorge, agora vamos voltar ao nosso mundo.  Esquea.  Cada coisa tem a sua hora.  Ele olhou-a  pensativo.  
       Tudo me parece estranho! 
       Por certo, voc deve estar se sentindo bem.  Mais calmo, mais tranqilo.   .  Estou um pouco cansado, mas parece que muito feliz.   Principalmente agora que voc est por perto.  
       Ins sorriu, maliciosa.  
        Voc j voltou ao normal.  Vamos at o piano:quero mostrar-lhe uma msica nova.  Uma amiga trouxe-me ontem dos Estados Unidos e hoje eu j a tirei para voc.  
       O rapaz corou de prazer.  A gentileza dela era cativante.  Sua doura fazia-lhe grande bem.  Enquanto a ouvia embevecido, Humberto conversava com Maria da Glria.  
        Estou preocupada com Jorge.  
        E eu com voc.  No suportava mais as saudades.  Afinal, nunca podemos estar a ss.  Preciso falar-lhe.  
       Maria da Glria olhou-o sria.  
        Eu tambm senti sua falta.  
       Ele tomou sua mo e levou-a  aos lbios.  
        Eu a amo! O sapo e a estrela! 
        No diga isso.  
        Preciso falar-lhe.  Aceita tomar ch comigo amanh  tarde?   Precisamos conversar.  Tenho tanto a dizer! 
        Est certo.  Amanh.  Passarei em casa de Geraldo e falaremos.  
        Certo.  Esperarei ansioso.  
       -Agora , Jorge me preocupa.  Est em perigo.  Aquele esprito falou em vingana, quer arruin-lo no jogo.  Apesar dele dizer-se  dono da sua vontade, ns sabemos que no  verdade.  Ele est enterrado no vcio de corpo e alma.  Se estiver dominado por um esprito que quer deliberadamente destru-lo , como poder resistir?  Temo pelo seu futuro.  Jorge no  mau.   meu irmo, quero-o muito.  Como ajudar?  
       Nos olhos da moa brilhava uma lgrima.  Humberto apertou-lhe a mo com fora.  
        Houve tempo em que eu julguei-a  insensvel.  Enganei me.  O perigo existe, e estou disposto tambm a fazer tudo para ajudar.  No s por ser seu irmo, mas porque tambm o aprecio e desejo v-lo feliz.  
       Ela olhou-o emocionada.  
        Voc me compreende.  Seu apoio conforta-me e infunde coragem.   difcil lutar contra essas foras desconhecidas que escapam  nossa compreenso.  
        Conversaremos com D.  Lucila.  Certamente nos esclarecer e ajudar.   Tenho certeza.  Trata-se  de uma mulher superior e de grande bondade.   Alm do mais, entende dessas coisas.  Podemos contar tambm com Geraldo, para quem Jorge representa um irmo mais novo, sem falar da fora maior que  Ins.  Veja como est feliz.  
       Realmente, seus rostos jovens e descontrados refletiam alegria.   Cantavam procurando modular as vozes harmoniosamente.  
        Ela  minha esperana tornou Maria da Glria.    um amor de menina.  Quero-a  como a uma irm.  Tem a alma pura e delicada,  sensvel e boa.  Se Jorge a conquistar, estar adquirindo uma prola rara.  
        Parece que se entendem muito bem.  
        O que me deixa muito feliz.  
       Geraldo, na copa, no escondia sua preocupao.  
        A  senhora acha que podia ser o esprito de meu pai?  Lucila olhou-o muito sria.  
        Por que pergunta?  
        Porque vim aqui pensando s em minha me.  No que eu no o estimasse, mas tenho certa mgoa por ele nos ter separado, e no sinto tantas saudades dele, como dela.  Meus pensamentos so todos para ela.  Por que enquanto Jorginho falava aquelas coisas eu s lembrei dele?   Parecia que eu o via falando aquilo tudo.  Como pode ser?  
        Meu filho, no adianta querer contornar.  Se no falei antes, foi cm respeito ao seu sofrimento.  Ele est em grande dor.  
        Ele sofreu muito por que ainda continua sofrendo?  No chegam os anos de solido que passou?  Ser justo ainda no mundo dos mortos Continuar nessa angstia?  
        No devemos nos esquecer da bondade de Deus.  Tudo quanto faz  justo.  Seu pai sofreu muito porque foi precipitado.  Seu orgulho cegou-o e o cime o fez insensvel  dor e ao sofrimento de Carolina e ao seu prprio.  Seu exlio foi voluntrio.  Ele poderia ter regressado, mas no o fez.  Privou voc dos carinhos de me e Carolina da suprema ventura de reencontrar o filho muito amado.   Agora, no mundo da verdade, sabe que ela sempre foi inocente e sofre a dor do remorso.  O que podemos fazer, seno orar por ele?  
         de fato terrvel! Pobre pai.  Mas ele falou em crime, um assassinato, por qu?  Haver algum mistrio que o forou a isolar-se  naqueles matos.  
       Lucila olhou Geraldo com firmeza.  
        Quando Deus achar oportuno, revelar toda a verdade.  Por outro lado, ele poderia estar falando em sentido figurado.  No foi crime a calnia contra Carolina, e no foi crime afastar seu nico filho?  
       Podo ser.  Mas ele falou da perseguio do assassinado.   No leve assim to a srio as palavras dele.  Na situao de perturbao em  que se encontra, pode ter misturado as coisas.  Seu remorso  grande.   Quer ver Carolina e no a pode encontrar.  Note que foi a custo que me reconheceu, e nem sequer viu voc.  
         muito estranho.  Estar meio louco?  
        No  isso, mas a perturbao  natural, depois da morte, naqueles que no conseguiram perdoar e compreender.   por isso, meu filho,  que lhe peo para evitar a vingana.  S o perdo nos liberta do erro e do mal.  
       Geraldo permaneceu calado, pensando, enquanto D.  Lucila ia e vinha,  ultimando os arranjos da mesa.  
        D.   Lucila, quando a gente morre no se encontra com os nossos que j morreram?  
        Certamente.  
        Ento por que meu pai ainda no se encontrou com ela?   Faz cinco anos que morreu! 
         que o outro mundo  muito grande,  infinito.  E as moradas so diferentes, de acordo com o nosso grau de perfeio.  Quanto mais evoludos e melhores, mais linda e feliz ser nossa morada.  Quanto mais infelizes e rebeldes, mais tristes e pesados os locais onde viveremos.  Compreende?  Deus assim d a cada um segundo suas  obras.  
        Ento existe o inferno, o purgatrio e o paraso?  
        Existem locais diferentes para cada alma que deixa a Terra, onde elas colhem conforme plantaram em vida, mas at os mais infelizes no esto isentos da bondade de Deus.  Assim que se modificam aprendendo as lies do amor e assumem seu trabalho em favor do bem, redimem-se  e alcanam os mundos felizes.  Nenhuma ovelha do rebanho se perder, disse Jesus.  Assim, no h ningum destinado ao eterno sofrimento, porque um dia sentir o apelo do bem e emergir das trevas para a luz.  
        Como  admirvel tudo isso.  Como aprendeu estas coisas?  
        So ensinamentos dos espritos bons que nos assistem.  
        Gostaria de saber mais.  
         um estudo gratificante.  Se quiser, pode vir todas as semanas e
       estudaremos juntos.  
        A  senhora foi o anjo bom que Deus colocou em meu caminho.  O
       que seria de mim sem vocs?  Ela sorriu com alegria.  
        Deixe de ser piegas.  V chamar os outros antes que o caf esfrie.  
       Naquele lar abenoado, aquela foi uma noite feliz.  
       
       
       
       CAPTULO 10
       
       
       O carro rodava pelas avenidas e Geraldo, um tanto impaciente, remexia-se  no assento.  
        Calma  tornou Humberto.    Ningum deve desconfiar das nossas intenes.  
        Posso disfarar muito bem  respondeu o moo, um pouco preocupado.  
        Acha que os pais dela vo estar presentes?    tornou Humberto,  pensativo.  
        Num sei.  O pai deve estar trabalhando, mas a me, pode ser... 
        Esse ch em casa de D.   Aurora foi muita sorte.  
        Acho que ela no ia convidar, mas eu insisti.  Estou ansioso para conhecer a me dela.  Ser que vai implicar comigo?  
        No sei.  Dr.  Viana tem horror ao passado da mulher.  Foge do assunto como o diabo da cruz.  Voc deve fingir que no sabe de nada e que est interessado em Maria Luza, para que ela no desconfie.  De incio, no vamos poder investigar.  Precisamos nos tornar amigos da casa.  Assim, no momento oportuno, saberei agir.  
        No sei como se namora.  Nunca tive uma namorada.  Acha que da vai caoar de mim?  
       Humberto olhou para Geraldo.  
        Acho que no.  Voc est muito elegante e bem vestido.   rico e sabe portar-se , mesmo tendo sido criado no mato.  
        Como devo fazer para agradar a uma mulher?  No tenho jeito para olhar com olhos melosos nem dizer versinhos ridculos.  
        Essas coisas ningum precisa ensinar.  Seja como voc , sem fingir, sincero e franco, e certamente isso agradar mais do que fingir o que no .  Alis, as mulheres tm se interessado muito por voc.  Se ainda no tem namorada  porque no quer.  
       Geraldo sacudiu os ombros.  
       Tenho coisas mais importantes em que pensar.  Depois, essas mocinhas sem graa e embonecadas no me interessam.  Nem todos tm a sorte   de conhecer uma Maria da Glria.  Humberto sorriu, malicioso.  
       Ento voc aprova nosso amor?  
        Ontem vocs ficaram na varanda conversando muito tempo.  Espero que tenham se entendido.  
        Conversamos muito.  Ela confessou que gosta de mim.  Isso encheu-me de felicidade.  Fez-me por momentos esquecer a distncia que nos separa.  
        O importante  que vocs se entendam.  Se o amor existe, ento o resto ser fcil.  
        Nem quero pensar na hora em que o Dr.   Marcondes souber.  Acho que vai querer me matar.  
        Deixe comigo.  Isso arranjo eu.  
        Ns contamos com seu apoio.  Tenho at pensado em retomar os estudos.  Deixar essa vida aventureira.  Preciso ter o que oferecer a ela.  O carro parou em frente a um elegante palacete.  
        Chegamos  tornou Geraldo, ansioso.  
       O jardim, perfumado e bem cuidado, circundava a casa, muito bonita e elegante.  Recebidos pelo mordomo com sotaque estrangeiro, foram imediatamente introduzidos a uma sala onde j vrias pessoas conversavam.  
       Maria Luza levantou-se  e com um sorriso dirigiu-se  a eles.  
        Voc veio! Que prazer.  Como est?  
       Vestia elegante vestido branco de corte impecvel, que fazia ressaltar ainda mais o tom moreno de sua pele e a cor dos seus enormes olhos azuis.  
       Depois dos cumprimentos e de Geraldo apresentar Humberto como amigo, a moa com gentileza os apresentou a duas moas finas e educadas, a dois rapazes almofadinhas com ar enfadado e a trs senhoras muito empoadas, que os examinaram com curiosidade.  D.   Aurora levantou-se  para o cumprimento e indagou, um pouco assustada:
        Como  mesmo o seu nome?  
        Geraldo Tavares de Lima.  
        Ah!   tornou ela, um pouco admirada.    Muito prazer.  
       A Geraldo no passou desapercebida a emoo de Aurora.  Tentando parecer indiferente, perguntou:
        A  senhora me conhece?  
       Ela sorriu, amvel.  
        No.  Acho que ainda no nos encontramos.  
        Certamente, senhora.  Tenho vivido ausente desde a infncia e s agora, depois da morte de meu pai, voltei a So Paulo.  
        Pois eu j ouvi falar muito em voc, meu rapaz  tornou a outra senhora, com interesse.    Estava mesmo com curiosidade de v-lo de perto.  
       Geraldo ficou embaraado, e Maria Luza, tomando-o pelo brao,  pediu licena para apresent-lo aos outros.  Aurora respirou aliviada.   Quando estava esquecida de tudo, eis que o passado invadia-lhe a casa, mergulhando-a  nas dolorosas lembranas que lutava para esquecer.  Estava angustiada e triste.  Por que fora do destino aquela criatura lhe buscaria a casa?   Saberia alguma coisa sobre a tragdia de suas vidas?   Com habilidade,  Aurora no deu a perceber o que lhe ia 
       na alma, mas ardia de curiosidade para falar com ele, ver at onde ele conhecia a verdade e poder medir o perigo que a ameaava.  No queria tomar uma atitude drstica.   
       A filha o conhecera e o convidara, e ela no podia dar a perceber sua angstia.  Sempre fizera todo o possvel para evitar que Maria Luza descobrisse a verdade.   
       Havia conseguido em parte, mas at quando poderia ocultar?  At quando conseguiria esconder a prpria culpa e o prprio arrependimento?  
       Aurora lutava com a emoo.  Refizera a vida decentemente.  Amava o marido, que a ajudara a no sucumbir no remorso e na dor.  Criara a filha com zelo e dedicao.   
       Tornara-se  modelo de virtudes e dama respeitada por todos.  Teria isso sido intil?  Um dia sua filha iria descobrir a verdade e conden-la ?  Aurora pediu licena e recolheu-se  ao toucador.   Procurou acalmar-se .  Afinal, no havia motivo para assustar-se .   Ouvira comentrios sobre o filho de Carolina e, ao que parecia,  no estava muito interessado em desenterrar os defuntos.  Suspirou fundo.  Durante anos contratara as relaes da filha, temerosa.  Se at ali havia conseguido o que queria, certamente no tinha motivos para temer.  Depois, se Geraldo tivesse conhecimento do passado,  certamente teria dado a perceber.  Ele parecia natural e indiferente.  Certamente, seu receio era infundado.  
       Ajeitou os cabelos e voltou  sala, onde o ch j ia ser servido.   Geraldo, ao lado de Maria Luza, conversava tranquilo.  Em seus olhos um brilho de admirao, que de certa forma tranquilizou Aurora.   Estava habituada ao entusiasmo que a extica beleza da filha despertava.  Por certo, esse era o motivo da presena em sua casa do filho de Carolina.   Aproximou-se  do rapaz que levantou-se .  
       Espero que esteja  vontade  tornou, com voz amvel.  Tem uma casa muito acolhedora, senhora  respondeu ele cerimoniosamente.   Aprendera as lies de etiqueta com a prima.  
        Obrigada.  Mas voc disse o seu nome e eu agora  que juntei as coisas.  Voc por acaso  filho de D.   Carolina?  
        Sim tornou Geraldo com alegria.   Por acaso conheceu minha me?  
       Aurora fez um gesto vago.  
        Por certo.  Na mocidade.  Mas estive muito tempo fora do Pas e sem frequentar a sociedade.  Ao que sei, a senhora sua me no gostava de vida social.  Assim, no mais nos vimos.  
        Minha me ficou desgostosa com a partida de meu pai, que me
       levou com ele.  Procurou-me durante toda sua vida.  S vim a saber disso depois que ela tinha morrido.  
       Aurora procurou tornar sua voz natural quando respondeu:
        Naturalmente acompanhei o seu caso pelos jornais.  Voc herdou
       enorme fortuna.  
        Preferia ter encontrado minha me.  Mas como isso  impossvel,  agora preciso viver a minha vida, embora tenha muitas saudades dela.  
        No descobriu as causas do gesto de seu pai, abandonando o lar?  
        Ele nunca me contou.  Disse que minha me tinha morrido.  Eu acreditei.  Agora, nunca vou saber a verdade.  
       Aurora sorriu, aliviada.  
        Melhor assim.  O passado pode ser doloroso.  Melhor esquecer.  
       Geraldo concordou.  
         verdade.  Sofri muito, e agora s quero esquecer.  Por isso estou frequentando a sociedade.  Para fazer amigos e construir minha vida.   Humberto est me ajudando a aprender tudo.   meu amigo e sabe viver em sociedade.  Minha prima ensinou-me a ler e agora contratei professores.  Quero esquecer o tempo perdido.  
        Faz muito bem.  Voc  rico e moo.  Vai conseguir.  
       Aurora tranquilizou-se .  O moo ignorava tudo.  O encontro com Maria Luza fora casual.  No devia interferir.  Se proibisse o relacionamento, com certeza eles desconfiariam, o que seria perigoso.  Geraldo parecia s ter olhos para a bela Maria Luza.  
        Geraldo, as minhas amigas querem conversar com voc.  Esto curiosas.  Voc  o novo bom partido.  No quer ser amvel com elas?  
       Geraldo olhou-a  srio.  
        No gosto do jeito delas.  Me olham como um bicho na jaula.  Se
       for conversar com elas, no posso ser educado.  
       Maria Luza riu, divertida.  
         sempre franco assim?  
        Gosto de falar o que penso.  Elas no me agradam, prefiro conversar com voc.  
        Por qu?   indagou a moa, entre sria e divertida.  
        No sei.  Gosto de olhar para seu rosto, que me lembra as ona l do mato onde eu vivi.  Eram perigosas, mas lindas.  Nunca vi nada mais lindo do que elas.  Andavam macio, pele brilhando ao sol, olhos sem igual.  
        Est se saindo muito bem.  Onde aprendeu a ser assim namorador?  
        Eu,  namorador?  Se voc no contar para os outros, posso at dizer: nunca tive namorada.  
        Por qu?    contra as mulheres?  
       Geraldo calou-se ,  pensativo.  
        Era.  Meu pai me ensinou a fugir delas.  Eu obedeci.  At que vim
       para c e conheci trs mulheres maravilhosas e comecei a mudar.  
        Quem so?  Por acaso est apaixonado?  
       Geraldo sorriu.  
        No se trata disso.  Quando cheguei, conheci D.  Lucila, a amiga de minha me, sua filha Ins e minha prima Maria da Glria.  A elas devo tudo.  So como minha famlia.  
        No est apaixonado por uma delas?  
        Isso no.  Nunca me apaixonei.  Isso no vai acontecer comigo.  Posso dominar meus sentimentos.  
       A moa suspirou, triste.  
        Quisera ser como voc.  
        Por que, est apaixonada?  
        Estou derrotada.  Se  o que quer saber.  Para voc, que viu tudo,  posso confidenciar.  O homem que eu amo deixou-me por outra mulher.   Vai casar-se  com ela.  E eu no consigo esquecer, deixar de odiar minha rival, que o roubou de mim.  
       Os olhos de Maria Luza faiscavam.  Todo seu rosto se transformara.  
        Esse  o ponto a que eu no vou chegar  tornou ele com voz
       firme.    O amor arrasa as pessoas e as torna infelizes.  Jamais hei de amar algum.  
       Voc  forte.  Mas eu no tenho essa coragem.  Quando os vejo
       Juntos, quase morro.  
       Falavam em voz baixa, e o ch ia ser servido, requerendo a ateno da moa.  S mais tarde, quando as circunstncias permitiram,  Geraldo, sentado ao lado dela no sof, retomou a conversa.  
       Voc sofre muito, pelo que observei.  Precisa esquecer.  
       Bem que eu quero esquecer.  Mas como?  Quando os vejo, minhas pernas ficam moles, meu corao dispara, minhas mos ficam geladas.  No consigo controlar me.  Posso ajudar?  
       Como?  Ningum pode.  Tenho que sair disso sozinha, mas no consigo.  
        Deixe comigo.  Se quiser minha amizade, acho que posso mudar tudo.  .   Vai conhecer meus amigos, vai distrair-se  e lutar para esquecer.  O amor  uma pedra de tropeo em nosso caminho.  
        Acha que nunca vai tropear?  
        Acho -a juntou ele com voz firme.    No tenho iluses.  No pretendo casar-me.  Quando cansar disto aqui, volto para o mato e vou viver minha vida sossegado.  
       Ela olhou o admirada.  Havia sinceridade em sua voz, e segurana.  
        Acho que podemos ser bons amigos.  Aceito sua ajuda.  Ningum sabe o meu problema.  Voc guarda meu segredo?  
        Claro.  
       Quando meia hora mais tarde se despediram, os dois rapazes iam contentes e esperanosos.  Tudo correra muito bem.  No carro, Humberto comentou:
        Voc assustou D.  Aurora.  
        Como assim?  
        Ela ficou muito preocupada quando ouviu seu nome.  Fez tudo para esconder.  
        Ela foi me fazer perguntas e fingiu que no tinha ligao com minha me.  Elas foram muito amigas.  
        Eu sei.  Mas foi melhor voc aparentar ignorar tudo.  Se ela descobre nossas intenes, no mais seremos recebidos em sua casa.   Parece que ela tem horror a tudo quanto se liga ao passado.  
        O que estar por trs disso?  
        At certo ponto,  natural.  Ela sofreu muito.  Teve que mudar de terra.  Agora tem boa posio e no quer que o passado tolde essa felicidade.  
       - Ser s por isso?  
        Pode ser.  Afinal, ela foi surpreendida em adultrio.  Houve um crime, escndalo.  Acha pouco?  
        No.  Mas acho que tem mais coisa que ns ainda vamos descobrir.  
        Voc foi bem com Maria Luza.  
        No procurei namorar.  No tenho jeito para essas coisas.  Fui franco com ela, fora do nosso problema de investigao,  claro.  Ela sofre um drama de amor e quer esquecer.  Eu vou ajudar como amigo.   Assim, nosso plano se ir cumprindo e eu poderei ajudar essa moa.   Ela sofre por uma bobagem.  Tenho certeza de que ela vai esquecer esse moo que gosta da outra.  
       Humberto olhou, admirado.  
        Ela  linda.  Pensei que estivesse interessado.  Fiquei at com medo por voc.  Ela pode virar a cabea de qualquer um.  
       Geraldo tornou, seguro:
         verdade.  Mas no eu.  No sou como vocs.  No quero amar ningum.   Quero ser livre.  O amor escraviza e faz sofrer.   besteira.  A hora que resolver meus problemas aqui, vou embora.  Volto pro mato, vou viajar.  Correr mundo.  Quero fazer o que me d vontade sem ningum que me prenda, me faa sofrer, que me atraioe e me torne um assassino.  No.  No nasci para o amor.  Sou livre e no me deixo prender.  
        Ningum ama porque quer e quando quer.  
        No eu.  Tenho fora de vontade.  Antes que a fraqueza me tome, eu curo a doena.  No tem perigo.  
       Os dois, rindo e pilheriando, chegaram em casa.  Satisfeitos com o resultado do primeiro contato.  
       Nos dias que se seguiram, Geraldo procurou Maria Luza e convidou-a  para sair com seus amigos.  Apresentou-a  aos primos, que a conheciam superficialmente, levou-a   casa de Lucila, que a recebeu com muito carinho.  A moa sentiu-se  bem nesse ambiente fino porm simples,  junto com pessoas que pareciam ter encontrado o segredo da amizade bem cultivada, onde havia sinceridade e gentileza, carinho e respeito.  Muito diferente das casas que frequentava, onde a futilidade era assunto habitual.   
       Naquele lar tudo era calmo, ameno e agradvel.  
        Sua casa  um osis, D.  Lucila  comentou ela, emocionada.  
        Obrigada, minha filha.  Nossa casa  sempre a morada que fazemos para ns.  
        Como assim?  
        Para que ela seja agradvel, cabe nos cultivar bons pensamentos e s preocuparmo-nos com o bem.  Dessa forma, estaremos sempre serenos.  
        Interessante.  Por que os outros no pensam assim?  
        Cada um tem o direito de escolher.  Quem cultiva a maledicncia,  no pode viver em paz, da mesma forma que quem no distribui amizade no pode ser amado.  
        Nunca ouvi isso antes.  Acho que tem razo.  Se todos pensassem assim, que bom seria o mundo! 
       Se todos fossem como D.  Lucila  tornou Geraldo  , seria o paraso.  
       - Se  vocs so to bons e me estimam tanto, como no sermos amigos?   Mas hoje no temos msica?    tornou ela, com voz alegre.  
       Logo Ins foi para o piano, Jorginho estava cantando, Humberto danando com Maria da Glria.  Geraldo aproximou-se  de Maria Luza.  
        Gostou dos meus amigos?  A moa sorriu.  
        Maravilhosos.  Voc tem faro, como bicho do mato.  Sabe escolher.  
        E mesmo.  S tenho medo mesmo  de ona, isso eu tenho.  A moa riu,  divertida.  
        Voc no dana?  
        Eu no sei.  Acho estranho mexer o corpo feito macaco.  No tenho jeito para isso.  
        Eu ensino.  J que voc  um farejador e s vai pelo que sente,  tem que sentir a msica.  Levante-se , feche os olhos.  
       Geraldo obedeceu.  
        Voc j ouviu esta msica?  
       O piano tocava um foxtrote choroso, e Geraldo respondeu:
        No, eu no presto ateno nisso.  
        Mas vai prestar.  Voc imagine um luar bonito, o cu, as estrelas,  as rvores balanando suavemente.  O cheiro das flores, e voc no meio de tudo, girando ao som dessa msica, girando, girando.  
       Geraldo pensou na mata, na rvore que amava na beira do rio, nas noites de lua, no cheiro inconfundvel do mato, das flores, e sentiu que girava, girava entre elas, e a msica de repente estabeleceu um ritmo no seu girar e ele entregou-se , revivendo o amor  terra, ao seu mundo.  At que tudo parou e ele, meio aturdido, abriu os olhos, e todos estavam rindo.  
        Voc danou com ela  tornou Jorginho com alegria.  E saiu-se bem.  Quem diria! 
       Ele estava encabulado.  
        Voc me enfeitiou  disse ele para Maria Luza, que o olhava maliciosa.  
        No fui eu.  Foi a magia da msica.  Para que ela nos emocione  preciso saber ouvir, sentir, interpretar.  Essa msica me transporta para um jardim enluarado.  Viu como ela levou-o tambm?  
        A  msica tem esse poder?    perguntou Geraldo.  
        A  msica tem esse e outros poderes.   grande e pode levar nos a encontrar emoes sublimes.  Vou ensin-lo a ouvir msica.  Ver a que mundo maravilhoso ela pode levamos.  
       Geraldo ficou ansioso.  Pensava conhecer razoavelmente a vida, e eis que novos caminhos abriam-se   sua sensibilidade, arrastando-o a sensaes diferentes.  
        Quero aprender mais  tornou ele, animado.  
        Toque outra cano suave  pediu Maria Luza  , vamos dar-lhe outra lio de msica.  
       Ins iniciou uma romntica balada e Maria Luza tornou com voz persuasiva:
        Feche os olhos, Geraldo  tomou a mo do moo e colocou-a  em volta da sua cintura, segurou a outra mo puxando-o para si depois murmurou ao seu ouvido:  Esta msica  diferente, toca nos as fibras da alma.  Sente como e suave e delicada sua melodia, como nos embala conduzindo nos a um mundo de sonhos e de beleza.  Mergulhe nela, Geraldo, sinta como ela nos acaricia o corao.  
       Geraldo sentiu se preso de emoo diferente, um misto de receio e de plenitude.  A voz agradvel da moa, o piano em suaves acordes, a msica se revelando, acordando em seu intimo emoes nunca sentidas, o perfume suave de Maria Luza, o calor de seu corpo jovem, tudo fez com que ele, envolvido e arrebatado, esquecesse onde se encontrava e danasse quase que inconscientemente at o fim.  
       Humberto e Maria da Glria, mergulhados no doce sentimento de amor que os unia, tambm danavam enlevados, o que fez Jorginho observar em tom jocoso:
        Quem vai tocar para ns?  Tambm quero sentir a msica e danar com voc! 
       Ins sorriu, enquanto respondia:
        Deixe estar, que teremos nossa vez.  No sabe esperar?  
        No  respondeu ele com voz que a emoo baixava.    Quando desejo algo, tenho que obter logo.  No sei esperar.  
        Pois no sabe o que perde.  Esperar por vezes  mais saboroso do que alcanar.  
        No acredito.  Se no prometer sair comigo amanh, a ss, vou abra-la  aqui mesmo.  
        No confunda minha cabea, seno vou errar a msica e estragar tudo.  
        Vai sair comigo?  
        Depois conversaremos.  
       Geraldo, enlevado, acompanhava os acordes da msica, e estava to absorto que, quando ela acabou, custou-lhe recuperar o equilbrio e voltar realidade.  Continuou abraando Maria Luza de olhos fechados.  A moa delicadamente soltou-se  dele, que abriu os olhos.  
        Voc  muito sensvel  tornou Maria Luza com seriedade.  
        No sei.  Nunca senti a msica deste jeito.  Queria sentir de novo.   muito diferente.  Parece que a gente est sonhando.  
        Voc vai saber apreciar a boa msica.  S tem que aprender a ouvi-la .  
        Engraado, eu sempre ouvi msica, mas nunca senti nada.  
        Ouviu sem penetrar seus encantos.  Agora sentiu onde ela nos pode levar.  
        Tambm quero sentir a msica.  Quem toca para eu danar com Ins?  
       A risada foi geral.  
        Eu toco  tornou Maria Luza com alegria.  
       Sentou-se  ao piano com elegncia, e seus dedos comearam a correr pelo teclado.  A princpio brincando com as notas, em pedaos de canes em voga;depois, seu rosto transformou-se , parecendo absorta e vibrante, enquanto que suas mos deslizavam pelas teclas arrancando sons purssimos de rara beleza.  A msica encheu o ar,  e  surpresa seguiu-se  a admirao e  admirao seguiu se o enlevo dos presentes.  Maria Luza tocava com rara sensibilidade.  A msica era viva, sentimental, vibrante, emotiva e envolvente.  Ela tocava, tocava, como que envolvida por uma energia especial, at que no clmax da emoo chegou ao fim, deixando-se  pender extenuada sobre o teclado.  Aplausos entusiastas ecoaram, enquanto que Lucila,  emocionada, abraava-a  com carinho.  
        Minha filha, foi um privilgio ouvi-la ! Que beleza! 
       Envolvida pela emoo, a moa estremeceu e levantou a cabea.  Tinha lgrimas nos olhos.  
        Queiram perdoar me.  No pensei que fosse acontecer.  
        Perdoar?  ! 
         Admirou-se  Jorginho.    Jamais ouvi execuo como esta.  Ainda estou arrepiado.  E a msica, ento?  Que maravilha! Voc  um gnio.  
       Maria Luza, presa de funda emoo, no continha as lgrimas.  
        Tenho que ir embora.  No pensei que fosse acontecer de novo.  H tempos que eu no tinha a crise.  
        Crise?    perguntou Jorge.  
        Acalme-se .  Sei o que se passa com voc.  No h razo para preocupar-se .  Tudo  natural.  
       A moa sacudiu a cabea negativamente.  
        A  que a senhora se engana.  No  natural.  Como acontece isso comigo?  Aprendi piano, mas via de regra toco regularmente.  Certinho, mas no to bem quanto Ins.  Porm, algumas vezes algo parece apossar-se  de mim, uma fora estranha, e eu mudo completamente.   Transformo me em outra pessoa.  Nessa hora, toco desse jeito, sinto a msica, e o pior  que no posso parar.  
        E essa msica  perguntou Ins, interessada  , no a conheo.  
        linda.  
        Eu tambm no a conheo  respondeu a moa com voz embargada.    Como pode ser isso?  Minha me j levou-me a grandes mdicos, mas sem resultado.  Isso no tem cura, e eles acham at que eu sou doente.  
        Calma,  minha filha.  Voc  to saudvel como qualquer de ns.  
       Seu caso  simples e no precisa assustar-se .  
        D.   Lucila, ser o que estou pensando?    tornou Geraldo, admirado.  
        Voc  sagaz, Geraldo.  Acho que j percebeu.  Maria Luza  nesses instantes envolvida pelo esprito de um grande msico, que a usa como instrumento para manifestar-se  de novo entre os homens.  No h nada de sobrenatural.  Os espritos so uma fora da natureza.   Venha, minha filha, vamos conversar.  Agradeamos a Deus ter permitido hoje aqui a presena de to brilhante criatura que nos brindou com msica celeste.  J pensaram na bondade de Deus?  
       A moa acalmou-se  e todos acompanharam D.  Lucila, que sentou-se  no sof.  Os demais acomodaram-se  ao redor, divididos entre a emoo experimentada, o respeito por aquela mulher que exercia sobre eles doce fascnio e a curiosidade sobre esses assuntos que ela dominava com tanta segurana.  
        Acha que foi um esprito de um msico que a envolveu e a fez tocar?    indagou Maria da Glria, admirada.  
        Voc pode dar outra explicao ao que acabamos de assistir?  
        Mas ela sabe tocar piano  tornou Jorge  desde a infncia, deve tocar muito bem.  No pode ter-se  inspirado?  
        Voc j pensou o que vem a ser a inspirao?  Por que ser que no obedece  nossa vontade?  
        Quer dizer que toda a inspirao dos poetas, dos msicos, dos artistas  produzida pelos espritos?    indagou Humberto,  interessado.  
        No  bem assim  explicou ela, serena.    A  inspirao pode ser provocada por um esprito que ajuda o homem a buscar novas idias, mas pode tambm ser colhida pela prpria criatura cujo esprito busca encontrar novas fontes de conhecimentos e de emoo, de beleza e de elevao, colocando-se  em sintonia com mundos superiores, onde vibram criaes mentais de grandes e purificados espritos, trazendo-a s at ns.  
        E por que a inspirao no obedece  nossa vontade?  Por que o artista no consegue inspirar-se , ou ir buscar essa inspirao nessas fontes superiores quando quer?    inquiriu Humberto,  interessado.  
       Lucila respondeu serena:
        Porque para que isso acontea torna-se  preciso haver sintonia.   Essas fontes fluem normalmente nesses mundos onde os seres j so melhores e mais evoludos, mas para que algum da Terra as sinta  preciso que sua mente ou seu esprito consiga um potencial que lhes permita alcan-las.  
       Na Terra isso  muito difcil porque o meio ambiente  denso e absorvente.  
       Todos somos ainda carentes de superioridade, e to imperfeitos que somente nos sensibilizamos com foras menos delicadas.  Porm,  algumas criaturas conseguem, desenvolvendo um determinado setor da sua sensibilidade, sintonizar-se  com faixas dessa beleza sublime dos mundos superiores, e procuram desesperadamente transmiti-la s aos outros homens.  Verificando a vida dos grandes artistas,  msicos, pintores, legisladores, cientistas, inventores, percebemos bem que se desgastam exaustivamente a vida inteira para conseguir essa sintonia a que chamam de inspirao, lutando por ret-la  ao mximo e transmiti-la  ao restante da humanidade.   interessante notar que raramente esto satisfeitos com o que conseguem reproduzir ou trazer, porquanto  muito difcil enquadrar o belo, o sublime, o maior,  estreita viso humana, e sensibilizar a embotada conscincia do homem terrestre.  
       Contudo, alguns, apesar disso, nos legaram grandes patrimnios de arte, elevao e sabedoria.  
         interessante esse ponto de vista  murmurou Humberto,  pensativo.  
        Quer dizer que eles j encontraram tudo pronto?    perguntou Jorge, admirado.    Nesse caso, onde est o mrito de cada um?  
        A  sintonia, ainda que espordica, com as fontes de inspirao divina, em mundos superiores,  conseguida com esforo, e muitas vezes essas criaturas pagam por ela um preo bastante alto em sofrimentos pessoais, renncia, desprendimento, devendo neutralizar a densidade do nosso meio ambiente que nos atrai com muita fora,  pois a ele pertencemos.  Vo buscar a essncia e trabalham com ela,  transformando-a  em um cdigo que os outros homens podero sentir e entender.  E nesse esforo em adaptar o sublime, o indescritvel, a essncia superior,  frase do homem comum, desgastam-se  e criam,  manipulam e do de si.   por isso que os grandes gnios esto sempre insatisfeitos com sua obra e sempre  procura de maior perfeio.  J pensaram no sofrimento de um ser que penetra as profundezas inenarrveis do sublime, as belezas das cores em gradaes e nuanas diferentes, tendo que traz-la s  materialidade da nossa natureza, e vendo-a s empobrecer-se , diminuir, obscurecer-se  para que o homem possa penetr-la s?  
        Puxa,  D.  Lucila, nunca tinha pensado nisso.  Deve ser um tormento.   Por isso os gnios so inquietos e denotam insatisfao,  sofrimento  tornou Maria da Glria.  
        Penetrando nesses mundos onde a emoo  sublime, devem ter momentos de xtase que ningum pode imaginar  concluiu Humberto.  
         verdade.  Por isso so diferentes da maioria.  E o povo sente neles essa diferena e os admira.  
        Quer dizer que Maria Luza  inspirada?    perguntou Jorge,  interessado.  
        O caso dela  muito diferente.  Como eu disse, a inspirao pode ser do prprio esprito da criatura, que consegue sintonia com outras fontes de vida, mas pode tambm ser provocada por um agente que, atravs da telepatia, transmitiria suas idias.  Isso os espritos fazem.  
         o caso dela?    perguntou Geraldo.  
        Eu diria que  mais do que isso.  No caso dela, o agente, isto , o esprito, a inteligncia que se aproxima dela, consegue envolv-la  tanto que no s lhe transmite as idias como domina seus pensamentos, seu sistema nervoso, seus gestos e tudo.  Ele conduz Maria Luza como quer, anulando sua vontade e manipulando sua parte motora.  Confesso que  um processo delicado e pouco comum, mas que ele consegue com muita propriedade.  
        Estou toda arrepiada.   D.  Lucila  tornou Maria Luza, emocionada.    Mas se isto  verdade, o que ele deseja de mim?  Por que vem fazendo isso comigo?  Eu no gosto, fico desorientada, nervosa e com medo.  
       - Sente-se  mal nessas horas?  
        No.  Pelo contrrio, parece que enquanto est acontecendo fico
       serena.  Tudo fica mais claro e o mundo parece-me mais belo e colorido, mas ao mesmo tempo temo enlouquecer.  Quero escapar desse domnio e no tenho foras.  
         intil lutar contra a fora das coisas.  O melhor ser capt-la s a favor.  
        Como assim?  
        No sei por que ele escolheu voc como instrumento pelo qual quer manifestar-se  aos homens, mas  fcil deduzir que se ele pode fazer isso, se ele consegue fazer isso com voc,  porque voc tem afinidade com ele.  
        Por que tudo isso?  No v que eu sofro?  
        Fcil dizer isso olhando apenas o mundo material, mas o que ele quer  justamente mostrar-lhe as belezas da vida superior.  Quer dar-lhe o sentimento sublime que o anima, quer ajud-la  a vencer seus problemas na vida.  
        No entendo, D.  Lucila.  Se eu sofro quando isso acontece?  
        Esta noite, quando ele nos trouxe atravs de suas mos a msica sublime, acordou em ns sentimentos de beleza e de paz.  Mas, acima de tudo, queria nos dizer que em nosso mundo tudo  efmero e transitrio.  Que a vida no se acaba no tmulo, que ela continua em outras dimenses, onde mantemos nossa individualidade e continuamos a amar, sofrer e progredir.  Minha filha, o que podem representar alguns anos de luta e sofrimento na Terra diante da grandeza da eternidade?  
       A voz comovida de Lucila calou-se  e ningum quis quebrar o silncio por alguns instantes, cada um mergulhado em meditao.  Por fim, Maria Luza suspirou com certo alvio.  
        Estou mais calma.  Por que sinto medo?  
         natural.  Voc est imersa em foras que no consegue controlar,  e isso provoca insegurana.  Mas se estudar o assunto e aceitar sua sensibilidade, procurando disciplin-la , canalizando-a  para foras superiores da vida, ento ver que o medo dar lugar a uma f esclarecida, a uma certeza absoluta da eternidade do esprito  e da justia de Deus, que a tornar forte para vencer todos seus problemas do dia-a  dia, por mais difceis que possam ser.  No sentir medo de nada, porque sabe que Deus est no leme de tudo,  dando a cada um segundo suas obras.  
        Como  bom ouvir essas coisas! Nunca ningum falou-me  assim.  
       Como lhe sou grata! 
       A voz de Maria Luza estava emocionada, e Jorginho aduziu, alegre,  querendo quebrar um pouco a solenidade da moa:
       - Ser que eu no posso tambm pedir a um gnio da msica para inspirar-me?  J pensaram, eu sentado ao piano e Chopin tocando pelas minhas mos?  Eu seria o maior msico da nossa poca.  
       Todos riram, e D.  Lucila objetou:
        Chopin sofreu muito com a sade, voc suportaria sentir uma crise de pulmo?  
       Jorginho admirou-se :
         possvel?  
        Claro.  Ao aproximar-se  da Terra, ele emociona-se  e pode reviver
       essa fase de sua vida com tal intensidade que transmitiria ao mdium com o qual se ligasse todas essas sensaes.  
        Mesmo a de dor?    perguntou Humberto, interessado.  
        Claro.  Mas isso  uma hiptese.  Poderia ocorrer ou no, dependendo da mente dele na hora.  Mas o que ele sentir, isso o mdium sentir.  
        No estou mais interessado  desconversou Jorge, o que aumentou o volume das risadas.  
        Vamos, est na hora do lanche.  
       Quando Maria Luza despediu-se , duas horas depois, abraou D.  Lucila com muito carinho.  
        Desculpe o abuso.  Esqueci das horas.  Ficaria por aqui com muito prazer.  Hoje excedi me.  Desculpe-me mais uma vez.  
        Venha sempre.  Terei o mximo prazer em t-la  como mais uma filha.  
        A  senhora no sabe como fez-me bem essa tarde aqui.  Realmente gostaria de voltar.  
        Pois venha quando quiser,  e nos dar muita alegria.  
       Maria Luza estava sendo sincera.  Sentia-se  aliviada, serena, a presena de Lucila fazia-lhe muito bem.  Naquelas horas conseguira esquecer o drama de sua vida, a dor que lhe ia na alma.  Ao abra-la , Lucila ajuntou:
        Sinto que precisamos conversar.  Quando sentir isso, venha aqui e poderemos trocar idias.  Temos muito a nos dizer.  
       Maria Luza assentiu com a cabea e, sem poder pronunciar palavra,  beijou-a  na face com carinho.  Geraldo disps-se  a acompanh-la  e Jorge resolveu ficar mais um pouco.  Humberto saiu com Maria da Glria.  
       No carro, Geraldo permaneceu silencioso.  Em seu corao vibravam emoes contraditrias, mas D.  Lucila aparecia para ele como figura sublime.  Sua admirao crescia a cada dia.  
        Mulher extraordinria  comentou Maria Luza, pensativa.  
        Tambm acho.  Tem me ensinado tudo quanto j sei, alm de ler e escrever.  Quando me revolto com a minha saudade, ela anima me.  
       A moa olhou-o admirada.  O rosto dele estava conturbado e refletia muita amargura.  Era afortunado, invejado, comentado, bajulado, tinha tudo.  Por que sofria?  
       Colocou a mo sobre o seu brao.  
        No se sente feliz?  
       Geraldo, naquele momento, lembrava-se  apenas da sua vida frustrada,  sem carinho nem amor.  
        Nunca me conformei de perder minha me.  Ela era a mais doce,  a mais meiga, a mais carinhosa de todas as pessoas.  Foi duro perd-la .  
       Enquanto pensei que tivesse morrido, meu sofrimento era suportvel,  mas desde o dia em que descobri o que tinham feito comigo no consigo esquecer.  
       Sab-la  viva, sofrendo por mim, procurando por toda parte,  angustiada e aflita, enquanto que eu chorava amargurado sua saudade,  muito cruel.  
       O moo, sem querer, olhos perdidos nas lembranas, abria o corao,  extravasando sua dor, e procurava conter as lgrimas que teimavam em brilhar, rolando incontidas pelas suas faces.  
       Maria Luza, sensibilizada ainda pelas emoes que experimentara naquela tarde diferente, estremeceu de emoo, que procurou vencer.  
       - Sei como se sente.  Arrancar do corao algum que amamos  cruel e machuca muito.  Sei o que  isso.  Compreendo sua dor.  
        Desculpe.  Voc no tem nada com isso.  Meu caso no tem soluo.   No quero deixar voc triste.  
       Ela olhou-o com doura.  
        Voc  meu amigo.  Sei que .  Gosto muito de voc.  Levou-me a conhecer seus amigos, deu-me apoio.  Sinto que agora tudo em minha vida vai mudar.  No estou mais sozinha.  Voc perdeu a me, eu perdi meu pai muito cedo.  Minha me, muito doente, foi para a Europa, onde fiquei longe de todos, em um colgio.  Pouco convivi com ela.  Tem sido boa para mim, mas no sei explicar, parece que h uma barreira entre ns.  Alguma coisa nos separa.  Meu padrasto  bom, e dentro da sua maneira de ser  muito digno e correto, mas no colgio, longe daqui,  em meio a pessoas estranhas, tambm chorei muito a perda de uma me que me afastou de si por vrios anos.  Ia visitar-me  duas vezes por ano, levava-me  presentes, mas como dizer-lhe que o que eu mais desejava era estar com ela em casa?  Pedi para voltar, mas ela alegava sempre sua sade, e eu,  vendo-a  abatida, nervosa, no tinha coragem de insistir.  Voltei para casa aos 18 anos, depois de completar os estudos.  Foi a que me aconteceu o pior.  Conheci um homem que envolveu-me  com seu amor.  Comeamos o namoro.  Ele, belo e inteligente, solicitado por todas, rico, festejado, e eu me apaixonei perdidamente.  
       At que veio a mudana, ele foi esfriando, afastando-se .  At o dia em que falou-me  francamente.  No estava mais apaixonado por mim.   Acabou o amor.  Pensei enlouquecer.  Ele era tudo quanto eu tinha.   Supria minha necessidade desesperada de amar.  Voc viu, ele agora est com outra, vai se casar.  No fosse voc confortar me, no sei o que faria.  
       Lgrimas rolavam pelos olhos dela, e o moo, penalizado, abraou-a  alisando-lhe os cabelos com carinho.  Podia compreender sua dor.   Querer algum e no poder estar junto.  O "nunca mais" machucando o corao, revolvendo a ferida.  Aconchegou-a  ao peito como faria a uma criana assustada, sentindo imenso carinho por ela.  
        Voc no est s  murmurou emocionado.    Nem eu.  Estamos juntos.  Pode contar sempre comigo.  Sou seu amigo.  
       A moa aconchegou-se , sentindo-se  mais calma;uma paz imensa a envolveu.  Suspirou fundo.  O carro parou.  Geraldo desceu e ajudou-a  a descer.  
        No quer entrar?    perguntou ela.  
        No, obrigado.  Vou para casa.  J est tarde.  
       Ela ergueu-se  na ponta dos ps e beijou suavemente a face morena de Geraldo.  
        Deus o abenoe pelo bem que me fez.  Boa noite.  
       O moo sentiu uma onda de calor aquecer-lhe o corao.  Os belssimos olhos dela o fixavam com doura e ele sentiu um choque por dentro e um certo receio, mas ao mesmo tempo uma onda de alegria.  Tomou sua mo, beijando-a  com carinho.  
        Num vou esquecer esta tarde  disse como que para si mesmo.  
        Por qu?  
        Porque voc me ensinou a danar.  Boa noite.  
       Maria Luza sorriu, e foi com alegria que abriu a porta da casa para entrar.  Aurora esperava-a  preocupada.  
        Filha,  como demorou.  Nem veio para o jantar.  No acha que est abusando?  
       A moa olhou-a  surpreendida.  
        No sabia que era tarde.  Hoje conheci gente maravilhosa, nem vi
       O tempo passar.  
        Algum romance?  
        No fale nisso.  No  assunto que me agrade.  Conheci uma famlia e adorei.  
        Como  o sobrenome?  
        D.  Lucila  o nome.  Era muito amiga de D.  Carolina, me de Geraldo.  
       Aurora estremeceu.  
        O que voc foi fazer l?  
        Visit-la .   uma mulher maravilhosa.  Sua filha tem minha idade,  muito agradvel.  Passei um dia maravilhoso. Ficamos muito amigas.  
       Aurora perturbou-se .  
        Pois eu no gosto dessa gente e me desagrada muito voc ter ido l.  Gostaria que no voltasse a v-los.  
       Maria Luza admirou-se .  
        Por qu?  So da sociedade mais fina da cidade, embora no a frequentem.  Tem alguma coisa contra elas?  
       Aurora procurou controlar-se , vencer o medo terrvel que a assaltava quando a moa se aproximava de algum que conhecia seu passado.  
        No  nada pessoal, mas os comentrios... Dizem que elas so excntricas, no frequentam a igreja, e isso me preocupa.  
        Voc?  ! Algum dia se preocupou com religio?  
        Cumpro meus deveres.  
        .  Vocs vo  missa de vez em quando.  Pode ter certeza, mame:
       se algum comenta alguma coisa, se fazem intriga contra D.   Lucila,  certamente no tem fundamento.  Se as conhecer, ver como so infundadas suas preocupaes.  
        Em todo caso, quero pedir-lhe que no volte mais l.  A moa olhou a me com espanto.  O que haveria por trs de tudo isso?  
        Sinto, mame, mas no posso atender.  No vejo razo para sua preocupao.  Gostei delas, estou interessada em cultivar essa amizade.  Gostaria muito que as conhecesse.   
       Podemos ir juntas visit-la s um dia destes.  
       Aurora deixou escapar suspiro fundo.  Tentou disfarar.  No podia insistir sem despertar suspeitas.  At quando iria pagar pelo seu erro?  Tanto sofrimento teria sido vo?  Tentou sorrir.  
        No tenho curiosidade em conhec-la s.  No me pea esse esforo.  
       Maria Luza fixou o rosto conturbado da me.  
        Talvez lhe fizesse imenso bem.  Como a mim.   D.  Lucila possui uma fora interior, uma grandeza de alma e uma bondade que fizeram-me  bem ao corao, cansado da falsidade dos sales.  Talvez conhec-la s lhe fizesse muito bem, acalmasse seus nervos.  
        Vou pensar nisso.  
       Aurora desconversou e, pretextando, qualquer coisa, afastou-se .  A moa no se preocupou com ela.  Seu av lhe havia contado que a doena da me era nervosa e que era preciso ser paciente com seus problemas.   Habituara-se  a olh-la  por esse ngulo e no estranhava suas crises de depresso, quando se trancava no quarto sem querer ver ningum por vrios dias, s suportando a presena do marido,  dedicado e paciente ao extremo.  
       Mas Aurora, sentia-se  extremamente assustada.  No via com bons olhos a amizade da filha com Geraldo.  Se o moo ignorava o passado, o mesmo no acontecia com D.  Lucila, amiga da famlia e testemunha da tragdia toda.   Impossvel que ignorasse tudo.  Como evitar que elas falassem sobre isso?  Como impedir Maria Luza de ir at l sem despertar suspeitas, se ela se recusava a atender seu pedido?  Estava aterrada.   Mal dormiu  noite e, na manh do dia seguinte, mandou o chofer preparar o carro e ordenou que a levasse  casa de Lucila.  
       Conhecera-a  de perto naqueles tempos.  Temia procur-la .  Certamente defenderia Carolina.  As duas eram como irms.  Tocou a sineta e esperou.  A criada conduziu-a   sala de estar, onde Ins a recebeu com delicadeza.    Sou Ins.  Minha me j vem.  Tenha a bondade de sentar-se .  Aurora, apesar de habituada a controlar-se , estava tensa e plida.  Sentou-se  na ponta da poltrona sem dizer palavra.   Lucila veio tirar Ins do embarao, aproximando-se .  Vendo-a  tornou,  um pouco admirada:
        Aurora! Como vai?  
        Perdoe-me  vir aqui a esta hora da manh.  No  de bom tom.  Mas meu assunto  urgente e preciso conversar com voc.  
        Certamente.  Esteja  vontade.  
        O assunto  particular.  Gostaria de falar-lhe a ss.  
        Naturalmente.  Passemos para a sala ao lado.   meu gabinete;l estaremos a ss e ningum nos interromper.  Tenha a bondade.  
       Aurora seguiu Lucila, acomodou-se   sua frente, comeou nervosa:
       - Sei que vai estranhar minha vinda aqui.  Certamente, no esperava.  
         verdade.  
        Pois bem.  Vim para pedir-lhe um favor.  Custa-me muito esse pedido.   Sei que a seus olhos sou uma assassina, causei a morte de dois homens o talvez tenha estragado a vida de Carolina, mas, apesar de me arriscar a ser mal recebida, vim, no por mim, mas pedir por minha filha.  
       Aurora falava devagar e com extrema dificuldade.  Era lhe muito difcil estar ali, dizendo aquilo.  Lucila olhou aquele rosto ainda bonito, transformado em ricto de dor, e tornou com voz calma.  
        Aurora.  Por favor.  No se atormente remexendo sua dor.  
         preciso  tornou ela com voz amarga.    Eu errei, fui leviana,  tra o amor de um homem belo, bom, amado, no pude resistir  paixo e destru nossas vidas.   
       Como esquecer?  Como?  
       Condoda, Lucila murmurou:
        Esquecer  difcil.  Mas de que vale agora atormentar-se  com o que j passou?  Que utilidade tem agora cultivar o arrependimento e a sensao de culpa?  
       A outra, mergulhada nas prprias emoes tantas vezes represadas,  sentindo o olhar bondoso daquela mulher que em vez de acus-la  parecia querer ajud-la , no conseguia conter o que lhe ia na alma atormentada.  
        Lucila  tornou ela com voz embargada  , voc foi testemunha de nosso amor.  Voc viu como lvaro era bom e me amava, e quanto ramos felizes.  Entretanto, eu no tinha condies para compreender o tesouro que tinha nas mos.  A paixo que sentia por ele me atormentava.  E eu sofria, no queria que ele sequer atendesse ou 
       falasse a uma mulher.  Ele suportava tudo com calma.  Eu, irritada,  nervosa, ele contornando, dando-me  amor, dedicando-se  ao mximo, mas o cime me cegou.  Sofria quando ele atendia a uma mulher em seu consultrio, e vrias vezes causei embarao fazendo cenas e obrigando-o a passar vexames.  Ele procurava trazer-me   razo,  falava, explicava e tudo passava, e eu sentia crescer minha paixo,  meu amor, minha loucura.  At que um dia, isso voc no sabe, algum escreveu-me  uma carta dizendo que ele me traa.  Fiquei como louca.   Procurei essa pessoa, que prometeu ajudar-me  e arranjar um detetive particular para segui-lo .  Pareceu-me  a soluo ideal, e eu, ento,  esperei.  At que alguns dias depois ele procurou-me  , com um relatrio dando hora e local onde eles costumavam encontrar-se .   Fiquei descontrolada.  
       Aurora fez uma pausa, rosto crispado, mos apertando nervosamente a bolsa que segurava, voz traduzindo a fora da emoo e carregada de lembranas.  Lucila, ansiosa, acompanhava o relato, tantas vezes imaginado, nunca confirmado, dos fatos que envolveram dolorosamente tantas criaturas.  Aurora prosseguiu:
        Ele me dizia que lvaro estava apaixonado por Carolina.  Ns ramos muito amigas.  Eu a estimava sinceramente.  Apesar dela ser linda e lvaro ter por ela muita deferncia, nunca me ocorrera essa hiptese.  Ela parecia amar muito o marido e eles eram extremamente felizes.  Viviam, como voc sabe, como dois namorados, e ns, que privvamos da sua intimidade, sabamos disso.  Carolina parecia s ter olhos para o Euclides, e ele a adorava.  Foi um tremendo choque.   Voc pode imaginar como me senti.  
        Aurora, apesar do que me conta eu no acredito nessa infmia.   Estive com Carolina at o ltimo suspiro e afiano-lhe que ela era inocente.  Isso foi uma tremenda calnia.  
        Hoje me pergunto se isso foi ou no verdade.  Confesso que no procurei averiguar mais.  A palavra do detetive, que no tinha interesse em enganar-me, que eu estava pagando para averiguar, no me deixou nem sequer pensar na hiptese dele ter se enganado ou me enganado.  Pintou-me  fatos que no davam margem  dvida.  Encontros  clandestinos s escondidas em um apartamento.  Fiquei cega de dio.   A custo consegui esconder de lvaro meu rancor e minha revolta.  Eu precisava vingar me.  Tinha que encontrar um meio para faz-lo s pagar pelo que eu estava sofrendo.  Enganada, trada duas vezes, pelo homem amado e pela melhor amiga.  Nem sei como pude suportar tanta dor sem perder a razo.  Pretextando doena, guardei o leito durante vrios dias, pensando como fazer para realizar minha vingana.  O melhor seria responder com a mesma moeda.  Fazer com que ele sofresse na carne o mesmo que eu estava sofrendo.  Devolver-lhes a dor, rasgar-lhe o corao, a honra, reduzi-lo s a nada, destru-lo s.   Animada por esse pensamento, consegui erguer-me  do leito e retornar  vida diria.  No podia suportar a dedicao de lvaro.  Tinha vontade de atirar-lhe no rosto a verdade, mas calei.   
       O dio me fortalecia.  Suportei at a presena de Carolina, lutando contra o desejo de lanar-lhe no rosto o que me ia no corao.   Aurora soluava, e Lucila, penalizada, esperava que ela se acalmasse.  
        Voc sofreu muito, Aurora.  
        Sofri o que o diabo determinou.  Uma pessoa ajudou-me  a suportar a dor.  O mesmo que me havia prevenido, arranjado o detetive e sabia de tudo.  Disse-lhe do meu plano de vingana e ele prometeu ajudar me.   Arranjou um encontro com um conhecido seu no mesmo local onde lvaro encontrava a amante, e compareci l, prometi bom dinheiro para que ele estivesse ali em dia e hora que eu ia marcar, para encontrar-se  com uma mulher.  Ele perguntou interessado: " Ela  bonita?  
         muito bonita  respondi com raiva.    Voc precisa ret-la  aqui o mais possvel.  
        A  madame sabe que isso  perigoso.  O marido pode saber, e a minha pele no vale nada.  
        No tenha medo.  No  o marido dela que vai vir aqui.   o meu.  
       O outro riu, malicioso, e eu tive vontade de bater nele.  
       - Se  no quer, fale logo que arranjo outro.  O Dr.   Olavo se encarrega.  Se tem medo, pacincia.  Ao meu marido no interessa o escndalo.  Se o marido dela souber, ele  que vai ficar mal.  Quero vingar me.  Quero que ele pense que ela o trai tambm.  Entendeu?  
       Ele riu, despreocupado.  
        Entendo.  Pode confiar que darei conta do recado.  "
       Sa dali saboreando a vingana.  A armadilha seria feita e Carolina certamente estaria ali na hora exata.  Combinamos a importncia, e no dia seguinte, no mesmo horrio, eu lhe entregaria o dinheiro.  Em casa, planejei tudo, Escrevi uma carta annima para lvaro cujas palavras ainda esto vivas em minha memria: "Se quer saber onde sua amada passa as horas, v a tal apartamento no dia tal, a tantas horas, onde ela costuma estar sempre em muito boa companhia.  " Antegozava a hora de, no dia aprazado, telefonar a Carolina,  atraindo-a  ao local combinado.  Apesar de ser vultosa a quantia,  consegui levant-la  e no dia imediato, fui ao encontro do sr.   Eurico, homem que eu contratara.  Ele j me esperava no apartamento que eu alugara e viera, disposto a arranjar as coisas de modo a aparentar o que eu queria.  Desfiz a cama, arranjei copos com bebidas e at flores.  Lembro-me  de que ele me olhava divertido e arriscou uma brincadeira:Sempre tive medo de mulher ciumenta.  So o diabo! " No respondi, no tive tempo;naquela hora, sem que eu soubesse como,  lvaro, transtornado, apareceu na porta do quarto e, vendo nos, gritou desesperado:
        Vocs!  verdade!  Miserveis, traidores! Como puderam! Aurora, voc me traiu.  Hipcrita.  Ciumenta! Mentirosa! 
        lvaro  balbuciei aterrorizada  , o que est pensando?  
       Ele nem me ouviu.  Puxou de uma arma e abateu Eurico ali mesmo; voltou a arma contra mim, que gritava minha inocncia e atirava-lhe no rosto sua traio, e ele, olhos terrveis, plido, fora de si,  apontando a arma, gritou: 
        Voc destruiu nossas vidas; morre,  infeliz.  
       A bala me atingiu no peito, mas eu s percebi quando o sangue brotou.  Quis gritar, a voz no saiu.  A vista turvou-me  e eu, antes de desmaiar, ainda o vi voltar o revolver contra o prprio peito e dar no gatilho.  Desfaleci.  "
       Aurora chorava convulsivamente e Lucila correu a abra-la ,  compadecida.  A tragdia se consumara.  
        Chore, Aurora.  Alivie o seu corao do peso do remorso.  
        Eu no quis provocar aquela tragdia.  Juro que no pensei que Eurico pudesse morrer e que lvaro chegasse a tanto.  Nunca imaginei que ele pudesse nos surpreender.   
       Ah! Lucila,  difcil lembrar do que ocorreu depois.  Estive no hospital, passei mal, mas Deus poupou-me  a vida porque assim eu sofreria muito mais e pagaria pelo meu erro.  Mas eu tinha razo, eu era a vtima.  Ela, Carolina, estava impune.  Amada, festejada, feliz.  Eu fora destruda.  Ela veio ver-me no hospital, e se eu pudesse falar naquele dia, teria gritado meu dio.  .  Soube que lvaro no morrera.  Nosso nome enxovalhado, o lar destrudo e a famlia de Eurico sem arrimo.  Quando pude falar, contei tudo a meu pai.  Ele tomou conta do caso, decidido a quebrar os vnculos do meu casamento com lvaro.  A meu pedido contratou o Dr.  Olavo, meu amigo e conselheiro, e iniciamos o processo de desquite.  Prestei depoimento,  acusando lvaro e Carolina, mas as evidncias eram contra mim.  Eu fora encontrada com um homem no apartamento, no ela.  Como provar a verdade?  Apesar do Dr.  Olavo arrolar o testemunho do detetive, esse no teve valor porquanto foi provado que o homem era seu assalariado, o que invalidou seu depoimento, e lvaro compareceu no processo como inocente e vtima, enquanto que eu era a leviana, a falsa, a adltera, a devassa.  No me conformei.  Quando o pesadelo do desquite acabou, meses depois, no me contive.  Ia para Europa com minha filha, como uma sombra vencida, esconder minha vergonha e preservar Maria Luza inocente, mas queria a todo custo destruir Carolina.  Para isso procurei o Dr.  Jos Marcondes, irmo de Euclides,  e chorando relatei com detalhes minha verdade;ele prometeu ajudar-me  entregando ao irmo a carta que eu escrevera relatando os fatos.  Fui embora para a Europa.  Soube que lvaro suicidou-se ,  talvez corrodo de remorsos, e Euclides largou a esposa, provando que eu estava certa.  
        Nunca lhe ocorreu que Carolina podia estar inocente?  Nunca pensou que vocs podem ter sido vtimas de interesses escusos, de pessoas sem escrpulos, interessadas em destru-lo s?  
        No.  Ultimamente tenho pensado muito e acho que deveria ter procurado surpreend-lo s em flagrante.  Mas eu no suportava a idia de v-lo s juntos, compreende?  
        E por isso desencadeou toda essa tragdia.  E se seu marido for inocente?  E se Carolina for inocente?  Quantas vidas seu cime destruiu! 
        Nem posso admitir essa hiptese.  A nica coisa que me conforta  pensar que eu era a vtima.  Eu a trada.  No.  No posso pensar nisso.  
       Aurora passou a mo pela testa, como querendo afastar essa idia terrvel.  Depois, fazendo um esforo,  continuou:
       - Sempre lutei para afastar minha filha de tudo isto.  Sofri muito afastando-a  de mim, eduquei-a  na Europa na esperana de que o tempo apagasse a lembrana e o escndalo fosse esquecido.  Morreria de vergonha se ela descobrisse a verdade.  
       Lucila olhou-a  penalizada.  
        Voc no conseguiu esquecer.  
        Jamais conseguirei.  Meu pobre Afonso tem feito o possvel para ajudar-me.  Mas a dor, a vergonha, o remorso, me consomem os dias.  A Insnia, os pesadelos, a cena trgica, o desfecho terrvel, voltam constantemente, e eu no os posso evitar.  Nesses dias permaneo no leito, sacudida pela dor, e temo enlouquecer.  A figura de Eurico assassinado, ensanguentado, me aparece, vingativa e cruel, acusando me, jogando o dinheiro em meu rosto, e nesse pesadelo, como no caso de Judas, as notas transformam-se  em sangue.  
       Aurora, plida, tremia, e as lgrimas desciam em avalanche sem que ela pudesse cont-la s.  Lucila olhava-a  condoda, deixando-a  desabafar.   Quando ela pareceu acalmar-se , Lucila tornou:
        Compreendo seu receio.  Agora sei por que veio.  Quanto a isso, pode tranquilizar-se .  Em nossa casa, Maria Luza jamais ouvir a mais leve insinuao ou referncia ao passado.  Dou-lhe minha palavra e respondo por minha filha.  Conhecemos Maria Luza ontem e ela  uma moa maravilhosa.  Bela, de corpo e de alma.  Pode ter certeza de que a apreciamos muito.  
       Aurora levantou os olhos vermelhos e molhados.  
        Morreria de vergonha se ela viesse a saber.  
        No acha que essa posio  muito dolorosa?  No seria melhor ter-lhe contado tudo?    uma moa inteligente, saberia compreender.  
        No diga isso - Aurora remexeu-se  na cadeira, aflita.    Prefiro morrer a dizer-lhe tantas coisas cruis.  Apesar de ter tido pouco convvio com lvaro, ela o adora.  Cultua sua memria com venerao.   Odiar- me- ia certamente.  
        Aurora, a verdade sempre faz menos mal do que a mentira.  Se voc lhe contasse tudo, ela saberia entender.  Compreenderia seu sofrimento, sua fraqueza;mas se ela vier a descobrir pelos outros,  mal informados, alm de ter uma verso falsa corre o risco de revoltar-se  por ter sido enganada.  Isso a afastaria de voc, ao 
       passo que, se voc mesma lhe abrisse o corao, tenho a certeza de que ela estaria do seu lado, ajudando-a  a esquecer.  
       Aurora sacudiu a cabea, desalentada.  
        Jamais terei foras para fazer isso.  Se consegui mant-la  longe da tragdia at agora, acredito que posso faz-lo at o fim.  Hoje poucos se recordam do meu drama;meus amigos cooperam e ningum o menciona jamais.  Por isso, peo-lhe que no toque neste assunto.  
        Pode ficar tranquila.  Voc  a nica pessoa que tem o direito de
       contar-lhe a verdade.  Ns jamais o faremos.  Fique em paz.  Sua filha esteve aqui, apreciamos muito sua amizade e gostaramos de mant-la .  Pareceu-me  haver reciprocidade, o que vir nos alegrar a vida.   Ins e eu sabemos apreciar uma boa amizade.  Pode crer que jamais mencionaremos o que se passou.  
       Aurora suspirou aliviada.  
        Agora  estou calma.  Mas tive tanto medo! Sempre que ela se aproxima de algum que conhece a verdade, me atormento.  
       Lucila ajuntou, serena:
        Tudo seria diferente se voc vencesse esse medo.  
       Aurora sacudiu a cabea.  
        No posso.  Apesar de tudo, alegra-me  saber que voc no me acusa.   Sei que gostava de Carolina como de uma irm.  Temia no ser bem recebida.  Foi muito difcil vir aqui.  
        Vocs viveram um terrvel drama, cujas profundezas sou incapaz de entender.  S Deus, que conhece a causa de tudo, tem condies de julgar.   Avalio o que voc tem sofrido como nica sobrevivente desse doloroso romance.  Todos os outros personagens j partiram.  L onde se encontram, acredito que estejam de posse da verdade,  onde certamente cada um tem uma parcela de culpa.  A justia de Deus  perfeita, e se ns cometemos erros, se ns destrumos, ele sempre nos dar ocasio de recomear, de construir, de refazer.   Para isso usa os recursos do tempo,  atravs das reencarnaes.  Aurora olhou-a  admirada.  
        Acredita nisso?  
        Plenamente.  
        Acha que lvaro sabe que sou inocente, que jamais o tra?  
         provvel.  Acho tambm que Euclides j descobriu que Carolina tambm sempre lhe foi fiel.  
       - Acredita mesmo nisso?  
        Tenho absoluta certeza.  Acompanhei o seu martrio.  Conheo todas suas lutas, seus sofrimentos.  Era mulher admirvel.  
       - Se  ela era inocente, como deve ter me odiado! 
        Jamais ouvi de seus lbios alguma referncia maldosa sobre voc.  Ao contrrio, costumava lamentar sua atitude e tentou v-la  vrias vezes para esclarecerem tudo, o que jamais o Dr.  Sigifredo consentiu.  Acompanhamos o sofrimento de lvaro, e ela muitas vezes levantava dvidas quanto  sua traio.  Acho mesmo que ela  descobriu parte da verdade, porque disse-me  que a conhecia bem e sabia que o seu carter era firme.  Recusava-se  a crer que voc tivesse trado lvaro com aquele conquistador barato.  
       Um dia que ambas conversvamos, ela comentava o sofrimento de lvaro.  Euclides, receoso de nova tentativa de suicdio, o levava para a prpria casa, onde ele tinha srias crises de depresso e perambulava como um fantasma plido e sofrido.  
       Pobre lvaro  tornou Aurora, comovida.    Conte-me  tudo, anseio saber.  
       Pois bem.  Naquela tarde, eu e Carolina estvamos na varanda quando Euclides veio ter conosco e pediu:
       Vo ter com lvaro, ele est pssimo.  Recusa-se  a levantar e nem reage.  No conversa e eu no consigo tir-lo desse estado.  Vocs certamente faro melhor do que eu.  No posso v-lo desse jeito!  Temo que duma hora para outra tente de novo.  Olhamo-nos assustadas.  
        Vamos, Lucila  tornou Carolina.    Voc pode ajud-lo mais do que ns.  Quando entramos no quarto,  ele, vestido, estava estendido no leito, olhos fixos no teto,  alheio a tudo.  Magro, plido;olheiras fundas sulcavam-lhe as faces.  
        Pobre lvaro  suspirou Aurora, soluando.  
        Prefere que eu pare?  No quero molest-la .  
        No, por favor.  Preciso saber.  Tenho anseios de conhecer a verdade.   A dvida me enlouquece.  Continue, peo-lhe.  
        Aproximamo-nos do leito.  Carolina olhou com bondade e tornou:
        Dr.   lvaro.  Lucila veio visit-lo .  Interessa-se  por sua sade.  
       Ele, sem desviar os olhos do teto, respondeu:
        Obrigado.  
        No vai me estender a mo?  
        Perdoe-me tornou ele  , tornei-me um selvagem.    Olhou-me e apertou minha mo rapidamente.  
       -se  no se importa, vou sentar-me  por alguns minutos a seu lado.  
        Esteja  vontade  tornou ele com voz apagada.  
       Sentamo-nos.  Eu ao lado da cama e Carolina na outra cama que havia no quarto.  Fiquei calada, olhando o seu rosto moreno e triste.   Depois de alguns minutos, ele tornou:
        Desculpe, mas no sou boa companhia.  Acho que desperdia seu tempo vindo ver me.  
       - Sempre fomos amigos, Dr.   lvaro, e o seu sofrimento nos faz sofrer tambm.  
       Ele fez um gesto desalentado:
        O mal  sem remdio.  No desejo preocupar os amigos.  
        Mas preocupa.  Permanecer nesse estado, sem vontade de lutar,  viver, sem reagir, realmente no vai solucionar o problema nem contribuir para aliviar sua dor.  
        Sinto, mas no posso ser diferente.  Estou acabado.  A tempestade passou por mim e destruiu tudo.  
        Depois da tempestade, tudo se refaz, a atmosfera se limpa e as plantas brotam de novo; preciso conservar a esperana! Para mim,  tudo acabou.  
        Tem Maria Luza, ela o ama muito e precisa do seu amor! 
       lvaro emocionou-se ; lgrimas brotaram dos seus olhos macerados.   Minha filha, meu biscu.  "
        Era assim que ele a chamava  tornou Aurora, com voz embargada.  
        Ele continuou:  a nica coisa que me resta.  Mas agora, eles at isso me tiraram.  No mais a vi.  Apesar de ter sido absolvido, ela ficou com a filha e impede-me  de v-la .  Nada mais me resta neste mundo.  Carolina aproximou-se :
        Dr.   lvaro  tornou com voz doce  , posso dizer-lhe o que sinto?  
       Ele concordou com a cabea, ela prosseguiu:  Recuso-me  a crer na culpa de Aurora.  
        Por favor  respondeu ele com voz rouca.    No falemos nesse assunto! '
        Mas eu preciso falar o que sinto.  Conheo Aurora desde a infncia.  Fomos amigas sinceras.  No creio que ela o tivesse trado com aquele homem.  
        Pois eu vi com meus prprios olhos.  Quando recebi aquele bilhete annimo dizendo que minha amada me traa, fiquei como louco.  Eu a amava muito.  Era e sempre foi a nica mulher de minha vida.  No aguentei esperar pelo dia marcado.  Passei a segui-la  e surpreendi-a  entrando naquele prdio.  Estava louco de cime e armado.   
       Quando mexi no trinco, a porta estava aberta e olhei a cena.  A cama desfeita, os copos com bebida e ela, a minha mulher, a me de minha filha, a mulher que eu amava com loucura, olhando para ele.  Como duvidar?  Como no compreender a verdade?  Uma nuvem toldou minha vista.  Conforme planejara, atirei nos dois e tentei matar me.  lvaro chorava convulsivamente, enquanto que eu orava a Jesus pedindo para ele a ajuda de Deus.  Foi uma cena dolorosa, que jamais apagou-se  da minha mente.  
       Aurora chorava emocionada, e, colocando a mo no brao de Lucila, pediu:
        Por caridade, continue.  
       Ele continuou com voz embargada:-se m Aurora e sem Maria Lusa a vida no vale mais a pena.  S lamento terem me salvado.  
       Dr.   lvaro, como pode pensar que Aurora, que tanto o amava, tenha-o trado com um conquistador barato como aquele?  Eu a conheo bem e recuso-me  a crer  Carolina falava com voz firme.  Mas eu os vi! 
       Voc viu os dois, vestidos e conversando.  Nem sequer os deixou explicar, falar o que estava acontecendo.  No acha que se precipitou?    Aurora murmurou, admirada:
        Ela me defendeu assim?  A mim, que a acusara no processo e lhe lanara no rosto o que eu pensava?  
        Carolina era uma mulher lcida e sublime.  Ver que tenho razo.   Mas lvaro continuou:  Voc a defende?  Voc, a quem ela na nsia de justificar-se , procurou enlamear?  
       Carolina olhou-o, e me recordo que havia muita doura nesse olhar:  Aurora era uma pessoa doente.  Seu cime era uma chaga sempre dolorosa, mas jamais teve cimes de mim.  Para mim, se quer saber,  esta histria no est bem contada.  H algo nisso tudo que  preciso esclarecer e descobrir.  Apesar da tragdia, acho que  vale a pena averiguar, porque a verdade pode ser outra e vocs podem estar enganados.  Algum pode ter usado seu cime, atiando-a  contra mim, para destru-lo s.  Aurora, ciumenta e apaixonada, pode ter sido envolvida.  
        No acredito.  Para mim, tudo est claro.  Olavo  um patife que me odeia, e pode ter inventado essa calnia a nosso respeito, em que ningum acreditou, s para tentar justificar a atitude leviana de sua cliente.  Isso  comum nessa profisso, nos homens sem carter como ele.  
       Aurora surpreendeu-se :
        Eles no se davam?  lvaro disse isso?  
        Estou relatando palavra por palavra.  Gostaria mesmo que descobrisse a verdade.  Talvez pudssemos encontr-la  juntas.  Eu tambm acho que as coisas jamais se tornaram claras.  Hoje conheci mais um pedao da histria e vejo que Carolina pressentiu a verdade.  Voc foi ludibriada em sua boa f por esse advogado, homem sem escrpulos que, por alguma razo que desconhecemos, queria prejudicar seu marido.  
       Aurora abriu os olhos, assustada:
        Meu Deus! Ser possvel?  Esse homem teria sido to vil?  
        No o estou acusando, mas foi ele quem lhe mandou a carta sobre a suposta traio de lvaro com Carolina.  
        , foi.  
        Foi ele tambm quem arranjou o "detetive", que era um seu assalariado.  E foi nesse homem que voc acreditou.  Essas foram as suas "provas".  Tudo partiu dele.   
       No acha que pode ter sido conduzida por ele, que, explorando seus cimes, usou-a  para destruir seu marido?  
        Isto  uma monstruosidade.  Por que ele o odiaria a tal ponto?  
        S Deus sabe.  Parece-me  que os fatos nos fazem levantar essa suspeita.  
        Por Deus! Isso  horrvel.  Teria tudo sido um engano?  lvaro era inocente?  
        Tenho plena certeza disso.  No s com Carolina como com qualquer outra mulher.  Ele amava-a  profundamente.  
        Meu Deus  soluou ela  , que tragdia! Meu cime, minha estupidez,  minha loucura.  Tenho medo de saber, mas ao mesmo tempo preciso conhecer a verdade.  Como?  Quem me poderia ajudar?  
       Lucila olhou-a  bem nos olhos.  
        Aurora, est na hora de voc lutar para refazer sua vida.  Voc tem sofrido muito e se amargurado.  Isso no melhora a situao.  Precisa conhecer a verdade, ir at o fim.  No tenha medo.  Voc foi vtima tambm.  Um dia tudo vir  tona e voc ficar aliviada.  
        S no quero que Maria Luza saiba.  
        Ela ficar fora disso.  S voc decidir quanto a isto.  Mas se quer descobrir a verdade, lutaremos juntos.  
        Como assim?  
        Conheo algum que foi vtima inocente desse drama e tem interesse em desvendar o mistrio.  
        Quem ?  
        Geraldo.  Ele acredita que os pais foram vtimas de uma trama e deseja descobrir a verdade.  Voc pode ajud-lo contando tudo quanto me disse hoje.  
       Aurora assustou-se .  
        O filho de Carolina?  Pensei que ignorasse tudo.  
        Ele sabe por alto o que lhe contaram.  Trabalha para descobrir a
       verdade.  Eu no pretendo contar-lhe nossa conversa.  No tenho esse direito.  Contudo, ele  um moo bom e inteligente;se vocs se unissem, se voc lhe contasse tudo, talvez pudssemos encontrar a verdade.  Sinto que agora  um bom momento para isso.  
       Acha que ele no vai me odiar?  No querer vingar-se  de mim?  Afinal,  eu separei seu pai de sua me.  Ele no vai entender.  Pode at vingar-se  em Maria Luza, contar-lhe tudo.   .  .   No, isso no.  
       Acalme-se , Aurora.  Geraldo  correto e respondo por ele.  Jamais seria capaz disso.  Aprecia Maria Luza, eu diria at que com muito calor.  Aurora suspirou.  Mesmo assim, tenho medo.  
        Isso voc decide,  claro.  Porm, juntos com Humberto, que tem investigado o caso, poderiam encontrar melhor o rumo.  Tudo ser feito em sigilo como at aqui.  O fato de voc ter escrito a carta para o Euclides no quer dizer que essa tenha sido a causa do rompimento dele com Carolina.  Afinal, na carta voc apenas repetiu o que fizera no processo.  Ele j sabia da sua verso.  Acredito que,  para ele fazer o que fez, teve um motivo mais forte.  
        Acha mesmo?  Agora, que estou aceitando mais a idia de que ela era inocente, repugna-me  t-lo s separado.  
        Por isso  preciso encontrar a verdade, para que possam viver em paz.  S o que me preocupa  que Geraldo pretende vingar-se  do responsvel.  Espero convenc-lo da inutilidade desse gesto.  Antes eu achava que ele deveria esquecer tudo, mas agora sinto que as coisas esto acontecendo, como que fazendo a verdade surgir.  Saibamos encar-la  com coragem e fazer dela uma lio para o futuro.  
        Quando vim aqui, estava atormentada;agora, estou aliviada.  Nunca pensei encontrar justamente aqui tanta compreenso e tanto apoio.   Sei que ser difcil esquecer o que fiz no passado.  Espero que me perdoe, no me queira mal.  
        Gostei de v-la , Aurora.  Lavei a alma conversando com voc.  Gostaria que viesse mais vezes.  Mesmo para conversar sobre outros assuntos.  Poderemos reatar nossa amizade antiga.  
       Aurora comoveu-se .  
        Voc me aceitaria?  
        Voc me aceitaria?    repetiu Lucila.  
        Isso me faz enorme bem.  Tanto tempo faz que eu no me sentia to calma.  Posso pedir-lhe um favor?  
        Certamente.  
        Fale-me de lvaro.  Gostaria de saber o que aconteceu depois.   Jamais ficou claro para mim.  Afinal, ele suicidou-se  e isso me dilacera a alma, agora supondo-o inocente.  E, ao mesmo tempo, enche-me  o corao de calor.  Foi por mim!  um misto de remorso, mas ao mesmo tempo de amor! Ele me amava, e isso me inebria o corao e apavora-me.  
        Como sabe, tenho minhas convices, sou esprita.  Achei que podia ajudar lvaro, oferecendo-lhe um pouco da minha crena, onde o conforto e a compreenso dos sofrimentos costumam propiciar alvio e esperana.  
       Falei com lvaro sobre a justia de Deus, sobre a vida aps a morte, sobre a relatividade da vida fsica, mas tentando mostrar-lhe a inutilidade e o crime do suicdio.  Passei a visit-lo diariamente, e aos poucos, para nossa alegria, ele foi se tornando esperanado e menos triste.  Comeou a interessar-se  pela filosofia esprita;eu emprestei-lhe livros para que ele se ilustrasse e discutamos sobre o assunto.  Apesar de guardar a fisionomia ainda triste, ele passou a interessar-se  mais pelas coisas, a participar mais da vida;ia ao jardim, cuidava das flores, com o Antnio, e eu cheguei a pensar que sua recuperao era questo s de tempo.   Chegou a arrepender-se  de ter tentado o suicdio, e algumas vezes preocupava-se , aflito, pelo esprito do homem que havia matado.   
       Fazendo perguntas sobre a vida dos que morreram, etc.  
        Mas ele suicidou-se .  Como explica isso?  
        No explico.  Na vspera de sua morte, fui visit-lo e ele pareceu-me  muito melhor.  Falou-me  que logo pretendia comprar uma casa, onde iria morar, porque achava que abusara da hospitalidade dos amigos e queria recomear a vida.  Pediu-me  para ajud-lo nessa tarefa, na organizao da casa, e prontifiquei-me  a tudo, inclusive a contratar os empregados.  No sei como ele pode ter mudado tanto.  
        Como aconteceu?  
        Fui embora feliz e tranquila.  No dia imediato, recebi o recado de que lvaro ingerira forte dose de calmantes e estava morto.  Jamais pude  compreender sua atitude.  Fomos ao enterro, e Carolina estava to chocada quanto eu.  Euclides, plido, e emocionado.  Foi uma surpresa.   um mistrio.  No deixou nada escrito.  Nem uma palavra.   Euclides ficou transtornado.  Tudo fizera para salvar o amigo.  Oito dias depois, sumiu de casa, levando o filho, para desespero de Carolina.  
        Nunca descobriram o motivo?  
        Nunca.  
        No teria sido pela minha carta?  
         pouco provvel.  Nem sabemos se ele a recebeu.  Pode at ser que Jos no a tivesse entregue.  Depois, Euclides sabia sua verso e jamais a aceitara.  
         curioso.  Tem razo.  Essa conversa fez-me  muito bem, embora tenha descoberto coisas terrveis.  Quero contar-lhe um segredo que guardo durante tantos anos sem jamais contar a quem quer que seja:  continuo amando lvaro com loucura.  E isso me tem feito sofrer muito.  A lembrana dos tempos felizes, do amor que vivemos, e, apesar de tudo, agora saber que ele sempre me amou, aquece-me  o corao.   Meu marido  bom e eu o estimo mas amor, mesmo,  o lvaro.  Como pude ser to leviana?  Como pude ser to cruel?  Quero saber, mas como suportar o peso da minha culpa, do meu cime que destruiu toda nossa vida?  
       Aurora, a vida na Terra  um ponto diminuto diante da eternidade.  Acalma seu corao.  lvaro continua vivo do outro lado da vida, na vida verdadeira, eterna.  Ele a ama, sabe agora que voc no o traiu.  A unio de vocs  questo de tempo e depende muito do que vocs fizerem daqui pra frente.  
       Os olhos de Aurora brilharam com esperana.  
        Acredita mesmo?  Acha que algum dia em algum lugar estaremos juntos de novo?  
        Tenho certeza e gostaria que voc tambm tivesse.  Mas isso vai depender do merecimento de vocs.  Ambos tm muitos erros a expiar,  mas sofreram muito.  Se lutarem para compreender os outros e perdoar, procurando aceitar a vontade de Deus, certamente alcanaro o que desejam.  O amor  a maior fora da vida.  
        Ah! Lucila, faz-me  bem ouvi-la .  Tambm quero aprender a conhecer essas coisas.  
        Terei prazer em receb-la  e em conversar sobre o assunto.  
       Aurora distendeu a fisionomia.  
        No diga a Maria Luza que estive aqui.  Ela mesma convidou me a visit-las.  Virei qualquer dia desses como se fora a primeira vez depois de muitos anos.  
       Lucila sorriu.  
        Como queira.  Gostaria de pensasse na idia de conversar com
       Geraldo e relatar-lhe tudo.  
        Quanto a isso, no.  Tenho medo.  
        No insistirei.  Faa como achar melhor.  Mas procure conversar com ele, conhec-lo .  Ver que pode confiar nele.  Por certo que isso fica a seu critrio.  De minha parte, nada direi a ningum.  
        Obrigada, Lucila.  Acredite, voc  admirvel.  Pensei ser acusada e vim pensando em defender me.  Entretanto, voc oferece-me  compreenso e amizade.  Mostra-me  novos aspectos do nosso drama nos quais eu jamais pensara, e ainda se prope a ajudar me! No sei como agradecer...  
       Lucila olhou-a , tranquila.  
        Esquea, Aurora.  Todos ns precisamos uns dos outros.  Eu e minha filha vivemos vida simples, e embora no apreciemos o bulcio da vida social, apreciamos muito a amizade e a boa companhia.  Maria Luza nos conquistou com facilidade, no s pela beleza fsica como pelas qualidades da alma, e voc, sofrida e cansada, abalada e vivendo dolorosa experincia, toca-nos o sentimento.  Desejo oferecer nossa amizade como um ponto de apoio, de fortalecimento, e a certeza de que dias melhores viro quando a fora da tempestade houver passado.  
       Aurora, emocionada, fixando o rosto sereno de Lucila, no conteve as lgrimas.  Levantou-se  e abraou-a  com carinho, beijando lhe levemente a face.  
        Obrigada, Lucila.  No imagina o bem que me fez.  H quanto tempo no sinto o calor sincero de uma boa amizade.  Tenho vivido como fera acuada sob o verniz das convenincias e a futilidade dos sales.  Lucila apanhou um leno e ofereceu com simplicidade.  
        Vamos, Aurora.  Agora enxugue os olhos.  Chorar no  bom.  Em
       nossa idade, precisamos tomar cuidado com as rugas! 
       Aurora enxugou os olhos, enquanto tentava sorrir.  
        Tem razo.  Devo estar com os olhos vermelhos e inchados.  
        Um pouco.  Mas isso passa logo.  Voc h muitos anos no vem  minha casa.  Fizemos algumas mudanas, embora eu procure manter o tradicional.  Aprecia decorao?  
        Muito.  
        Ento venha.  Quero mostrar-lhe algumas das nossas inovaes.  
       Aurora a acompanhou.  Com delicadeza e naturalidade, Lucila percorreu a casa, conversando e chamando a ateno ora sobre uma planta, ora sob um quadro, ora sob um mvel, e a outra a ouvia com prazer,  encantada com o bom gosto e a finura de tudo.  Ins mostrou-lhe seus quadros, conversaram sobre arte, poesia, literatura, tomaram refresco na copa e foi com ligeiro susto que Aurora percebeu o adiantado das horas.  
        Onze e meia! Acho que me excedi.  No pensei que fosse to tarde.  
        Fique, almoce conosco  convidou Lucila.  
        No posso! Sa sem avisar ningum.  No pensei demorar tanto.  
       Voltarei um outro dia.  Isto aqui  um osis! No pensei que existissem ainda lugares assim.  
       Gostaria que viesse passar uma tarde conosco.  Poderamos tocar, seria timo  tornou Ins, amvel.  
        Obrigada, minha filha.  Virei com Maria Luza qualquer dia destes.   S que.   .  .   por favor.  .   .   no lhe digam que estive aqui hoje.  Sua me lhe explicar o porqu.  
       Aurora despediu-se  com carinho.  Seu rosto, embora refletisse um brilho  no olhar, estava distendido e sereno.  Vendo-a  afastar-se ,  Lucila tornou, emocionada:
       Ins,  fora de dvida que Geraldo tem razo.  Eles todos foram vtimas de uma tragdia provocada e urdida por pessoas interessadas em destru-los.  Que Deus tenha piedade deles! 
       Pobre D.  Aurora.  Senti sua tristeza, e pareceu-me  que seu corao est despedaado.  
       Tem razo.  Sofre terrivelmente.  A tragdia que ajudou a provocar permanece viva em seu ntimo, como um alerta quanto ao perigo das paixes descontroladas, onde o cime excessivo e doentio desvirtua o raciocnio, conduzindo nos ao erro de consequncias imprevisveis.  Hoje conheci parte da verdade sobre a tragdia a que temos assistido.  Venha.  Vou contar-lhe tudo.  Mas isso voc guardar como segredo inviolvel.  No nos pertence.  Quero que conhea a verdade porque voc vai ajudar-me  a levar a esses coraes sofridos um pouco de paz, de f e de esperana.  Eles precisam de ns e que Deus nos ajude.  
       Ins abraou a me e juntas sentaram-se  no sof, onde Lucila, olhos brilhantes de emoo, voltou  cena de momentos antes e comeou a contar.  
       Aurora chegou em casa apressada.  Maria Luza esbarrou com ela no living e tornou:
        Bom dia, mame.  Que milagre! Saiu to cedo.  
        Hoje resolvi sair.  Fui fazer umas compras.  Preciso renovar nosso enxoval.  H umas toalhas modernas que preciso comprar para o ch.  
        Comprou?  
        Nada.  No gostei de nenhuma.  Na prxima semana vo chegar novidades.  Vou esperar.  
       Maria Luza fixou o rosto da me com ateno.  
        Deveria levantar-se  cedo todos os dias.  Fez-lhe muito bem.  
        Voc acha?  
        Est bem disposta e at um pouco corada.  O ar da manh  muito bom.  
        Vou tentar fazer isso sempre.  Acho que tem razo.  
       Satisfeita, Aurora dirigiu-se  aos seus aposentos.  Fechou a porta e atirou-se  no leito, olhos fixos no teto sem ver, mergulhada em seus pensamentos.  
       lvaro! Pensou com paixo.  Ele no a trara.  Ele amara-a  sempre! O corao de Aurora parecia crescer em seu peito e saltar pela boca.  
       lvaro a amava.  Meu Deus! Que loucura.  Um arrepio sacudiu-lhe o corpo.  O que fizera de suas vidas?  O qu?  Por que acreditara naquele homem, sem procurar sequer confirmar a verdade?  
       Num relance, teve conscincia da sua ingenuidade.  O cime! Seu louco e doentio cime destrura suas vidas.  A vingana tramada contra pessoas inocentes fustigara a si mesma.  Deus com sua justia a atingira! Ela no fora vtima, mas instrumento til de um homem sem escrpulos contra seu prprio lar, o homem que amava e sua felicidade.  Como pudera ser to ingnua?  Como pudera ser to mesquinha?  lvaro poderia algum dia perdoar?  
       Lucila afirmou-lhe que a vida continua e ela sempre acreditou nisso, embora sem procurar pensar no assunto.  Agora, queria ver lvaro.  Nunca como naquela hora precisava da sua presena, do seu afeto, e mais ainda, do seu perdo.  
        lvaro  murmurou agoniada  , onde voc est?  Preciso tanto de voc! Eu o amo tanto! Creio em sua inocncia.  Agora eu creio.  Pode
       me perdoar?  Mas esse apelo aflito no teve resposta.  Entretanto,  lvaro estava ali, plido, mudo, sofrido.  Encostado na parede do quarto.  
        Aurora  pensava ele 
        Agora   tarde.  Seu cime doentio, louco, maldoso, nos destruiu a todos.  Quando acabar esta loucura?  Quando poderemos esquecer?  Quando no mais verei minhas mos manchadas com o sangue daquele homem inocente?  
       Comovido, o esprito de lvaro ajoelhou-se  e suplicou por entre lgrimas:
        Jesus, tem piedade de ns.  Oferece nos a bno da redeno dos nossos erros, mas ajuda nos com o esquecimento.  Ampara nos o esprito cansado.  No quero vingana, mas perdo.  Tem piedade, senhor! 
       Enquanto lvaro orava uma forma luminosa aproximou-se , e quando ele terminou, murmurou surpreendido:
        Carolina! 
       Ela estava ali.  Seu rosto remoado refletia a luz que lhe brilhava no ntimo.  
        lvaro!  Quantas vezes tenho procurado mostrar-lhe a verdade! Por que querer macerar-se  desse jeito?  Por que no admitir os erros como lio preciosa e reiniciar corajosamente o caminho da redeno?  Por acaso sua obstinao em permanecer ao lado de Aurora vai melhorar as coisas?  No v que Deus, em sua sabedoria,  encarrega-se  de mostrar a verdade no momento oportuno, dando a cada um segundo suas obras?  
         verdade! Finalmente hoje, aps tantos anos, Aurora sabe que somos inocentes.  Estou aliviado.  Mas a que preo!  Quantas vtimas do cime doentio! Voc, mesma, perdeu tudo quanto tinha de felicidade.  Como pode ser to forte e aceitar sua dor?  
        Confio em Deus, que  Pai amoroso.  Se ns erramos usando nosso livre-arbtrio, Ele nos ensina a ser melhores convertendo nosso erro em aprendizagem no bem.  Admiro-a  muito.  Mas s vezes culpo-me  pelo seu drama.  Euclides continua fugindo de mim.  No consigo dizer-lhe que esqueci o passado.  Ele estava to transtornado quanto eu.   Seu desespero justifica-se .  
       Carolina fixou nele o olhar lcido e brilhante.  
        Como voc  nobre perdoando! 
        Como posso julg-lo ?  Eu, que matei um inocente?  Eu, que o vejo sempre a perseguir-me  esvaindo-se  em sangue?  
        Euclides est transtornado.  No consigo ajud-lo .  Se me torno visvel a ele foge apavorado, recusa-se  a ouvir me.  
        Quero ajud-lo , apesar de tudo.  Sempre foi meu amigo dedicado.   Gostaria de dizer-lhe que compreendo seu gesto.  Ele nunca quis ouvir me.  Foge apressado cada vez que o procuro, e reconheo que mereo porque eu tambm fiz o mesmo.  Julguei sem comprovar, matei sem averiguar melhor .  .   .   Carolina, at quando sofreremos esta tragdia?  
        lvaro, Deus  Pai.  No devemos perder a esperana.  Todos reconhecemos o quanto temos errado.  Por que permanecermos alimentando o que j foi, com o drama de nossas vidas, ao invs de procurarmos refazer nossos caminhos?  Hoje, Aurora comeou a encontrar a verdade.  Lucila saber assisti-la  com sua bondade, e ns precisamos nos preparar para fazermos nossa parte.  Seus pensamentos angustiados ferem a sensibilidade de Aurora e de Maria Luza.  No acha que deveria vir comigo?  Posso lev-lo a um local agradvel e em meio a pessoas amigas, que vo ajud-lo a refazer-se  para ajudar seus entes queridos.  
        Acha que poderei?  
        Acho.  Mas  preciso submeter-se  a uma aprendizagem e buscar o equilbrio.  Vera como Deus  bom.  
        Carolina, voc sempre foi nosso anjo bom.   .  Que Deus a proteja! 
       Ela sorriu, alegre.  
        No pense isso.  Preciso muito de vocs para ajudar o Euclides.  
       Vamos, que se faz tarde.  
       lvaro estremeceu e tornou, com doloroso acento:
        J?   muito difcil deixar esta casa! 
        Eu sei.  Mas  preciso.  Se permanecer, jamais estar em condies de ajud-las.  
        Antes eu tivesse ouvido seus conselhos.  Talvez no tivesse perambulado tanto tempo e sofrido tanto.  Mas eu mereo.  O que fiz foi imperdovel.  
        Por agora,  melhor esquecer.  Quando for o tempo adequado, a vida lhe dar oportunidade de refazer o prejuzo.  Agora vamos.  
       lvaro aproximou-se  de Aurora.  Seu rosto conturbado refletia angstia e amor.  
        Aurora tornou emocionado  , apesar de tudo, eu ainda a amo! 
       Gostaria que pudesse ouvir.  Eu a amo! Vou embora, mas voltarei.   Quando Deus permitir, eu voltarei.  Reze por mim, para que eu consiga retornar  logo.  
       Aproximou-se  dela, beijando-lhe a testa com carinho.  Aurora estremeceu e abriu os olhos.    Por um momento  pensou ela  julguei ver o rosto de Avaro.  Que loucura.  De tanto v-lo , imagino coisas! lvaro abraou-a , comovido.  
        Sou eu mesmo, Aurora.  No v que este tormento  insuportvel?  
       Estamos to perto e ao mesmo tempo to longe! 
       Carolina tocou-o de leve no brao:
        No se deixe levar pelo desespero.  Controle a emoo.  Confiemos na bondade de Deus.  
        Sim  tornou ele com voz triste , s Deus me pode dar foras e ajudar.  Afastou-se  de Aurora, procurando conter-se .    Permita-me beijar Maria Luza.  Pobre filha, vtima inocente dos nossos erros.  
        Ningum  inocente no momento em que a vida est cobrando, mas ningum esta desamparado.  Maria Luza tem condies de vencer sua prova.  
        Voc vai ajud-la  enquanto eu estiver fora?  
        Sabe que ela me  muito cara.  Procurarei assisti-la  dentro das minhas possibilidades e prometo dar-lhe notcias amide.  No fique preocupado.  Talvez voc no se ausente por muito tempo.  
        Acha mesmo?  
        Acho.  Depois, para ns, espritos eternos, que importncia tem isso?  
       Tomando o brao de lvaro, foram ao quarto de Maria Luza e, depois de t-la  beijado com muito amor, saram rpidos.  Dentro em pouco, seus vultos desapareceram no horizonte.  
       
       
       
       CAPTULO 11
       
       
       O relgio j dera as 23 horas e a noite estava calma.  Renata,  sentada em confortvel poltrona, lia sua revista de modas com pouco interesse quando o Dr.  Marcondes chegou.  Trazia o cenho franzido e o rosto marcado pela contrariedade:
        Onde est Jorge?    perguntou irritado.  Renata fixou-o com frieza.  
        Pelo menos, boa noite.  Sabe que j deu 23 horas?  Ele nem pareceu ouvi-la .  
        Preciso falar com o Jorge.  Mande cham-lo .  
       Renata surpreendeu-se .  Apesar de suas divergncias, Jos sempre se mostrara educado.  Curiosa, sufocou a contrariedade.  
        Voc sabe que a estas horas ele no est em casa.  
        J saiu.  Por acaso sabe por onde ele anda?  
        Como vou saber?  Ele  um homem! 
        S  homem para meter-se  em confuso.  Na hora de estudar ou trabalhar,  apenas uma criana.  
        O que deu em voc?  Por que est assim?  Por acaso Jorginho est
       em apuros?  
        Em apuros fico eu se ele continuar em m companhia.  
        Jogo?  
        Certamente andar jogando, mas no se trata disso.   pior.  Meteu-se  com gente que eu detesto e isso pode prejudicar me.  
        Pobre filho.  At que tem se portado bem.  No tem mais perdido tanto dinheiro.  Ele tem o direito de escolher os amigos.  
        Mas no exatamente os meus inimigos.  
        Como assim?  
        Ele no lhe contou com quem anda se metendo?  
        Anda muito metido com o primo.  Isso s nos favorece.  Espero que Maria da Glria se case com ele.  
        A vem voc com suas iluses.  Isso nunca dar certo.  Mas o que sei  que eles esto sendo vistos, e a Maria da Glria tambm, frequentando a casa de Aurora e saindo com a filha daquele assassino.  
       Renata empalideceu:
       - Ser verdade?  Tem certeza?  
        Claro.  Eles esto todos se reunindo na casa daquela antiptica
       Lucila.  J pensou o que pode acontecer?  
       Renata deixou-se  cair na poltrona de novo.  
        Que horror! A filha daquela mulher que desprezo tanto.  Jos,  preciso fazer algo.  No podemos permitir.  
        Eu sei.  Eles parecem que esto mancomunados.  O filho de Carolina,  aquele caipira ignorante, conseguiu reunir todos e passam horas e horas na casa daquela detestvel mulher, que sempre foi nossa inimiga.  E se descobrem tudo?  
        Nem fale nisso.  Acho que ningum est mais pensando no passado.   Afinal, tudo quanto poderia ser dito j o foi.  Mesmo reunidos, o que podem descobrir?  Que Aurora foi adltera?  Mas isso  do domnio pblico.  
        Temo que aquele caipira do inferno se ponha a indagar do passado.  J pensou o que pode acontecer?  
       Renata sacudiu os ombros.  
        E da?   Acho que voc est com medo sem razo.  Afinal, j se vo vinte anos.  
        Eu nunca disse nada sobre aquela noite, mas eles podem desconfiar.  
        Bobagem.  Nossos filhos nada sabem sobre o assunto.  Certamente, no h motivos para preocupao.  Pensando bem, acho mesmo que podia haver coisa pior.  Afinal, voc est to nervoso que nem conseguiu raciocinar com lgica.  
       Jos sentou-se  em frente  mulher, conservando o ar de preocupao.  
        No sei.  Ningum at algum tempo atrs podia pensar que este
       caipira existia.  Ele veio, foi tomando conta de tudo e tem se sado to bem que no duvido nada que consiga o que quiser.  Sua ignorncia virou originalidade e as mulheres o disputam publicamente.  
        Tambm, com tanto dinheiro! 
        , isso , mas ele l est.  Detestvel!  Onde aparece, fica logo sendo alvo das atenes.  
       Curiosidade.  Afinal, ele  diferente de todos ns.  Tem muita sorte.   Isso ele tem.  
        Maria da Glria o aprecia muito.  Acho que qualquer dia destes, a boa nova vir.  
        No sei no...  Afinal se isso desse certo nos tiraria dos apertos, mas por outro lado teramos que t-lo como genro.   intolervel.  
       Renata sorriu.  
        Acha mesmo?  Pois eu no.  O dinheiro apaga todos os defeitos.  
       Pretendo trat-lo muito bem.  Aconselho-o a fazer o mesmo.  
        Vai ser difcil.  Cada vez que o vejo, sinto vontade de quebrar-lhe o nariz.  
       Renata riu, irnica:
        Por que no tenta?  Ouvi dizer que ele  forte como um touro.  
       Jos desconversou:
        O importante  impedir nossos filhos de se relacionarem com aquela adltera.  
       Renata franziu o cenho.  
        Vou falar com Jorge, porque Maria da Glria jamais me daria
       ateno.  
        Voc no sabe controlar sua prpria filha.  
        Por que no experimenta voc mesmo?  
       Maria da Glria descia as escadas e dirigia-se   copa.  Dr.   Marcondes tornou:
        Minha filha.  Vem a propsito.  Preciso falar-lhe.  
       - Agora?  
        J.  Queira sentar-se .  
       Isso era to inusitado que a moa sentou-se , pousando nele o olhar indagador.  Ele prosseguiu:
        Voc e seu irmo precisam acautelar-se  com as novas amizades.  
       So jovens e por certo ignoram o risco que correm.  
        Risco?  Como assim?  
        Cultivando amizades perigosas.  Isso depe contra vocs.  Fica mal.  
        Do que est falando?    perguntou a moa, admirada.  
        Eu soube que vocs tm se relacionado com pessoas de m fama.  
        Por favor, papai, seja objetivo.  De quem est falando?  
        Da filha daquela mulher que foi causa da maior tragdia e da vergonha de nossa famlia.  
        De D.  Aurora?  
        Sim.  Dela, que fez do marido um assassino e ainda mais, enxovalhou o nome de Carolina, o que fez meu pobre irmo fugir para esconder a vergonha de marido trado.  
        D.  Aurora sofreu muito.  At hoje tem os nervos abalados.  Mas eu mal a conheo.  
        Vocs esto saindo com a filha dela, e muito me admira o Geraldo fazer amizade com a filha da mulher que ocasionou o drama de sua vida.  
        Maria Luza  moa fina e inatacvel.  No  responsvel pelo passado dos pais.  Acho mesmo que ela ignora completamente.  Voc est sendo injusto dizendo isso.  
        Como se atreve a falar-me  com essa falta de respeito?  No v que sou seu pai?  
       A voz da moa estava cheia de irritao, que ela tentava conter.  
        No estou faltando com o respeito.  S que eu acho que Maria Luza  uma moa cuja amizade prezo e espero continuar a manter.  
        Voc no sabe o que est dizendo.  E sua reputao?          
         incrvel que pense dessa forma! D.  Aurora, apesar do seu passado,  do qual no participei e no tenho condies para julgar,  dama muito respeitada e frequenta a nossa melhor sociedade.  Seu marido  homem correto e distinto.  Todos os respeitam.  No vejo nenhum motivo para sua preocupao, que chega a me parecer excessiva.  
        Estou zelando pala moral dos meus filhos.  Maria da Glria o fixou pasma.  
        Voc pensa mesmo isso?  
        Por certo  tornou ele com firmeza.  
         Ento, por que no impediu o Jorge de frequentar amigos viciados?  Por que deixou que ele se tornasse um jogador?  
       Dr.   Marcondes ficou apopltico.  Mal podia falar, tal o estupor.  
        Voc est se excedendo.  No tem o direito de meter-se  nos meus assuntos e muito menos pedir-me  conta dos meus atos.  Exijo que se afastem daquela gente.  Com certeza, a maluca da Lucila anda pondo besteiras em suas cabeas.  
       A moa levantou-se  e disse com voz fria.  
        Estou cansada e vou deitar me.  Mas desde j afirmo que no vou atender a suas exigncias, que ferem a minha maneira de pensar.  No concordo e no o farei.  Acho que Jorge dir o mesmo.  No adianta insistir.  
         minha filha, deve-me  obedincia.  
        Devo-lhe amor e respeito, mas tambm os senhores me devem a mesma coisa.  E por isso deixo bem claro:s farei o que minha conscincia exigir.  Estou disposta a agir assim, acontea o que acontecer.   Obriga-me a puni-la .  
       No pode.  Se insistir em agredir-me, dou queixa  polcia.  Sou maior de idade.  Se no me quiser aqui,  s dizer que arranjo um emprego e me mudo.  Agora, boa noite.  Estou cansada.  A moa subiu as escadas, e Marcondes, imobilizado pela surpresa, no teve nada a dizer.  Olhou para Renata, que aproveitou:
        No lhe disse?  
         inacreditvel! Viraram-lhe a cabea.  Mas eles me pagam.  Voc ver.  
        Bem que o avisei.  Maria da Glria no atende  ponderao.  Quando quer uma coisa, no adianta.  
        Mas isso no pode ficar assim.  Ela no respeitou minha autoridade! 
       Nesta casa mando eu! 
       Renata olhou o marido com frieza.  Perguntou apenas:
        O que vai fazer?  
        Vou cortar-lhe a mesada.  
        Muito bem.  Ela arranjar um emprego.  A todos diro que estamos arruinados.  Nossa nica filha precisando trabalhar.  
       Marcondes tornou-se  rubro.  
        Essa maluca  bem capaz de fazer isso! 
        No tenho dvida nenhuma de que far.  E se voc fizer presso,  ir embora de casa.  J pensou no escndalo?  
       Ele no se conformou:
        Parece incrvel a que ponto chegamos.  Eu, dominado por minha
       prpria filha!  o fim do mundo! 
       Renata aduziu, calma:
        Nem tanto.  Nossa filha tem idias prprias, mas se voc no quiser conduzi-la , jamais nos dar problemas.  Deve reconhecer que goza de excelente reputao.   moa de comportamento exemplar, depois, e se ela se casar com Geraldo, e ns ficarmos de fora?  
        Isso  loucura que s existe em sua cabea.  
        Voc que pensa.  Ela ficou amiga da filha de Aurora porque Geraldo tambm .  Isso em Maria da Glria  sintomtico.  Ela faz o que ele quer, por qu?  
        ...  No tinha pensado nisso.  Ser?  ...  
        Acho que sim.  Por que ela o atenderia?  O melhor  no nos metermos nisso.  Deixe tudo por conta dela.  Sabe o que est fazendo.  
        E meu orgulho de pai?    insistiu ele com raiva.  
        No nos dar a fortuna de que precisamos - Aduziu ela com calma.  
        Talvez tenha razo.  Mas, e se Aurora puser tudo a perder?  
       Renata deu de ombros.  
        No viu que ela oculta tudo da filha?  J ouvi dizer mesmo que a moa nada sabe.  Aurora nada dir a ningum.   a maior interessada em que tudo continue como est.  
        Tem certeza disso?  
        Claro.  No ouviu Maria da Glria dizer que a moa ignora o passado vergonhoso de sua me?  
        ...  Se isso for verdade, representa para ns um grande trunfo.  
        Por isso no devemos nos preocupar.  Deixemos o barco correr.  
        Um dia ainda vou mostrar  nossa filha como deve me respeitar.  
       Renata deu de ombros.  Estava alegre.  Chegara a apreciar a atitude da filha.  Seu marido sempre dera ordens;agradava-lhe que algum o contrariasse, mostrando claramente sua limitao.  
       Maria da Glria recolheu-se  ao quarto pensativa.  Seu pai nunca se preocupara com suas amizades.  Por que o faria justamente com Maria Luza?  Quem lhe contara a respeito?  Por que estava to interessado em romper essa amizade?  
       No dia seguinte,  tarde, dirigiu-se   casa de Geraldo,  procura de Humberto, e, sentados na varanda, exps seus pensamentos, terminando:
        Estranhei esse comportamento de papai.  Ele nunca interessou-se  por nossas amizades.  Sempre que o fez, foi sob o aspecto social,  nunca moral.  A prova disso  que nunca impediu o Jorginho de se relacionar com jovens, viciados ou depravados, porque eram filhos de gente importante.  Sempre justificou qualquer ato, por pior que fosse, quando praticado por gente da alta.  Por que teria mudado, e justamente com Maria Luza?  Ela goza de tima reputao e sua famlia tambm, apesar do passado.  Ele insistiu que rompssemos,  e com muita veemncia.  
        Parece que ele est com medo.  No acha?  
        Talvez.  Mas medo por qu?  O que poderia vir a acontecer?  
        No sei.  Ele pode bem...  no sei se devo dizer... 
        Claro.  Se eu o procurei, foi porque isso me causou mal estar.  No gostei da sua atitude.  Pareceu-me  incoerente.  Papai pensa muito diferente de mim, mas considero-o homem inteligente.  No teria dito o que disse se no estivesse realmente preocupado.  No tenho medo.   Se ele est envolvido nessa histria, quero saber.  
        No diria que ele est envolvido.   uma hiptese que poderia explicar sua atitude.  No quer seu relacionamento com D.  Aurora porque tem medo de alguma coisa.  Mas o qu.  Acha que ele poderia realmente ter mgoa por causa do irmo e da cunhada?  
        De modo algum.  Sempre detestou Carolina.  Nunca se deram bem.  Meu tio no o apreciava e tinham cortado relaes, ou melhor, seu relacionamento resumia-se  ao indispensvel pelos negcios de famlia.  Meu av tomou as dores de Euclides, e ele no se conformava.  
        Ento, se ele temia o relacionamento de vocs, no pode ser por causa da moral, ele deve ter outro motivo.  Mas qual?  Talvez D.  Lucila nos possa esclarecer.   
       Agora, falemos de ns.  
       Humberto tomou a mo da moa e beijou-a  com carinho.  
        Estava muito saudoso.  
        Eu tambm.  
       Se  seu pai insistir, voc realmente sai de casa?  
        Claro.  No tenho medo.  Arranjo um emprego e pronto.  Sou capaz de ganhar minha vida.  
        Gostaria que isso acontecesse.  Assim, eu poderia lev-la  comigo com papel passado e tudo...  
        S vai pedir-me em casamento quando meu pai puser-me porta afora?  
        Estou falando srio.  Ele nunca me aceitar como genro.  Eu amo-a muito.  
       A moa olhou-o bem nos olhos.  
        Se ns nos amarmos o bastante para chegarmos ao casamento, ele no conseguir impedir.  S fao o que acho certo.  
        Casar com um Joo ningum como eu ser certo?  
        Se eu o amar, sim.  Porque terei encontrado as qualidades de carter que aprecio, e isso para mim vale mais do que tudo.  
        Voc j me ama?  
        Estou averiguando  brincou ela com malcia.  
        Falo srio.  Tenho pensado muito.  Quando terminar meu trabalho com Geraldo, vou recomear meus estudos e arranjar emprego fixo.  Tenho boas amizades.  No ser difcil, e ento poderemos nos casar.   Preciso sabei se voc quer.  
       A moa aproximou-se  e beijou levemente os lbios dele, olhando o com doura.  Humberto abraou-a  com carinho, beijando-lhe os lbios  repetidamente.  No havia resposta melhor.  
       A tosse de Geraldo f-los tomar conhecimento de sua presena e os dois ficaram embaraados, enquanto que o moo olhava-os divertido.  
        Estamos  acertando  algumas  coisas...  resmungou  Humberto
       sem jeito.  
        No se preocupem comigo.  No quero interromper.  
        Vim falar com vocs um assunto urgente  tornou a moa.  
        E eu aproveitei para garantir meu futuro.  Quero que participe dos nossos planos.  Voc  nosso melhor amigo.  No o considero como patro.  Estamos pensando em nos casar, isto , depois que resolvermos o seu caso eu voltarei a estudar e arranjarei emprego fixo;ento,  nos casaremos, mesmo contra a vontade da famlia dela.  
        Muito bem  tornou ele.  
       Maria da Glria relatou os ltimos acontecimentos.  Ao fim, Geraldo indagou:
        Por que voc no recomea os estudos j?  Se acha importante, por que no j?  
         que agora estamos empenhados no seu caso e acho que vai indo bem, embora devagar.  
        Tambm tomei gosto em saber das coisas.  Tenho vontade de aprender.  
        Acha que eu j no posso ensinar?    perguntou a prima, bem humorada.  
        No  isso.  Voc tem mais o que fazer.  Eu estou pensando em contratar professores e estudar.  
        Isso  timo -a provou a moa, entusiasmada.    Posso dar uma sugesto?  
        Certo, voc  minha mestra.  
        Conheo bons professores que viriam dar aulas para vocs.  
       - Seria bom para Geraldo, que no precisa do diploma.  J tem posio, nome, mas eu preciso ganhar meu po e o diploma ser indispensvel.  
        No importa  tornou  a moa com graa.    Eles preparam vocs para os cursos que escolherem, e quando chegar a hora podero prestar os exames e conseguir o diploma.  
        Isso  possvel?  
       .  S que, naturalmente, so professores catedrticos, cujas aulas so caras;por isso so pouco procurados.  
       No importa  tornou Geraldo.    Nessa hora gosto de ser rico.  O que   voc quer estudar?  
       Direito.  Gosto muito de Direito.  
        bom.  Porque assim j est contratado.   Vai cuidar de todos os negcios.  
       Humberto ficou emocionado.  
        Voc est me dando uma grande prova de confiana.  Sou-lhe grato, mesmo que no possa aceitar.  
        Por que?  Por acaso no gosta de trabalhar comigo?  
       Humberto fez um gesto vago.  
        Isto nem  trabalho.  Voc  meu amigo.  Abriu-me  sua casa, paga-me regiamente e ainda tem uma prima especial.  No posso abusar mais do que isso.  
       Geraldo sacudiu a cabea.  
        Ou o meu dinheiro serve para fazer os amigos felizes ou no vale nada.  Sem falar a da prima que eu quero muito bem e que me ensinou a ler.  Isso no tem dinheiro que pague.  Depois, j pensou a cara do tio quando tiver que aceitar voc como genro?  
        Ele nunca vai aceitar  tornou Humberto, preocupado.    Por isso quero estudar, trabalhar muito, para oferecer a Maria da Glria o conforto que ela merece.  
        Est resolvido.  Voc arranja os professores e ns vamos estudar.   Eu tinha vergonha de ir  escola;assim, tenho companheiro e me sinto melhor.  Fica aqui, almoa e depois vamos  casa de D.  Lucila.   Temos que conversar.  
       A moa olhou o rosto calmo do primo e, levantando-se  sem que este pudesse prever, beijou-lhe a face de leve.  
        Voc  o meu melhor amigo e eu o quero muito.  Hoje fez me muito feliz.  
       Geraldo sentiu um n na garganta, e de pronto no soube o que dizer.  No estava habituado a demonstraes de afeto.  A moa,  abraada a Humberto, fixava-o com olhos brilhantes, e Humberto, por sua vez refletia no rosto a alegria e a emoo.  
       Combinaram alguns detalhes onde havia muitos planos do jovem par para o futuro.  Naquela mesma tarde trocaram idias com Lucila, que tanto quanto eles no achou natural a atitude do Dr.   Marcondes.  
        Embora nada possa afirmar de concreto, algo sempre me disse que o Jos tinha participao nessa tragdia.  Desculpe me, Maria da Glria, mas essa atitude confirma minha suspeita.  
        No se preocupe comigo, D.  Lucila.  Sei o quanto papai  capaz de fazer.  No o aprovo.  Pode falar, que no me ofende.  
        Jos no suportava Carolina e no gostava nem do irmo.  Sei que ele mesmo espalhou a calnia que o cime de Aurora lanou.  O que estar querendo impedir?  
        Acho que Aurora poderia nos dizer - Aduziu Geraldo.    Talvez, se ela no nos evitasse tanto! Gostaria de falar-lhe sobre o assunto.  
         difcil.  Pode pr tudo a perder.  Ela fica apavorada.  Pode romper relaes conosco  disse Humberto, preocupado.  
        Aurora veio procurar-me.  
       Os trs olharam-se  admirados.  Lucila continuou:
        Ela tem pavor de que a filha saiba a verdade.  Tudo fez para impedi-la  de descobrir, e conforme pude perceber, quer sepultar o assunto por causa disso.  
        O que lhe disse ela?    perguntou Humberto, interessado.  
        O bastante para fazer-me  sentir o quanto ela sofreu e sofre com a tragdia.   vtima triste do cime e dos erros que cometeu.  Tem horror de que a filha descubra o passado.  Far tudo para impedir.  
        Ela  maldosa.  Enlameou o nome de minha me injustamente.  
        Eu no seria to severa com ela.  Aurora era doente de cimes, e no momento em que acusou Carolina julgava mesmo que isso fosse verdade.  
        Quer dizer que ela pensou mesmo essa infmia?   - Geraldo estava plido.  
        Sim,  meu filho.  Aurora era uma mulher doente de cimes, e isso deforma e modifica tudo.  
        Ento, pode ser que algum a tenha induzido a pensar nisso.   Algum usou o cime dela contra Carolina.  
        Aconselhei-a  a contar tudo  filha.  No tem coragem.  Maria Luza ignora completamente o drama.  Por isso a internou em colgio na Europa, at os dezoito anos.   
       Eu ainda lhe pedi que confiasse em voc e lhe contasse tudo quanto sabe.  
        E ela?    fez Geraldo ansioso.  
        Recusa-se .  Teme que voc a julgue com muita severidade e conte tudo a Maria Luza.  Eu, porm, adiantei-me  e disse-lhe que voc jamais iria fazer isso.  Que ela poderia confiar.  Que voc no trairia sua confiana.  Ela, porm, tem medo, recusa-se .  
        O que fazer?  Essa mulher nunca falar.  
        Pois eu acho que tudo vai indo muito bem.  Ela no quer que a filha saiba de sua vinda aqui, mas acho que consegui captar-lhe a confiana.   uma pobre e sofredora criatura.  Se props a vir nos visitar outras vezes.  Sentiu-se  confortada aqui.  Ento, vocs podero estreitar essa amizade, e ela, conhecendo-o melhor, se abrir.  
        No sei se terei pacincia  resmungou Geraldo com raiva.    Ela era culpada e no teve remorso de jogar isso em cima de minha me,  que era sua amiga e a quem ela devia conhecer muito bem.  
        Geraldo, no julgue as pessoas, por mais culpadas que nos possam parecer.  Aurora, errou e tem pago muito caro pelo seu erro.  Tem sofrido muito;para que faz-la  sofrer ainda mais?  
        Minha me sofreu a vida inteira e era inocente.  
        Nem sequer sabemos como as coisas se passaram ao certo.  Carolina era inocente, mas aceitou com coragem o sofrimento e nunca a vi referir-se  a Aurora seno com muita compaixo.  Lastimava-a  sinceramente.  Jamais a acusou do que quer que fosse.  Ao contrrio,  sempre a defendeu.  Quando lvaro, arrasado, acusava-a  de t-lo trado, ela a defendia dizendo-a  incapaz de uma traio.  
        Minha me era uma santa.   Isso revolta-me.  Sofreu sem se defender.  
        Sua me era uma mulher.  Uma sublime mulher que no precisava de defesa.  Impunha-se  pelo carter, pela bondade, pela moral.  Mas ela sabia compreender as fraquezas humanas.  Espero que voc no lhe d essa tristeza de tornar-se  acusador onde ela defendeu e vingativo onde ela perdoou.  
        D.  Lucila, eu no posso ser como ela! 
       O rosto de Geraldo estava transtornado.  
         preciso, meu filho.  Voc quer saber o passado, mas se Deus permitir que levantemos o vu que o encobre, que voc saiba ter calma para serenamente aceitar os fatos, sabendo que, mesmo quando o homem erra e agride seu prximo, nada acontece sem a ao da justia de Deus.  
       Eu disse a Aurora que podia confiar em voc.  Estava enganada?  
       Geraldo fixou o belo semblante de Lucila, que refletia certa energia nos olhos brilhantes e lcidos.  
       - O que deseja de mim?  
        Que se ela o procurar para pedir ajuda, disponha-se  a ouvi-la  e abstenha-se  de julgar.  
         difcil.  Acha que serei capaz?  
        Acho.  Confio no seu carter.  Temo s que no tenha pacincia para ouvir e ela, receosa, no possa expressar-se .  
        Claro que ele vai ouvir  tornou Humberto, calmo.   -a final,  estamos trabalhando h tanto tempo para ganhar-lhe a confiana.   Haja o que houver, Geraldo deve aparentar pelo menos que est calmo.  
        .  Isso .  Ser que ela vai me procurar?  
        No sei.  Sinto que  questo de tempo.  As coisas esto acontecendo.  Sinto no ar.  Resta nos esperar.  
        Estou ansioso por saber  murmurou Geraldo, nervoso.    Por mim,  iria procur-la  agora mesmo.  
        Poria tudo a perder  Atalhou Humberto, firme.   -se  quer ir at o fim dessa histria, precisa de muita calma.  A impacincia pode destruir nossas esperanas.  
        Farei o possvel.  
        Agora , vamos ao nosso cafezinho.  Falemos de coisas mais alegres  pediu Lucila, com suave expresso a reluzir em seus olhos calmos.  
       A campainha da porta soou;Ins a abriu,  e logo depois a figura elegante de Maria Luza apareceu na sala.  Foi com alegria que todos a abraaram.  Apesar do ar jovial e da amabilidade, Geraldo notou que a moa estava nervosa e inquieta.  Seus olhos azuis pareciam refletir fundas emoes;estavam escuros e carregados.  
        Que bom encontr-lo s todos juntos.  Estou precisando de um pouco de alegria  declarou a moa, lutando para falar com naturalidade e encobrir a emoo.  
        Estou contente porque hoje todos vocs se lembraram de ns  tornou Ins com gentileza.  
       Enquanto  Lucila pessoalmente cuidava do cafezinho sempre muito bem acompanhado de deliciosas guloseimas, a conversa generalizou-se , alegre.   Contudo, Geraldo estava triste.  Especialmente naquela  tarde, o assunto o ferira fundo, pensando no sofrimento de sua me,  inocente e boa, sem que ele pudesse ter feito nada para suavizar.  
       Calado, pensamento voltado ao passado, quando todos passaram para a sala de msica, deixou-se  ficar, alegando que iria em seguida, e deu asas aos seus pensamentos dolorosos.  Por que tinha sido assim?  Por qu?  Sentiu raiva de tudo, de todos, perdido na conscincia da  prpria impotncia.  
       A voz de Maria Luza o arrancou desse estado de alma.  
        Est triste?    perguntou ela com seriedade.  
       O moo sacudiu a cabea.  
        No se incomode.  Isso passa.  
        Algum o magoou?  
       Ele fez um gesto vago.  A vida.  No tem remdio.  Vamos deixar isso de lado.  
       A moa sentou-se  ao lado dele no sof.  O rapaz a olhou.  Tinha olheiras fundas e a fisionomia sombria.  Penalizado, o moo pensou: Ela ignora tudo! Pobre criatura.   
       Se soubesse, que vergonha!  Ela era vtima tanto quanto ele.  Vtima da maldade.  De quem?  De Aurora?  Talvez.  Um dia teria que mago-la  para vingar sua me?  O moo sentiu um aperto no corao.  No seria injustia com ela, inocente e vtima?  
       Precisava saber tudo, e o culpado iria pagar, fosse quem fosse.  
       A moa fixou-lhe os olhos admirada.  
        Por que me olha assim?  Vejo certa animosidade no seu olhar. .  .  
       Geraldo, est magoado comigo?  
       Ele baixou os olhos, sem jeito.  Ela colocou a mo trmula em seu brao e mal podia conter as lgrimas.  
        Geraldo, por favor.  Voc  meu nico amigo.  Confio na sua amizade.   Estou sofrendo tanto!  Preciso de voc.   Por favor.   No me deixe s.  
       Geraldo fixou-lhe o rosto transtornado.  Estranha emoo o acometeu.   No saberia dizer o que sentia, um misto de remorso e dor, ao ver-lhe a fisionomia abatida onde as lgrimas estavam prestes a cair.  
        Maria Luza! Voc tambm sofre.  Claro que sou seu amigo.  
       Vendo-a  estremecer lutando com o pranto, Geraldo abraou-a  aconchegando-a  ao peito, acariciando-lhe a cabea como a uma criana.  A moa desatou em sentido pranto, e Geraldo, sentindo as lgrimas quentes molhando-lhe a camisa, no sabia o que fazer.  Deixou-a  soluar livremente, acariciando-lhe os cabelos enquanto murmurava palavras de calma e reconforto.  
       O moo estava emocionado.  Nunca tivera uma experincia dessas.  O perfume suave da moa, o calor do seu corpo, sua emoo, deixavam no meio tonto, e Geraldo, a certa altura, sem poder conter-se , abraou-a  com mais fora, beijando-lhe o rosto delicado e molhado, e  medida que o fazia sua emoo crescia, tornando-se  incontrolvel.   
       Teve mpetos de beijar-lhe os lbios e apert-la  mais.  A moa, um pouco assustada, murmurou:
        No, Geraldo.  Contenha-se .  
       Ele olhou-a , ainda perdido em meio  emoo.  
        Perdoe-me  tornou ela, alisando-lhe o rosto com carinho mas
       afastando-se  com delicadeza.    No pude conter me.  Esqueci que voc  meu amigo, mas  um homem.  No vamos estragar nossa amizade.  Eu o estimo muito.  
       Geraldo a custo dominava o tremor.  
        Maria Luza, acho que me excedi.  No devia ter feito isso.  De repente voc pareceu-me  to infeliz, to s, que eu tive vontade de apert-la  em meus braos e dizer-lhe que eu tambm me sinto assim,  s e triste  respirou fundo.    Emocionei-me.  Sou eu quem deve pedir-lhe perdo.  
       Estendeu a mo e tocou de leve em seus cabelos.  
        Esse seu perfume  delicioso.  Nem as flores do mato na primavera tm esse cheiro to bom.  
       A moa sorriu.  
        Vou dar um vidro para voc.  
        Ainda no disse por que est triste.  
        Agora  passou.  Deixemos isso de lado.  
        No confia mais em mim?  
        Voc no me disse por que estava triste.  
        No preciso...   Voc sabe, minha tristeza se prende ao passado.  
        Voc sabe meu drama.  Eu os vi juntos e felizes.  Marcaram casamento para o comeo do ms.  Estou muito infeliz.  Talvez eu v viajar, para a Europa, no sei.  
       Gerado olhou-a  um pouco magoado.  
        Voc gosta mesmo dele?   No v que no vale a pena?  
        Eu sei, Geraldo, mas o que posso fazer?  O amor  assim.  No tem lgica.  
        Eu nunca vou amar  tornou ele com raiva.    Veja a que desatinos leva as pessoas.  
        Gostaria de ser forte como voc.  Mas aconteceu.  Que fazer para
       esquecer?  
        No sei.  Se amasse algum e no fosse amado, conseguiria esquecer.  
        Pena que voc no possa me ensinar como.  Afinal, nunca aconteceu.  
        Nem vai acontecer.  
        Venham ao caf  convidou Lucila da porta.  
        Estou muito feia?    perguntou ela em voz baixa.  
        Muito  respondeu Geraldo fixando-lhe o rosto formoso.    Tome o leno.  
       A moa ajeitou a maquilagem e parecia mais alegre quando entrou na copa.  A tempestade passara.  Entretanto, Geraldo sentia uma impacincia que podia explicar, uma insatisfao que o deixava inquieto.   No conseguia de hbito acompanhar a alegria geral.   Tinha mpetos de ir-se  embora, mas ao mesmo tempo queria ficar.  Por qu?  
       Lucila aproximou-se  do moo, e em seu olhar havia carinho e delicado respeito.  Tornou em voz baixa:
       - Sente-se  bem?  Geraldo sorriu encabulado.  
        Hoje no estou bom.  No sei o que .  Lucila, tomando a mo do moo,  disse em voz alta:
        Vem comigo.  Preciso mostrar-lhe algo.  Geraldo levantou-se  e a acompanhou.  Na saleta, a ss, Lucila o fez sentar-se  e disse-lhe com naturalidade.  
        Tem f em Deus?  
        Eu brigo com ele, mas acho que est l em cima, muito ocupado, e muito longe.  Esqueceu de ns aqui embaixo.  
        No se lamente.  Voc hoje est angustiado.  Vou pedir a ele que o fortalea e ajude.  
       Colocou a mo sobre a cabea do moo e cerrou os olhos, parecendo dormir.  Geraldo a princpio sentiu grande mal estar.  Vontade de gritar, brigar, chorar, vontade de sair dali, fugir, aumentando seu desespero.  Lutou para controlar-se .  Afinal, era um homem, no uma criana.  Aos poucos e a custo conseguiu dominar-se .  Enorme tristeza o acometeu, e lgrimas incontidas rolavam-lhe pelas faces.   Aos poucos, porm, tudo foi passando.  Uma aragem branda e agradvel o envolveu e o moo sentiu grande bem-estar.  
       Fundo suspiro escapou-lhe do peito e tudo voltou ao normal.  Estava sereno.  
        Est melhor?    indagou Lucila.  
        Muito melhor.  O que fez comigo?  Como conseguiu?  
        Eu?  Nada.  S o desejo de o ajudar e a prece pedindo a Deus que
       o beneficiasse.  
       Geraldo estava surpreendido.  
        No sei se Deus est nisso, mas estou melhor.  A senhora deve ter l em cima seus amigos que fizeram isso.  Senti um ventinho diferente, igual quela noite da nossa sesso.  
        Todos temos amigos, Geraldo.  Acha que Carolina, quando Deus h permite, no viria para assisti-lo ?  
       Geraldo entusiasmou-se :
        Ela esteve aqui?  Foi ela?  
        Acredito que sim.  Carolina o quer muito.  Preocupa-se  com voc.   Pode ler todos os seus pensamentos.  Gostaria que voc no pensasse em vingana.  Perdoa, meu filho.   melhor.  
        No posso.  
        Deixa a Deus a ao da justia.  S ele tem esse direito.  
        Mudemos de assunto.  No quero desgostar ningum.  A senhora  uma santa, e na Terra  como minha me.  Lucila sorriu com doura:
        Est bem, meu filho.  Voltemos  sala.  
       Foi com boa disposio que se integraram  alegria geral.  A angstia de Geraldo havia passado.  Estava calmo.  Maria Luzia olhou-o e sorriu.  Geraldo aproximou-se  e juntos conversaram animadamente.  
       Era noite j quando Maria Luza se despediu e Geraldo ofereceu-se  para acompanh-la .  Na porta da casa da moa, ele perguntou:
        Como se sente?  
        Muito melhor.  Foi um momento de fraqueza.  Passou.  Ningum pode obrigar algum a amar.  Tenho que esquecer, custe o que custar.  Voc me ajuda?  
        Claro.  Podemos sair, passear.  Voc ensina-me  as coisas e nos distramos.  
        Certo.  Amanh mesmo podemos ir ao clube.  Sabe nadar?  
        Sou como um peixe.  No vejo o rio h muito tempo.  
        Amanh vamos nadar.  Voc pede ao Antnio para arranjar tudo que precisa.  Ele sabe.  Espero-o s 9 horas.  
       Geraldo sorriu.  
        Tarde assim?  O bom  madrugar.  Ver o sol nascer.  
        No aqui.  O clube est fechado.  Ningum vai to cedo.  Se voc passar s 9 horas, est bem.  
       - Seja  tornou o moo, resignado.    Vocs da cidade so preguiosos.  No aproveitam o melhor.  
       Maria Luza levantou-se  na ponta dos ps e beijou a face morena de Geraldo.  
        At amanh.  Muito obrigada por tudo -olhou-o nos olhos e passou a mo delicada por sua face com meiguice.    No sei o que faria sem voc.  
        At amanh  respondeu ele, um pouco sem jeito.  
       Ao sair dali, Geraldo sentia-se  muito feliz.  A noite era linda e o
       perfume de Maria Luza lhe recordava o cheiro de flores que tanto amava.  
       Naquela noite, Maria Luza no tomou seus calmantes habituais.   Estava determinada a esquecer o passado.  Geraldo ia ajudar.  Deitou-se  e, depois de tantos meses, pela primeira vez conseguiu dormir em paz.  
       
       
       
       
       CAPTULO 12
       
       
       Nos dias que se seguiram, eles se entregaram a novas atividades,  ocupando o tempo.  Pela manh, Geraldo e Humberto estudavam com interesse.  Geraldo contratara dois professores que iam trs vezes por semana ministrar-lhes aulas, e enquanto Humberto interessava-se  pelos assuntos da advocacia, Geraldo sentir-se  fascinado pelas cincias naturais, onde a Botnica representava seu ponto de maior atrao.   tarde frequentavam as casas de ch, a matin de cinema elegante, os clubes, e  noite os jantares na roda de amizades de Maria Luza, e por toda parte eram os dois assduos ao lado das duas moas.  Tornaram-se  inseparveis.  
       A princpio o Dr.  Marcondes preocupou-se  com a sbita mudana da filha, mas D.  Renata via com bons olhos, achando que Geraldo estava interessado na prima.   Dr.  Jos mostrava-se  irritado com a presena de Maria Luza sempre por perto de Geraldo.  Apesar de estar certo de que a moa nada sabia, temia a proximidade de Aurora ao lado do sobrinho.  Aurora aos poucos foi se aproximando de Geraldo e procurando manter conversao com o moo.  Era-lhe grata, porquanto percebera sua solicitude com Maria Luza e observava que jamais a moa se mostrara to feliz, tendo deixado os calmantes e se tornado alegre e descontrada.  Surpreendia-se  vendo-a  discorrer com brilho sobre os assuntos, segura de si, to diferente da moa fria e distante, de olhos tristes, em que se transformara nos ltimos tempos.  Estava claro que Geraldo a influenciara.  Os olhares que surpreendera, a frequncia com que estavam juntos, tudo contribua.   A princpio, desejou que o moo se afastasse.  Desgostava-a  t-lo na intimidade de sua casa.  Mas, aos poucos, a frequncia  casa de Lucila, com quem reatara a velha amizade, e a atitude discreta e atenciosa de Geraldo, o respeito com que tratava as  pessoas, foram  deixando-a  menos preocupada.  
       s vezes, o moo, quando sorria, lembrava o rosto de Carolina.  E Aurora sentia vivo o aguilho do remorso lancinando o corao.   Nessas ocasies mergulhava em dolorosas reminiscncias, onde se mesclavam a dor, a angstia, o arrependimento.  Recolhia-se  e entrava em depresso, da qual custava-lhe sair.  
       Um dia conversara com Lucila sobre isso.  Contara-lhe suas mgoas, e Lucila aconselhara o cultivo da prece, oferecendo-lhe o Evangelho Segundo o Espiritismo para ler.  
        No posso orar, Lucila.  Sou culpada de vrios crimes.  Por minha causa, dois lares foram destrudos.  Tenho vergonha de procurar lenitivo na orao! 
        No diga isso.  A prece nos d foras para enfrentar nossos problemas.  Jesus jamais condenou ningum.  Ver como pode sentir-se  mais forte.  
       Aurora, de repente, tomou o brao da outra e murmurou, aflita:
        Lucila, voc que entende dessas coisas, acha que lvaro me perdoou?  
       Lucila sorriu.  
        Certamente.  L onde se encontra, j deve ter conhecimento da
       verdade.  Sabe que voc jamais o traiu.  
       Aurora suspirou, angustiada.  
        Ah! Se eu pudesse ter essa certeza! Se eu pudesse ao menos v-lo por alguns segundos! Sentir que no me odeia...  Lucila olhou-a  serena.  
        lvaro a ama.  Jamais deixou de am-la .  Ele tambm sofre por v-la  angustiada e aflita sem que possa fazer nada.  
        Como sabe?  
        Carolina.  
        Como?  ! 
        Carolina tem vindo algumas vezes conversar comigo.  Disse-me  que lvaro durante muitos anos permaneceu a seu lado, angustiado,  querendo conversar, contar tudo, dizer que sabia a verdade.  Que se arrependia do crime cometido, sofrendo com seu sofrimento, ouvindo seus pensamentos dolorosos sem conseguir comunicar-se .  
       - Ser possvel?  Ser possvel que ele tenha estado comigo tanto tempo sem que eu o visse?  
         possvel, sim.  O mundo espiritual onde vivem os que morrem para a Terra  coexistente com o nosso.   Se interpenetram.  
         incrvel! 
        Nada tem de incrvel.  Apenas eles esto em uma faixa de energia que a pobreza dos nossos cinco sentidos no consegue perceber.   Para isso, h que ter o sexto sentido, h que ser mais sensvel.   Muitas pessoas tm sensibilidade e podem perceber, ver e at dialogar com eles.  
        Como eu gostaria de ver lvaro! Poder dizer-lhe tudo quanto vai dentro de mim.  O quanto eu o amo ainda! 
       Lgrimas brotavam-lhe dos olhos angustiados, descendo-lhe pelas faces.  
        Ele sabe disso, Aurora.  No se atormente.  Durante todos esses anos voc tem mergulhado no arrependimento, na angstia, na queixa e na depresso.  No entanto, no ser dessa forma que conseguir redimir-se  do passado.  Tem, com isso, levado ao nosso lvaro tristeza e preocupao.  
       Ele gostaria que voc lutasse para mudar.  Ele sabe que vocs erraram muito, Deus oferece sempre a chance de conseguir o melhor,  de refazer os prejuzos, de reparar os erros.  Alguma vez j pensou nisso?  
       Aurora olhou-a  admirada.  
        Como posso eu, intil e culpada?  
        A  que se engana.  Quanto mais voc recordar a culpa e mergulhar na depresso, mais estar dificultando o reajuste e se separando de lvaro.  
        No entendo.  
        Quando dois seres se amam como vocs, embora tenham se separado,  certamente quando as barreiras rurem voltaro a encontrar-se  e tentaro o novo acerto.  Sei que lvaro, arrependido do crime passado, reiniciou, sob a proteo luminosa de Carolina, o duro caminho da regenerao.  Prepara-se  para trabalhar no socorro dos  aflitos, como enfermeiro a servio de Jesus.  E tenho a certeza de que conseguir, porque, afora seu drama pessoal, guarda preciosa folha de servios prestados na Terra como mdico humanitrio, onde socorreu muitas pessoas necessitadas sem pensar em retribuio.  
        Isso  verdade.  lvaro foi sempre humanitrio e bondoso.  Jamais deixou de socorrer algum por falta de dinheiro.  
        Isso revela, a excelncia do seu corao e o coloca em condies de continuar a servio do bem.  
        O que me conta surpreende me.  Os mortos trabalham?  
        Embora os preguiosos sonhem com o paraso indolente, a lei do trabalho vigora em todos os cantos do Universo e ningum poder estar inerte, sob pena de arcar com dolorosos sofrimentos.  Mas como pensa que eles socorrem os que sofrem na Terra?  Como pensa que eles abrigam os que morrem aqui, chegando l, doentes da alma, sofridos,  angustiados, perdidos e desajustados?  Acha que a misericrdia de Deus seja to pobre?  
        Eu sabia disso vagamente, mas nunca tinha pensado assim de forma to concreta.  
        Deve comear a pensar.  Acho mesmo, Aurora, que sua fase ruim passou.  Voc deve agora procurar melhorar seu ntimo.  O que passou no pode ser modificado.  Que adianta alimentar erros dolorosos?  Por acaso poder modific-lo s?  
        Quem dera que eu pudesse esquecer! 
        Voc pode atenuar essas lembranas.  Elas devero representar para voc apenas uma lio dolorosa, para evitar a reincidncia no futuro.  Mas isso, no a impede de construir o bem, procurando realizar algo em benefcio dos que prejudicou.  Teme a presena de Geraldo;entretanto, ele sofreu muito a perda da me e at hoje  sua ferida sangra.  No foi em vo que Deus o aproximou do seu convvio.  Aurora estremeceu, assustada.  Lucila continuou com voz firme:
        Porque voc no abre a ele seu corao?  Por que no o recebe
       como um filho, procurando dar-lhe um pouco do amor de me que lhe foi negado?  
        No sei.  Tenho medo de que ele esteja apaixonado por Maria Lusa.   Ela est to diferente.  Ele tem sido bom.  
         um excelente rapaz, a quem estimo.  Guarda lealdade e pureza de sentimentos.  
        Sinto o quanto ele tem sido bom com Maria Luza, que o estima de   verdade.  
        Ento, por que no am-lo como um filho?  Dessa forma, Carolina a abenoaria e voc se sentiria menos culpada.  
        Mas se  justamente sua presena que me lembra o erro cometido! 
       Pode ser.  Sua conscincia est acordada.  Mas sempre que der a ele seu carinho, sua ateno, estar pelo menos devolvendo um pouco do que inconscientemente lhe tirou.  
        verdade.  No tinha pensado nisso.  
        Pois pense.  Aproxime-se  dele sem medo.  E ver que se sentir melhor.  
       Aurora baixou a cabea, pensativa.  Afinal, o que fizera para reparar o mal!  Nada.  Achou que se sentiria bem em comear.  
       A  partir daquele dia Aurora aproximou-se  de Geraldo, que se surpreendia percebendo nos olhos dela um ar mais amistoso e um carinho especial.  Ele ainda sentia por ela certa repulsa,  lembrando-se  de que por sua causa Carolina fora envolvida na torpe calnia.  Contudo, Humberto o vigiava aconselhando-o a que se contivesse, e Geraldo procurava dissimular o que era-lhe sumamente difcil.  Outro motivo o impulsionava:no queria que Maria Luza soubesse a verdade.  O que pensaria a moa se soubesse que ele procurara sua amizade para investigar o passado?  Que ele a utilizara para aproximar-se  de Aurora?  Por isso lutava com a raiva e procurava disfarar seus sentimentos.  Aurora, entretanto, olhava-o agora de forma diversa.  Ele fora vtima inocente e ela queria fazer algo para redimir-se .  No sabia como comear.  Sentia-se  inibida, no encontrava a forma de melhorar o relacionamento com ele.  
       Certa tarde, na varanda da casa de Maria Luza, os quatro jovens,  reunidos aps o ch, conversavam animadamente.  Humberto empolgava-se  com os estudos e Geraldo fazia-os rir com os comentrios sobre as aulas, que aproveitava ao mximo, revelando insacivel curiosidade.   Aurora aproximou-se  e imediatamente Humberto levantou-se ,  convidando-a  a fazer parte do grupo.  Um pouco acanhada, ela sentou,  desculpando-se :
        A  alegria de vocs faz-me  bem.  Quero ver se apanho um pouco dela para mim.  
       Um brilho singular refletiu-se  nos olhos de Geraldo antes que ele pudesse dominar.  Uma coisa ele sabia.  Aquela mulher no era feliz.   Como poderia, depois do que fizera?  Humberto sorriu ao responder:
         que ns somos alunos especiais.  E tudo o que nos acontece 
       engraado.  
       A conversa prosseguiu, mas Geraldo no sentia a mesma espontaneidade.  Conservou-se  calado, enquanto Humberto e Maria da Glria tudo faziam para manter a alegria do grupo.  Aurora, a certa altura, olhou Geraldo e pareceu-lhe perceber o ressentimento do moo.  Fixando-o com doura,  comentou:
        Nunca  tarde para aprender.  Fazemos muitas coisas por ignorar.  
       O esclarecimento nos faz ver melhor nossos erros.  
       Geraldo estremeceu.  O olhar dela era splice, mas para o moo como que reativou o ressentimento.  Esquecendo-se  de dissimular, objetou com frieza:
        Bom  no errar, porque certos erros no tm remdio.  No adianta se arrepender.  
       Aurora empalideceu.  Humberto disfaradamente tocou o p de Geraldo para chamar-lhe a ateno, enquanto que Maria da Glria procurava dissimular falando sobre as provas na faculdade, dos erros e das "colas".  Mas Aurora sentia-se  arrasada.  Como dizer-lhe que queria dar-lhe um pouco do seu afeto para tentar refazer o mal que lhe fizera?  O moo no lhe perdoara.  Sentia-lhe no olhar e na voz.  Teve medo.  E se ele quisesse vingar-se ?  Tinha tudo nas mos, sua filha,  seu segredo, tudo.  Fizera mal em permitir sua presena ali.  Por outro lado, ele tambm sofrera a orfandade e a dor do Euclides.  Era vtima inocente.  Quem lhe devolveria os anos perdidos no mato, ignorante e s?   Sentia-se  arrasada.  Um frio enorme a envolveu, enquanto que,  tremula, procurava controlar-se .  Vendo-lhe a palidez, Humberto tornou:
        D.   Aurora, sente-se  bem?  
        Mame, o que tem?  
        Nada... 
       Mas seu aspecto era mau.  Seu rosto branco e gotas de suor bordejando, seus olhos refletindo pavor, querendo controlar-se ;foi quando ela olhou para Geraldo e viu Carolina.  O rosto suave e belo refletindo amor e piedade.  Estendendo-lhe os braos e sorrindo.  Foi demais.  
        Carolina!   gritou assustada.    Carolina! Voc est a!  Carolina!  Perdo.  
       E antes que os presentes pudessem sair da surpresa, perdeu os sentidos.  
       Geraldo, assustado, sentia arrepios pelo corpo.  Ela  vira  sua me! 
       Carolina estava ali! Lgrimas rolavam-lhe pelas faces, sem que as pudesse conter, enquanto que os outros trs socorriam Aurora,  estendendo-a  no sof da sala.  Maria Luza correu em busca dos remdios, enquanto que Maria da Glria procurava afrouxar-lhe as vestes, tentando reanim-la .  
       Colocada a plula embaixo da lngua, esperaram.  Geraldo estava chocado, Humberto, entretanto, procurava acalm-lo .  
        Melhor seria lev-la  para o quarto  comentou Maria Luza.   Humberto  tomou-a  nos  braos  e, acompanhado pelas duas moas conduziu-a  ao leito.  Ao retornar, vendo Geraldo s, comentou:
       Voc tem que se controlar.  Vai estragar tudo.  Agora que ela quer se chegar! 
       No deu para evitar.  Ainda no sei ser falso.  Tenho pena dela.  Tem sofrido muito.  Feliz ela no .  Viu minha me.  Acha que ela est aqui?   Acho.  Sua me deseja que vocs vivam em paz.  Acha que ela esqueceu?  
       Esquecer, no sei, mas perdoar, isso ela fez.   D.  Lucila acha que ela quer ajudar Aurora.  
        Isso  que no entendo.  
        Voc deve esforar-se  para perdoar.   Afinal, no sabemos ainda como tudo aconteceu.  
        Ela pediu perdo.  Acha que no  culpada?  
        No sei.  O que eu acho  que julgar no nos cabe.    Fala como D.   Lucila.  
        Tenho pensado muito.  No vale a pena conservar ressentimentos.  
       No podemos mudar o passado.  S podemos melhorar o presente.  
       Maria da Glria entrou aflita, dizendo:
        Ela acordou e s faz chamar por D.  Lucila.  Quer v-la  imediatamente.  
        Vamos busc-la .  Certamente vir.  
       Enquanto os dois saam apressados, a moa retornava ao quarto.   Aurora chorava, inconsolvel.  Maria Luza perguntava:
        O que foi, me?   Por que viu D.  Carolina?  
        Ela estava ao lado dele.  Linda e bondosa como sempre.  Sorriu para mim e estendeu-me  os braos.  Foi demais! 
        Por que pediu-lhe perdo?  O que lhe fez?  
       Aurora olhou-a , e havia tanta dor que Maria da Glria, condoda, objetou:
        Deixe D.  Aurora, ela est em choque.  Depois, certamente explicar.    Levando a amiga para o canto, murmurou-lhe aos ouvidos: 	 Com certeza ela pensava que Carolina fosse culpada de adultrio,  como meus pais pensam ainda.  E vendo-a , teve remorsos desse mau juzo.  
        Pode ser.  Mas ela sempre me disse que conheceu pouco D.  Carolina.  
        Em sociedade, voc sabe, todos se conhecem.  
        ... Pode ser.  
       Quando Lucila chegou, Aurora pediu:
        Deixem-nos a ss.  
       As duas foram reunir-se  aos rapazes, enquanto Lucila procurava confort-la .  
        Eu a vi, Lucila.  Estava ao lado dele.  Nunca pensei que fosse
       possvel.  O que me disse  verdade:os mortos voltam.  S que ela no veio para pedir-me  contas.  Sorria e me estendia os braos.  Lucila,  ela me perdoou! 
        Claro, Aurora.  Eu lhe disse.  Carolina ainda em vida a tinha perdoado.  Jamais lhe teve rancor.  
        Oh!  Lucila, como posso esquecer?  Ela me perdoou, mas eu no me perdoo.  E Geraldo tambm no consegue.  Senti no seu olhar que guarda ressentimento.  Tenho medo.  E se ele contar tudo a Maria Luza?  
       E se quiser vingar-se  de mim?  
        Acalme-se , Aurora.  No nego que Geraldo ainda no conseguiu esquecer o passado.  Foi muito machucado, foi ferido fundo em seus sentimentos, mas  um moo leal e de carter.  No seria capaz de vingar-se  em Maria Luza.  Isso eu sei.  
        Tem certeza?  
        Tenho.  Voc deve continuar a lutar para destruir a barreira que existe entre vocs dois.  Deve reconhecer que o ressentimento dele  natural e foi causado pelos seus atos passados.  
        Isso  verdade.  
        Ento.  Se quer mesmo refazer os prejuzos que causou, comece por esse.  .  
        Mas eu no sei como.  Eu tentei, mas ele no me aceita.  
        Por que no lhe conta a verdade?  
        Eu?  
        .  S voc pode faz-lo .  Abra-lhe seu corao e ver que se sentira melhor.  
        E se ele contar a Maria Luza?  
        Acha que se ele quisesse fazer isso j no o teria feito?  
        ...  Acho que .  Lucila, me ajude, pea a Deus coragem! 
        Deus vai ajudar, e Carolina tambm.  
       Lucila murmurou ligeira prece, ao fim da qual Aurora concordou:
       - Seja.  Vou falar.  Chame-o aqui.  Mas... e Maria Luza?  
        No se preocupe.  No vai desconfiar.  Deixe comigo.  
        Fique perto, seno perco a coragem.  
       Geraldo entrou plido.  Pressentia que ia conhecer alguma coisa nova.  Isso deixava-o tenso.  Sentou-se  ao lado do leito, e Aurora,  pedindo para segurar  mo de Lucila, comeou:
        Geraldo, quero que me perdoe.  Vou abrir-lhe meu corao, relatar o meu drama e o papel triste e vergonhoso que fiz, o meu crime, e s lhe peo uma coisa;se no puder perdoar me, pelo menos poupe Maria
       Lusa.  Ela no sabe nada! Peo-lhe pelo amor de Deus! Diga-me  que no vai contar nada a ela.  Prometa-me  isso.   s o que quero.  
       Geraldo olhou aquela mulher, reduzida a terrvel expresso de dor na fisionomia.  Estava plida e trmula.  
        Jamais toquei nesse assunto com ela e no pretendo mago-la .  De minha parte, jamais o farei.  
       Ento Aurora mergulhou nas lembranas e contou todo seu drama, sem omitir detalhe algum.  Lgrimas corriam pelas faces do moo enquanto penetrava a tragdia da qual fora vtima.  O papel do Dr.  Olavo fazia-o tremer de revolta, e a atitude digna da me enchia seu peito de calor.  
        Ento foi ele!   murmurou por fim.    Ele! Que criou todo esse drama com mentiras.  Por qu?  .  Qual a razo desse, seu dio a lvaro?  
       Qual a causa que o impulsionara a to vil calnia?  Nunca descobriu?  
        Nunca.  Nem sequer desconfiei.  .  S agora, quando Lucila me fez ver certas coisas, foi que percebi.  Eu estava cega! Cega e louca de cime.  
       Meu Deus! Como poderei esquecer?   Quando conseguirei me perdoar?  
       Geraldo, amargurado, olhou aquela pobre criatura e teve que reconhecer que ela fora de certo modo vtima.  Ela continuou:
       - Se  eu pudesse voltar atrs, se eu pudesse refazer o que destru,  me arrastaria aos ps de Carolina para que me perdoasse.  Contaria a Euclides toda a verdade, e ele com certeza regressaria ao lar.  Mas todos eles esto mortos, e eu nada mais posso seno chorar de arrependimento.  S voc est aqui, e eu lhe peo perdo pelo mal que lhe causei.  Seja meu amigo, por favor.  No me expulse do seu corao.   Sei que no mereo, mas gostaria de saber que no me odeia e que me compreende.  
       Tomara a mo do moo e a apertava com fora, olhando-o com tristeza infinita.  Geraldo sentiu sua raiva esvair-se .  Com voz repassada de amargura, tornou:
        A  senhora foi quase uma vtima.  Aquele patife! Certamente foi ele a causa de tudo.  Ele e o amor, esse sentimento terrvel que torna os homens cegos e violentos.   
       Veja o que o amor fez com voc, veja o que fez com meus pais e o que fez comigo.  
        Meu filho, no diga isso.  O amor  o mais belo sentimento que existe  esclareceu Lucila com energia.  
        Para mim, no.  Ele muda as pessoas e as transforma em loucos ou sofredores.  
       Aurora sentia-se  exausta, porm calma.  Com voz sumida, repetiu:
        Voc me perdoa?  Pode ser meu amigo?  
       Geraldo olhou-a  srio.  
        Agora  sei o que lhe aconteceu, e s posso lamentar.  No lhe guardo rancor.  
        Mas no quer minha amizade, no ?  
        Ele no disse isso, Aurora  suavizou Lucila.    Est muito emocionado.  
        Estou abalado.  Mas acho que a verdade ainda est para ser descoberta.  A senhora foi uma vtima.  Apesar de tudo, tem me recebido em sua casa e permitiu que Maria Luza se tornasse minha grande amiga, a quem quero muito bem.  Tenho sido muito teimoso, mas se a senhora tambm me perdoar, acho que podemos ser amigos.  
       Geraldo olhava com sinceridade e Aurora apertou-lhe a mo, enquanto que brando calor a invadia.  Seu rosto distendeu-se  e sua expresso tornou-se  mais suave.  
        Deus o abenoe, meu filho.  
       Havia tanta emoo em sua voz que Geraldo estremeceu.  Foi com voz ligeiramente trmula que disse:
        Juntos poderemos investigar o caso, porque acho que deve existir
       A algo que desconhecemos e que forou a partida de meu pai.  Ele sabia da sua suspeita sobre minha me com o Dr.   lvaro.  Parece que no acreditou.  Por que ento teria deixado o lar?   O Dr.  Olavo deve saber de tudo! 
        No sei.  Mas preciso relatar-lhe algo.  Disse-lhe que, inconformada com o resultado do julgamento, onde eu aparecera como adltera e lvaro como marido ultrajado, imaginando que os dois, ele e Carolina, estivessem rindo  minha custa, amando-o ainda, fui procurar o Dr.   Jos Marcondes.  Tive com ele uma conversa longa.   Abri-lhe meu corao.  Ele reavivou meu cime, dizendo que tinha observado a intimidade excessiva entre Carolina e lvaro e que eu ficasse tranquila, que ele, Jos, saberia defender os interesses da famlia.  Que viajasse em paz.  Recordo-me  que no gostei da expresso do seu rosto, e perguntei:
       O que pretende fazer?  
       Vou fazer Euclides saber da verdade.  Se ele duvida, armo-lhe um lao armado, do qual certamente no podero sair.  
       No dia imediato sa do Brasil, e ainda em viagem fui surpreendida com a notcia do suicido de lvaro;duas semanas depois, recebi carta de meu pai, relatando o abandono de Carolina.   
        Ento foi ele!  Meu tio Jos! 
        Pode ser  concordou Lucila.    Sempre cobiou a fortuna do irmo.  Com o seu desaparecimento, contava com ela.  Sei que seus credores eram mantidos nessa esperana.  
        Como saber?    A juntou Geraldo.  
       Por isso ele no queria que Maria da Glria estivesse perto de Aurora, tentou impedir a amizade  disse Lucila.  
        Ento,  deve ter culpa mesmo.  Nunca gostei da sua cara.  Seja o que for, vou descobrir.  
        Eu tambm gostaria de saber.  Fui usada por eles e pelo meu cime.   Quero beber minha taa de fel at o fim.  
        Voc sair redimida, Aurora, tenho a certeza.  Seu sofrimento, seu arrependimento, lhe daro condies.  lvaro deve estar satisfeito   com voc.  
        lvaro!  Carolina! Ela estava linda! Rosto suave, sorrindo, estendendo-me  os braos.  
       Geraldo murmurou:
        Porque no posso v-la ?  Por que no sinto seus braos  minha volta?  
       Lucila sorriu e explicou:
        Essa  uma dificuldade sua, que no a impede de estar a seu lado e de abra-lo sempre com o mesmo amor.  Como  grande a bondade de Deus! 
       Geraldo sentiu um ligeiro perfume, muito seu conhecido, enquanto que ligeira brisa o envolvia.  
        Carolina! 
       E o moo sentiu descer sobre seu esprito angustiado uma inesperada sensao de paz.  
       
       
       
       
       CAPTULO 13
       
       
       Naquela mesma noite, na sala de estar de Geraldo, ele trocava idias com Humberto sobre o ocorrido.  Preferira faz-lo a ss, porquanto Maria da Glria poderia magoar-se  com a suspeita sobre o pai.  Fora fcil D.  Lucila explicar os nervos de Aurora com a presena de Carolina, justificando assim a longa conversa de Geraldo a ss com as duas mulheres, pela necessidade de esclarecer-se  o que o esprito da me de Geraldo queria.  Humberto, a par dos fatos, tambm reconhecia que os suspeitos eram dois:o Dr.  Olavo e o Dr.  Jos Marcondes.  Ao que constava, eram inimigos um do outro.  Pensativo,  tornou:
        lvaro e Olavo eram inimigos, mas a causa no sabemos.  Por sua vez, Olavo e o Dr.   Marcondes tambm se odeiam.  E o motivo, ignoramos.   Devemos partir da.  Precisamos descobrir o que aconteceu entre eles para que tivessem se tornado inimigos.  A chave do problema pode estar a.  
        E...   Mas como poderemos descobrir?  
        Deixe comigo.  Amanh mesmo comeo a trabalhar para isso.  Agora j temos boa pista, que me parece segura.  
       Geraldo, contudo, mal podia esperar.  Tinha nsias de saber, e agora que suas suspeitas j estavam em parte justificadas, pensava em como poderia castigar os adversrios.  
       No dia imediato, Humberto afastou-se  pela manh e as horas custaram a passar.  Quando voltou para o almoo, o moo mal podia esconder a curiosidade.  
        E ento?    perguntou assim que o viu.  
        Tenho algumas novas.  Procurando por velhos amigos, lembrei-me  de um advogado, agora j aposentado e que militava na poca em que o Dr.   Jos Marcondes iniciou a carreira jurdica.  Obtive pelo menos o motivo do ressentimento dele contra lvaro.  Ocorre que Dr.  Alberto, seu av, quando o filho se bacharelou, passou-lhe a gesto de vrios bens de famlia, incluindo as duas fazendas de caf em Itu e em Campinas e propriedades tambm na comarca de Itu.  Entretanto, o Dr.   Jos se mostrava inbil;o velho Dr.  Alberto o chamava  ordem, sem contudo conseguir faz-lo melhorar.  O Dr.  Jos, entre o jogo e a bebida, belas mulheres e cavalos de raa, dilapidava com rapidez os bens de famlia.  O Dr.  Alberto, ao v-lo bacharelar-se , acalentara a idia de reajust-lo , e para isso dera-lhe esses encargos,  querendo incentiv-lo na profisso.  Vendo que no conseguia, aps violenta discusso rompeu com ele, dando-lhe a parte que lhe cabia dos bens e colocando toda sua fortuna em nome do outro filho,  Euclides, o oposto do irmo, que alis fez o possvel para evitar o desfecho.  Eu soube que ambos j estavam casados nessa poca.   
       E lvaro com a esposa frequentavam a casa, sendo ntimos amigos.  E foi o Dr.   lvaro, preocupado com a avultada quantia que Jos perdera no jogo quem colocou o Dr.  Alberto ao par da situao, o que lhe valeu o dio mortal de Jos, 
        Quer dizer que ele nunca prestou.   por isso que eu no gosto dele, nunca me engano! 
        O que pude saber foi isso.  O Dr.   Alberto o chamou, as coisas se precipitaram e ele soube que lvaro tinha contado seu segredo.   Nunca perdoou.  
       - Se  ele fosse amigo do Dr.   Olavo eu poderia entender;mas no, 
       eles se odeiam.  Ser que tem alguma coisa a ver com o caso?  
         o que pretendo descobrir.  
        Tenho medo por causa de Maria da Glria.  Acha que ela vai sofrer?  
        Acho.  Mas acho tambm que ela prefere saber a verdade.  J tem dito isso.  No confia nos pais.  Pelo contrrio.  
       - Ser que foi por isso que ele no gostava do Dr.  lvaro?  
        Parece que sim.  Um fraco como ele fica furioso quando algum o desmascara.  Pretendia iludir o pai.  Sem enxergar que cedo ou tarde ele ia descobrir.  
         verdade.  
        Agora , vou tentar pegar a outra ponta da meada.  
        Como assim?  
        O Dr.  Olavo.  Pelo que sei sobre ele, acho que vamos descobrir grandes patifarias.  
        Ele no presta.  Desconfio at que tem muita culpa em tudo isso.  
       O caso do desquite de Aurora ainda no est claro.  Por que ele tentaria destruir o Dr.   lvaro?  Pelo que sabemos, eles nem parentes eram.  
         o que preciso saber.  Pode deixar comigo.  Vou trabalhar em cima disso.  
       Os dois continuaram conversando, estabelecendo hipteses e tentando ligar os fatos.  Os dias que se seguiram foram de intensa atividade para eles.  Com a frequncia em rodas sociais mais representativas da elite, eles por sua atitude discreta, Geraldo por sua curiosa histria e por representar um nome dos mais ilustres, e ainda por sua simpatia pessoal, tinham conseguido timo relacionamento.  
       Era do plano deles estabelecer essa relao principalmente com os mais velhos, que poderiam prestar-lhes esclarecimentos sobre o passado, de modo que redobravam as atenes com todos quantos viveram na sociedade daqueles tempos, o que os tornava sumamente bem recebidos numa sociedade onde os jovens j comeavam a modificar os costumes, liberando-se  da disciplina rgida dos pais.   Mas foi com um mordomo que Humberto conseguiu descobrir uma nova pista.  Estavam numa festa em casa dos Albuquerque e Humberto, na sala de fumar,  saboreava seu cigarro quando o mordomo, sbrio e circunspecto, aproximou-se  oferecendo-lhe uma bebida.   
        Obrigado.  Agora no.  
       Estavam ss e Humberto comeou a conversar com ele, comentando sobre as pessoas importantes que estavam presentes.  Lisonjeado, ele comeou a falar e Humberto descobriu que durante dez anos ele trabalhara na casa do Dr.   Olavo Rangel.  
        Sabe,   explicou ele  ele pagava mais do que os outros e eu tinha uma dvida para pagar.  Precisava do dinheiro, seno no tinha trabalhado l tanto tempo.  
       Humberto descobriu que na poca que lhe interessava ele trabalhava l.  Habilmente conversou e percebeu que o criado no apreciava o ex patro, e que, assim que se desobrigou dos srios compromissos que possua, deixou o emprego.  
        Meu  amigo Geraldo pretende descobrir algumas coisas daquele tempo e gostaramos que voc fosse  nossa casa prestar algumas informaes.  talvez possa nos ajudar.  V e no se arrepender.  Alm de muito rico, ele  muito generoso.   
       Os olhos do mordomo brilharam.  Sentiu-se  importante.  
       Amanh  tarde  minha folga.  Estarei l.  O que quer saber?   
        O local aqui no  apropriado e voc est ocupado.  Amanh falaremos.  
       Humberto mal podia esperar.  No dia imediato, s dez horas em ponto ele era introduzido na sala de Geraldo, que com o amigo aguardava-o ansioso.  Iriam descobrir mais alguma coisa?  
       Acomodaram Estevo em agradvel poltrona e Humberto comeou:
        Sabemos que o Dr.  Olavo metia-se  em negcios no muito honestos,  e no tem escrpulos para atingir seus fins.  Voc conheceu o caso do Dr.  lvaro e D.  Aurora?  
        Se  conheci! Eu conheci tambm o Eurico, que morreu inocente nisso tudo! 
        Conte-nos o que sabe.  Por que inocente?  
        O Eurico era um apreciador de vida mole e de boas mulheres.   Vivia sempre enrolado com elas.  
        Frequentava a casa do Dr.   Olavo?  
        Era uma espcie de escravo dele.  Valia tudo.  Servia de testemunha quando ele precisava, fazendo tudo quanto o Dr.  Olavo mandava.  Era olheiro, e quando precisava sabia intimidar as pessoas, embora no fosse de briga.  Era amado pelas mulheres e a Ivete morria por ele.  
        Ivete?  
       - A  esposa.  Mas ele tinha outras.  A urea at hoje chora sua morte.   Elas acreditavam que ele fosse amante de D.  Aurora, mas apesar disso o amavam.  Ele no largava da urea, que era a predileta.  Dr.  Olavo tinha dito a ele que se aquele caso desse certo, ele entraria em grande bolada e que lhe daria grande quantia.  Eurico pretendia viajar e gozar a vida com o dinheiro.  Mas foi pro cemitrio.   Tambm, passar por amante de mulher casada s podia dar nisso! Foi uma tragdia! urea est acabada.  
       At hoje no esqueceu .  
        Sabe onde ela se encontra?  
        Sei.  Tenho pena dela.  Vive doente e na misria.  s vezes levo coisas para ela que D.  Berta manda.  Minha patroa  uma grande dama e muito caridosa.  
       - Me d o endereo dela.  Fique tranquilo, que vamos ajud-la  tambm.   Que mais sabe do Dr.  Olavo.  Conheceu o Dr.  Jos Marcondes?  
        Conheci.  Quando entrei na casa ele era amigo do Dr.  Olavo.  Tinham estudado juntos.  Mas um dia brigaram feio.  
       Humberto perguntou:
        Sabe por qu?  
        Por acaso eu passava pelo corredor e ouvi a conversa deles.  
        Procure lembrar-se :como foi?  
        O Dr.  Jos estava furioso e dizia:  Voc  um traidor.  Eu tinha combinado que, de posse da herana, trinta por cento seriam seus.   Agora, retiro a proposta.  Voc me traiu.  
        Dr.  Olavo estava conciliador:
        So tramas da oposio.  Eu no contei a ningum.  No sei como o lvaro descobriu... 
        No acredito! S voc tinha os documentos.  Alm do mais, o plano ia to bem! Se me aborrece, procuro o lvaro e conto toda a verdade!  
        O outro tornou-se  ferino:
        Que verdade?  Que voc est por trs do caso e quer arrasar tanto a ele como ao seu irmo para ficar com a herana?  Ter coragem de dizer-lhe isso?  
        O outro espumava de raiva.  
        O plano daria certo se voc no me trasse! O que espera conseguir negociando do outro lado?  
        Oua, Jos.  Eu no estou negociando com ningum.  Tenho at arranjado dinheiro para voc.  
        A  juros escorchantes.  
        Que no so meus.  Voc podia jogar menos.  
        No se meta na minha vida! Sei o que fao.  Meu pai est furioso e agora disse que vai me deserdar.  
        Ele no pode fazer isso.  
        Vai dar uma parte, mas o resto vai passar tudo para Euclides.  
       Isso  demais.  Voc  o culpado! Soube que lvaro o procurou e depois foi falar com meu pai.  Voc  o culpado.  
        O Dr.  lvaro me procurou por causa de documentos.  Sabe que sou o advogado da famlia de sua mulher.  Tratamos de assuntos legais.  
        Olha aqui.  Eu sei de tudo.  Sei que foi voc quem aconselhou a penhora da minha casa de Itu e das terras do groto.  Meu pai ficou furioso.  Sei tambm que ganhou honorrios de vinte por cento sobre a transao.  Voc quer me arruinar?  Juntos, poderamos nos tornar ricos.  
        Voc nunca conseguir a fortuna do seu pai.  
        E por isso voc me traiu.  Voc no perde por esperar.  Logo agora que eu tenho tudo planejado! Vai me pagar, ver.  
        Voc est arruinado, e eu no vou perder tempo em ouvir suas ofensas.  Queira se retirar.  
        E assim, eu abri a porta ao Dr.  Jos, que parecia arrebentar de raiva.  
        E depois?  
        Depois, o Dr.  Olavo estava nervoso e D.  Marilda foi perguntar o que tinha acontecido.  Ele explicou:
        Ele quis me passar a perna e eu dei o tombo primeiro.  
        Como assim?  
        Ele queria que eu o ajudasse a falsificar uns documentos, mas nessas no me meto.  No quero encrencas com a lei.  Fez dvidas de jogo e queria que eu falsificasse a escritura de suas propriedades em nome da filha, com data anterior da dvida.  Mas eu achei melhor conversar com o meu cliente que emprestou o dinheiro e ia ser  lesado, e ele penhorou as propriedades.  No fui eu quem contou ao Dr.  lvaro.  Ele tem me irritado muito por causa daquele caso dos Andrades.   Esse  outro cuja cama estou arranjando! 
        Voc se mete em encrencas!   No se preocupe.  Sei jogar.  Sempre tenho lucros.   
        Se voc no contou ao Dr.  lvaro, como descobriu?   
        Acho que o credor o conhece e o colocou ao par de tudo.  Ele tem pena do Dr.  Alberto, que  homem de bem.  
        Ento, por que lvaro o procurou?  
        Para me ameaar.  Disse que vai dar queixa  polcia se eu insistir em dizer que a viva Andrade  irresponsvel e sofre das faculdades mentais.  Ele atestou que ela  normal e a tirou do sanatrio.  Ameaou-me  processar caso eu insista em levar avante o caso.   
        Isso  dramtico.  
       - Logo agora que estava prestes a conseguir que o jovem Arnaldo tomasse posse como administrador dos seus bens!  
        Voc vai perder uma fortuna! 
        Tudo por causa desse doutorzinho! Ele  atrevido! Deixe por minha conta.  Ele no perde por esperar.  
       Os dois no perdiam palavra, e Estevo continuava:
        Depois de uma semana, eu fiquei sabendo que D.  Aurora procurara o Dr.   Olavo.  
        Como foi isso?    indagou Humberto.  
        Por causa de Eurico.  Ele esteve em casa do Dr.  Olavo procurando por ele e me contou que o patro o chamara para tratar de um caso onde ele pretendia dar um tombo em um doutorzinho.  Sempre que tinha negcios com o Eurico, o Dr.  lvaro o recebia em casa porque no queria que o vissem em seu escritrio.  No sei bem o que foi que aconteceu, mas ele estava muito contente e vrias vezes o ouvi dizer a D.  Marilda que as coisas corriam muito bem.  No dia da tragdia, o Eurico foi  nossa casa e l ouvi o Dr.  Olavo dizer:
        Esteja no apartamento s duas horas, ela vai dar-lhe todas as 
       instrues.  No se esquea de nada.  
        No acha que  perigoso?  
        De modo algum.  E depois, ao sair lhe darei a bolada.  
        O outro sorriu, alegre.   
        Estou precisando.  
        Quando o acompanhei at a porta, murmurei: 
        A, hein! Vai entrar na bolada! 
        .  Bem que estou precisando.  No gosto muito desses casos de amor.  Cime  doena perigosa.  
        Como assim?    perguntei curioso.  
        O cime  perigoso, ainda que seja da amante.  No posso explicar,  mas acho que depois dessa vou sumir por uns tempos com a urea.  
        Ele saiu e foi naquele dia mesmo que ele levou os tiros, como voc sabe.  Parece-me  que era outra pessoa que ia estar l, a coisa era para estourar no dia seguinte.  Sei que o Dr.  Olavo chegou muito nervoso e contou a D.   Marilda tudo.  Eles conversaram durante muito tempo no escritrio, e eu no pude ouvir nada.  Mas sei que o Dr.   Sigifredo, pai de D.  Aurora, telefonava para a casa e conversava com o Dr.  Olavo, e tudo estava fervendo.  Foi pelos jornais que eu pude saber a tragdia, e ns estvamos proibidos de falar qualquer coisa, prestar qualquer informao a quem quer que fosse.  Dr.  lvaro no hospital, D.   Aurora tambm, graves,  e o Eurico acabou morrendo.   Ningum me tira da cabea que o Dr.  Olavo teve culpa nesse negcio.   Ouvi ele dizer a D.  Marilda:
        De qualquer modo, ele est fora do meu caminho.  Vou reabrir o caso da viva Andrade.  Agora ganharei a causa.  Sei de um mdico que atestar o que eu quiser.  Isto  para ele aprender a no se meter comigo! 
        H um escndalo com a Carolina.  Quem diria, a santinha! 
        Ora, Marilda, aquela mulher no teria cabea para isso! Mas  melhor que pensem assim.  Afinal, a verdade pode nos comprometer.  
        Este prato  bom para o Dr.  Jos Marcondes.  Se o irmo se separar  da mulher, pode ser que o Dr.  Alberto reconsidere e volte s boas com ele.   
        No creio.  O Dr.   Alberto  muito severo  no confia no filho.  De qualquer modo, o que me interessa agora  o caso Andrade.  
        E depois?    tornou Humberto.    Acompanhou o caso?   
        Mais pelos jornais.  Estvamos proibidos de tocar o assunto em casa.  Pelos recados ao telefone, pude perceber que o Dr.  Olavo fez o desquite, e apesar de ter tentado provar que o Dr.  lvaro tinha uma amante, o que ficou claro foi que D.  Aurora era amante do Eurico.   Voc tambm pensa assim?  
        No.  Eu no penso.  Eu sei que o Eurico nem conhecia D.  Aurora.  
       Sei que ele ia passar por amante de outra pessoa, mas algo saiu errado.  
        Voc no contou  polcia o que sabia?  
        Eu?  ! Deus me livre.  O Dr.  Olavo me mataria.  Depois, eu tinha minha dvida a pagar, o Eurico estava morto mesmo.  Eu no tinha nada com a briga deles.  O Dr.  lvaro saiu livre e eu guardei o que sei comigo.   Agora, faz tantos anos, estou recordando tudo isso mas no quero me meter em nada.  Um mordomo como eu, sabe, v e ouve muitas coisas, mas no meu caso o segredo  a alma do negcio.  
        Nunca mais soube de nada?  
        No.  O que sei  que o Dr.  Olavo conseguiu o que queria.  Internou a viva e no sei o fim que ela levou.  O sobrinho ficou com a herana e ele recebeu grossa bolada, cuja comemorao presenciei num jantar alegre onde D.  Marilda ganhou o seu lindo colar de diamantes.  
       Geraldo estava mudo.  Tanta baixeza o enojava.  Humberto, vendo que nada mais podia arrancar do mordomo, deu-lhe boa quantia, que Geraldo destinara a esse fim,  e o despediu aps ter-lhe agradecido, anotado a direo de urea, a amante de Eurico.  Geraldo no continha a indignao.  
        Bem que eu no gosto daquele sem vergonha! E pensar que foi com ele que vim para c! 
        Calma, Geraldo.  Se no tivesse vindo, ele com certeza teria achado jeito de entrar na sua fortuna.  
        Ele no podia! 
        Voc dado por morto, desaparecido, e ele naturalmente arrependido de ter brigado com seu tio Jos, o herdeiro se voc no aparecesse.  .   .   talvez se unissem de novo.  Pensando bem, encontrando voc ele destruiu as esperanas de seu tio e pensou em administrar seus bens.  S que ele no contava com a sua inteligncia, que frustrou todos os seus planos.  Voc  maravilhoso e sinto-me  orgulhoso de ser seu amigo! 
       Geraldo olhou o companheiro com tristeza:
        A  cada dia que passa, mais eu acho que meu pai tinha razo.  
       As feras do mato so menos perigosas do que os homens.  
        A pesar disso, voc tem amigos fiis! No pode desanimar.  Geraldo suspirou:
         verdade.  O que vocs fizeram comigo, no esqueo mais.  D.  Lucila,  Ins, a prima, Jorginho e Maria Luza.  Sem falar de voc.  Sem essa ajuda, eu no conseguiria nada.  
        Voc sabe o que quer.  Isso ajuda muito.  Agora, vou procurar a urea.  Veremos se nos pode ajudar.  
        Isso mesmo.  J sabemos por que os trs eram inimigos, mas ainda no descobrimos o que aconteceu que levou meu pai ao desespero de fazer o que fez.  
         verdade.  Com pacincia, chegaremos l.  
       Humberto saiu e Geraldo, um tanto abatido, deixou-se  ficar perdido
       em seus prprios pensamentos.  Sentiu vontade de regressar  sua casa no mato, onde se sentia livre para ser ele mesmo, sem ter que conviver com a hipocrisia e a crueldade dos outros.  Comeava a compreender por que o pai se afastara de tudo.  S sentia o fato de se ter separado de Carolina.  Por que ele teria feito isso?  Com o tempo haveria de saber.  
       
       
       
       
       CAPTULO 14
       
       
       A notcia estourou como uma bomba.  Foi em desespero que Maria da Glria procurou por Geraldo para pedir ajuda.  Jorginho fora internado aps uma crise nervosa.   
       A moa estava assustada.  Amava o irmo e no se conformava em v-lo transtornado ao ponto de requisitar camisa de fora e internao.  
       Assustado, Geraldo acomodou a prima em uma poltrona e, enquanto Humberto procurava confort-la  segurando-lhe as mos geladas, ele sentia-se  um pouco culpado.   
       Imerso em suas prprias preocupaes, esquecera-se  do primo e da tarefa de ajud-lo a que se propusera.  
       Maria da Glria procurava controlar-se , mas seu nervosismo era evidente.  Um tremor de quando em vez percorria-lhe o corpo.  Estava plida.  
        Como aconteceu?  
        No sei bem.  Parece que ele esteve no prado e jogou muito,  perdendo quantia vultosa.  Um amigo de meu pai telefonou avisando.   Furioso, papai o esperou.  Ele s voltou de madrugada.  Acho que estava bbado.  Ento, tiveram uma briga na qual ele reagiu com violncia.  A princpio, enfurecido, papai alterou-se  e quis agredi-lo , mas foi agredido com violncia e acordei com os gritos de mame e dos criados.  Foi horrvel.  Ningum conseguia cont-lo ! Quebrou mveis,  espumava de raiva, sua fora estava multiplicada.  Tentei falar com ele, mas seu olhar era de um louco.  Apavorada, telefonei ao mdico e foi a custo que conseguimos todos cont-lo , distra-lo at que o doutor chegasse e com dois enfermeiros o dominasse, colocando-lhe uma camisa de fora.  Meu Deus! Ele enlouqueceu.  No reconhecia ningum, e por incrvel que possa parecer obedeceu docilmente ao mdico.  E agora?  Jamais pensei que isso pudesse acontecer.  Jorginho enlouqueceu! 
       Geraldo estava pasmo.  Gostava do primo, que, apesar das suas fraquezas, no aparentava problema mental.  Humberto pensava,  pensava.  
        O que me aconselham?    perguntou a moa angustiada.    Meus pais esto arrasados.  
        Melhor falarmos com D.  Lucila.  Talvez nos possa ajudar.  No podemos esquecer que Jorginho  um mdium, e por isso sujeito a perturbaes espirituais.  
        Acha que pode ter sido isso?    tornou Geraldo, admirado.  
        Lembre-se  de que na sesso que fizemos ele tinha um esprito inimigo que o queria arrasar.  Teria conseguido?  
       A moa arrepiou-se :
        Deus meu, seria possvel?  
        No sei.  S estranho que algum alcoolizado pudesse lutar com tantas pessoas e venc-la s.  S pode ser algo sobrenatural.  
        No tinha pensado nisso  concordou Geraldo.    Quem bebe  facilmente dominado.  
        Papai garante que ele chegou tonto, mal se equilibrava nas pernas.  
        De onde tiraria tanta fora?  
        Acho que voc tem razo, Humberto.  Vamos procurar D.  Lucila.  Ela nos vai ajudar  decidiu Geraldo.  
       Uma vez em casa dela, expuseram os fatos.  No final, esperaram ansiosos a opinio de D.  Lucila, em quem tanto confiavam.  Ela permaneceu pensativa durante alguns minutos, depois esclareceu.  
        Nosso Jorge bem pode estar sendo vtima de doloroso processo
       De obsesso.  
       Maria da Glria segurou-lhe as mos nervosamente.  
        D.  Lucila,  possvel que ele no esteja louco?  
        .   Eu diria mesmo que ele sofre doloroso ataque de espritos
       doentes.  
        Nesse caso, poderemos fazer alguma coisa?    inquiriu Humberto,  ansioso.  
        Claro.  
        Acha que temos condies?    inquiriu Maria da Glria, aflita.  
        Por certo.  Deus no desampara ningum.  Por certo nos ajudar.  
        D.  Lucila, acha que ele ficar bom?  
       Lucila fixou-a  com certa energia e tornou com doura:
       No nos  dado conhecer os desgnios de Deus, mais sbios e mais justos do que os nossos.  Contudo, podemos esperar trabalhando em favor deles, a fim de que a harmonia se restabelea, 
       Ins, plida, sentada em uma cadeira, ouvia em silncio.  
        Como assim?    tornou Geraldo.    O que est acontecendo com ele?  Por que teve essa crise?    O que  obsesso?   
       Lucila olhou calma e respondeu:
        Para responder a essas perguntas, precisaria conhecer toda a verdade que se perde no emaranhado das vidas anteriores, onde possivelmente esse drama teve incio.  A reencarnao  a chave da maioria dos problemas mentais, explicando nossas fobias e at os problemas de nossa vida atual.  A obsesso, meu filho,  um sentimento, uma paixo que domina a criatura que no encontra, nos momentos de necessidade, foras para compreender e perdoar as faltas alheias e mantm dentro de si o dio, a revolta, que a levam a revidar a ofensa e a tentar fazer justia com as prprias mos.  
       Geraldo estava plido.  
        Por qu?  No  vlido fazer justia?  No acha que quem fez o mal deve ser punido?  
        Acho que quem fez o mal precisa conhecer a extenso do seu erro para corrigir-se .  
        Ento  Argumentou ele  no h que castig-lo ?  
        Meu filho, se observar bem ver que Deus est na direo do equilbrio do mundo.  Conhece tudo, e suas leis cuidam com zeloso carinho, porm com justia e imparcialidade de dar a cada um segundo suas obras.  Esse no  um trabalho nosso.  Para se fazer justia perfeita, h que conhecer plenamente todos os antecedentes do caso, sua origem, etc.  Se ela se perde em vidas anteriores, onde os acontecimentos tiveram origem, como temos condies de julgar?  
        Quer dizer que Jorge  perseguido por algum que o odeia de vidas passadas?    inquiriu Humberto com seriedade.  
        Vocs viram o que aconteceu naquela sesso, onde o prprio Jorge,  subjugado por esse esprito, declarou suas intenes.  
         verdade.  Por que o odeia tanto?  O Jorge  meio leviano, mas incapaz de fazer mal a quem quer que seja.  Ao contrrio, gosta de ajudar os outros e vive pagando comida para os mendigos da rua.  
        Mais uma razo para pensarmos nas encarnaes passadas como origem dos problemas.  Hoje, Jorge talvez no prejudicasse ningum,  mas h muito tempo, sculos talvez, quando seu esprito era mais ignorante, isso pode ter ocorrido.  
        Quer dizer que esse inimigo pode ter motivos reais?  
        Claro.  Um dio dificilmente tem incio sem que ningum o provoque.  Jorge provavelmente foi causa ou deu causa para que esse esprito alimentasse o seu dio.  
        Quer dizer ento que Jorge  culpado?    Maria da Glria estava aterrada.  
        No ousaria dizer isso.  No sabemos o que aconteceu.  Contudo, a justia de Deus age sempre, e para que Jorginho fosse atingido por certo deve haver uma causa.  
        Quer dizer que se ele no merecesse, Deus no o deixaria ser atingido?    perguntou Humberto, interessado.  
        As causas da obsesso se perdem quase sempre em vidas passadas,  onde nosso comportamento se afastou da prtica do dever.  Contudo, a ao de um esprito sobre a criatura s se far sentir se ela oferecer condies.  
        Como assim?    fez Maria da Glria.  
        O esprito que deseja vingar-se  de um encarnado s vai conseguir alcanar seus fins se o prprio encarnado der vazo s tendncias inferiores.  Ele vai utilizar as falhas de carter, as fraquezas que encontrar, para, fazendo-a s crescer e progredir, arremessar o infeliz  runa moral, social, etc.  Tornando maior sua ascendncia, at que o alvo de seu dio, derrotado, torne-se  instrumento dcil em suas mos.  
        Meu Deus! Ento  isso! Por isso Jorge no conseguia afastar-se  do jogo;por certo, essa criatura o arrastava! 
        Foi o que ele nos afirmou aqui.  Todavia, cada ser humano tem o livre arbtrio para escolher seu caminho.  Isso nos mostra o imperativo da educao, do cultivo dos princpios nobres do Evangelho no lar, para que cada esprito se fortalea no bem a fim de que o passado, com seus vnculos dolorosos, no nos arraste a situaes como esta.  
        Reconheo que Jorge no teve uma educao adequada.  Papai, viciado no jogo, vaidoso e ftil, levava o filho desde a infncia ao prado, facilitando-lhe as apostas, valorizando as amizades fteis,    medindo os valores pela conta bancria.  Por certo, isso ocasionou a tragdia.  
        Por que Jorge nasceu nesse lar?  No seria melhor reencarnar longe do vcio, j que ele seria arrastado por ele?    perguntou Humberto.  
        A  reencarnao segue as necessidades morais e afetivas dos espritos, e visa a um programa de aprendizagem e progresso.  Pelo que podemos observar, no  segregando que conseguimos educar e fortalecer pessoas.  Tudo quanto ignoramos pode exercer tremendo fascnio para nossa fantasia, sempre criativa e presente.  O fraco no gosta da realidade que lhe exibe suas prprias falhas, ou seu lugar exato no concerto das coisas.  Ele cria no irreal, veste suas fantasias, e nelas ele aparece muito diferente do que  na realidade.  Ele domina, ele  o dono de tudo.  E fatalmente um dia ter que sair dessa situao, ter que voltar ao real, e a vida  mestra em oferecer suas lies.  Mas para que isso acontea h necessidade de que essa criatura reconhea e sinta as consequncias dos seus atos, no como ele os imaginou mas como as coisas realmente so.   Jorge era um esprito fraco nesse ponto, certamente pensou em ganhar dinheiro fcil.  Viu fortunas serem dissipadas ou ganhas num s dia e acreditava-se  capaz de realizar a grande proeza de vencer a sorte com sua astcia.  Iluso, por certo.  Tudo quando nos vem facilmente s mos no permanece.  No valorizamos.  
        Quer dizer que Jorge precisava estar no meio do jogo sem viciar-se ?    tornou Geraldo, srio.    No ser um absurdo?  
        No.  O estmulo do meio ambiente serve para demonstrar nossas conquistas reais.   possvel que Jorge, antes de renascer na Terra,  tenha at se julgado apto a vencer a tentao do jogo e tenha pedido para nascer nesse lar e passar por esse teste, que infelizmente no venceu.  
        Acha mesmo que ele pode ter feito isso?    inquiriu Maria da Glria, admirada.  
        Como saber se somos fortes sem as devidas provas?   Como Jorge provaria ter vencido essa fraqueza se jamais vivesse no meio do jogo?   Quem nos garante que ele, se tivesse reencarnado em um lar onde no tivesse contato com o vcio, no acabaria por si mesmo atrado pelas corridas e no entrasse no mesmo problema?  
        Quer dizer que era uma fatalidade?    tornou a moa com seriedade.  
        No tanto.  A fraqueza era dele, e j que estava ali, como falha do seu carter, certamente se manifestaria de alguma forma.  Mas devemos reconhecer que isso no isenta a m educao e seus responsveis pela parte que lhes cabe.  Devemos convir, apesar disso, que a opo sempre  da criatura.  Jorge teve bons conselhos, teve voc, minha filha, que procurou afast-lo desse caminho.  Teve Geraldo e chegou at a receber a ajuda da mediunidade, que permitiu conhecer as origens do seu problema.  Entretanto, preferiu ceder  influncia de seu inimigo, que agora deve estar julgando-se  vencedor.  
        Meu Deus!  Diante disto, o que fazer?   Se ele escolheu, se tem
       essa fraqueza, como defend-lo ?   Como ajudar?  
       Maria da Glria torcia as mos, e em seus olhos luziam lgrimas
       incontidas.  
        Acalme-se , minha filha.  Lembre-se  de que Deus no desampara ningum.  Jorge no est s.  Certamente, bondosos amigos espirituais velam por ele e aguardam a ocasio justa de ajudar.  
        O que fazer?   Como lutar?   Como defend-lo desse esprito cruel,  se no podemos v-lo , nem arranc-lo do seu lado?          
        O primeiro passo que nos credencia ajudar  o perdo.  Procure compreender.  Esse infeliz deve estar sofrendo muito, embora aparente a dureza de corao e demonstre seu dio.   um irmo que tem a viso cristalizada no passado, e que por causa disso est divorciado de suas condies naturais de progresso, adquire pesados compromissos com as leis de Deus ao querer fazer justia com as prprias mos.  Vamos primeiro, como medida de ajuda, orar por ele,  que  mais necessitado do que o prprio Jorge, cujo sofrimento pode ser o veculo de reajuste e progresso, aproveitado pela economia divina.  Mas quem fere e persegue, no perdoa e cobra, aciona a prpria cobrana da Lei de Deus, que por certo ter que faz-lo compreender seus prprios erros, condenando-o ao seu resgate.   Venha, Ins, sente-se  aqui.  
       Geraldo estava plido.  Tudo aquilo vinha de encontro aos seus projetos ntimos de vingana e de cobrana do prprio passado.   Estaria errado?   Ins, sentou-se  ao lado da me no sof, calada, mas seu rosto plido contraa-se  em visvel esforo para controlar-se ,  enquanto que estremecimentos de quando em quando a acometiam.  
        Vamos orar  props Lucila.    Vamos pedir a Deus por aqueles que ainda no entendem a necessidade do perdo.  Dos que pensam ter o direito de julgar os atos dos outros, apesar de desconhecerem toda a verdade que se perde na voragem do tempo.  Todos somos fracos,  todos somos imperfeitos, como julgar com acerto?  Como fazer justia?   Senhor, d nos a faculdade de compreender e aceitar sem revolta tudo quanto no possamos mudar.  Rogamos, Senhor, em favor desse irmo que se prende ao passado e pretende arrastar nosso Jorge ao mal.   No v que, roubando a ele a sagrada chance de recuperao,  compromete-se , frente s leis sacrossantas de Deus, a reergu-lo no futuro?   No compreende que nossa funo no  obstruir o progresso, mas ajudar?   Como pode, esprito fraco e doente, querer enfrentar a fora da justia de Deus, opondo-se  ela?   Senhor, que o nosso amor chegue quele corao;que ele sinta que no lhe desejamos mal, que pretendemos estender nossas mos nossa ajuda,  para que ele se reerga, se refaa, seja feliz, esquecendo mgoas passadas, construindo sua felicidade no bem.  Mas para isso, queremos que sinta a inutilidade da vingana que avilta o esprito, que o infelicita, transformando-o em doente com srios problemas para o futuro.  
       Senhor, envolve Jorge para que seu corao se fortalea e possa encontrar seu caminho de recuperao e de reequilbrio.  Pensemos nele com amor e carinho.  
       Nesse instante, Ins,  com voz apagada,  tornou:
        Por favor, me ajudem!  Pelo amor de Deus.  Estou preso.  Faam alguma coisa!  No tenho mais foras, estou muito fraco.  
       Maria da Glria deu um grito e agarrou-se  a Humberto,  apavorada:
        Eu vi Jorge!  Por Deus.  Eu o vi!  Que horror.   Ele vai morrer... 
       Ele estava morto! 
       Lucila alisou a cabea de Ins com carinho e disse:
        No tenha medo.  Pense em Deus com firmeza, a ajuda vir.  Ns estamos com voc.  
       Ins suspirou fundo e pareceu adormecida.  Lucila acercou-se  de Maria da Glria.  
        Calma, filha.  No tenha medo.  Conte o que viu.  
        Jorge.  Mas acho que estava morto!  Plido e tonto.  Acha que ele
       est morto?  
        Foi alucinao  tornou Humberto, conciliador.    Voc estava pensando nele, preocupada, e teve uma alucinao.  
        No.  Era ele.  Eu vi!  Ao lado de Ins.  Ele falava, ela repetia.  Ele morreu e veio avisar! 
        No creio.  Acalme-se , minha filha.  
       Todos olhavam aflitos.  Lucila, serena, limitou-se  a explicar.  
        Jorginho est vivo.  Apenas dorme sob efeito de drogas no hospital.  Seu esprito veio at ns em busca de ajuda.  No viram como ele parecia embriagado?  
        Se ele est vivo, como pode ter vindo aqui falar por Ins?   difcil acreditar...    tornou Geraldo, assustado.  
        .  Mais foi o que aconteceu.  Maria da Glria viu perfeitamente.   No sabiam que todos somos espritos e que gozamos das mesmas faculdades?   Que podemos nos desligar do corpo e comunicar nos com as pessoas?  
        Como pode ser?    incrvel  comentou Geraldo admirado.  
        Por qu?    insistiu Lucila com calma.    Nunca ouviram contar casos de comunicao entre vivos?   comum, quando desejamos ardente mente nos comunicar com algum e somos impedidos pelos meios normais, apelarmos para o sono, nos projetando em esprito ao local desejado.  Muitas pessoas, antes de morrer, visitam seus entes queridos distante.  Jorge encontra-se  no sanatrio com o corpo preso sob o efeito dos calmantes violentos que lhe ministraram.  Embora seu esprito se encontre na semi-inconscincia provocada pelas drogas, tal  a fora de seu desejo que projetou-se  at ns em busca de auxlio.  Somos seus amigos e ele sabe que o estimamos.   
        natural que nos procure.  
        No vai morrer?    inquiriu Maria da Glria com voz angustiada.  
        Certamente no.  Quer nossa ajuda.  Vamos fazer o que nos for possvel.  Vamos agora orar.  Agradeamos a Deus nos ter assistido, e hoje mesmo  noite nos reuniremos para o socorro.  Que Jesus nos abenoe.  
       Ins acordou com fundo suspiro.  
        Ento, minha filha?    perguntou Lucila.    Voc esteve l?  
        Sim.  Nosso Jorge encontra-se  manietado por alguns verdugos.  Pude observar que eles o tm sob hipnose em tristes condies.  Sentindo o seu sofrimento, orei fervorosamente e ele conseguiu ver me.  E por alguns instantes ligou-se  a mim, percebendo vagamente nossas preces.  Ento, rogou socorro.  Mas seus algozes, embora no me pudesse ver, o retiveram, recolocando-o na mesma situao.  
        Voc viu o chefe?  
        Sim.  Cola-se  a ele com energia e est disposto a tudo.   Entretanto, nosso querido Andr, bem como Carolina disseram-me  que vo ajudar.  Para nos reunirmos esta noite, convocando Aurora e todos ns.  
       Eles estavam pasmos.  Ins falava com voz firme e eles jamais tinham pensado que aquela criaturinha doce e delicada guardasse tanto conhecimento no trato com os espritos.  
        Muito bem, filha.  Assim ser feito.  
        D.  Lucila  tornou Humberto, admirado.    Ins visita e confabula com os espritos?  
       Lucila sorriu.  
        Est admirado?  Desde a mais tenra idade Ins demonstrou grande
       sensibilidade.   mdium, como sabem.  Alm deles falarem pela sua boca, ela desdobra-se  do corpo e mantm com eles atividades de auxlio.  Essa  uma tarefa rdua, nem sempre agradvel pelos sofrimentos que provoca, mas que Ins procura desempenhar com amor e dedicao.  
        Minha me a ajuda?   Ela consegue v-la ?  
       Desta vez foi Ins quem respondeu:
        Carolina  uma amiga a que estamos, minha me e eu, unidas
       por laos profundos de vidas passadas.  Ela sempre tem estado conosco, voc quer saber, seu esprito reveste-se  de intensa luz.   Soube conquistar, pelo amor e pela renncia pelo perdo e pela f,  o seu lugar no mundo espiritual.  
        Fale-me sobre ela!   pediu Geraldo com os olhos brilhantes de emoo.  
        No sei se sabe, mas Carolina, quando na Terra, depois que ficou sem voc, sofreu muito e abraou o consolo da Doutrina Esprita.   Confortada e inspirada por Andr, um esprito que se disse seu amigo e protetor, ela compreendeu que a nica forma de aliviar seu sofrimento seria socorrer as criaturas necessitadas.  Da, retirou-se  da vida social e dedicou e intensamente a assistir os rfos, e tomou sob seus cuidados vrias crianas que encaminhou e conduziu na vida, custeando os estudos e apoiando.  Quando morreu, pude ver quantos filhos ela criara anonimamente, discretamente, que a amavam e choravam por ela.  Eu a queria muito, pela sua delicadeza de esprito, pelo seu jeito particular de me dar ateno e mostrar seu carinho.  No dia mesmo do seu enterro, j na cmara ardente, eu chorava abraada  minha me quando a vi, em p, apoiada por um homem relativamente moo e simptico.  Apesar de um pouco plida,  fez-me  sinal para no chorar, atirou-me  um beijo com a mo, acenou de novo e afastou-se  com ele.  Desde esse dia, no mais chorei.  No tenho medo da morte.  Sei que ela no passa de uma mudana.  
       Os trs estavam pensativos.  Humberto tornou:
        E possvel um esprito estar consciente no prprio velrio?  
        Claro.  Carolina era muito desprendida do mundo terreno, embora zelosa de seus deveres domsticos, humanos e sociais.  A nica coisa que ainda a retinha era a esperana de encontrar Geraldo.  Mas naquela hora, talvez isso at tenha contribudo para o desligamento.  Esgotadas as oportunidades terrenas, l do outro mundo ela poderia localiz-lo melhor.  
        Que mais soube dela?    inquiriu Geraldo com emoo.  
        Que integrou-se  no trabalho de assistncia aos sofredores da Terra, e muito tem trabalhado para alivi-lo s.  
        Esprito trabalha?    estranhou Maria da Glria.  
        Claro.  Por acaso algo ocioso existe no Universo?  O trabalho  fora da vida que movimenta o progresso.  Por certo que os espritos trabalham ativamente.  guas paradas apodrecem.  
       Eles estavam admirados.  Para eles os espritos eram seres volteis, extraterrenos, algo impreciso, etreo.  Trabalhar era uma ocupao muito concreta, a qual jamais tinham acreditado que lhes fosse possvel.  
       Lucila concluiu:
        Hoje  noite, pelas oito horas, vamos nos reunir.  Cuidemos de nos preparar convenientemente para isso.  Alimentos leves, nada de lcool e, se possvel, pensamentos harmoniosos.  
       Geraldo estava calado.  Uma tristeza profunda brotava-lhe no peito,  e ele no tinha vontade de falar.  Despediu-se  pensativo e foi para casa, enquanto Humberto acompanhava Maria da Glria.  Durante o trajeto, o moo pensava.  Tudo quanto Lucila dissera o perturbara.  A vingana era um direito que lhe cabia.  Como esquecer, deixar de lado a calnia, a injustia, a dor, os anos de solido e, principalmente,  o sofrimento de Carolina?  
       Ele no conseguia perdoar.  Melhor seria ter ignorado tudo.  Estava revoltado.  J que no tinha o direito de fazer justia, por que ento Deus permitira que ele viesse saber a verdade?  No seria melhor ter permanecido em sua vida pobre mas tranquila, sem que a tempestade desabasse sobre sua cabea?  Teve mpetos de abandonar tudo e regressar ao velho lar.  Mas lembrou-se  dos seus inimigos, da ambio do tio, das torpezas do Dr.  Olavo, e sentiu-se  alegre por ter-lhes transtornado os planos.   
       Sua cabea escaldava e sentia-se  deprimido.  
       Chegando em casa, fechou-se  no quarto e afundou-se  em uma poltrona,  meditando.  Pensamentos tristes, depressivos.  No ouviu quando Antnio bateu  porta.  No obtendo resposta, o velho enfiou a cabea e tornou:
        Geraldo, Maria Luza est a, quer v-lo .  O moo fez um gesto contrariado.  
        No quero ver ningum.  Quero ficar s.  
       Antnio olhou-o admirado.   Geraldo  sempre estava bem humorado, a presena da moa era recebida com prazer.  
         que ela sabe que voc est e no sei o que dizer... 
        Pois eu quero estar s.  No tenho vontade de ver ningum.  
       O velho saiu preocupado, e momentos depois a figura da moa apareceu na soleira.  Entrou em silncio, puxou pequena banqueta e sentou-se  ao lado do moo, fixando-lhe o rosto contrado.  Depois,  sem dizer nada, tomou-lhe a mo e apertou-a  com fora.  Geraldo estava em crise.  A moa fitou-lhe os olhos tristes e compreendeu.  
       Sem dizer nada, ficou ali, segurando-lhe a mo, como uma criana, olhando-o com carinho.  Geraldo no resistiu.  Lgrimas rolaram-lhe pelas faces e ele deixou-a s cair livremente.  
       Impressionada, a moa levantou-se  e, aconchegando sua cabea em seu peito, alisou-lhe os cabelos com suavidade:
        Geraldo, no fique triste.  No posso v-lo assim.   muito penoso.   Ele, voz embargada, no conseguia falar.  Todas suas lutas infantis para vencer a solido, seu drama emocional, ressurgiram multiplicadas sem que ele pudesse conter.  Silenciosamente, as lgrimas continuavam a rolar-lhe pelas faces.  
       Sem saber o que fazer, a moa apertou-o de encontro ao peito, beijando-lhe os cabelos revoltos, e de repente o moo levantou-se ,  abraou-a  forte e ela o beijou nas faces.  Sem premeditar, Geraldo comeou a beij-la  emocionado, no rosto, nos lbios, beijos sfregos,  sofridos, mas profundos, a que eles entregaram-se  sem pensar  em mais nada, descobrindo as prprias emoes.  
        Geraldo  tornou a moa com voz fraca.   -o que est acontecendo?  
        No sei  respondeu ele com voz rouca.    Nunca senti isso antes.  
       Ele estava atordoado.  Apertou-a  nos braos e procurou-lhe os lbios avidamente.  E os dois entregaram-se  s emoes, sem controle nem pensamentos que no fossem viver o momento, esquecendo-se  de tudo mais.  
       Quando tudo serenou, Geraldo sentiu-se  relaxado e feliz.  Suas mgoas tinham passado.  Abraado a Maria Luza, ainda na cama, adormeceu.  
       A moa,  entretanto, sentia-se  perturbada.  O que fizera?  Por que deixara que tudo aquilo acontecesse?  Se no amava Geraldo, por que se entregara a ele?  Por que deixara-se  arrastar daquela forma por sensaes nunca experimentadas e chegara quele ponto?   Geraldo no a amava, o que resultaria disso?  Fitou-lhe o rosto adormecido.   
       No podia culp-lo , pensou.  Ele sempre a respeitara.  Ela por vezes o provocava apenas para v-lo reagir, porque jamais o vira ou soubera que ele tinha tido uma mulher.   
       Mas era apenas curiosidade, nada mais.  Prezava sua amizade.  O que faria agora?  No se preocupava com o prprio destino.  O homem que amava de verdade estava perdido.   
       Nada mais lhe importava, mas e a amizade de Geraldo?  Como conserv-la  depois disso?  
       Envergonhada, apartou-se  dele e comps a roupa.  Seu rosto queimava.   Foi ao lavatrio e molhou as faces com gua fria.  Precisava sair dali antes que Geraldo acordasse.   
       Silenciosamente, ajeitou a aparncia e saiu, sem que o moo despertasse.  
       Duas horas depois, Geraldo despertou com Antnio chamando-o para comer.  Ainda sonolento, o moo procurou o aconchego morno de Maria Luza, mas seus braos estavam vazios.  Teria sonhado?  Por vezes tinha sonhos amorosos, com mulheres cujo rosto no conseguia recordar.  Mais agora, via Maria Luza.  Sentia ainda o gosto de seus beijos a maciez de sua pele delicada.  Abriu os olhos e percorreu o quarto, procurando.  Estava s.  Teria sido verdade?  Por um instante recordou o que acontecera e sentiu uma onde de calor invadir-lhe o peito.  
       O que fizera?  Estava em crise, era verdade, mas devia ter-se  controlado.  Sempre lograva controlar-se , e nunca se lembrava de haver perdido a cabea dessa forma.   
       Passou as mos pelos cabelos, sem saber o que fazer.  Maria Luza era moa honesta.  Jamais tivera outra experincia.  E ele pusera tudo a perder.  No a amava.  No pretendia casar-se  jamais.  Por que fora coloc-la  em to desagradvel situao?  Sentiu-se  envergonhado.  O que pensariam dele os amigos, D.  Aurora?  Sentiu-se  arrasado, j tinha problemas de sobra, e ainda arranjara outros.  Maria Luza certamente o estaria odiando.  No sabia o que fazer.  Tinha vergonha de pedir conselhos a D.  Lucila.   noite, no iria  casa dela para a sesso.  
       Quando Humberto chegou, cansado, mal trocou palavra com ele.  O moo tomou um banho e um lanche rpido, convidando Geraldo ao encontro da noite.  
        No vou.  
        Por qu?    perguntou Humberto, admirado, 
       Geraldo era sempre o primeiro a comparecer s sesses, na esperana de saber algo sobre Carolina.  
        No estou disposto.  V voc.  
        D.  Lucila pediu nos para no faltar.  Jorge precisa de nossas preces.  
        Eu no fao falta.  Nem sequer sei rezar.  
        No importa.  Vejo que voc no est muito bem.  Deve ir.  Quando no estamos bem  que devemos procurar a ajuda dos espritos.  Eles podem nos dar foras para vencer nossas dificuldades.  Depois,  certo que  Carolina estar presente.  Ela marcou a reunio.  Voc recusaria este encontro?  
       Geraldo cedeu.  Carolina devia estar envergonhada dele.  Mas era me, e talvez o pudesse orientar.  Talvez Maria Luza comparecesse e ele pudesse conversar com ela para tentar explicar-lhe o quanto estava envergonhado.  
       Mais  a moa no compareceu  reunio, que teve incio na hora combinada.  Alm deles, Maria da Glria, Lucila, Ins e Aurora.  Geraldo no ousava fixar-lhe o rosto.  
       Lucila iniciou a reunio pronunciando sentida prece, onde pedia por todos os espritos sofredores e vingativos.  Solicitando a presena dos amigos espirituais, pediu em favor de Jorge, e s pessoas presentes que orassem guardando silncio.  
       De repente, Aurora comeou a inquietar-se , sua respirao tornou-se  acelerada, difcil.  Lucila levantou-se , colocando a mo sobre sua cabea em silncio.  Aurora agitou-se  e com voz grossa, um tanto sufocada, comeou a falar:
        Por favor! Ajudem me, estou perdido! Tenham pena de mim.  
       Sou um infeliz! Um perverso que a morte no conseguiu acalmar! 
        Acalme-se   tornou Lucila com voz serena.    Estamos aqui para ajudar desejamos v-lo em paz.  
        No podem.  Ningum pode.  Sabem de quem  a culpa?  Minha, s minha.   Fui eu que no pude vencer o monstro do cime e destru tudo.   Tudo!  Nunca mais a verei.   
       Sou um reles assassino! Um pobre-coitado, sem perdo nem paz.  O crime destruiu minha vida.  No mereo a paz! Eu destru tudo! 
       Solues sacudiam o corpo de Aurora, e os presentes, emocionados,  guardavam respeitoso silncio.  
       Geraldo sentia reviver sua angstia, e no sabia se dava vazo ao desejo de fugir, com receio de descobrir o passado, ou se abraava Aurora, penalizado.  Lucila continuou:
        Todos erramos nesta vida.  Mas o erro sempre deve servir como lio proveitosa.  Se voc errou, sofreu e arrependeu-se .  Deus jamais fecha a porta aos que se arrependem.  Sempre lhes d oportunidade de corrigir o erro e recomear! 
        Quem dera que eu pudesse! Mas qual.  A um assassino como eu no se pode perdoar.    Lgrimas corriam pelas faces de Aurora.    H muitos anos sofro sem esperana.   
       A morte no era o fim de tudo, o descanso, o nada.  Triste descoberta.   De que me vale agora?  S para saber o miservel que sou?  
        Meu amigo, no seja to severo consigo mesmo.  Deus ouviu nossas preces, mandando-o at ns para que juntos iniciemos nova etapa de progresso e paz! 
        Chama-me  amigo!   tornou o esprito com amargura.    Entretanto,  no sabe quem sou e o que fiz.  
        No estamos aqui para julgar ningum.  No nos cabe esse direito; sentimos seus sofrimento e sabemos que o podemos ajudar.  
        Ningum pode.  Sou culpado.  Ali est ele para pedir vingana.  
       Ele, que eu matei!  Socorro!  Socorro! ... Por favor...   ela,  Carolina, Carolina!  No quero que me veja assim.  No quero! 
       O corpo de Aurora foi sacudido violentamente.  Fundo suspiro escapou-se -lhe do peito.  O silncio se fez.  Os presentes, comovidos,  oravam sem saber o que dizer.  
       Geraldo, calado, sem foras, sentia-se  esgotado.  As emoes daquele dia haviam-no abatido.  
       Mas eis que Ins, com voz serena, comeou a falar enquanto suave aroma volatizava o ar.  Geraldo pensou:
        O perfume de minha me! 
        Queridos  amigos  tornou ela com enrgica doura   , esta noite aumentou muito minha dvida de gratido a vocs todos.  Diante dos acontecimentos que nos envolveram no mundo, guardvamos o vivo propsito de ajudar quele que, pressionado pela paixo, se deixara arrastar pelos caminhos difceis do dio e do cime.   
       Di-nos v-lo qual duende infeliz,  fugindo da nossa presena,  atormentando-se ,  acusando-se  quando ns queramos estreit-lo nos braos e dizer-lhe o quanto o amamos.   
       Na verdade, nossas vidas esto unidas h muito tempo e nosso relacionamento se perde na voragem dos sculos.  .  Um dia, quando Deus permitir, voltarei para contar-lhes tudo.  Meu filho, pensa na precariedade das condies humanas que todos ainda carregamos.  Por agora, posso apenas dizer-lhe que os acontecimentos que nos infelicitaram na Terra esto vinculados a nossas dvidas passadas,  quando cometemos erros dolorosos.  Apesar de Euclides ter fugido mais uma vez do nosso encontro, hoje vencemos uma lupa decisiva ao nosso progresso e  harmonizao dos nossos espritos.  Temos nas mos abenoada oportunidade de vencer.  Estudem a Doutrina  esprita, onde encontraro o consolo e a fora para as lutas redentoras que ainda nos aguardam.  Dediquemo-nos juntos ao socorro do prximo infeliz e carente.  Que a caridade seja nosso lema e que saibamos desenvolver dentro de ns todas as virtudes da perfeio.   Que a renncia ao nosso egosmo seja constante, e nossa ligao   com Deus, permanente.  Assim venceremos.  Lembrem-se  que estaremos sempre juntos e que bondosos amigos espirituais nos guiam e orientam, sustentam e amparam.  Trabalhemos juntos, Jesus estar conosco.  Humberto querido, esperamos do seu corao o mesmo carinho de sempre em favor do nosso Jorge, e tanto Ins como Glorinha sabero envolv-lo com carinho para que ele possa sair de uma vez do triste caminho em que se encontra.  Tem sofrido muito.   
        um esprito que precisa reajustar-se  reconstruindo muitas coisas.  Queremos rogar aos coraes presentes muito amor por ele,  que traz compromissos srios com o trabalho medinico de socorro.   Se bem conduzido e amparado, tem boa oportunidade de reajustar-se .    Precisa, porm, de muito amor e dedicao.   Pedimos tambm a voc, Geraldo, que continue a zelar por ele.  Agora devemos ir.  Mas quero dizer, meu filho, que o amo muito e sinto-me  feliz por v-lo comear a compreender e aceitar.  Tenho ainda um pedido a fazer-lhe:cuida bem de Maria Luza e no a abandone.   Precisa muito de voc.  E quando sentir-se  triste, ore, pea foras a Deus, e tudo mais lhe ser dado.  Deus lhe pague por tudo.  Devero reunir-se  de novo daqui a oito dias.  
       A voz de Ins tornou-se  fraca e, com um suspiro ela abriu os olhos.   Lucila murmurou sentida prece de agradecimento e encerrou a reunio.  
       Quando a luz foi acesa,  todos estavam calados e pensativos.  As emoes mergulharam-nos em ntimos pensamentos.  Aurora, comovida,  envergonhada, recordava a presena sofredora de Euclides,  compreendendo seus acerbos sofrimentos, j que os provara com a mesma intensidade.  Por outro lado, a suspeita de que havia uma causa anterior onde ela fora vtima, se no a isentava de culpa, pelo menos lhe atenuava os remorsos.  Humberto, tocado nas fibras mais ntimas dos seus sentimentos, perguntava-se  em que ponto e como estaria ligado queles acontecimentos, j que sentia que vivera com seus amigos aquele passado e o amor a Maria da Glria parecia-lhe um reencontro de espritos h muito programado.  A vontade de ajudar Jorge, com quem simpatizava muito, tudo indicava compromisso anterior.  Maria da Glria sentia intensa emoo, tinha mpetos de abraar o irmo infeliz, guiando-o para o bem e para o reequilbrio.  
       Geraldo estava mudado.  Diante do que acontecera naquele dia, no teria coragem de julgar ningum com severidade.  Seu pai, que apesar de tudo sempre julgara um homem de bem, confessava-se  assassino e depois de tantos anos ainda no encontrara a paz.  A me, que colocara no altar como uma santa, deixava perceber que tambm falhara algum dia em algum lugar! Meus Deus! Quando poderia conhecer a verdade?  Quando poderia compreender os motivos de tantos sofrimentos e de tantas lutas?  Enquanto Ins levantou-se  para preparar um caf, Lucila aproximou se de Geraldo e, colocando a mo sobre seu brao, tornou com carinho:  Vamos orar por eles.  Nossos queridos amigos sofreram muito.  Por certo ainda sofrem pelos erros passados.  s vezes, mesmo quando nossas vtimas conseguem perdoar-nos, esse perdo no apaga da nossa mente o erro, e no conseguimos esquecer.  Somos muito severos com ns mesmos, quase sempre.  
       Geraldo sobressaltou-se .  Teria Lucila suspeitado algo?  Ela continuou:
        Seu pai sente-se culpado.  Cr-se  perseguido, e no entanto sabemos que h muito Carolina e lvaro o perdoaram.  Ele no consegue perdoar-se  e esquecer para recomear.  
       Ins convidou-os ao lanche na copa, e embora a palestra prosseguisse amena e agradvel, pouco depois cada um retirou-se .  
       Geraldo, naquela noite, no conseguiu pregar o olho.  Era certo que Carolina devia saber do que acontecera entre ele e Maria Luza.  Os espritos lem nossos pensamentos e ele no pde pensar em outra coisa.  
       Ela pedira-lhe para tomar conta da moa e no a abandonar.  O certo seria oferecer-lhe o nome, depois do que houvera entre eles.  Era um dever que lhe cabia.  Maria Luza era como se fosse uma irm muito querida.  Como pudera ser to grosseiro?  Afinal, no pretendia casar-se  e ela continuava a amar aquele patife que a trocara por outra.   A moa sentia-se  s.  rf de pai e da me que, perturbada pelos prprios problemas, no conseguira transformar-se  em seu apoio.  Ele se propusera ser-lhe o amigo e confidente.  Ela estimava-o muito.   Contava-lhe seus segredos, e ele falava com ela  de coisas que a ningum conseguia contar.  Seus gostos, seus sentimentos.  
       Ele tambm a ferira e pretendia abandon-la .  Carolina lera-lhe o desejo de ir-se  embora para o mato.  De fugir  responsabilidade de sua fraqueza.  Pediu-lhe que no a abandonasse.  Um desejo de sua me era ordem, e ele sentia que era o caminho que o dever e sua conscincia lhe apontavam.  Comeou a pensar em casar-se  com ela.   Daria seu nome, sua fortuna, seu apoio, sua amizade.  Ela no ficaria s, e eles eram muito amigos.  Poderiam continuar a ser.  Assim, tudo seria resolvido.  Carolina estaria feliz.  Levantou-se  excitado.   
        medida que pensava nisso, mais a idia lhe parecia como nica soluo.  Mal conseguiu esperar.  Era muito cedo para tentar falar com a moa.  Esperou at as 9 horas com impacincia.   
       Depois, telefonou-lhe.  
       Ouvindo-lhe a voz do outro lado do fio, tornou com voz splice: 
         Maria Luiza, voc est bem?  
        Sim...   tornou ela um pouco embaraada.  
        Preciso v-la  com urgncia.  Precisamos conversar.  Posso passar
       A para darmos uma volta?   
       Silncio.  Depois, ela concordou:
        Est bem.  Eu espero.  No vou descer do carro.  Por favor, fique na porta.  
        Ficarei.  
       Meia hora depois, Geraldo estava dentro do carro  porta da casa de Aurora.  Maria Luza saiu e sentou-se  ao lado dele, cumprimentando-o com certo embarao.  Dando ordem ao motorista para lev-lo s a dar uma volta, o moo olhou a moa sem saber como comear.  Ela sentara-se  na outra ponta do assento e esperava silenciosa.  Ele foi direto ao assunto.  
        Maria Luza, o que aconteceu ontem entre ns no foi premeditado.   Juro que no tinha inteno de envolv-la  daquela forma.  
       A moa estava corada, apesar do moreno tom de sua pele.  
        Eu sei.  .   .  Acho que fui um tanto culpada.  Nossa amizade, seu sofrimento, fizeram-me  esquecer que voc  um homem e eu uma mulher.  Aconteceu, no foi de propsito.  Pode ficar sossegado.  No vou contar a ningum nem exigir nada.  S no quero perder sua amizade,  que  muito importante para mim.  
        Mas eu no posso esquecer! Devia ter me contido.  Como voc disse,  aconteceu.  Isso me magoa muito, porque eu jamais faria algo que pudesse prejudic-la  ou faz-la  sofrer.  Eu me culpo exclusivamente de tudo e quero oferecer uma reparao.  Quero que se case comigo.  
       A moa olhou-o admirada:
        Voc pensou bem no que est dizendo?  Sei que no me ama e eu tambm no, apesar de sermos muito amigos.  Casamento  um ato de amor.  Sei como se sente.  Quer reparar um erro.  Isso seria cometer um erro maior.  Cedo se cansaria de mim; e se um dia viesse a apaixonar-se  de verdade por outra mulher?  
        No  bem assim.  Pensei muito durante a noite toda.  No dormi,  ontem foi para mim um dia especial.  O esprito de meu pai esteve na sesso em casa de D.  Lucila, sofrido e perturbado.  Minha me falou comigo e fez-me  compreender muitas coisas.  Pediu-me  para, ajudar Jorge e tomar conta de voc! Eu, que poucas horas antes, arrastado pela emoo, a envolvera em meu desvario em vez de a proteger.   Minha conscincia acusa-me sem parar.  Depois, eu no pretendia me casar, no corro o risco de apaixonar-me por outra.  Eu a quero muito bem.  Comecei a pensar nas vantagens da nossa unio.  Voc estaria sempre comigo, com sua amizade, e eu a apoiaria sempre, como tenho feito, j que voc sente-se  s e sem ningum.  O seu amor no deu certo e voc me disse que no vai mais gostar de ningum.  Seremos amigos, nos apoiaremos um ao outro e viveremos em paz.  No gostaria de viver a meu lado?  
        Sabe que o estimo muito.  No vai se arrepender?  
        No.  Tenho vvido sempre s.  Est na hora de arranjar boa companhia.  
        Est certo  tomou ela, nervosa.    Podemos pensar em casar.   Geraldo a olhou e sorriu:
        E agora?   O que fazemos?  
       A moa riu sem poder conter-se  e respondeu com naturalidade.  
        No sei.  Acho que, primeiro, comunicar a D.  Lucila.  Depois pensaremos no resto.  
        No entendo nada destas coisas.  Como  que se casa?  
        Temos primeiro que marcar a data, depois veremos.  
        No gosto de coisa complicada.  O advogado no faz isso?  
        No  bem assim.  Precisamos fazer as coisas de acordo com os costumes.  Pode deixar que eu entendo disso.  
       A moa tornou-se  sria:
        Geraldo, no  obrigado a casar-se  comigo por causa do que houve ontem.  Podemos esquecer tudo e pronto.  Ningum ficar sabendo.  
       Aconteceu e pronto.  Foi um momento em que fraquejamos.  No  preciso casar-se  comigo por isso.  
        Maria Luza, eu quero! Sabe que sou teimoso.  Vou tomar conta de voc e gosto de mandar.  No est com medo?  
       Ela sacudiu a cabea.  
        No, no estou.  Tambm sou teimosa e de briga.  Mandar em mim vai ser difcil.  Quero ver isso.  
       Geraldo estava aliviado.  A tenso das ltimas horas desaparecera.   
        Ver  prometeu srio.  Em seus olhos havia um brilho divertido.    Casar-se ! Jamais pensara nisso.  Mas j que era preciso, ele o faria! 
       Foram procurar Lucila, que, surpreendida, os recebeu com muita alegria.  Apreciava Maria Luza e acreditava sinceramente que poderia fazer Geraldo feliz.  Comentou maliciosa:
        Bem que notei as atenes de Geraldo com voc! Pensei que ainda as coisas fossem demorar a acontecer.  
        No  tornou Geraldo, meio sem jeito.    De repente, achamos que seria  bom nos casarmos e resolvemos.  Quero que seja logo.  No gosto de coisas  demoradas.  Se fosse na minha terra, Maria Luza ia pra casa comigo agora, e quando o padre passasse na vila fazia o casamento.  
        Ele no sabe como se casa na cidade  disse Maria Luza, divertida.  
        Aqui  bem diferente  esclareceu Ins com alegria.    Voc tem que meter-se  em traje de gala e pedir aos pais de Maria Luza permisso para casar-se  com ela.  Depois, com eles, acertar os detalhes  da cerimnia.  
        E se eles no concordarem?    perguntou ele, assustado.  
        Nesse caso, ns fugiremos para sua casa no mato  pilheriou a moa, contendo o riso.  
       Geraldo no se conformava.  
        Por que temos que fazer assim?  Vou l agora e falo com eles.  Se concordarem, marcamos dia e a hora, chamamos o padre e pronto.  Minha casa d para ns dois.  
        A  situao no  to simples assim  explicou Lucila com calma.    Vocs pertencem a duas famlias tradicionais e da melhor sociedade.  E isso tem seu preo.  
        Como assim?    inquiriu Geraldo, admirado.  
        Vou explicar.  Voc ir hoje  casa de Maria Luza, falar com seus pais, e acredito que se sentiro honrados com o seu pedido.  Depois,  certamente eles oferecero uma festa de noivado, onde voc comprar os anis e se tornar noivo de Maria Luza, marcando o dia do casamento.  Depois, enquanto ela providencia o enxoval, voc prepara sua casa para receb-la  e os papis, porque o casamento dever ser efetuado pelo juiz de paz.  Se quiserem casar na igreja,  devem providenciar tambm.  No dia, haver a cerimnia e depois uma recepo.  Depois, os noivos devero viajar para a lua-de-mel.  
        O que  isso?    perguntou Geraldo, srio.  
       As trs riram sonoramente ante a ingenuidade do moo.  Lucila explicou com ar carinhoso:
        A  viagem ser a ss para a efetivao da unio.   a que se podero dizer casados.  E como  a parte melhor e mais doce do casamento,  chamada de "lua de mel".  
       Geraldo riu, divertido.  Logo tornou com seriedade:
        No  acham muito complicado?   Por que no podemos resolver do meu jeito?  
        Os pais de Maria Luza no vo concordar.  Socialmente, no seria elegante nem de bom-tom.  
        Pouco me importa a sociedade.  Sabe o que penso dela  Ajuntou o moo.  
        Voc no h de querer magoar os pais de Maria Luza, que no vo concordar em fazer como voc quer.  Afinal, voc agora  um homem civilizado.  
        Est bem.  J que a senhora acha, eu concordo.  Afinal, depois de tudo quanto aprendi, no quero passar por selvagem.  Estou um pouco angustiado em falar com D.  Aurora e o Dr.  Camargo.  
        Tenho a certeza de que eles ficaro surpreendidos, mas muito honrados com seu pedido -ajuntou Lucila com convico.   
        Agora ,  Ins, vai buscar um clice do licor especial, que apreciamos em grandes ocasies.  Precisamos brindar pela felicidade dos noivos.  
       Ins retirou-se  e voltou em seguida trazendo uma bandeja de prata com clices e uma garrafa ricamente lavrada.  Serviu-os, e D.  Lucila,  segurando o clice, brindou:
        Estou comovida por terem vindo aqui em primeiro lugar, e desejamos do fundo do corao que sejam felizes! Que o lar de vocs seja mu recanto de compreenso, de amor e de paz.  Deus os abenoe.  
       Geraldo sentiu um n na garganta.  Maria Luza tinha uma lgrima brilhando no olhar.  No puderam falar.  Beberam o vinho delicioso e delicado, e despediram-se .  
       Naquela noite mesmo, Geraldo foi  casa de Maria Luza para conversar com seus pais.  A notcia surpreendeu no s a eles mas aos amigos de Geraldo.  Humberto, admirado, comentou:
        Vocs eram bons amigos.  No pensei que j estivessem pensando em casar.  Como aconteceu?  
       Geraldo no sabia mentir, porm no desejava contar o que acontecera.  Apesar de amigos, no queria expor Maria Luza a esse vexame.  Comentou com naturalidade:
        Eu ontem estava aqui triste e s.  Arrasado, como voc viu.  Ela esteve aqui, tratou-me  com carinho e eu achei que seria menos  infeliz se no vivesse sozinho.  Ela tambm sente-se  s.  Nos queremos bem.  Seremos felizes.  
        Quer dizer que no a ama?  
        No sei o que  amor.  Sei que juntos nos sentimos muito bem.  No seria melhor esperar mais um pouco?  At verificar seus sentimentos?  
        No.  Resolvemos casar e assim faremos.  A resposta um tanto seca e inesperada desarmou Humberto, que, apesar de preocupado, no insistiu.  
         Quando?  
        Hoje vou  casa dela conversar.  Creio que o mais breve possvel.  
       Na casa de Maria Luza, a notcia causou alegre surpresa.  Aurora,  emocionada, no pode esconder as lgrimas.  Apreciava Geraldo com sinceridade e reconhecia-lhe as qualidades de carter muito raras naqueles dias.  A unio dos dois parecia-lhe coroar todo um projeto,  talvez idealizado e programado na vida espiritual.  Parecia-lhe  que a unio das duas famlias to sofridas era abenoada por Deus e daria incio a um perodo de compreenso e de paz, onde todos pudessem perdoar-se  e refazer suas vidas.  
       Afora isso, sua filha querida, que tanto sofrera, lograria encontrar um homem bom, honesto, rico, que a apoiaria e faria feliz.  Foi com euforia que deu a notcia ao marido.  O Dr.  Camargo sentiu-se  agradavelmente surpreendido.  Bem casar Maria Luza constitua sua preocupao.  Encarava isso como um dever de pai adotivo que se orgulhava de ser.  
       Foi numa ambiente festivo e agradvel que Geraldo foi convidado a jantar naquela mesma noite, a fim de conversarem sobre o futuro.  
       
       
       
       CAPTULO 15
       
       
       A tarde era fresca e agradvel.  Sentada em gostosa poltrona, Renata folheava uma revista francesa de modas.  O inverno logo viria e ela precisava preparar seu guarda-roupa.  Tudo era calma e quietude, e ela ainda tinha  sua frente a bandeja com salgadinhos e o ch com o qual se deliciara.  Estava to absorta que no ouviu a porta abrir-se  e assustou-se  quando o marido investiu sala a dentro,  encolerizado, brandindo um jornal, que atirou sobre a mesinha.  
        Veja  tornou,  colrico.  
        Veja at onde nos atira a sua negligncia.  Estamos perdidos.  
        O que foi, homem?  O que aconteceu?  
        Como se no bastassem as loucuras de Jorge, em to boa hora internado no hospital, onde no pode nos enterrar e onde espero que fique durante muito tempo.  Agora veja, a fortuna se nos escapa,  desta vez sem remdio.  
        Deixa Jorginho em paz, pobrezinho, e conta de uma vez: sobre que est falando?  
        Veja voc mesma, aqui neste jornal.    Tomando-o nervosamente, apontou:
        Leia aqui, olhe a notcia.  
       Renata leu: "Noite de gala.  Contrataram casamento nesta capital na noite de ontem o sr.  Geraldo Tavares de Lima com a Srta.  Maria Luza Sampaio Viana.  Houve elegante recepo na casa da noiva, e pelo que  pudemos saber o casamento ser muito breve.  " Havia retratos, dos noivos, dos convidados, etc.  
        Veja onde Maria da Glria esteve ontem.  Realmente, a moa aparecia num dos retratos, ao lado de Humberto.  
        Nem teve brio para no ir.   Sua filha no tem juzo.  
        Espera l.  Ela nunca teve nada srio com Geraldo.  Por que no deveria ir?  
       Sua voz era irritada.  Estava farta do marido, sempre responsabilizando-a  por tudo, quando na verdade ele era o nico culpado.   Levantou-se  agastada.  
        No gosto do seu tom.  Fala comigo como se eu fosse uma de suas empregadas.  Se quer saber, a culpa de tudo  exclusivamente sua.  Se no fosse to leviano jogando nossa fortuna, por certo seu pai no nos teria deixado  margem.  Lembro-me  de que ele repartiu seus bens e deu-lhe boa parte.  Onde est?  Eu no gastei.  Nem o pobre do Jorginho.  Foi voc mesmo quem botou tudo fora.  Depois, se no fosse to estpido com Geraldo, ele no teria ficado com tanta raiva de ns e, quem sabe, teramos conseguido dobr-lo .  
       Dr.  Marcondes estava furioso.  Jamais Renata lhe dissera aquelas grosserias.  Ameaou, apopltico:
        Veja como fala comigo.  No respondo por mim.  Est me tirando do srio.  
        No lhe tenho medo  tornou ela com raiva.    Quer me agredir?   s isso que falta.  No tenho medo de escndalo.  Se me agredir,  vou gritar por socorro e todos os vizinhos vo saber o que se passa aqui.  
       Que o seu dinheiro acabou h muito tempo e que vivemos da minha renda, que se minha famlia no me tivesse ajudado e separado os bens, agora estaramos  fome.  
       Procurando conter-se , vermelho, bufando, o Dr.  Marcondes deixou-se  cair no sof.   Era demais! Sua mulher o acusava! 
       Ela sentou-se  tambm, sentindo-se  melhor.  Afinal, por que suportar calada o mau gnio dele?  Mas a notcia tambm a decepcionara.  Vira a filha esmerar-se  na toilette e julgara que as coisas iam bem entre os dois.  A moa mudara muito naqueles dias.  Parecia-lhe muito sensvel, mais compreensiva, mais sua amiga.  Consolara-a  sobre Jorge,   pedindo-lhe at para rezar por ele.  Rezar?  Maria da Glria sempre fora avessa  religio.  No conseguia lev-la   missa desde que se tornara adulta.  Agora, pedia-lhe para rezar por Jorginho.  Esse era seu ponto fraco.  O filho.  A atitude da moa a comovera muito, e por isso rezava todas as noites pedindo a Deus por ele.  Maria da Glria era rebelde, mas nunca lhes dera motivos de desgosto.  Sempre demonstrara carter e boa moral.  Por isso, no tolerava que Jos agora a envolvesse daquele jeito.  Se algum era culpado, era ele.  
       Ele que levara o filho s corridas e o ensinara a jogar.  Ele que freqentava maus ambientes e carregava o menino com ele.  Agora,  vinha cobrar-lhe contas.  Olhou-o.  Estava arrasado.  Cara da euforia  completa depresso.  
       Renata suspirou, contrariada:
        No  a mim que compete fazer alguma coisa, mas a voc.  
        Acha que devo arrastar-me  aos ps daquele caipira e suplicar-lhe ajuda?  
        No faa drama.  Mas que seria bom se pudesse voltar s boas com ele, isso seria.  
        Por quem me toma?  Acha que no tenho vergonha?  
       Renata sacudiu os ombros:
        Agora  estou interessada em ver Jorginho curado.  E se voc quer saber, o primo Geraldo ofereceu-se  para pagar todo tratamento dele com os melhores especialistas.  
        Claro que no vamos aceitar! No precisamos de esmolas.  
        Tem dinheiro para pagar?  Sabe quanto vai lhe custar?  
        Restam suas jias.   No quer ajudar seu filho?  
        Minhas jias esto quase no fim.  No vou desfazer-me  de nada mais.  So garantia da minha velhice.  E no vou deixar Jorginho sem tratamento.  Afinal, o dinheiro de Geraldo  da nossa famlia.  Por que recus-lo ?  
        No quero que saibam da nossa situao.  Prejudica-me  nos negcios.  
        Geraldo no vai aparecer.  Dar o dinheiro a Maria da Glria.   Ningum vai saber.  Devia ser grato a ele.  
        No sou.  At acho bom Jorge ficar por l durante algum tempo.  No vai arranjar-me  nenhuma dvida.  
        No tem medo de que ele fique louco?  
        No.  Isso vai passar.  Qualquer dia vou dar uma de louco.  Assim, deixo os problemas para os outros.  Afinal, quem pode responsabilizar um louco por suas dvidas?   
        Essa idia, s sua pode ser.  
       Maria da Glria entrou na sala, pronta para sair.  Vendo-os, parou dizendo:
        Vou ao hospital saber de Jorge.  Quero ver se me deixam v-lo .   Vendo a expresso abatida do pai, perguntou:  Aconteceu alguma coisa?  
        Aconteceu  respondeu o Dr.  Marcondes com voz rspida.  Geraldo vai se casar com Maria Luza.  
        Eu sei  disse ela com calma.    Ontem foi a oficializao do noivado.  Casam-se  daqui a dois meses.  
        No est triste com esse casamento?    inquiriu, insinuante.   
        Por que estaria?  
        Voc saa muito com ele, sua me insinuou que vocs se namoravam e eu esperava que ele casasse com voc.  Maria da Glria olhou-o admirada.  
        Julgaram mal.  Vrias vezes afirmei que Geraldo e eu somos muito bons amigos.  Nos queremos como irmos.  E nunca dei motivo a que pensassem semelhante coisa.  Essa idia no passa de fantasia de suas cabeas.  Geraldo vai casar-se  com Maria Luza e desejo que ambos sejam muito felizes.  Eles merecem.  
        Mas e voc  continuou Dr.  Marcondes, inconformado.    Vai
       ficar s a vida inteira?  No v que j est beirando os 25 anos e que, se no aproveitar a mocidade, ficar para titia?  
       A moa no pde sopitar o riso.   Com voz calma,  esclareceu:
        No se preocupe comigo.  No vou ficar para titia.  Mas se isso acontecer, tenho profisso e posso viver muito bem.  
         isso que d a educao moderna! Pensando assim, a famlia vai se desmanchar.  Acho que est na hora de casar-se  e vou cuidar disso muito bem, j que voc no sabe faz-lo .  Ainda vai agradecer me.  Se eu no ajudar, voc se transformar em uma solteirona nervosa e mercenria, o que no condiz com uma mulher que deve ser esposa e me.  
       Dr.  Marcondes se comovia ouvindo seus prprios argumentos.  Mas a moa limitou-se  a olh-lo de frente e a dizer com voz firme:
        No consinto que decida sobre minha vida.  Recuso-me  a aceitar sua interferncia.  Sei o que quero e tenho condies de realizar o que desejo.  Se errar, responderei pelo meu erro, mas ser deciso minha.  
        Vai me obedecer.  Sou seu pai!   tornou ele, irritado.  
        No nisso.  A vida  minha.  Tenho direito a decidir o que fazer com ela.  Isso no diminui meu respeito de filha, mas farei aquilo que eu quiser.  
        Est sendo ingrata.  No v que estamos na misria?  Chegamos ao ponto de precisar da esmola daquele matuto para poder tratar o Jorge?  Tenho feito tudo pela famlia, e agora, que precisamos dos filhos, o que colhemos?  Ingratido, desobedincia, descaso! Isso vai me matar! 
       Levou a mo ao peito e sentou-se  no sof, curvando a cabea:fossem outros tempos, a moa simplesmente teria ignorado a cena, de cuja sinceridade duvidava.  Mas agora, quando sabia da verdade sobre a vida espiritual, quando procurava ajudar Jorge compreendendo-lhe as fraquezas, no podia deixar de pensar que seu pai tambm era um esprito fraco e desviado do bem.  Se queria ajudar o irmo, porque no ajudar tambm o pai, infeliz e desorientado, colhendo os frutos amargos da sua leviana semeadura?  
       Aproximou-se  dele, tocada de compaixo.  Porm, sentiu que precisava ser sincera.  
        Pai  tornou com voz firme.    Quero acreditar que esteja sendo sincero, que, apesar de tudo, nos tenha amor.  Porm, devo dizer-lhe que no sou responsvel pelos seus sofrimentos.  No contribu para a nossa runa financeira.  Pelo contrrio, sempre procurei no ser pesada e, se quer saber, tenho trabalhado com tradues para suprir minhas despesas.  
       No vou me casar sem amor, no vou fazer casamento rico para salvar a situao da famlia.  No tem o direito de exigir isso de mim e eu no o farei.  A fortuna tem sido causa de muitos dos nossos sofrimentos.  Se Jorginho tivesse sido pobre e obrigado a trabalhar pelo seu sustento, talvez no lhe tivesse sobrado tempo para que mergulhasse no erro.  E voc, pai, homem culto e experiente, advogado brilhante, tem agora ocasio de mostrar sua capacidade profissional, o que lhe dar renda mais do que suficiente para viver decentemente.  Por que tanto orgulho?  Por que tanta ambio?   Ainda  tempo.  Por que, no reage?  
       Dr.  Marcondes sentiu que no fundo a filha tinha razo.  Chegava a surpreender-se  de encontrar tanta maturidade naquela que ainda considerava criana.  Mas ele reagiu.  Como admitir que ela       pudesse ditar-lhe normas?   Ela no era seu pai?  
        No admito que me diga o que devo ou no fazer.  Ainda voltaremos ao assunto.  
        Como queira, papai.  Sabe como penso.  No vou mudar.  Agora, vou ver Jorge.  
       Renata olhou-a  com respeito.  No concordava muito com suas idias,  mas a invejava.  Parecia to segura! Reduzira a fria paterna, com energia e firmeza.  Comeava a pensar que talvez ela tivesse razo.   Se o marido trabalhasse com seriedade, talvez melhorasse a  situao da famlia.  Duvidava que ele conseguisse sucesso profissional.  Tudo quanto ele conseguira fora atravs do relacionamento e do nome da famlia, do suborno e da astcia.  Se trabalhasse seriamente, agora que o dinheiro no mais o favorecia, conseguiria vencer?  Maldosamente, insinuou:
        Tem medo de medir sua capacidade?  Sem dinheiro para distribuir, s pelo esforo e trabalho, teria sucesso?   
       Ele levantou-se  furioso:
        Vocs hoje resolveram humilhar-me.  No vou suportar mais isto.  
       Saiu batendo a porta com fora.  Renata, tranquilamente, retomou a revista e passou a folhe-la  gostosamente.  
       Saindo dali, Maria da Glria dirigiu-se   casa de Lucila.  Haviam combinado estar l no horrio da reunio.  Sara mais cedo porque pretendia passar pelo hospital para saber de Jorge, mas estava angustiada.  Sentiu desejo de desabafar.  Fazia-lhe enorme bem a casa e a companhia de Lucila.  
       Foi recebida com alegria, e Ins logo registrou sua preocupao.  
       Maria da Glria explicou:
        Preciso conversar com vocs.  Perdoem-me  vir mais cedo, mas tive uma cena muito desagradvel com papai e no tive coragem para ver Jorge.  Quero ir v-lo bem disposta, levar-lhe bons pensamentos.  
        Vem  convidou Lucila  , vamos sentar nos aqui.  Foi muito bom ter vindo mais cedo.  
        Obrigada, D.  Lucila.  Aqui, sinto-me  encorajada.  
       A moa contou-lhes a cena de momentos antes, concluindo:
       - Sei que agi certo; porm, sinto-me  angustiada.  Pela primeira vez notei o quanto meu pai  fraco e infeliz.  Antes eu sentia raiva,  criticava-o duramente, culpava-o de todos os nossos problemas;mas agora, tudo se me afigura diferente.   
       Compreendendo nossas fraquezas e limitaes, como julgar?  Tia Carolina disse que no passado todos contribumos para a situao atual.  Se estou com eles, ali,  porque tambm o mereo.  No sei o que fiz nem o que fui em vidas passadas, mas sei que no o amei como filha.  Que sempre lhe tive averso, mais ainda do que  minha me.   
       No terei tambm uma dvida para com ele?  Pela primeira vez pensei nisso, e senti pena dele e vontade de ajudar.  Como poderei?  
       Lucila passou a mo pelos cabelos da moa com muito carinho:  Filha, sente como Deus  bom, permitindo que voc possa enxergar um pouco a verdade.  Nada sabemos sobre o passado de vocs, a no ser o que nos revelou Carolina.  Ela disse nos que  muito ligada a voc,  o que nos faz supor que nossas vidas esto entrelaadas h muitos anos.  Entretanto, se voc sente vontade de ajud-lo ,  sinal de que pode faz-lo .  Agiu bem.  Ns no podemos julgar o prximo, mas tambm no podemos compactuar com seus erros.  Fazer o que ele quer seria contribuir para maior infelicidade.  Sua atitude corajosa, firme, foi a mais acertada.  Naturalmente, ele no vai concordar.   
       Seu orgulho no vai permitir.  A educao atual ainda no se libertou do patriarcado.  Sei que voc vai lutar, mas deve manter seu ponto de vista.  E enquanto no o deixa intervir desastrosamente em sua vida, procure dar-lhe carinho, atenes, amor de filha, para que ele sinta que, apesar de tudo, voc o estima e deseja v-lo feliz.  
       A moa sorriu animada.  
        O que seria de mim sem vocs! 
        Tem Humberto.  Ele  esprito equilibrado e forte.  Sero muito felizes.  
        Assim espero.  Encontr-lo fez-me  grande bem.  Sabe compreender me.   Acha que ter pacincia com meus pais?  Ele  to diferente! 
        Claro.  Humberto sofreu muito,  homem experiente.  Depois, conhece a vida espiritual.  Sabe bem da nossa realidade.  Por certo, tudo far para apoi-la  nesse sentido.  Por que no conversa com ele a respeito?  
         uma boa idia.  Eu o farei.  
       A conversa seguiu animada.  Tomaram um ch com torradas na copa acolhedora enquanto aguardavam a chegada dos demais para a sesso da noite.  
       Fazia quinze dias que o Dr.  Euclides se manifestara e j tantas coisas haviam acontecido e modificado suas vidas.  Maria Luza,  embora sem conhecer toda a verdade, desejava participar, e por isso acompanhara a me naquela noite.  Eles haviam realizado outra reunio na semana anterior, onde houve apenas orientao e conselhos de Carolina e de outros espritos amigos, pedindo pacincia e oraes em favor de Jorge e de seus inimigos.  
       Faltavam cinco minutos para as oito horas quando agruparam-se  em torno da mesa e a reunio teve incio.  Ins leu uma pgina do Evangelho segundo o Espiritismo aberta ao acaso, falando da necessidade de perdo.  
       D.  Lucila proferiu sentida prece por Jorginho e por seus pais,  suplicando a ajuda do alto:Ao terminar, pediu:
        Permaneamos orando em silncio.  
       Por alguns instantes todos atenderam, imersos em seus pensamentos ntimos, pedindo por Jorge.  De repente, um riso sarcstico os fez estremecer.  Aurora, sacudida por tremores involuntrios, ria sem parar.  Depois, com  voz irritante e rouca:
        Ah!  Esto pedindo pelo menino! Coitadinho! To inocente...  D-me  vontade de chorar.  
       Lucila atalhou com serena energia:
        No se compadece dos sofrimentos dele?  
       O esprito casquilhou uma risada:
        Eu?  ! Claro, claro.  S que esse  apenas o comeo.  No v que ele precisa evoluir?  Ns vamos ajud-lo .  Quanto mais sofrer mais depressa vo crescer-lhe as asas de anjo.  No  uma boa idia?  
       Lucila respondeu:
        O surpreendente  que realmente Jorge est se fortalecendo pelo
       sofrimento e a experincia, embora voc realmente no acredite nisso.  Mas o que  mais verdadeiro ainda  que voc, pelos sofrimentos que provoca nele e em sua famlia, est se colocando como ru da divina justia, onde ter que responder pelos seus atos.  
        No tenho medo.  Depois, no creio nessa to falada justia divina.   Onde tem se escondido, que no castigou os que me feriram?  
        O fato dela no agir de acordo com o que voc deseja no quer dizer que ela no esteja atuando em toda plenitude.  A diferena est em que ela no visa  vingana, e sim a restabelecer o direito, restaurar o equilbrio, conscientizando a criatura do papel que lhe cabe na criao.  
        Por isso no pune os assassinos, os patifes que enganam e corrompem os lares honestos, que ferem nossos sentimentos?   Que justia  esta que nada fez quando eu estava arrasado, arruinado,  pisado, e que deixa que o algoz goze de todas as regalias do conforto e da liberdade para continuar a destruir?  
        Voc deve ter sofrido muito  disse Lucila com carinhoso acento.  
        No vim para falar dos meus sofrimentos.  Agora j estou satisfeito.  Ele comea a pagar! Vim aqui para lhes falar a verdade.   s oraes que fazem incomodam-me.   
       Fazem-me  sentir contrariado, porque vocs invertem as coisas.  Ele est agora escondido em um corpo jovem,  sentimental e simptico,  chega at a ser delicado.  Se no o conhecesse eu!  Ento, vim para contar-lhes a verdade.  A vtima sou eu, no ele! E junto comigo h muitos outros.  No vamos deix-lo mais at que ele esteja na sarjeta e possa, depois de destruir esse belo corpo onde se oculta,  vir para c, no ajuste de contas que se faz necessrio.  A  que vamos ver! 
       Lucila argumentou com ele quase uma hora, com firmeza e carinho,  tentando modificar-lhe os pensamentos.  Tudo intil.  Foi ento que o esprito de Carolina, que tentara vrias vezes ser vista por ele sem resultado, envolveu Ins, que comeou a falar:
        Olhe para mim.  No se lembra?  
       Silncio.  Ela continuou:
        Foi h muito tempo.  Esquece um pouco o presente e volta ao passado.  
        Quem me fala?    tornou ele angustiado.    Quem est aqui?  
        Olhe para mim.  No me conhece?  
        Voc?  O que quer de mim?  Por que me persegue?  Por qu?  
        No desejo seno a sua felicidade.  Por que tanto dio em seu corao?  Por que perder-se  na destruio e na vingana, se h muito eles o aguardam em um mundo melhor, orando em seu favor?  
        No sou digno deles enquanto no me vingar dos seus algozes.   Como posso olh-lo s antes disso?   Por que os defende?  No foi tambm vtima?  No lhe tiraram o filho, no lhe tiraram a fortuna, o lar,  tudo?  Voc ainda os defende?   Eu vou arras-lo s um a um.  
        Se quer fazer isso, ningum o impedir.  Mas olha como eles sofrem por causa disso.  Veja, eles esto aqui.  Suplicam que voc perdoe e esquea:esto cansados de dios.  Querem ser felizes e esquecer, mas querem seguir com voc.  
       Uma crise de solues acometeu o esprito, e Aurora chorava sentidamente.  
        Vocs vieram, finalmente! Esto aqui, vejo-os! Que vergonha, estou como um indigente.  Que injustia! No quero que me vejam, no quero! 
       Carolina tornou:
        Eles sempre estavam vendo tudo quanto voc fazia ou dizia.  Voc  que no conseguia v-lo s.  Perdoa agora, e poder seguir com eles para um local de refazimento.  Perdoa, ajuda o nosso Jorge, eu peo,  para que voc tambm possa preparar-se  para uma nova reencarnao,  livre do peso do  remorso, foi entre soluos que ele disse: 
        Eu perdoo.  Esquecer no sei se poderei, mas no vou mais vingar-me  dele.   um fraco.  Vou deix-lo para sempre.  Nunca mais quero v-lo .   
        Convide seus amigos a deix-lo tambm.  Sei que lhe obedecero.     Vou tentar.  Rever Marisa e Alberto foi um sonho que se concretiza;ir com eles, parece mentira! Sempre voc tem me socorrido.  Eu sei.  Que Deus te abenoe.  
       Com um suspiro, Aurora abriu os olhos e respirou fundo.  
       Carolina continuou:
        Vocs ainda ignoram todo o passado.  Posso dizer por agora que
       Jorge, em outra encarnao, jovem ainda envolveu a esposa de um comerciante, conquistando-a .  No contente em perturbar-lhe o lar,  ainda a levou a arruinar o marido para dar-lhe dinheiro, que consumia em suas extravagncias.  Quando o pobre homem desconfiou,  j arruinado e desorientado, ameaou mat-la  e ela deixou-o,  aconselhada por Jorge, levando o filho pequenino.  O marido abandonado comeou a beber e nunca mais pensou seno em encontr-lo s para vingar-se .  J no plano maior, continuou pensando em vingar-se , juntou-se  a malfeitores, tornou-se  duro e cruel e envolveu um falsrio, influenciando-o para que destrusse Jorge.   
       Cego pela ambio, esse falsrio o matou.  Intil ser dizer que o comerciante o recebeu aps a morte, cobrando sua dvida duramente.   Durante muitos anos Jorge foi escravo dele, sofrendo-lhe os maus tratos.  Assim que foi possvel, conseguimos, em caravana de socorro,  libertar Jorge da tutela do implacvel inimigo, e o que lhe tinha tirado a vida, arrependido, concordou em receb-lo como filho e ajud-lo nesta encarnao.  Contudo, o comerciante, cujo nome  Mrio, irritado com a interveno dos nossos maiores, tirando-lhe Jorge do raio de ao e planejando-lhe nova encarnao, descobriu o plano e transferiu todo seu esforo sobre Jos, meu cunhado,  que a essa altura era um menino j na Terra.  Envolveu-lhe nas fraquezas, incentivou-a s e conseguiu atir-lo ao vcio, e se no fosse a interveno dos parentes, t-lo  ia conduzido  runa e  misria total.  Foi ele que inspirou as atitudes levianas de Jos,  induzindo-o a levar Jorge a ambientes perigosos, certo de que, por seus antecedentes, tanto o pai como o filho seriam presa fcil para os seus planos.  Contudo, hoje logramos comov-lo .  A presena da ex esposa e do filho, que lhes foi mostrada como eram em sua lembrana, conseguiu finalmente abalar e comear a derrubar a muralha de dio do seu corao.  O estar com eles ser para ele o maior estmulo ao perdo e  melhoria.  
       Maria  da Glria chorava emocionada e todos estavam comovidos.   Lucila, aproveitando a pausa, perguntou respeitosa:
        Podemos esperar a recuperao de Jorge?  
        Bem.  Livre da presena desses infelizes, tanto ele como o pai tero melhores condies para o reequilbrio.  Mas no podemos esquecer nos de que o milagre no existe.  A influncia de Mrio foi to perniciosa porque eles guardavam dentro de si o automatismo do desregramento passado, que, no obstante os renovados e sinceros desejos de melhoria que eles sempre sentiram, por vezes ainda os tem arrastado.   claro que Jorge sair do sanatrio ainda esta semana e estar melhor;porm, para que a recuperao se efetive, h que ajud-lo para que se renove mentalmente e aprenda a enxergar a vida como ela realmente .  A realidade do esprito e da sobrevivncia, da reencarnao e do livre-arbtrio, no pode ser ignorada.  Esse  um trabalho que vai depender muito do esforo e do carinho, da pacincia e do amor de vocs.  Creiam que agradeo do fundo do corao por tudo isso.  Conhecendo-os bem, acredito que se sentiro felizes em ajud-los.  Ns estaremos sempre por perto.   Lucila querida, lembra sempre que o nosso Jorge reencarnou em tarefa medinica de auxlio ao prximo e dever ser preparado muito bem para auxiliar nas curas dos processos obsessivos, mal que tem conduzido ao suicdio, ao presdio,  runa, aos hospitais e sanatrios, boa parte da humanidade.   a maneira dele se equilibrar sob a proteo dos nossos maiores.  Abrao-os com carinho.  Agora,  preciso ir.  Geraldo, meu filho, fiquei feliz com seu casamento com Maria Luza.  Eu a amo muito, minha filha.  Deus a abenoe.  
       Lucila encerrou a reunio.  Maria Luza estava emocionada.  Jamais pensara que as vidas se encadeassem assim.  Queria conhecer toda a histria, mas Lucila desviou o assunto com habilidade, pretextando fome, e convidou-os ao caf e ao lanche, dizendo que outro dia lhe contariam tudo.  Aurora estava plida.  No queria que a filha  descobrisse a verdade.  Sofria muito por isso.  Com carinho, Lucila levou a conversa para outro campo, dizendo:
        No  devemos comentar muito os fatos dolorosos do passado.  
       Nossas frases so como setas dolorosas a remexer nas feridas dos envolvidos.  Falemos do nosso Jorge, que ainda nesta semana estar conosco.   
        Mal posso acreditar!   tornou Maria da Glria com alegria.    no podemos esquecer que Jorge precisa praticar a mediunidade.  Como pode ser isso?  
        Primeiro, ele necessita equilibrar-se .  Depois, dever estudar bem
       O Espiritismo para compreender as Leis de Deus que nos regem, e depois, equilibrar, desenvolvendo sua percepo medinica.  Assim,  estar preparado para dedicar-se  ao socorro dos aflitos a quem poder beneficiar.  
        Fazendo sesses como a de hoje aqui?    perguntou Maria Luza, interessada.  
        Sim.  S que, para atender a doentes e perturbados, ser necessrio ter um local reservado para esse fim.  No ser aconselhvel realizar essas sesses dentro do prprio lar.  O nosso caso  especial.  Trata-se  de compromisso que assumi com Carolina, e por isso conto com a proteo do grupo dela para este caso.  Mas fora isso, precisamos de certa cautela.  
       O assunto despertou interesse, e por isso, j na copa, em meio ao saboroso lanche carinhosamente preparado, o qual Aurora enriquecera com algumas das suas receitas especiais, eles continuaram:
        Quer dizer que depois que o Jorge melhorar e esse caso for resolvido, no vamos continuar com nossas sesses?    inquiriu Humberto, pesaroso.  
        No dessa forma.  Continuaremos com o estudo evanglico, prece e eventualmente alguns conselhos de espritos amigos, mas casos de obsesso, no.  
        Por qu?    perguntou Geraldo.  
        Voc atende um doente que esteja passando mal, em estado grave,  dentro de sua casa?  
        Por certo que no.  H que lev-lo a um hospital.  
         o mesmo caso.  Uma perturbao espiritual, uma obsesso, seja de que tipo for, requer assistncia especializada.  No Centro Esprita,  alm do atendimento dos encarnados, j h instalado, no plano espiritual, um verdadeiro hospital adequado a assistir cada caso.  
        Quem diria!   tornou Maria da Glria, admirada.  
        O fato de morrer no indica mudana de temperamento.  O mundo para onde vamos tambm se vale dos recursos da terapia e da medicina para ajudar os espritos.  O morrer no nos cura dos nossos problemas;algumas vezes continuamos sentindo as doenas, as dores e os desequilbrios tanto ou mais do que quando no corpo de carne na Terra.  Temos um corpo que sobrevive  morte da carne e com ele permanecemos, e ele pode necessitar de socorro.  Depois, uma obsesso,  isto , a perseguio de uma entidade desencarnada a algum,  processa-se  pela influncia txica e lesiva que o agente interessado lana nesse corpo do seu inimigo.  Ento, o vidente pode ver que o doente de obsesso tem ligado a si no s o esprito que o agride como seus companheiros, s vezes reunidos em sinistros pactos de vingana.  Por vezes so vrios inimigos, cujo passado doloroso podemos imaginar, que se unem  vtima, enfraquecida, pela conscincia dos seus erros.  
        No caso de Jorge, ele no se recorda de nada do passado.  No  uma injustia?    perguntou Geraldo.  
        No.  Apesar dele no ter conscincia de sua falta, ela est no seu inconsciente, que tem um arquivo completo de suas vidas anteriores.  L, ele sabe, e teme.   
       Isso o torna sem coragem para reagir.  
         interessante  tornou Humberto, pensativo.    Carolina disse que grande parte das pessoas so obsediadas?  
        A  influncia perniciosa nem sempre  ostensiva.  Como vimos no caso de Jorge.  Pode aparecer na forma de doenas.  
        Como assim?    inquiriu Maria Luza.  
        Basta o agente perturbador inspirar sua vtima para que se intoxique, pelo excesso de alimentos, de remdios, de drogas, de clera,  de intemperana.  
        Puxa! Como ningum se preocupa com isso?    Maria da Glria estava assustada.  
        Porque a obsesso sempre entra pela porta das nossas fraquezas.   Elas  que oferecem campo aos espritos que nos querem atingir.   Seria preciso reconhecer isso em primeiro lugar;depois, seria preciso mudar, e quem deseja faz-lo ?  
        No  fcil  suspirou Aurora  , mas quando o conseguimos,  uma felicidade.  O benefcio vem na hora.  
        , querida  esclareceu Lucila.    Voc tem se esforado, e a sua mediunidade comea a dar bons frutos.  Hoje conseguiu pelo menos mais trs amigos que jamais se esquecero dos seus prstimos.  
        Como assim?    perguntou Maria Luza, interessada.  
        Aquele infeliz Mrio, que atravs do concurso de Aurora conseguiu sair da sua cristalizao mental que o impedia de ver os entes que amava e o esperavam h tanto tempo.  Seu auxlio, aceitando ligar-se  temporariamente a ele, oferecendo-lhe sua vibrao amiga, o despertou.  
        Quem fez tudo foram eles  respondeu Aurora, humilde.  
         Por certo.  Mas voc foi o instrumento.  No  uma felicidade?  O assunto prosseguiu animado, e Lucila, incansvel, esclarecia dvidas com carinhosa solicitude.  
       Quando se retiraram, estavam sentindo enorme bem estar.  
        Apesar de tudo, podemos vir na semana que vem para a reunio?   tornou Maria da Glria.  
        Claro.  J  disse que nosso caso  especial.  Mas, independente disso  um prazer t-lo s aqui e estudarmos juntos.  
       Despediram-se .  Humberto acompanhou Maria da Glria, e conversaram sobre os ltimos acontecimentos.  Era tarde quando a moa entrou em casa e a luz da copa estava acesa.  Foi at l e encontrou o pai sentado  mesa, tomando um copo de vinho.  Vendo-a , olhou-a  e nada disse.  Em outras circunstncias, teria reclamado pela hora tardia.   Mas estava deprimido.  No disse nada.  A moa sentiu-se  penalizada.   Decidida a ajud-lo , aproximou-se  e tornou:
        Boa noite.  Voc jantou?  
       Um pouco admirado, ele respondeu:
        No, acho que no.  
       A moa foi  geladeira e procurou algumas guloseimas.  
        Papai, aprendi a fazer um sanduche muito gostoso.  Vou fazer um para voc.  
        No quero.  Estou sem sono.  Quem sabe com este vinho eu consiga dormir.  
        Posso fazer-lhe companhia?  
       Ele estava assustado.  O que acontecia com a filha?  Nunca o procurara.  Ele estava se sentindo s como jamais o fora.  Era como se lhe faltasse algo, um vazio que no saberia explicar.  Funda tristeza o acometia.  Por isso, sacudiu os ombros, indiferente.  
       A moa sentiu aumentar sua piedade.  Ele lhe parecia mesmo muito triste.  Jamais o vira assim.  
       Foi at o fogo, aqueceu o po, o queijo, e preparou o sanduche,  acrescentando fatias de carne assada; com ar triunfante, colocou o prato diante dele.  
        Voc vai comer.  Na faculdade, agora, s se come isso.   moda.  
        delicioso.  
       Jos olhava o prato apetitoso sem muito interesse.  A moa olhava com carinho e expectativa.  De repente, ele pensou que sua filha estava muito diferente.  Por qu?   Ele estava magoado, muito s.  Por que recusar esse gesto to raro da filha?  Talvez ela estivesse arrependida da cena da tarde.  J que pela violncia no conseguia dobr-la , por que no pela amizade?   Sem vontade, pegou o sanduche e levou-o  boca.  Realmente, tava muito bom.  
        Gostou?  
        Muito.  No sabia que voc gostava de cozinha.  
        Gosto.  Qualquer dia vou fazer um creme que Ins me ensinou.  
       Acho que vai gostar muito.  
       Ele estava pasmo.  Nunca  vira a  filha interessar-se  pelas lide domsticas.  
        E?  ...  
        .  Quer mais um?  
        Eu no tinha fome, mas agora acho que comerei mais um.  
       Com alegria a moa foi preparar, e continuou conversando sobre vrios assuntos, alegres e agradveis.  Meia hora depois, Jos estava mais disposto e relaxado.  
        Agora  vou dormir, acho que estou com sono.  A moa aproximou-se  dele e beijou-o na face.  
        Boa noite, papai.  Espero que durma bem.  
       Jos olhou-a  meio desconfiado,  mas a moa estava com a fisionomia calma e alegre.  Foi com naturalidade que respondeu:
        Boa noite.  Durma bem, filha.  
       A moa estava feliz.  Seu irmo iria melhorar e seu pai, por certo,  tambm.  Haveria de ajud-lo s no que pudesse.  
       
       
           
       CAPTULO 16
       
       
       Eram quase quatro da tarde de um dia quente de vero.  A chuva cara durante toda a manh e ainda pela tarde o cu nublado pressagiava que ela iria prosseguir.  Fazia calor.  Maria da Glria, contudo, estava contente.  Foi com o corao cheio de esperana que procurou por Jorge no sanatrio.  Ele estava no jardim.  A assistente conduziu-a  a um terrao envidraado, onde vrios pacientes conversavam.   Sentado em uma espreguiadeira estava Jorge.  O corao da moa sofreu um abalo.  Como estava magro!   
       Seu rosto estava plido e triste.  
        Jorge!   chamou, aproximando-se  e abraando-o com carinho.  
       Beijou-o na face.    Deixe-me  v-lo ! Como est?  
       O moo fitou-a  com olhos tristes.  
        Desanimado.  Veja voc  mesma a que  estou reduzido.  
        No diga isso.  Tudo passou.  Agora voc vai melhorar, e deixar este hospital.  J est muito melhor.  
        No acho.  Parece-me  que perdi o gosto de viver.  Nada me importa.   Sou um fraco, sem coragem nem esperana.  
       A moa sentou-se  a seu lado, tomando-lhe a mo e apertando-a  com calor, como a querer transmitir-lhe foras e conforto.  
        Isso passa.  Logo voltar para casa, que tem estado muito vazia sem voc.  Creia, sentimos sua falta.  
        Voc, pode ser, mas eles nem sequer vieram ver me.  
        No seja ingrato.  Mame tem sofrido muito.  E tem vindo.  Voc estava em tratamento e no pde v-la .  Vai ficar feliz em saber que est bom.  Trago tambm abraos de Ins, sem mencionar D.  Lucila, Humberto,  Maria Luza e Geraldo.  Ele tem sido maravilhoso.  No s veio aqui como exigiu os maiores especialistas, com tudo o que fosse necessrio de melhor.  Fez questo de pagar tudo.  
        Vocs deixaram?  
        E quem pode teimar com ele?  Quando eu soube j tinha pago tudo, e Humberto fez tudo sem eu saber.  O que ele quer  voc de volta bem disposto e alegre.  
        Papai vai ficar ofendido.  
        Ele ficou um pouco, mas no tinha mesmo o dinheiro.  Mame ficou comovida.  Por ela, as coisas no estariam to desagradveis entre eles.  
        Claro! Geraldo tem muito dinheiro!   disse ele irnico.  
        Jorge, mame o ama muito, embora  sua maneira.  Ela faz o que pode.   Por certo, ainda no sabe ser melhor.  Depois, ns tambm no a temos ajudado muito.  Eu, isolada em meus prprios problemas, e voc, no a levando a srio nem em suas qualidades de me.  Devemos reconhecer que nunca procuramos entender as limitaes deles, nem ajud-lo s a se tornar melhores.  Eles no tm sido os pais que desejamos, mas teremos sido bons filhos?  
       O moo calou-se .  Em outra circunstncia teria argumentado,  estranhando a mudana da irm;mas naquele instante, quando acordara do pesadelo em que se vira mergulhado, compreendera a pequena distncia que havia entre a loucura e o equilbrio.  Sentara-se  ali,  indiferente s belezas do jardim que se estendia ao redor,  dor dos companheiros e at ao seu prprio destino, perguntando-se  que rumo daria  sua vida sem objetivo e sem ideal.  Parecera-lhe natural ouvi-la  falar daquela forma.  Sua vida vazia e intil, ftil e desajustada, no lhe oferecia subsdios a uma renovao efetiva.   Depois, para que lutar se no conseguia vencer a tentao na hora precisa, deixando-se  arrastar pela paixo e pela iluso?  Suspirou fundo.  
        Pode ser.  Eu nunca soube fazer nada na vida.  Tenho sido sempre um intil.  Agora no h mais como mudar.  Meu destino  cair, levantar, cair, levantar, como tenho feito at agora.  Nem sei como Geraldo se interessa por mim.  No valho isso.  Depois de tudo quanto ele tem  feito.  Depois de D.  Lucila, de Ins, todos me terem recebido com tanto carinho, eu fracassei.  Eu ca, eu no pude parar.  Joguei, bebi, fiz tudo  errado.  Agora no estou em condies nem de v-lo s.  Diz a eles que me esqueam.  Vou ficar aqui mesmo.  No sei ainda o que fazer.  
       Maria da Glria estava um pouco decepcionada.  Pensara encontrar o irmo bem disposto, melhor e renovado, e o encontrara naquela depresso.  Contudo, no podia desanimar.   
        Ora, Jorge, voc est enfraquecido.  Precisa sair daqui, recuperar a cor, ver os que o amam e ver como tudo ser diferente!  
        Voc  muito boa, mas muito inexperiente.  Sabe que o que eu digo  verdade.  Se eu sair, vou aguentar uma, duas semanas, e depois comeo tudo de novo.  
        Sei que  difcil para voc, mas ns vamos estar a seu lado.  No importa quantas vezes caia no mesmo erro.  Ns o amamos muito e no importa suas fraquezas.  O que mais eu sinto so suas qualidades,  sua amizade, seu corao bondoso e amigo.  Depois, por que ser to pessimista?  Voc ver que tudo vai ser diferente.  Deus vai nos ajudar, e desta vez acredito que voc conseguir vencer.  
       Com pacincia e carinho a moa continuou conversando com Jorge,  que apesar do esforo dela se conservava triste e desalentado.  Foi com o corao partido que Maria da Glria o deixou, duas horas mais tarde.  Apreensiva, procurou Lucila, que a recebeu com o carinho de sempre.  Assim que viu-se  sentada entre as duas amigas, desabafou:
        Jorge est mal.  No reage, est deprimido e triste.  No consegui
       tir-lo desse estado.  No sente alegria de viver, e parece at que lhe  indiferente o seu futuro.  Logo ele, sempre to alegre, to cheio de vida.  
       Lucila olhou-a  com carinho e esclareceu:
        Tudo isto  natural.  No podemos esquecer-nos de que Jorge estava envolvido pelo esprito de Mrio de tal sorte que seus pensamentos se misturavam.  Suas energias em comum exerciam em Jorge um domnio que o fazia sentir-se  forte e destemido.  Essa ligao existiu durante muitos anos;mesmo antes de Jorge nascer, era dirigido pelo outro.  Agora, de repente, sente-se  desprotegido.  Com a separao dos dois, Jorge ter que recomear a conhecer-se  e a readquirir domnio sobre si mesmo e sobre sua prpria vida.  Est inseguro.  Falta-lhe o comando de Mrio, a cujo assdio, embora pernicioso, acostumou-se  a obedecer.   como um filho cujo pai o tenha mantido sob excessivo controle, fazendo tudo por ele, e de repente o atira ao mundo para enfrentar seus problemas, afastando sua proteo.  A princpio ele se sentir inseguro e o triste estado de fraqueza que registra o vai deprimir;mas depois, com certeza comear a aprender e a reagir.   Nosso papel agora  dar-lhe apoio e amor.  
        No compreendo.  A influncia do Mrio era perniciosa.  Ele o estava destruindo.  Pensei encontr-lo alegre e bem disposto, agora que ficou livre.  
         primeira vista pode parecer lgico, mas a experincia nos tem demonstrado uma realidade diferente que, se pensarmos bem,  natural e at inevitvel.  Mrio, embora desejoso de vingar-se  e de destruir Jorge, para reduzi-lo a planos infelizes, procurou fascin-lo ,  envolv-lo com astcia, explorando-lhe os pontos fracos, a vaidade e as iluses.  Deve ter-se  mostrado envolvente, simptico, atraente,  deve ter incutido em sua vtima pensamentos de fora,  independncia, auto suficincia, euforia e at de atrao para o sexo oposto.  A obsesso comea sutil e empurrando a vtima para o materialismo, avivando-lhe os instintos e dourando a plula.   Infelizmente, raros percebem esse envolvimento, seno quando j dominados e sem vontade prpria, em estado at de hipnose profunda,  e sem coragem de reagir, mesmo porque gostam do vcio em que se afundam.  
        Que horror! Jamais pensei que isso fosse assim.  Ento, a maioria das pessoas que conheo so inspiradas por esses espritos?  
        Carolina situou o problema em grande parte das criaturas, mas devemos convir, para sermos justos, que o agente da obsesso nem sempre  um esprito desencarnado.  
        Como assim?  
        Pode ocorrer que as pessoas gostem tanto de dar vazo aos instintos que atraem para seu lado a companhia de espritos doentes e infelizes, viciados de ontem, que se ligam a elas em regime de permuta de sensaes e emoes.  
        Nesses casos, nada se pode fazer?  
        Quase nada.  Todos tm a liberdade para escolher.  Se preferem viver assim,  difcil intervir.  
        E como vo acabar?  
        O desgaste pode causar a leso nos rgos aviltados do corpo fsico, a impotncia para os abusos do sexo, a cirrose heptica para os excessos do lcool, a arteriosclerose pelos excessos de energia nociva nos centros de fora do perisprito, as loucuras, as manias,  enfim, toda sorte de desequilbrios que conduzem ao sofrimento e  dor.  
       Maria da Glria estava pensativa.  
        Como  que ningum ainda fala nisso?  O que me surpreende  que ningum liga e deseja libertar-se  do problema.  
        O que demonstra que todos somos ainda espritos muito infelizes e cheios de fraquezas.  Tambm h pessoas abnegadas e bondosas que
       procuram suavizar o sofrimento humano.  Por enquanto, o que podemos fazer  orar e compreender.  O mdico no disse quando Jorge poder deixar o hospital?  
        Ele est melhor, e o mdico disse que espera apenas que ele saia
       da apatia depressiva em que se colocou para dar-lhe alta.  
        Nesse caso, amanh eu e Ins iremos fazer-lhe uma visita.  Vamos ver se lhe damos uma injeo de nimo.  
        Por certo.  Deixem comigo.  Sei como fazer isso!   Ins sorriu maliciosa, e as duas riram da sua expresso.  Maria da Glria olhou-a s, e um brilho emotivo em seu olhar dulcificou suas palavras:
        Vocs so maravilhosas! No sei o que seria de ns sem vocs! 
        No fale assim, que podemos acreditar.  Agora, vamos falar de coisas mais alegres.  Que vestido deverei usar amanh?  Deve ser algo que deslumbre nosso Jorge e lhe devolva o entusiasmo de viver!   tornou Ins.  
        Voc  to bonita que ele por certo vai se animar.  Por que no veste aquele azul claro?  Vai-lhe muito bem, e Jorge adora azul! 
       Nos dias que se seguiram elas foram visitar Jorge diariamente.  A princpio ele estava triste e abatido, mas depois, aos poucos, foi comeando a melhorar.  Geraldo e Maria Luza tambm o cobriam de carinho e gentilezas, e aos poucos Jorge foi se sentindo mais seguro e com vontade de viver.  
       A alta veio e ele no estava com vontade de ir para casa.  Alegava que l ningum iria v-lo , o que fez Lucila observar com um sorriso malicioso:
        Pelo jeito, voc quer continuar doente, recebendo vistas,  docinhos, mimos e agrados.  Agora chega.  Vai para casa e fica intimado a ir tomar ch conosco todas as tardes.  
        Claro  completou Ins, alegre  , poderemos fazer msica.  Alis, 
       voc precisa ver meu progresso.  Aprendi algumas novidades e quero mostrar-lhe.  
        Eu tambm espero voc em casa.  Temos que conversar.  Agora que est melhor, vou adotar voc como irmo mais novo.  E nem quero saber se concorda.  Jorge estava emocionado.  Eles preocupavam-se  com seu futuro e o  queriam bem.  
        Est bem.  Irei para casa, mas amanh mesmo cobrarei tudo que prometeram.  No pensem que vou esquecer.  
       Naquela mesma tarde Jorge foi para casa.  Com alegria Maria da Glria o acompanhou, e Renata, vendo o filho entrar, atirou-se  em seus braos chorando.  Tinha ido visit-lo no sanatrio, mas a emoo de v-lo de volta a descontrolou:
        Filhinho meu!  Como est magro! O  que lhe fizeram?  
       A fisionomia de Jorge contraiu-se  num ricto de tristeza.  Maria da Glria olhou para a me com energia:
        O Jorge est timo, mame, e muito melhor.  Nada de, tristezas nem de melodramas.  Hoje  dia de alegria.  Vamos.  Chega de lamentaes.  Agora est tudo bem.  
       O olhar da moa era to firme que Renata esforou-se  para controlar-se .  Ela continuou:
        Seu filhinho no  mais um beb.   um homem.  Um homem experiente e sofrido, que tem condies por isso de recompor sua vida e dirigir seus prprios passos.  
       Jorge, que ia partir para o campo das queixas e das suas fraquezas,  calou-se  procurando controlar a autopiedade.  Tinha que ser forte e fazer jus a tanta confiana.   
       Afinal, era mesmo um homem.  E aquela era a hora de libertar-se  da dependncia materna.  Engoliu em seco e murmurou:
         isso mesmo, mame.  Alis, ningum me fez nada de mal, nunca.  
       Ao contrrio, todos tm tentado proteger-me  e ajudar;o nico errado sou eu.  O fraco sou eu.  Eu mesmo.  No sou nenhuma vtima.  Mas eu vou tentar mudar, e pode ser que eu consiga.  Vou tentar, mas no quero que se preocupem comigo.  Eu vou aprender.  
       Renata olhava admirada, sem saber o que dizer.  
        No tenho dvida de que vai conseguir.  Agora, vamos ao seu quarto,  quero que veja alguns arranjos que fiz na decorao.  Quer vir, mame?  
       Renata estava sem compreender.  A filha parecia-lhe diferente.  Nunca a convidara para participar das suas idias ou da sua intimidade.  
        Claro,  quero ver tambm -a juntou ela, tentando sorrir.  Afinal,  seu filho estava de volta.  Era um dia feliz.  Resolveu colaborar.  
       Ao chegarem ao quarto, a moa convidou-os a entrar com um brilho de alegria nos olhos.  Procurara mudar tudo para que o moo no viesse a recordar seus dias passados e recasse na angstia e na depresso.  Substitura os mveis, as cortinas, os enfeites, os quadros, tudo, com muito bom gosto e requinte, alegria e conforto.  O ambiente se transformara em um lugar aconchegante alegre e descontrado.  
        Por isso andava to misteriosa  comentou Renata, encantada.  
       Aquela delicadeza da filha para com Jorge emocionva-a .  Ela, como me, no a tivera.  O moo sorriu animado:
        Que delcia! O que voc fez?  Nem parece o mesmo quarto!  Sentou-se  na poltrona, continuando:  Esta cadeira fria e dura, em que nunca gostei de sentar, olha agora! Macia, gostosa.  Por acaso  nova?  
        No  respondeu a moa  ,  a mesma.  Mudei o estofamento e coloquei algumas almofadas.  Foi Ins quem fez.  
       Eles prosseguiram examinando detalhe por detalhe.  Jorge estava feliz.  Parecia uma criana ganhando um presente muito especial.   Renata estava muda.  Sentiu-se  comovida, mas no sabia o que fazer ou dizer.  Era feliz naquele instante.  Vivia momento de paz e de reconforto.  Era bom estar ali, para viv-lo e deixar-se  ficar.  
       Nas horas que se seguiram, eles conversaram animadamente sobre todos os assuntos e acontecimentos importantes decorridos durante o afastamento de Jorge, e Renata, surpreendida, admirou-se  de como as horas passaram rpidas e agradveis.  Jorge estava de volta, e isso era o mais importante.  
       
       
       
       CAPTULO 17
       
       
       Na sala da casa de Aurora, o Dr.  Sigifredo andava de um lado para outro, sem conseguir controlar seu nervosismo.  Estivera fora do Brasil em congresso mdico, e ao regressar fora surpreendido com a notcia do noivado de Maria Luza.  Apesar dela ter sido educada longe de casa, o velho mdico a amava muito, preocupando-se  
       com seu futuro.  O que fizera correr  casa da filha logo s primeiras horas da manh fora o nome do noivo.  O filho de Carolina!  Como pudera acontecer?  Aquele casamento no podia realizar-se .  Por certo, Aurora fora coagida por algum ou por algo que ele desconhecia para ter concordado com aquele compromisso.  Temia por ela, que a duras penas conseguira recuperar-se  da tragdia.  Como aceitar Geraldo como genro?  Como conviver com o filho daquela amiga espria e falsa?  Como?  
       Impaciente, esperava pela filha.  Estivera fora durante um ms.   Aurora por certo deveria estar doente.  Quando ela desceu, abraou-a  comovido.  
        Filha, como vai?  
        Muito bem.  Quando chegou?  S o espervamos amanh...  Iramos esper-lo .  
        Houve uma antecipao, mas isso no importa;o que me traz aqui outro assunto.  
        O que aconteceu?  Parece nervoso.  Por acaso est doente?  
        No.  Tudo est bem comigo.  Isto :estava, at receber a notcia do noivado de Maria Luza.  Por certo no  verdade.  Voc me parece muito bem.  
        Sim, papai.  Estou muito melhor.  Sente-se  aqui, a meu lado, precisamos conversar.  
        Mas eu recebi uma notcia espantosa.  Por certo no  verdadeira.  
       -se  se refere ao noivado de Maria Luza,  verdade.  Ela vai casar-se  com Geraldo Tavares de Lima.  
       Dr.   Sigifredo deu um salto, assustado:
        No entendo! O filho de Carolina! 
        , papai.  O filho de Carolina.  Sente-se  e acalme-se .  Garanto que agora sim as coisas comeam a esclarecer-se .  Sempre fugi ao passado;mas na conscincia, a culpa de haver destrudo uma vida inocente, nosso lar, lvaro, a quem sempre amei, continuava a martirizar-me  os dias, sem que eu pudesse sequer deixar transparecer.   
       Quando Geraldo veio nos visitar, a convite de Maria Luza, que travara relaes com ele, quase enlouqueci de medo, mas ele,  discreto e delicado, soube posicionar-se , e embora conhecendo um lado da tragdia, jamais a mencionou.  Maria Luza continua ignorando tudo.  Mas, papai, preciso contar-lhe como tudo se passou.  
       Aurora com voz serena, onde por vezes a comoo transparecia, relatou-lhe tudo.  Seu relacionamento com Lucila, seu apoio, sua participao nas sesses espritas, a manifestao do esprito de Carolina, terminando comovida:
        Agora , sei que fomos vtimas.  Que no sou eu s a responsvel pelo drama de nossas vidas.  O Dr.  Olavo, papai, foi o instigador da nossa desgraa.  Mas a culpa mesmo  do cime, esse monstro que arrasou minhas possibilidades de ser feliz e destruiu tantas vidas.  
       O Dr.   Sigisfredo estava estupefato.  Sua  filha parecia delirar.    Ele no acreditava em espritos nem que eles pudessem comunicar-se  com os vivos.  Mas um ponto era certo.  No confiava no advogado.  O Dr.   Olavo era refinado patife, e o pensamento de que ele manejara Aurora utilizando seus cimes doentios j lhe passara vrias  vezes pela cabea.  O velho mdico conhecia bem a maldade dos homens, com os quais privara intimamente em mais de 40 anos de profisso.  Tudo aquilo bem podia ser verdade.  Custara-lhe muito aceitar a culpa de Carolina, mulher que respeitava, e de lvaro, a quem estimava e conhecia muito de perto como homem e como mdico.   At que essa verso era bem mais lgica, e muitas indagaes se completavam.  Mas aceitar a interveno de espritos! Isso ele no conseguia.  Fixou a filha e esta lhe pareceu bem, apesar da emoo.   Algo nela agora, estava diferente.  Parecia-lhe que se humanizara.   Por isso, absteve-se  de comentar.  Afinal, pensou ele, estava habituado a ouvir pacientes contarem essas histrias.   sugesto dava bons resultados.  No podia negar que a filha aparentava grandes melhoras.  Aurora confidenciou:
        Papai, apesar da minha culpa e do meu arrependimento, sinto me aliviada.  lvaro me amou sempre, nunca me traiu.  Carolina  amiga bondosa e sincera e jamais deixou de ser, mesmo quando eu, em minha cegueira, a caluniei.  
        No seria melhor agora esquecer?  Essa casamento no ir remexer sua ferida?  
        No, papai.  Geraldo sofreu muito por minha culpa.  Fui a responsvel por sua separao da me e seu isolamento no mato como um selvagem.  No posso desfazer o mal do passado.  Todos morreram, mas Geraldo est vivo, sofrendo o peso da solido.  Quero devolver um pouco do amor de sua me, que roubei.  No v que esse casamento,   obra de Deus?   No v que assim poderei reparar um pouco o mal que causei?  
       Dr.   Sigisfredo comoveu-se .  Afinal, o moo fora vtima.  E se Aurora se sentia feliz em receb-lo como a um filho, ele no iria interferir.   Aurora ajuntou:
        Espero que voc o aceite com o corao aberto.  Trata-se  de um moo bom, fino, apesar de tudo, e que faz Maria Luza uma moa alegre e feliz.  
       O velho concordou, admirado:
        Se  assim.  .   .   No vou dizer nada.  No me agradava ver a tristeza dissimulada da Maria Luza.  S de esquecer aquele peralvilho j  um milagre.  Desejo que ela seja muito feliz.  
        Gostaria que viesse uma noite dessas jantar conosco para conhec-lo .  
        ...  Acho que no tenho outro remdio.  Virei.  O Afonso, o que diz?  
        Est muito contente.  Aprecia Geraldo de verdade.  
        Hum.  .   .     resmungou o velho  Sim.  Vamos ver.  
       Quando o Dr.  Sigisfredo saiu, ia tranquilo.  Realmente sua filha parecia-lhe mudada, e isso era-lhe to grato ao corao que, embora no concordasse com muitas coisas que ela dissera, no as iria desmentir.  Queria v-la  feliz.  Ela sofrera tanto! Merecia um pouco de paz.  A verdade, s Deus poderia saber.  Quanto ao Dr.  Olavo, este sim merecia corretivo.  Se tudo aquilo fosse verdade, ele era o grande culpado.  E continuava impune.  Fosse mais moo, por certo iria  forra.  Mas detinha-o o receio de perturbar a tranquilidade de Aurora, to duramente conquistada.  Se a justia de Deus fosse efetiva, por certo o haveria de punir.   
       Suspirando fundo, dirigiu-se  ao consultrio procurando esquecer o assunto.  
       Enquanto aguardava o almoo, Geraldo, sentado na varanda, olhava para o jardim, que estava vioso.  O moo estava distante.  Seu casamento, a realizar-se  dali a um ms, parecia-lhe irreal e estranho.  
       Por vezes sentia saudades da vida no mato.  No entanto, afeioara-se   leitura e avidamente maravilhara-se  com livros dos mais variados assuntos, que lhe descerravam o vu de um mundo do qual ele nada sabia, com suas lutas, costumes, culturas, disparidades e originalidade.  
       As aulas dirias com professores de Geografia, Histria, Portugus,  Histria Natural haviam-lhe aberto um horizonte imenso de novas perspectivas que ele desejava transpor.  O saber fascinava-o.  Sua curiosidade no tinha fim.  Esse era um dos motivos que o prendiam na cidade;o outro era Jorge, a quem determinara ajudar.  Alm de condoer-se  de suas fraquezas, havia o desejo de Carolina,  interessada na recuperao de Jorge.  Ela pedira-lhe para cuidar dele.  Como recusar?  A prima, a quem devia o privilgio de ter aprendido a ler, tambm precisava do seu apoio.  Como deix-lo s?   Depois, havia Maria Luza.  Quando pensava nela, seu corao batia descompassado.   
       Apesar de noivos, ele encarava o compromisso como um trato de amizade.  Arrependido de sua atitude para com ela, adotara a postura de amigo, gentil e solcito, mas policiando e disciplinando seus impulsos ntimos.  Apesar disso, momentos havia em que reconhecia difcil essa posio.  Mesmo contra sua vontade, a lembrana dos momentos de intimidade de que haviam desfrutado no lhe saa do pensamento.  Mas ele no era capaz de amar.  Jamais o faria.  No ia fazer de Maria Luza, a quem sinceramente respeitava e admirava,  instrumento para satisfao dos seus sentidos.  Depois, ela amava outro homem e jamais lhe ocultara.  Se consentisse em suas carcias,  seria obrigada pelas circunstncias, e Geraldo era muito orgulhoso para aceitar isso.  Talvez at o beijasse pensando no outro.  Esse pensamento era um balde de gua fria em seus sentimentos.  
       A moa, por sua vez, recebeu bem a atitude dele.  Estava cheia de dvidas quanto ao casamento.  Receava que Geraldo exigisse dela como mulher mais do que lhe podia oferecer.  Tinha conscincia de amar outro homem.  O que sentia por Geraldo era algo diferente, uma ternura, um calor, que por certo representava grande amizade e que podia ser destrudo se houvesse predominncia de uma ligao mais ntima.  Entretanto, Geraldo no mais voltara a mencionar o que lhes acontecera, tratando-a  com respeito.  Ela sentia-se  tranquila e feliz.  Tratava dos preparativo com alegria e entusiasmo,  principalmente por perceber que sua me mo mais tivera suas  crises e se aproximara mais dela, interessando-se  por seus problemas e dando-lhe a conhecer outros aspectos de sua personalidade,  mais humanos e belos.  
       Geraldo continuava a cismar, e foi interrompido por Humberto.  
        Sinto quebrar o fio dos seus pensamentos.  Preciso falar-lhe.  
       Trazido  sua realidade, o moo perguntou:
        O que ?  
        H dias que preciso falar com voc.  J fez muito por mim.  A investigao acabou.  No h razo para voc continuar a pagar me.   Estou abusando da sua hospitalidade.   
       Depois, voc vai se casar.  Sua mulher precisa assumir a direo da casa e eu preciso ir embora.  
        Do que est falando?  Pensei que fssemos amigos! 
        E somos.  Nunca esquecerei o que tem feito por mim.  Porm, sinto-me intil e estou abusando da sua bondade.  Vou procurar um emprego o me mudar.  
        E eu?  
        Voc no precisa mais dos meus servios.  
        Preciso.  No quero que me deixe s.  Voc  como um irmo.  
        No posso morar aqui depois que se casar! No fica bem.  Vai tirar a liberdade de sua mulher.  
        Olha aqui.  Preciso de voc.  O Antnio  muito bom, mas no tem seus conhecimentos.  Depois, ficou combinado que voc vai estudar para advogado e cuidar dos meus negcios.  Tem casas de aluguel, tem prdio, tem aes, terras, no sei mais o que, e eu no entendo nada disso.  Quero que cuide de tudo desde agora.  Vou pagar-lhe por isso.   E por mais que lhe pague ser pouco,  porque o dinheiro num paga a confiana que tenho.  
       Humberto ficou emocionado.  
        Est certo.  Se  assim, aceito.  Estou ao par de muitos dos seus negcios, mas de hoje em diante vou dedicar-me  inteiramente.  Quero trabalhar, construir minha vida, ser digno de Maria da Glria.  
        Ta um casamento no qual eu fao gosto.  Assim, voc fica sendo primo de verdade.  
        Mas preciso  mudar me.  No fica bem morar aqui depois que voc se casar.  
        Ns vamos viajar uns tempos.  A casa vai ficar muito s.   
        Vou alugar um apartamento para morar e montar um escritrio onde trataremos de todos os seus negcios.  Inclusive da sua fazenda em Ribeiro Preto.  Afinal, voc gosta do mato e nunca foi v-la .  
        Tenho outros negcios para resolver antes.  S vou l quando voltar da viagem.  Quero estudar.  Perdi muito tempo sem saber ler.   Preciso recuperar.  E voc, quando pensa em casar?  
        Se pudesse, casava amanh.  Mas no posso.  Preciso ter dinheiro para montar casa, dar conforto a Maria da Glria.  Tenho algumas economias, voc tem sido muito generoso.  Mas preciso de mais.  Tem o pai dela.  A briga nem comeou.  
       Geraldo passou a mo pelos cabelos revoltos.   
        Aquele patife.  No merece ateno.  
         o pai dela.  No podemos esquecer isso.  Depois, no gostaria de comear nossa vida com desentendimentos.  Embora no queira relacionar-me  muito com ele, pretendo viver em paz.  Maria da Glria sofre por eles e os quer bem.  
        Isso  verdade.  Ela  moa boa.  Apesar do que meu pai fez, sinto que ainda gosto dele e desejo seu bem.  Sei entender isso.  
        Ainda bem.  Sua compreenso vai nos ajudar muito.  Maria da Glria acha que no devo procur-lo por agora.  Primeiro, resolver nossos problemas, e quando for para marcar a data, ento sim.  Irei enfrentar a famlia.  
        No o invejo.  Reconheo que preciso fazer alguma coisa.  Vou falar com ele.  Se Maria da Glria acha que ele deve concordar com o casamento, dou jeito nisso.   
       Sei ser grato a quem me fez bem.  Quero a prima feliz.  
        Voc  nosso grande amigo.   como se fosse da minha famlia.  Eu,  que no tenho parentes, que estava to s, agora tenho amigos maravilhosos, uma mulher que ilumina minha vida e voc, que  mais do que irmo.  
        Isso de ser s eu entendo.  Mas o que eu quero, eu consigo.  A prima precisa falar para a me que voc  meu procurador, que cuida de todo meu dinheiro, e garanto que ela no vai se opor.  Vai ver.  
        Pode ser.  Acho que eles tinham maiores ambies para a filha.  
        Deixe comigo.  Garanto que se eu tiver uma conversinha com ela,  vai consentir.  No precisa preocupar-se  com isso.  O importante  preparar tudo para o casamento.  
       Os dois continuaram conversando, fazendo planos para o futuro.  
       
       
       
       CAPTULO 18
       
       
       Apesar de Geraldo ser homem simples e no gostar de aparatos, seu casamento com Maria Luza realizou-se  dentro dos requintes sociais que o mais exigente observador aprovaria.  Geraldo, muito elegante,  srio e compenetrado, recebeu no altar da Igreja do Corao de Jesus, das mos do Dr.  Afonso Camargo, uma noiva lindssima, vestida no apuro da moda e um pouco nervosa.  Ele tambm estava srio.  Nas horas que antecederam a cerimnia, Geraldo sentira medo de realizar aquele casamento.  Afinal, ele no pensara nunca em casar-se .  E agora,  ali estava ele, assinando um compromisso com Maria Luza para o resto da vida.  Sentia um frio no estmago e um pouco de medo.  Por outro lado, pensava: Somos amigos.  No temos o amor e a paixo para nos atormentar a vida.  Viveremos em paz.  Apreciava muito a moa e chegava  sentir por ela ternura especial.  Para ele, isso era garantia de uma unio tranquila e sem preocupaes.  
       A moa, porm, emocionada com a cerimnia, sentia um n na garganta,  sem que pudesse vencer a onda de dvidas que a assaltava.  Estaria agindo certo desposando um homem bom e generoso sem amor?  Estaria cometendo um erro casando-se  com Geraldo trazendo dentro do seu corao um amor impossvel por outro homem?   Estava trmula,  e no fosse o medo do escndalo, talvez no conseguisse consumar o ato.  Sentia mpetos de fugir, sair correndo, libertar-se  daquele instante em que empenhava sua vida para sempre.  Olhou para Geraldo.   Seu rosto srio, forte, sereno, apesar da emoo que lhe modificava a cor dos olhos, e a moa sentiu-se  mais segura.  Geraldo era um homem admirvel.  Amigo generoso, sincero;por certo, juntos seriam bons companheiros, afastando a solido nas vidas.  
       Viveram aquele dia entre emoes contraditrias, e aps a recepo, entre risos e brincadeiras dos amigos, o jovem casal embarcou para o Rio de Janeiro.  Haviam combinado viajar por algum tempo, Maria Lusa mostraria ao marido a capital e depois embarcariam em um navio rumo  Europa.  
       Humberto ficara com ampla procurao de Geraldo para cuidar de seus negcios e o casal no tinha data para o regresso.  Juntos na cabine de luxo do trem, os dois estavam sem jeito.  A situao era embaraosa.  A moa no sabia que atitude tomar.  Estavam casados.  Ela agora no se poderia negar se ele se aproximasse como marido e cobrasse seus direitos.  
       O moo, no entanto, estava sob o impacto da emoo daquele dia.   Sentia ainda dentro de si o arrependimento de ter derrubado a barreira e ter extravasado seus impulsos, envolvendo a moa que respeitava e considerava muito.  Sentia-se  culpado e prometera a si mesmo no repetir aquele ato.  Acontecera quase sem perceber.  A  solido, a falta de amor, a beleza dela, seu perfume, tudo havia contribudo.  Agora, ele estava consciente.  No a obrigaria a ceder,  no se imporia a ela como marido, exigindo seus direitos.  Geraldo era muito orgulhoso.  Sua mulher amava outro homem e ele o sabia.   No iria aceit-lo em sua intimidade, que por certo lhe seria um fardo, e ele no queria isso.  
       Foi com naturalidade que lhe disse:
        Se voc estiver com sono, pode se acomodar.  Sei que no conseguiria dormir.  
       Ela o olhou curiosa.  Vrias vezes se perguntara como seria sua vida ntima com Geraldo.  Sentia emoo ao pensar nisso, recordando aqueles momentos que haviam estado juntos.  Apesar disso, estava um pouco na defensiva.  Queria e no queria, temia, mas esperava, ao mesmo tempo;achava que, sem amor, um relacionamento ntimo com ele no seria direito.  
        Nem eu  respondeu ela.    Tambm me emocionei.  Afinal, tudo vai mudar em nossas vidas daqui para frente.  Parece mentira que somos marido e mulher...  
        .  A mim tambm.  Mas no quero que se esquea de que acima; de tudo somos amigos.  Temos que passar a noite nesta cabine?  
        Claro que no.  Podemos ir ao carro restaurante e conversar.  
       Uma vez instalados na mesa do vago restaurante, pediram uma guaran e Geraldo, sorrindo,  tornou.  
        Sabe que  a primeira vez que ando de trem?  
        Que tal?  
        Agradvel.  Pena que l fora esteja to escuro e no se possa 
       enxergar a paisagem.  Lembro-me  vagamente de quando viajei com meu pai para o mato.  Acho que foi num trem, mas isso no conta.  Faz muito tempo e eu era muito pequeno.  
       Maria Luza estava mais calma.  Geraldo sabia ser agradvel e no demonstrava desejo de transpor a sua intimidade.  Ele olhava a moa to bonita.  Ela era sua mulher.  Uma onda de carinho o invadiu; segurou a mo dela olhando-a  nos olhos.  
        Maria Luza.  No tenha medo de mim.  Garanto que serei um bom amigo, a vida inteira.  Se estiver com sono, pode ir se deitar tranquila.  No pretendo perturb-la .  
       A moa perdeu o jeito.  Geraldo era assim, franco e objetivo.  Ela, que estava tensa e um pouco na defensiva, sentiu que a presso cedia.   No fundo havia um pouco de desapontamento, de que ela nem se deu conta.  Respondeu sria:
        Geraldo, quando nos casamos pensamos muito em nossa amizade,  entretanto, voc agora parece que quer abdicar de seus direitos de marido, terei entendido bem?  
        Sabe, Maria Luza, o que nos aconteceu naquele dia foi um impulso muito forte, eu diria incontrolvel.  Mas ns sabemos que no existe amor entre ns.  Nos queremos bem, nos estimamos, mas eu nunca conheci o amor e acho que nunca conhecerei.  Voc j sofreu muito pelo seu amor infeliz.  Quando lhe pedi que se casasse comigo, esperava companhia, amizade.   muito triste a solido.  Mas no tenho o direito de exigir de voc que seja minha mulher.  No posso impor meus desejos de homem a voc, que agora est aqui sob minha guarda,  vamos dizer, presa a um compromisso, indefesa por obrigao.  
       A moa estava admirada.  
        Geraldo, quando aceitei o seu pedido de casamento, eu pensei muito justamente por isso.  No  justo para voc viver a vida inteira lutando com seus impulsos.  A no ser que pretenda manter esse relacionamento fora do lar.  
       Ela estava corada e agitada.   
        Voc sabe que eu no sou homem dessas coisas.  No faria isso.  
        Eu encarei o nosso casamento com naturalidade e sei dos meus deveres de esposa.  Com o tempo, e com nossa convivncia, acho que tudo ficar bem.  
       Geraldo largou a mo da moa e em seus olhos havia um brilho obstinado.  
        No, Maria Luza.  No desejo impor minha intimidade.  Voc  moa correta.  Quer seguir as regras do jogo.  No precisa.  Sabe que vou direto  ao assunto.  No falei antes porque no tive chance.  Mas agora, temos que esclarecer tudo.  No pretendo mesmo exigir esse sacrifcio.  
       Ela olhou-o nos olhos e perguntou quase sem perceber:
        Essa resoluo  para sempre?  
        Sim.  Ver que o que nos aconteceu aquela tarde no se repetir.  
        Mesmo que um dia eu venha a am-lo ?   Ele respondeu sem desviar o  olhar:
        Isso  impossvel.  Seu corao j no  mais seu h muito tempo.  
        No gostaria de falar nisso agora.  
        Mas  verdade.  Por mais que queira ser generosa comigo, sabemos que ama outro homem.    Vendo-a  triste, continuou:  isso no importa.  Juntos havemos de esquecer as mgoas.  Seremos leais companheiros, sem o amor que pode nos transtornar a vida.  Ver que viveremos muito melhor.  
        ...  pode ser.  Afinal,  mesmo verdade, no passamos de bons amigos.  
       Embora estivessem cansados, a tenso no lhes permitia conciliar o sono.  E quando Maria Luza resolveu recolher-se  j era muito tarde,  mas Geraldo permaneceu sentado no mesmo local, pensando, pensando.  
       A moa, esticada no leito que balanava cadenciado enquanto o trem vencia a distncia, sentia-se  mais calma.  No sabia o que pensar.   Durante o noivado, vrias vezes se perguntara qual a atitude que o moo tomaria no dia do casamento.  Temia que ele se transformasse em um marido exigente, que ela deveria suportar na intimidade de sua cama.  Mas a atitude dele, digna e correta, acalmara-lhe os receios; porm, sentia certa insatisfao, certa decepo que no conseguia afastar.  Por qu?  Seria ela to venal a ponto de unir-se  a um homem sem amor?  Ele estava certo.  Era um alvio poder ver preservada sua intimidade.  No pde evitar pensar naqueles momentos que haviam vivido juntos.  Por certo ele no a apreciara, e isto lhe dava certo mal estar.  Nenhum homem recusa uma mulher quando a aprecia.  Por certo, Geraldo queria sua amizade mas no seu amor.  Maria Luza sentiu-se  rejeitada pela segunda vez.  A me a relegara ao colgio distante, o homem que ela amava se casara com outra e Geraldo, em quem confiava e apreciava, no a queria como mulher.  Sentiu-se  solitria e triste e no conseguiu deter as lgrimas.  Estava muito infeliz.  
       Geraldo continuou sentado, olhos perdidos l fora, na escurido da noite, imerso em profundos pensamentos.  Apesar de ter-se  casado, nunca se sentiu to s.  A saudade de Carolina brotou em seu peito, e mais do que nunca o desejo de descansar a cabea em seu colo amigo o invadiu.  O que esperava da vida?   
       No tinha ideais, amor, iluses.  No teria sido melhor regressar ao mato, onde viveria vida tranquila at que a morte pudesse busc-lo ?   A morte! Por certo o levaria ao encontro de Carolina.  S ento poderia ser feliz.  O moo sentiu enorme vazio em seu corao.   Arrependeu-se  de ter se casado, de ter sado do mato, onde a ignorncia o tornava menos infeliz.  Porm, estava ali.  Casado com uma boa moa a quem envolvera impensadamente.  Ela esperava apoio e amizade.  No era homem de voltar atrs.   
       Faria o possvel para torn-la  feliz.  Quanto a ele, no esperava nada.  No tinha iluses quanto ao dinheiro, posio, vida social.  A nica coisa que sentia era curiosidade.   
       Uma enorme curiosidade pelo mundo que desconhecia ainda, mas que desvendava cuidadoso, como um observador alerta e sagaz.  
       Era dia claro quando se recolheu, e estavam quase chegando no Rio de Janeiro.  Maria Luza encobriu suas dvidas e incertezas e resolveu no se preocupar mais com o futuro.  Estavam iniciando uma viagem que ia queria tornar feliz e agradvel.  O resto no tinha importncia.  Notou o ar um pouco abatido de Geraldo e comentou:
        Voc passou a noite sem descansar.  Estamos chegando.  Vamos direto ao hotel.  Precisa dormir.  
        Estou bem  tornou Geraldo, admirado.  
        No parece.  Agora vou tomar conta de voc.  Precisa descansar.  
       Ele sorriu.  
        Sempre resolvi meus problemas sozinho.  
        Isso agora acabou  respondeu ela com ar alegre.    Sou sua mulher e devo cuidar do seu bem estar.  Isso eu vou fazer, voc ver.  
        Que quer dizer?  
        Que vou cuidar de suas roupas, de sua comida, do seu conforto e at dos seus pensamentos.   
        Maria Luza dizia isso em tom de brincadeira, mas havia um brilho terno em seus olhos que comoveu o moo.  Tomou a mo dela e apertou com fora.  
        Acha que precisa?  
        Acho.  Nunca mais estar sozinho.  Serei sua sombra por toda parte.   Quero torn-lo feliz, como puder.  
       O moo sorriu e seu  semblante desanuviou-se .   A sensao de desconforto desapareceu.  
        Temos muitos passeios a fazer.  O Rio  a Cidade Maravilhosa.   Ver.  
       Geraldo animou-se .  Realmente, desejava que aquela viagem fosse alegre e estabelecesse as bases da sua vida ao lado da jovem esposa.  Esperava que fosse em amizade e harmonia.  Varreu seu desnimo e procurou alegremente colaborar.  
       Geraldo amou o Rio  primeira vista.  Apreciador inato das belezas naturais, extasiou-se  com os passeios que Maria Lusa organizou, e durante 15 dias percorreram a cidade com alegria.  Embora tenham participado da vida noturna, Geraldo preferia o amanhecer e os lugares buclicos.  A moa aprendia a cada dia a conhecer o ntimo do homem com quem se casara, apreciando-lhe o carter reto e objetivo.  
       Dona de muita sensibilidade, a moa, por sua vez, casava-se  ao momento e  paisagem, com naturalidade, e muitas vezes haviam permanecido horas em silncio contemplativo frente  majestade da paisagem.  Sentiam-se  bem, leves, sem constrangimentos.  
       Havia momentos em que Geraldo ansiava por saber e a moa contava a histria da descoberta do Brasil, e com mestria discorria sobre o Imprio e os grandes vultos brasileiros.  Ele ouvia enlevado,  bebendo aqueles ensinamentos que, apesar de ter ouvido um pouco dos professores, ao calor da narrativa clara e objetiva de Maria Luza ganhavam sabor especial.  Era comum nesses momentos esquecerem-se  das horas, perderem-se  no tempo para voltarem  realidade quando a fome ou o sono os convidasse a parar.  Geraldo admirava na jovem esposa o raciocnio claro e a habilidade descritiva.  Enquanto ela discorria sobre um acontecimento ou uma personalidade importante,  ele parecia ver o que ela contava, tal era sua fora de expresso.   Na companhia dela, o moo conseguiu esquecer suas angstias e sua solido.  
       Ela, por sua vez, animada pela viva inteligncia de Geraldo,  por suas indagaes e por seus conceitos inesperados e lcidos,  deixava-se  levar pelo prazer daqueles momentos de entrosamento e paz.  
       Geraldo no quis viajar pelo exterior.  Preferiu conhecer outros lugares dentro de seu prprio pas.   Maria Luza organizou um roteiro, passando pelas principais cidades, subindo em direo ao Norte, e continuaram viajando.  O encantamento e a curiosidade de Geraldo no tinham fins.  Gostava de parar em pequenas cidades,  conversar com a gente simples, andar a p pelos lugares onde a beleza o empolgava.  Para Maria Lusa, a experincia era nova.  Se por um lado ela discorria sobre costumes e fatos histricos, Geraldo a ensinava a sentir o cheiro da terra, conhecer as plantas, as aves,  a natureza.  Dava gosto ver seu rosto moreno, um tanto corado pela excitao, explicando como se processam os ciclos de determinadas plantas, a harmonia e a perfeio da natureza.  Comovia-se  com um pr do sol ou com o orvalho  da manh.  
       Maria Luza deliciava-se  com a vida descontrada que Geraldo gostava de levar.  Desde cedo habituada  disciplina, primeiro pela rgida educao materna, depois pela recluso no colgio interno,  sentia-se  feliz sem horrios nem etiquetas.  Seus cabelos, sempre caprichosamente penteados ao sabor da moda, agora lhe emolduravam o rosto moreno muito  vontade, com seus anis ondulados que a moa, de hbito, a todo custo mantinha lisos e com fixador.  
       Como viajassem de trem, jardineira, e s vezes at de carroa, a poeira obrigava-a  a lav-lo s com frequncia, e ela os escovava prendendo-os com fivela lateral.   
       Seu rosto, lavado, tornara-se  saudvel, realando o brilho do seus olhos, que mudavam a tonalidade de acordo com a luz ou a emoo.   Geraldo, nesses momentos, no podia deixar de admir-la  e vrias vezes lhe acariciara o rosto com ternura.  Sentia desejos de abra-la , esquecendo seus propsitos de no intimidade.  Maria Luza sentiu uma onda de emoo invadir-lhe o corao e comeou a desejar que o moo esquecesse seus receios e a beijasse.  Contudo, ele sempre se dominava.  Seu rosto mudava, parecendo nesses momentos tornar-se  outra pessoa.  Distante, indiferente, quase estranho.  E Maria Luza se recolhia, decepcionada e triste.  
       Mas foi em Salvador, olhando o rosto alegre do marido, saboreando os quitutes de uma baiana, que a moa sentiu que o amava.  Amava-o imensamente, como ainda no havia amado antes.  Jamais experimentara esse sentimento profundo, pleno, misto de carinho, indulgncia,  admirao.  A revelao a enchia de esperana.  Se ele pudesse am-la ! 
       Momentos havia em que lhe parecia ver o afeto em seus olhos.  Porm,  ele no queria.  Com certeza temia o sofrimento.  Era com obstinao que Geraldo lutava contra o desejo  de amar.  
       E enquanto de brao dado percorriam as ruas da cidade, a moa firmava o propsito de conquistar o marido.  Por isso, naquela noite arrumou-se  com esmero.  Estava uma noite agradvel e, apesar de um tanto quente, havia uma aragem deliciosa.  Foram jantar em um restaurante e depois saram a andar a p pelas ruas, procurando a praia.  A moa sentia um desejo imenso de abraar o marido, mas continha-se .  Pararam.  
        Olha ali, um jardim; vamos nos sentar  pediu ela.  
       Ele concordou.  A noite era linda e o seu perfume lhe causava agradvel vertigem.  Sentaram em um banco.  
        Geraldo  tornou ela com voz suave  voc  feliz?   Admirado, ele respondeu:
        Claro.  Nossa viagem tem sido maravilhosa.  
       A moa enfiou o brao no dele, encostando seu rosto em seu ombro.   Geraldo sentiu uma onda de calor envolver-lhe o corao.  
        Quero agradecer  tornou ela  voc me tem feito muito feliz.  
       Esta noite, aqui, com voc,  o nico lugar do mundo em que eu desejaria estar.  
       Ele a olhou desconcertado, sentindo o corao bater forte.  Maria Luza enlaou-lhe o pescoo e, puxando-o para si, beijou-o no rosto; depois, seus lbios se encontraram e esqueceram-se  do mundo,  entregando-se   emoo.  Sentindo-se  correspondida, Maria Luza,  ainda abraada ao marido, murmurou-lhe ao ouvido:
        Geraldo, descobri que o amo! No fuja de mim.  Diga-me  que me quer! 
       O moo no pde resistir  avalancha de sentimentos que irrompeu dentro dele como uma tempestade.  Apertou-a  de encontro ao peito embargado pela emoo.  No sabia se aquela angstia, aquele desejo,  aquele calor, aquela fora que brotava dentro dele, era amor.  Sabia que nunca se sentira assim antes.  No tinha mais foras para resistir.  Apertou ainda mais.  
        Voc  a pessoa a quem eu mais quero no mundo  murmurou, 
        Vamos ser felizes para sempre.  Voc ver.  
       Geraldo, naquele momento, no queria pensar no futuro.  Sabia que o mundo se resumia queles belos olhos que a emoo iluminava,  queles lbios vermelhos que se lhe ofereciam e quele corpo morno que enlaava.  
       Foi naquela noite que comeou para eles a verdadeira lua-de-mel.
       
       
       
       CAPTULO 19
       
       O Dr.  Jos Marcondes entrou em casa visivelmente nervoso e irritado.  Seu rosto congestionado deixava transparecer inquietao e desgosto.  Renata, que se preparava para sair, surpreendeu-se :
        J em casa?   O que houve, voc nunca vem pela tarde.  
       Jos atirou com raiva o jornal que trazia sobre a mesinha da sala e desabafou:
        Estamos arruinados.  Um verdadeiro beco sem sada.  Como se no bastasse o casamento daquele caipira que Maria da Glria no soube conquistar ainda por cima a baixa das ltimas aes que nos restavam deixa nos praticamente na misria.  
       Renata, irritada, retrucou:
        O que foi agora?   O Jorginho no tem jogado, que eu saiba.  Se voc falou em aes, por certo no resistiu  tentao e foi especular na Bolsa.  
        Era certo.  Todos os meus amigos estavam seguros.  No tive dvida: ajuntei tudo quanto nos restava e joguei.  Soube agora que houve baixa violenta, perdemos tudo.  
        Voc nunca soube aplicar.  Por isso, o que  meu,  meu, eu mesma cuido.  
       Ele suspirou, desalentado.  
        Voc no compreende.  Se eu tivesse conseguido, hoje estaramos
       em muito boa situao.  Foi preciso arriscar.  Perdi.  
       Renata olhou-o com severidade.  
        Pelo que sei, voc no tinha mais dinheiro.  Como pde jogar na Bolsa?  
         melhor dizer.  Estava to certo de ganhar que pedi emprestado.  
        Jos!  E agora, como pensa pagar?  
       Ele passou as mos trmulas sobre os cabelos.  
        No sei.  Aquele maldito agiota ainda me cobra juros escorchantes.  
       Estou arruinado! 
       Renata deixou-se  cair em uma cadeira, desalentada.  
        Renata  continuou ele com voz embargada.    O que fazer?   Se meu nome for manchado, prefiro morrer! 
        No seja dramtico.  Se no fosse to sem juzo, no estaria agora
       nesse impasse.  
         fcil tripudiar sobre os vencidos.  Voc no me compreende.  Se eu tivesse ganho, por certo aprovaria! 
        Agora , de nada vale lamentar-se .  O que est feito no tem remdio.   H que buscar um meio para sair.  
        Enquanto o matuto era solteiro eu podia acenar com a fortuna,  porque continuvamos a ser seus nicos herdeiros.  Joguei com isso para obter o emprstimo.  
        A  fortuna de Carolina continua rendendo.  
        De Carolina s, no.  De meu pai, minha, que aquela usurpadora, com sua astcia,  soube desviar.  Isso  que me irrita.  Ficar na misria,  vendo o meu dinheiro, de meu pai, mal aproveitado por aquele caipira, que talvez nem seja filho de meu irmo!  No  absurdo?  
       Renata ficou sria.  Apesar de no apreciar Carolina, conhecia bem o carter do marido.  Aquela sonsa no seria capaz disso.  Limitou-se  a dar de ombros.  
        Isso de nada vale.  A lei  a lei.  Voc sabe.  O que importa :como sair do problema?  
       Ele adoou a voz e aproximou-se  da mulher tomando-lhe a mo.  
        Renata, temos tido nossas divergncias, mas voc tem sido boa companheira.  No vai deixar que a vergonha cubra nossa famlia.  Se eu no pagar, posso ir para a cadeia.  
        O que quer que eu faa?   Esta casa  que eu no vou vender.   Felizmente, est tudo em meu nome.  
        No penso em vender a casa nem nenhuma propriedade sua;mas que diabo, voc tem jias que dariam para pagar tudo.  Deixe-me  vende-la s, e quando as coisas melhorarem, comprarei outras mais lindas.  
       Renata levantou-se  como se houvesse levado uma bofetada, rosto indignado e vermelho:
        Nem pense!  Elas so a minha segurana.  Se no as tivesse guardado, talvez agora morresse at de fome.  No!  Nunca.  
        No tem sentido isso.   s por algum tempo.  Depois, prometo que trabalharei e comprarei tudo de novo.  
        No acredito.  Voc nunca teve capacidade para ganhar dinheiro.  Eu disse para no jogar.  Agora,  problema seu.  No vou tirar uma jia da Caixa.  
       Ele empalideceu.  
        Elas no esto mais em casa?  
        No  tornou ela, triunfante.    Depositei-as na Caixa Econmica para segurana.  S eu posso retir-la s.  
       Jos enfureceu-se .  Seus olhos chispavam de dio.  
        Devia mat-la  por isso.  A mulher tem o dever de obedecer ao marido.  Voc vai buscar essas jias de qualquer jeito, ouviu?  
       Segurou o brao dela com fora, sacudindo-a , fora de si.  Apesar de assustada, Renata encontrou foras para dizer:
        No vou.  Se me agredir, vou  polcia.  No tenho medo de escndalo.   Assim, todos ficaro sabendo com quem me casei.  E se me matar, jamais conseguir retirar aquelas jias.  Largue do meu brao, voc est me machucando.  
       Jos largou a mulher e, plido, deixou-se  cair em uma cadeira,  arrasado.  
        Nunca pensei sofrer tal desiluso.  Depois de tantos anos de dedicao  famlia.  Que ingratido!  Os filhos no querem cooperar, e voc se nega a salvar me.  E eu, que fiz tudo isso pensando no bem estar de todos! Sonhava chegar aqui e trazer tudo para vocs! 
       Renata no se comoveu.  
        Nunca vi a cor do seu dinheiro.  Acho que no seria agora.   Jorginho est se recuperando, no tem dado problemas.  
        Mas j deu muitos.  Gastei boa parte do meu dinheiro pagando suas dvidas.  Agora, meteu-se  com aquela gente que nos detesta, passou-se  para o lado do caipira e nem sequer frequenta mais a boa sociedade.  
       Renata agastou-se :
        No se meta com ele.  Estou feliz por ele no mais andar com
       aqueles almofadinhas viciados e fteis.  Deixe-o em paz.  
        Voc o defende?  
        Sempre.  Voc arranjou problemas, e agora procure resolv-lo s.  No nos envolva.  Deixe nos em paz.  
       Renata estava sria.  Cansara-se  das fraquezas do marido e da sua mania de torcer as coisas como lhe convinha.  Jorge recuperava-se  com dificuldade.  E o pai nada fizera para ajud-lo .  Enquanto ela e Maria da Glria uniam esforos para torn-lo feliz e ajud-lo a encontrar a alegria de viver, ele s conseguia ver suas prprias necessidades.  
       De nada valeram os argumentos do Dr.  Jos, que passou das splicas  s ameaas, das ameaas s splicas novamente.  Renata no cedeu.  Dr.   Jos, furioso, retirou-se  para o quarto tentando encontrar uma soluo.  Tinha que dar um jeito.  De repente, seu rosto iluminou-se :  isso!  Como no pensei antes.  
       Levantou-se , apanhou o telefone, procurou na lista de endereos e discou:
        Al, quero falar com D.  Aurora.  Al,  Dr.  Aurora?   Aqui fala o
       Dr.  Marcondes.  
       Aurora, do outro lado do fio, sentiu um choque.   
        Pode falar  respondeu com voz fraca.  
        Estou desesperado.  Preciso com urgncia de 200 contos de ris.   At depois de amanh.  Quero ver se a senhora pode emprestar-me  essa quantia.  
        Mas  muito dinheiro.  No disponho de tanto, infelizmente.  
        Estou desesperado.  Pensei que pudesse valer me.  Afinal, nosso segredo vale mais do que isso.  
       Aurora sentiu o sangue fugir-lhe das faces.  No pde responder de imediato.  Sempre temera aquele homem, e agora ele se revelava.  
        Deve convir que uma importncia dessas no  fcil conseguir.  
        No diga isso!  O que so duzentos contos para uma mulher como a senhora?   Acredite que se no fosse a minha situao to difcil,  jamais a incomodaria.  Estou arrasado, arruinado, preciso desse dinheiro.  Estou disposto a tudo.  Inclusive a contar  sua filha o que ela por certo ignora.  
       Aurora sentiu-se  desfalecer.  Quando conseguiu, um fio de voz tornou:
        Por favor!  No faa isso.  Pelo amor de Deus! ... 
        Claro que eu no gostaria de chegar a esse ponto.  Afinal, o que eu quero mesmo  desafogar minha situao.  
        Est bem.  Vou ver o que posso fazer.  O prazo  pouco.  No pode dar-me  um pouco mais de tempo?  
        No, infelizmente.  Como disse, estou pressionado.   um caso de vida ou morte.   esse prazo que me deram.  
        Est bem.  Vou tentar arranjar o dinheiro.  
        Amanh telefono.  
        No.  Eu mesma telefonarei.  
        Passe muito bem, D.  Aurora.  
       Aurora colocou o telefone no gancho e teve de sentar-se  para no cair.   O que ela temera durante toda a vida acontecera.  Aquele homem ameaava a felicidade de sua filha.  Por sua cabea passaram idias desconexas, o medo, a culpa, a raiva, tudo.  Tinha que arranjar aquele dinheiro nem que vendesse uma das suas propriedades.   
       No lhe dera tempo sequer para isso.   Restava-lhe praticamente um dia para ter o dinheiro.  Uma onda de dio invadiu-lhe o corao,  teve mpetos de mat-lo .  S assim estaria livre da ameaa para sempre.  Sentiu um arrepio.  
        Meu Deus, que loucura!  No quero mais vingana, nem dios.  
       Quero redimir-me  dos erros passados.  Meu Deus, socorre me, eu peo! 
       Perdoa-me por estes pensamentos infelizes!  Oh!  Deus, como pude pensar em matar?   Eu, que merecia morrer e fui poupada?   Eu, que com minha leviandade e loucura destru meu lar, meu amor, a vida de lvaro, e causei a separao de Carolina?   Eu, que sou culpada de tudo, como julgar?  
       Aurora deixou-se  cair de joelhos, ao lado da cama, e chorou sentidamente.  Quando conseguiu dominar-se , pensou:
        Tenho que arranjar esse dinheiro.  Recorrerei a papai.  
       Sabia que seu marido no dispunha de tanto dinheiro com essa urgncia, e depois, sentia escrpulos de envolv-lo em seus problemas passados.  Do desalento que estava passou  inquietao.   Precisava agir imediatamente.  Telefonou ao pai, que a ouviu surpreendido.  
        Papai, preciso de duzentos contos de ris at depois de amanh cedo.  
        O que aconteceu?    muito dinheiro; sabe que no disponho dessa quantia assim de pronto.  Para que quer tanto dinheiro?    perguntou admirado.  
        Por favor, diga que pode arranj-lo .  
        Filha, sua voz est angustiada.  No vai contar-me  o que houve?  
        No posso.  
        Fique calma.  Vou j para a.  Terminei aqui no consultrio.  Sabe que pode contar comigo.  
        Est bem, papai.  Espero-o.  No diga nada ao Afonso.  No quero preocup-lo .  
        Certo.  Dentro de alguns minutos estarei a.  
       Aurora desligou e deixou-se  cair na cama, arrasada.  .   Enquanto isso, 
       Dr.   Marcondes estava satisfeito.  Aurora por certo arranjaria o dinheiro.  Por que no pensara nisso antes?   Afinal, ela era abastada e estava interessada em ocultar da filha sua vergonha.  Nada mais justo que pagasse por isso.  
       O Dr.  Sigifredo, ao chegar  casa da filha, encontrou o genro preocupado.  
        Foi bom o senhor ter vindo.  Aurora hoje parece que teve uma recada.  Como sabe, ela agora tem passado muito bem e h tempo que no linha nenhuma crise.  Hoje, quando cheguei, estava de cama e muito debilitada.  Parece que voltou tudo de novo.  E eu, que a acreditei curada... 
        Vim v-la .  Ela me ligou.  Sabe se aconteceu algo que a aborrecesse?  
        No aconteceu nada.  Ela recebeu carta de Maria Luza, estava feliz com as notcias O jovem casal est muito bem.  Ela no saiu de casa hoje e no recebeu nenhuma visita.  
        Vou falar com ela.  
       O velho mdico, semblante preocupado, entrou no quarto da filha.   Esta, vendo-o, parecia galvanizada por novas energias.  Sentou-se  no leito e, inquieta,  tornou.  :
        Pai, preciso muito da sua ajuda.  Minha vida depende disso.  
        Claro, filha,   respondeu ele sentando-se  na cama, segurando as mos frias e nervosas de Aurora.  
        Tem uma maneira de conseguir o dinheiro?  
        Vamos pensar juntos.  Acalme-se .  Conte-me  primeiro tudo.  
       Com voz embargada, Aurora relatou ao pai o que lhe aconteceu.  O velho estava indignado.  
        Isto  caso de polcia!  Chantagem!  Filha, acha mesmo que devemos dar-lhe esse dinheiro?  
        Estou apavorada.  No tenho outra sada.  
        Pense bem.  Se tivssemos a certeza de que ele nunca mais faria ameaas, at que seria bom darmos esse dinheiro.  Sua tranquilidade vale mais do que isso.  Mas, filha, esse homem  um canalha.  Agora que descobriu a mina de ouro, no vai parar a.  Vai exigir sempre mais.   E como vai ser?   Devemos lutar contra a chantagem para no sermos escravos dela.  
        Ele no tem escrpulos.  Contar tudo a Maria Luza, e o que  pior,  sua moda.  
        Filha, Maria Luza casou-se ,  mulher, tem compreenso,  boa filha e a ama muito.  No acha que chegou o momento de cham-la  e contar-lhe toda a verdade?  
       Aurora comeou a chorar convulsivamente,  torcendo as mos em desespero.  
        Prefiro morrer.  Se tiver que fazer isso, no suportarei.  Por favor,  ajude-me  a arranjar esse dinheiro.  
       Vendo-a  to transtornada, o velho mdico achou prudente acalm-la .   A sade da filha sempre lhe inspirara cuidados.  Ela no podia aborrecer-se  sem grave prejuzo para seu corao j um tanto cansado.  
        Certo, filha.  Claro que farei o que voc quer.  Vou ver o que posso fazer.  Tenho algumas economias; no chegam a tanto, porque sabe que procuro comprar propriedades pensando no seu futuro.  
        Faa um emprstimo.  Dinheiro no me importa.  Maria Luza  moa rica e agora no precisa mais da herana que eu lhe posso deixar.   O que importa  que o dinheiro chegue s mos do Dr.  Marcondes at depois de amanh.  
        Temos pouco tempo.  
        Eu sei.  Venderei minhas jias se for preciso.  
        No.  No chegaremos a tanto.  Fique tranquila, arranjarei o dinheiro.  
       Aurora suspirou aliviada.  
        Sou-lhe muito grata.  O senhor tem sido meu anjo bom em todos os momentos difceis de minha vida.  
       O velho tentou esconder a preocupao e o desgosto sorrindo para acalm-la , e beijando-lhe a face com carinho, respondeu:
        Voc  minha filhinha querida.  Sabe que sempre pode contar comigo.  Agora, no h mais motivo para preocupao.  Deixe este assunto comigo.  O que importa  ver voc bem.  Afonso disse-me  que recebeu carta de Maria Luza.  
       O semblante plido de Aurora animou-se .  Foi com voz calma que esclareceu:
        Sim.  Maria Luza escreveu-me  uma carta alegre.  Est muito feliz.   Geraldo faz tudo para agrad-la , e os dois esto se divertindo muito.  
        Aprecio muito o filho de Carolina.  Trata-se  de um homem correto e de carter.  Nossa menina est em boas mos.  Eu no gostava daquele namoradinho dela, um almofadinha que no podia ver rabo de saia.  
       Aurora sorriu com satisfao.  
         mesmo.  Eu tambm no gostava dele.  
        Geraldo inspira-me  confiana.  Vai dar certo.  Depois, eles se amam,  e o que basta.  
       O mdico acalmou a filha, e s se deu por satisfeito quando a viu levantar-se  e acompanh-lo s  mesa de jantar, tomando algum alimento.  
       E assim, exultando, Dr.   Marcondes recebeu por um portador, dois dias depois, um pacote contendo o dinheiro.  Ficou feliz.  J no dependia do dinheiro da mulher.  
       Aurora, contudo, estava muito abalada.  A ameaa do Dr.   Marcondes tivera o dom de renovar suas angstias, sua sensao de culpa.   Sentia-se  deprimida.  Agora que a filha j estava casada, no tinha mais nada a fazer no mundo;seria bom poder partir ao encontro de lvaro.  lvaro!  Encontr-lo seria sua ventura maior.  Pedir-lhe perdo, poder v-lo , toc-lo .  Deus lhes concederia esta graa?   Aurora sentia-se  cansada e fraca.  No se animava em sair do quarto, imersa nos seus pensamentos ntimos.   
       No compareceu mais s reunies em casa de Lucila, que, inteirando-se  do seu precrio estado de sade, foi com Ins fazer-lhe uma visita.  
       Foi com carinho que Aurora as recebeu, mostrando alegria em seu rosto plido.  Com delicadeza, Lucila informou-se  sobre sua sade.   Aurora confidenciou com certa euforia:
         meu corao.  Est mal.  No tenho mais nada a fazer neste mundo.  
       Aguardo com ansiedade a hora de partir ao encontro de lvaro.  
       Lucila olhou-a  com firmeza:
        Acha o suicdio uma boa soluo?   Aurora ressentiu-se :
        Suicdio?   No penso nisso.  
         o que me parece.  Voc se deixou abater pela luta e acha que largar tudo  a soluo.  
       A outra olhou-a  com tristeza.  
        O que me resta no mundo?   Agora que Maria Luza est amparada,  posso seguir em paz.  
        Aurora, s pode seguir em paz aquele que no foge dos problemas.   Ao contrrio, procura entend-lo s e dar-lhes soluo adequada.   Acredita que do outro lado da vida suas mgoas no a acompanhariam?   Problemas no resolvidos em nossa vida permanecem conosco aguardando soluo.  Podemos fugir deles, protelar at ignorar, mas um dia eles viro  tona, para o devido equacionamento.   Voc alega que no tem estmulo para viver, como se a vida por si s j no representasse precioso tesouro.  
        Ah!  Lucila, eu sou diferente.  Fiz de minha vida um inferno, e destru todas as possibilidades de ser feliz! 
       Lucila envolveu-a  com olhar carinhoso, porm firme:
        Isso  passado, e o passado no se pode modificar.  Por que se fixa nele, atormentando-se  inutilmente?  
        No consigo esquecer.  
        Esquecer no  fcil, mas parece-me  que voc, por causa desse passado, esquece de viver o presente e nem sequer observa o erro de hoje, acontecendo agora.  
       Aurora olhou-a  surpreendida.  
        Como assim?  
        Posso ser franca?   Permite-me  falar sobre voc?  
        Claro, Lucila.  Voc conhece toda minha vida.  Considero-a  como uma irm muito querida.  
        Voc tem pensado s em si mesma.  Tem cultivado o passado com tal insistncia que se ausentou do presente.  Voltada aos seus problemas ntimos no cultivo de enganos passados, no usufruiu dos prazeres de me, tornando sua filha quase rf;encontrou o amor de um homem digno e amigo, e no entanto ele no achou a companheira que o apie no dia-a-dia, sustentando a harmonia do lar;ao invs de ser o arrimo do velho pai, que a vida inteira foi abnegado amigo, prefere continuar a ser a criana de ontem, a inspirar cuidados e preocupaes, constrangendo-o a ocultar-lhe assuntos corriqueiros para no lhe causar desgostos.  
       Aurora estava assustada.  Olhou a amiga um pouco magoada.  Lucila prosseguiu:
        Na verdade, voc teve motivos para arrepender-se  de seus atos passados, mas isso no justifica sua ingratido para com pessoas que a amam muito e que merecem a sua considerao.  
        Voc veio aqui para recriminar me.  No acha que j carrego culpa demais?  
        Acho.  No desejo recriminar, mas me parece que voc, cultuando um mal sem remdio, agrava ainda mais a situao, deixando de cumprir com seus deveres e tornando infelizes tambm os que a cercam.   Aurora, j pensou o quanto se confrange o corao do seu velho pai,  vendo-a  entregue ao sofrimento?   Da solido e da tristeza do seu marido, depois de um dia de trabalho chegando em casa e tomando suas refeies sozinho?  
        No tinha pensado nisso! Quanto egosmo! S pensei em mim.  No soube fazer ningum feliz.  
        Disse bem, no soube.  Mas o passado j est morto, e o presente oferece-lhe preciosa chance de felicidade.  
       Aurora olhou a amiga parecendo no entender.  
         verdade.  Voc tem tudo nas mos.   s querer.  
        Eu?  ! To infeliz?  
        Esse  o conceito do passado que voc insiste em cultivar e permanecer.  Mas, sinceramente, no presente, de que se queixa?  Tem um pai amigo e amoroso, um excelente marido, que tenta descobrir seus desejos mais ntimos para atender, uma filha maravilhosa, casada com excelente rapaz, da mais nobre famlia, e alm do mais, uma das fortunas mais slidas desta cidade.  O que lhe falta?  
        Alegria.  No tenho nimo para viver! 
        Aurora, saia desta posio de desnimo em que mergulhou.  Voc  uma pessoa feliz.  Por que no usufrui dessa felicidade?   Por acaso deseja punir-se  por causa do passado?   Voc aprendeu preciosas lies naquele tempo, mas hoje  um novo dia.  A alegria precisa ser plantada no corao, ser cultivada e alimentada.   
       Se tiver dificuldade em fazer isso, experimente plant-la  no corao dos que a amam, e por certo acabar por encontr-la  dentro de si mesma.  A felicidade  um direito que todos temos.  Desejo que voc enxergue os bens que possui e que est menosprezando todos os dias.  Voc tem o direito a ser feliz! 
        Reconheo que tem razo.  O que posso fazer para alcanar isso?  
        Saia dessa postura de vtima que no leva a nada.  Viva no presente.  Levante-se  dessa cama, abra as janelas, deixe entrar o sol no quarto e na alma, respire fundo, sinta a beleza das coisas que a circundam e apanhe a vida com todas as suas foras.  Jogue fora o passado e esteja consciente do presente, onde voc  feliz e pode tornar os outros felizes! 
       Ins, que permanecera calada, bateu palmas de alegria.  
        Muito bem.  Mos  obra.  Vamos agora  toillete melhorar um pouco sua aparncia.  Se confiar em minha habilidade, posso fazer um verdadeiro tratamento de beleza.  
       Aurora sorriu.  Seu rosto estava distendido e corado.  Protestou vagamente.  
        Para que tudo isto?   H muito tempo que no sinto o prazer de enfeitar me.  
        Hoje vamos sentir esse prazer.  Tem lindos cabelos e seu rosto se parece com o de uma jovenzinha.  Dr.   Afonso vai ficar deslumbrado.  
       Aurora sorriu:
        Qual, depois de tantos anos! Nem sequer vai notar.  
        Veremos  tornou Ins com ar de desafio.    Veremos.  Agora, vamos transform-la .  
       Quando o Dr.   Afonso chegou em casa para jantar, no conteve um gesto de surpresa.  Aurora estava na sala de msica, em companhia das duas amigas, fisionomia distendida como nunca ele se lembrava de t-la  visto.  Ins estava ao piano e parou de tocar quando ele entrou:
        Por favor, no quero interromper  tornou ele, emocionado.  
       Aurora levantou-se  e abraou-o com carinho, e foi com contida emoo que Afonso beijou-lhe a face delicada.  Sua mulher, sempre aptica, jamais tivera para com ele atenes ou demonstraes afetivas.  Deixara-a  plida, doente na cama, e acontecera um milagre.   Como explicar?   Cumprimentou as damas com deferncia.  Embora no conhecesse Lucila, sabia que Aurora a queria muito, e isso era o suficiente para que ele tambm as estimasse.  Sem poder conter sua admirao, Afonso tornou:
        Que alegria.  Vejo que voc est bem.  
        Graas a Lucila e a Ins, que repartiram sua alegria comigo.  Ele fitou Lucila com admirao:
        Precisa ensinar-me  seu segredo Alm do mais, Aurora est linda!  Ins sorriu, maliciosa, e Aurora olhou-a  com satisfao.  
        Ins deu-me  uma verdadeira aula de beleza.  
        Que nada.  Apenas acordei instintos adormecidos.  
        Fica-lhe muito bem esse penteado e a cor desse vestido  tornou ele com galanteria e um brilho apaixonado no olhar.  
       Aurora corou.  Pela primeira vez observou o marido como mulher.  Era um homem bonito, e seus olhos eram muito expressivos.  
        Voc est muito amvel.  
       Afonso tomou-lhe a mo, beijando-a  com carinho e delicadeza.  Via-se  que se sentia feliz.  
        Acho que interrompi.  Gostaria que me permitisse ouvi-la ,  senhorita Ins.  
       A moa no se fez de rogada e tocou algumas msicas.  O ambiente estava alegre e tranquilo.  Afonso no permitiu que elas sassem antes do jantar.  No sabia o que acontecera, mas tinha a certeza de que aquelas duas mulheres encantadoras tinham muito a ver com isso.  
       Aurora olhava o rosto bondoso do marido e pensava o quanto aquela criatura valia e fora importante em sua vida.  Entretanto, o que recebera em troca?   A indiferena.   
       Jamais se preocupara com o seu bem estar, seu conforto, seus sentimentos.  Enquanto ele lhe dava tudo, dedicando-se  com abnegado carinho, ela continuara a pensar s em si mesma, nos seus problemas e no peso dos seus erros.  Lucila tinha razo.  Como pudera ser to cega?   Embora cultuasse o amor a lvaro,  sentia imenso carinho por Afonso.  Sem ele, talvez no houvesse encontrado foras para viver.  Podia dedicar sua vida a faz-lo feliz, bem como ao seu velho pai.  Eles no deviam pagar pelos erros que ela cometera.  Alm do mais, o passado s existia em sua lembrana.  De nada valia cultu-lo .  Queria agarrar a felicidade.  No merecia, mas por outro lado se Deus lhe dera tantos benefcios, como os que lucila mencionara, foi porque ele se apiedara de seus enganos e no a quisera punir.   Teria ela o direito de punir-se  a si mesma, infelicitando os que a amavam e no mereciam ser infelizes?   Por isso iria lutar.  Haveria de reconquistar a alegria de viver e dedicar-se  com fervor a fazer seus entes queridos felizes.  
       Conversou, sorriu, especialmente carinhosa com o marido.  Quando Lucila resolveu retirar-se , aproveitando a ausncia de Aurora, que foi buscar algumas flores para oferecer s amigas, Dr.   Afonso aproximou-se  de Lucila com olhos marejados.  
        Esta noite aqui aconteceu um milagre.  Sei que a senhora conseguiu isso.  Muito obrigado.  Tem em mim um amigo reconhecido para o resto da vida.  
       Lucila sorriu:
        Parece que Aurora comeou a enxergar a realidade.  Espero que daqui por diante tudo melhore.  
        H algo que eu possa fazer?  
        O senhor sempre soube o que fazer e o fez muito bem.  Agora,  Aurora est comeando a aprender.  
        Vocs trouxeram alegria, paz, amizade, tudo mudou com sua presena.   As sombras desapareceram.  Por favor, voltem sempre: nos daro imensa alegria.  
       Aurora, que regressava com um ramo de rosas delicadamente enfeixado por uma fita, deu-o a Ins beijando-a  na face.  
        Com nossa gratido pela visita.  
       Lucila interveio:
        Aurora, por que no leva o Dr.   Afonso  nossa casa?   Gostaria muito de oferecer-lhes um jantar, ou um ch.  
       Aurora olhou o marido sem saber o que dizer.  Afonso raramente fazia visitas.  No gostava muito de atividades sociais, s atendia o indispensvel.  Ele sorriu:
        Irei com prazer.  Se a senhora no tiver compromisso, que tal no prximo sbado  tarde?  
        timo.  Ser uma grande alegria receb-lo s.  
       As duas despediram-se  e o prprio Dr.   Afonso fez questo de lev-la s ao carro, acomodando-as com gentileza.  Quando entraram, disse a Aurora: 
        So encantadoras.  Mulher extraordinria essa D.   Lucila.   
       Aurora tomou o brao do marido enquanto entravam, dizendo:
         verdade.  Desde que a conheci, tudo se transformou para mim.   Sua maneira de ver, to acertada e to sincera, tem-me  ajudado muito.  
        Assim parece.  Pela manh deixei-a  doente, e agora voc est tima.   Parece at outra pessoa.  Est como sempre sonhei que deveria ser.  
       Abraou-a  com carinho.  Aurora comoveu-se .  Passou os braos ao redor do seu pescoo e olhou-o bem nos olhos.  
        De hoje em diante o passado morreu.  Quero conservar a alegria.  
       Quero faz-lo feliz.  Acho que ainda temos tempo de viver nossa vida, com amor, e apreciar nossa felicidade.  
       Afonso abraou-a  com fora, voz embargada pela emoo.  Sentia Aurora trmula em seus braos e desejosa de afeto.  Era a primeira vez que a sentia assim, sem que o seu drama passado se interpusesse entre eles.  Beijou-lhe o rosto, os cabelos, as faces, a boca.  O prazer de sentir-se  novamente mulher, amada e desejada, foi mais forte.  Aurora pela primeira vez conseguiu esquecer tudo o mais,  entregando-se  queles momentos de amor e carinho.  
       Naquela noite, abraada ao marido, Aurora dispensou o habitual calmante e adormeceu tranquilamente.  
            
       CAPTULO 20
       
       Era noite de inverno, e Geraldo, sentado em sua confortvel sala de estar, junto  lareira, olhava pensativo as chamas que subiam e desciam, e o gostoso crepitar dos galhos, cujo aroma enchia o ar.  
       Fazia seis meses que se casara, e sentia-se  feliz.  Maria Luza era mulher carinhosa e parecia-lhe cada vez mais linda.  Sentada em gostosa almofada a seus ps, a jovem senhora lia, entretida, e Geraldo sentiu uma onda de carinho brotar em seu corao.  No se conteve.  Alisou-lhe os cabelos um pouco revoltos.  A moa sorriu,  levantando os olhos e olhando-o com suavidade.  
        Voc me esqueceu  queixou-se  ele  , h mais de uma hora que est lendo esse livro.  
       Colocando o marcador, Maria Luza fechou o livro com um gesto gracioso, levantou-se  e abraou o marido.  
        Tem razo.  Distra-me, mas no me esqueo nunca de voc.  
       Alisou-lhe os cabelos com meiguice.  Antnio tossiu levemente,  atraindo a ateno dos dois.  
        Esto aqui D.   Maria da Glria e o Sr.  Humberto.  
       Maria Luza levantou-se  alegre.  
        Faa-os entrar, por favor;
       Era sempre grata a presena de ambos.  Depois dos abraos e cumprimentos, a moa tornou:
        Desculpe interromper seu descanso.  J so 9 horas, um pouco tarde para visitas...  
       Geraldo interrompeu:
        Vocs no so visitas e so bem-vindos a qualquer hora.  Sentem-se , vamos conversar.  
       Humberto tomou a palavra.  
        Eu e Maria da Glria resolvemos apressar nosso casamento.  
        Que timo!   fez Maria Luza com entusiasmo.  
        Isso diz voc  tornou a moa com certa preocupao.    Meus pais no concordam com nosso casamento.  Alis, era de esperar.  Com as finanas da famlia cada vez mais ruins, esperavam que eu me casasse com um homem rico.  
        Sinto-me  amarrado  explicou Humberto num desabafo.    Como casar-me  com ela se nada posso oferecer seno amor?  Por mim, j teria casado.  Tenho certeza dos meus sentimentos.  Amo-a  muito, mas temo que ela venha a arrepender-se  de ter-se  apaixonado por um joo ningum.  
        No diga isso.  Fala como se eu fosse uma criana sem vontade nem raciocnio.  Eu o amo.  O que voc pode me dar, ningum pode.  Seu amor  a riqueza que mais quero.  J discutimos isso vrias vezes.  Acontece que no estou preocupada com meus pais, mas com Jorginho.  Meu pai apareceu com um noivo rico e fez de tudo para que eu o aceitasse.   Fez-me  mil ameaas, mas isso no importa.  Penso em Jorginho.  Como sabem, ele tem altos e baixos.  Tem fases timas e fases depressivas.   Claro que as sesses em casa de D.   Lucila esto ajudando, mas quando ele est em crise, larga tudo e no adianta nada tentar convenc-lo .  D.   Lucila diz que  natural e que a luta  dele, mas eu tenho procurado ajud-lo , apoiando-o com muito amor, e sinto que,  graas a isso, aos poucos ele vai voltando  normalidade e as crises vo-se  espaando.  Viemos aqui em busca de sua ajuda,  Geraldo, e dos seus conselhos.  Voc  nosso melhor amigo.  Queremos casar-nos, mas se o fizermos meu pai no permitir que continuemos a frequentar a casa.   isso que me preocupa.  Minha me quer ajudar, mas no tem muito jeito.  O que acha melhor fazer?  
       Geraldo olhou-os srio:
        Vocs se amam, e tm direito  felicidade.  Devem se casar de qualquer forma.  Podem convidar Jorge a viver com vocs.  Seria uma soluo.  
        Pensei nisso  respondeu Maria da Glria  , mas ele acha que um casal deve viver s.  
        No comeo, talvez  disse Humberto.    Mas depois, ele no ter mais argumentos.   uma boa soluo.  
        Vou resolver esse problema  minha maneira.  Amanh mesmo vou procurar seu pai e ter uma conversa com ele.  
        Acha que vai adiantar?    perguntou Humberto.  
        Pode ser  considerou Maria da Glria.    Meu pai  muito vaidoso.  Receber Geraldo por certo ser uma honra.  Acredito que pode ajudar.  
        Ento, amanh iremos  sua casa.  
       A moa olhou-o com alegria.  
        Espero que d certo.  Se ele no se opuser ao casamento, tudo ser mais fcil.  De certa forma, tenho pena de minha me;embora dentro de seus limites, tem se esforado para ajudar Jorge.  Ela tambm precisa de apoio.  No gostaria de abandon-la  de uma vez.  
        Voc  um grande amigo  considerou Humberto, comovido.  
        Voc tambm .  Tem feito muito por mim.  Sinto-me  muito feliz, e desejo que vocs tambm possam ser to felizes quanto ns.  
        Tem razo, Geraldo  reforou Maria Luza  , vocs merecem.  
       Foi com alegria que combinaram a ida do casal no dia seguinte  casa de Maria da Glria.  Geraldo sentia repulsa pelo tio, mas a prima era uma pessoa muito querida e havia Jorge, a quem muito desejava ajudar.  
       Eram oito da noite do dia seguinte quando Geraldo e Maria Luza tocaram a campainha da casa dos tios.  Recebidos cerimoniosamente pelo empregado, foram anunciados na sala onde a famlia se encontrava reunida.  Tinham combinado que Humberto chegaria uma hora depois.  
       A notcia da surpreendente visita do sobrinho cara como uma bomba no seio da famlia.  Maria da Glria omitiu a razo da visita, e tanto o Dr.   Marcondes como a esposa sentiam-se  eufricos.  Apesar de no gostar do sobrinho, o Dr.   Marcondes sentia-se  valorizado.   Depois disso, ningum mais poderia dizer que ele no era aceito por Geraldo, e, quem sabe, essa visita pudesse ser o incio de uma amizade da qual poderia tirar muito proveito.  Procurou conter sua alegria e disse com ar srio:
        Diga a Geraldo que pode vir.  O passado morreu.   meu nico sobrinho e o receberemos dignamente.  
       Conduzidos  sala, Geraldo, srio, apertou a mo do tio, beijou a mo da tia e abraou Jorge com alegria e calor.  Depois das formalidades, Geraldo, que no era homem de rodeios, tornou:
        Viemos apresentar nossos cumprimentos e oferecer nossa casa, mas antes gostaria de falar com os tios em particular.  
       Renata trocou um olhar admirado com o marido.  Dr.   Marcondes levantou-se  com cortesia.  
        Podemos conversar em meu gabinete.  
        Certamente.  
       Enquanto os trs cerimoniosamente se dirigiam ao escritrio do Dr.   Marcondes, Jorginho e as duas moas trocavam confidncias,  aguardando os acontecimentos.  
       Geraldo, sentado em elegante poltrona, foi direto ao assunto.  
        Como sabem, gosto muito de Maria da Glria e de Jorge.  Eles so como irmos para mim.  Por isso, interesso-me  pela sua felicidade.   Vim aqui pedir a mo de minha prima para o meu amigo Humberto.  
       Apanhado de surpresa, Dr.   Jos sentiu-se  embaraado.  No esperava que Geraldo fizesse tanto empenho nesse casamento.  Sem saber o que dizer, murmurou:
        Esse assunto me apanhou de surpresa.  No conheo esse moo.  No tem famlia e, alm de tudo, nossa filha  moa acostumada ao luxo.   No sei se ele ter condies de casar-se  com ela.  
        Claro que tem.   um moo excelente, est estudando e ser um grande advogado, tenho certeza.   meu nico procurador e penso dar-lhe sociedade nos meus negcios quando se casar.  Sua situao financeira, portanto,  muito slida.  Considero uma honra para nossa famlia receb-lo como parente.  Depois, eles se amam e sero muito felizes.  
       Vendo-o mencionar sociedade nos negcios, os olhos de Jos brilharam.  A idia pareceu-lhe boa.  Aquele casamento o aproximara do sobrinho, e, quem sabe?   talvez conseguisse parte da fortuna para si.  
        Nesse caso...  no sei o que dizer...    Com gentileza, voltou-se  para a mulher:  E voc, o que acha?  
        Acho que isso far nossa filha feliz.  Concordo plenamente.  
        Bem...  eu tambm.  Sendo assim, acho que podemos pensar no assunto.  
        Voc concorda?  
       Sentindo-se  pressionado, no teve sada:
        Sim.  Concordo.  
        Nesse caso, vamos marcar a data.  Para daqui a um ms, talvez.  Ele assustou-se :
        J?   Melhor esperarmos para daqui a um ano.  
        Por qu?  
        Sabe como so essas coisas, despesas;eu agora no tenho dinheiro para fazer esse casamento.  
        De quanto acha que precisa?  
        Bem...  uns duzentos contos, quem sabe.  
        Tanto assim?    tornou Geraldo.  
        Tem o enxoval da noiva, a festa, sabe como .  
        No se preocupe.  Corre tudo por minha conta.  No quero que os
       noivos saibam.  Fica entre ns.  
        Certamente, meu caro sobrinho.  Certamente.  
       Quando os trs saram da sala, o casal estava sorridente e cheio de amabilidades com Geraldo, o que fez Maria da Glria trocar olhares maliciosos com o irmo.  Geraldo, srio, falou em tom solene:
        A cabo de pedir a mo de Maria da Glria para Humberto.  Os tios aceitaram com prazer.  O casamento, conforme os noivos queriam, ser realizado dentro de um ms.  
       Maria da Glria abraou a me e o pai com alegria.  
       Quando Humberto chegou, foi recebido com cortesia e votos de felicidade.  Geraldo estava feliz.  Maria Luza olhava-o com olhos brilhantes.  
       A cada dia mais apreciava as qualidades do marido.  Parecia um menino contente realizando os sonhos das pessoas que apreciava.   Ele j no se parecia muito com o matuto desconfiado e analfabeto que viera de Dente de Ona.  
       Retiraram-se  alegres, tendo deixado combinados os detalhes para o casamento.  
       Os dias que se seguiram foram de euforia e preparativos.  Humberto no continha seu entusiasmo.  Conseguira dar entrada em uma bela casa, e embora no pudesse mobili-la  completamente, dava-lhe sensao de segurana.  Chamado por Geraldo ao acerto de contas e exame dos seus negcios, surpreendeu-se  com a generosidade do amigo, colocando-o como scio em algumas de suas empresas.  
        Geraldo, estou sem saber o que dizer.  
        No diga nada.  Afinal, no entendo nada de negcios.  Voc  que tem feito tudo sozinho.  Pelo que sei, as coisas vo indo cada vez melhores, graas a voc.   justo que sejamos scios.  Eu entrei com o dinheiro e voc com o trabalho.   muito justo.  
       Humberto abraou-o com olhos midos.  
        O que est fazendo comigo, nem um irmo faria.  
        .  Mas no pense que vai ser fcil.  Resolvi comear a trabalhar,  fazer alguma coisa para ocupar me.  Agora, vou esperar seu casamento; quando voltar da viagem, vamos tratar disso.  
        Por certo.  Farei o que puder.  
        Terei que aprender muitas coisas.  Agora, precisamos comear nossa sociedade.  Que tal convidar D.  Lucila e Ins para um jantar?  
        timo.  Levaremos Jorge tambm.  
       Estavam alegres e despreocupados.  A vida para eles estava transcorrendo em clima de paz e harmonia.  
       O casamento realizou-se  na data prevista, e Maria da Glria a custo conseguiu conter o Dr.   Marcondes na pompa e no luxo que ele pretendia.  Tanto ela quanto Humberto desejavam cerimnia simples; porm, o Dr.   Marcondes pretendia exatamente o contrrio.  A custo a moa conseguiu moderar-lhe um pouco as pretenses.  Tinha receio de que ele se endividasse;porm, ele pagava tudo sem regatear, e a moa pensou que a situao da famlia no fosse to precria quanto ele fazia supor.  Ignorava que Geraldo estava pagando todas as despesas regiamente.  No puderam evitar a belssima recepo, nem o grande nmero de convidados.  Dr.   Marcondes jamais iria perder ocasio de projetar-se  socialmente.  Atendeu aos convidados com apuro,  desfilando de fraque entre eles, guardando a pose que julgava prpria para a ocasio e, naturalmente, distribuindo suas atenes de acordo com a importncia e a posio de cada um.  
       Geraldo estava contente.  Sabia que a prima e o amigo estavam felizes.  E em meio  alegria reinante, s Aurora lutava para dissimular sua preocupao.  Seu eterno receio de que Maria Luza viesse a saber seu segredo.  No podia conter um aperto no corao olhando a figura arrogante daquele homem que no tivera escrpulos em chantage-la  vergonhosamente.  No fora o receio da filha desconfiar e a amizade que sentia pelos noivos, no teria comparecido.  Afonso percebeu sua preocupao e com carinho apertava sua mo fria de quando em quando.  A vida para eles melhorara muito.   Tanto que agora ele a acompanhava s sesses em casa de Lucila,  lendo e estudando os livros espritas com sincero interesse.  Seus princpios doutrinrios, seus esclarecimentos sobre as causas e os problemas humanos, seu conceito de justia,  e principalmente a verdade consoladora da sobrevivncia da alma aps a morte,  encontraram fundo significado em seu esprito.  
       Aurora havia mudado muito, e agora eles realmente desfrutavam convivncia mais harmoniosa.  Eram felizes.  Vendo-a  sofrer de novo, e compreendendo-lhe as dolorosas lembranas, cercava-a  de carinho e conforto.  
       Porm, o Dr.   Marcondes, ocupado em atender ou cercar as pessoas que ele considerava importantes no cenrio social, sequer a olhou,  desinteressado de sua presena, o que de certa forma a aliviou.   Porm, cercava Geraldo de atenes que o moo agora, mais afeito ao ambiente social, fingia ignorar.  Todavia, teve sua ateno despertada pela figura de um moo que os olhava insistentemente.  Observou Maria Luza e percebeu que ela estava sem jeito, foi ento que lembrou-se .  Ele era o ex-amor de sua mulher.  O homem pelo qual ela chorara e vivera infeliz.  
       Geraldo empalideceu.  Sentiu um golpe no corao, um sentimento doloroso de cime o acometeu.  Ela o amara.  Teria esquecido completamente?   Fingindo no perceber que ele estava como que magnetizado pela figura de Maria Luza, mal ouvia o que a mulher que o acompanhava dizia.  Percebeu que Maria Luza procurava distanciar-se  o mais possvel desse olhar indiscreto dando-lhe as costas, mas mesmo assim ele no desistia.  
       Irritado, Geraldo teve vontade de dar-lhe um murro, mas achou melhor no provocar um escndalo.  Quem teria convidado tal sujeito?   pensou com raiva.  Por certo, o Dr.   Marcondes.  Olhou.  Os dois conversavam animadamente.  Conhecendo o tio, imaginava que o outro deveria ser pessoa de influncia.  Fitou-os com frieza, procurando dissimular seu descontentamento, desejando que os noivos se retirassem logo para que eles pudessem sair tambm.  Se Geraldo tivesse podido ouvir o que conversavam, teria sado dali imediatamente.  
        Pelo visto, fez as pazes com seu sobrinho  dizia ele ao Dr.  
       Marcondes.  
        .  Afinal, famlia  famlia, no se pode fugir.  
        Pelo visto, Maria Luza se arranjou muito bem casando-se  com ele.  
        .  Fez timo negcio.    E, dando uma piscada maliciosa:  Pelo visto, voc caiu fora.  Lembro-me  de que ela andou cada por voc.  
       O outro riu, satisfeito.  
        Voc sabe.  A gente tem que variar.  
        Eu sei  tornou o Marcondes, dando-lhe palmadinha amigvel nas costas  , entre os Mendes Caldeira e Maria Luza vai grande distncia.  Soube escolher.  Posio compatvel com sua famlia.  Sem falar da enorme fortuna...  
        Essas coisas contam.  Mas.  .   .   quer saber de uma coisa?   Vou fazer-lhe uma confidncia.   Olhando Maria Luza agora, to linda, to fina, to rica, fiquei meio arrependido de a ter deixado.   sua sobrinha agora, mas continua linda como nunca.  
       Longe de agastar-se , Marcondes.  sorriu.  
        No se preocupe com, isso.  Afinal, Roberto, ela  mesmo uma bela mulher.  
        .  Jamais a vi to bela.  
       Os olhos dele brilhavam de cobia.  
       Assim que os noivos saram da sala para viajar, Maria Luza quis ir embora.  Geraldo, calado, angustiado, ferido, no encontrava nada para dizer.  Ela, nervosa, s respirou melhor quando viu-se  longe da recepo.  Vendo-se  a ss com o marido, tentou conversar sobre a cerimnia, mas Geraldo, calado, no mostrava muito entusiasmo.   
       At que ela tocou no assunto.  
        Geraldo,  acho que voc viu Roberto entre os convidados.  
       Ele estremeceu, enquanto que uma emoo estranha, misto de rancor e medo, tomava conta de seu corao.  
        Vi  respondeu seco.  
        Pois .  Ele me fixou vrias vezes e isso deixou-me  um pouco embaraada.  
        Talvez tenha ficado emocionada.  
       A moa segurou o brao do marido com fora.  
        No, Geraldo.  Quero lhe dizer que  a voc que eu amo.  Hoje, mais do que nunca, tenho a certeza absoluta de que ele nada representa
       para mim.  
       Geraldo olhou-a  desconfiado:
        Ento, por que a emoo?  
        No foi emoo.  Foi desagrado.  Sou sua esposa, no sou mais solteira, ele tambm  comprometido.  Achei ofensiva a maneira como olhou para ns.   um mau carter, e espero que nunca mais cruze nosso caminho.  Para ser sincera mesmo, agradeo a Deus ter conhecido voc.  Amo-o muito, Geraldo, de verdade.  
       O moo acalmou-se .  Beijou-a  nos lbios com carinho, e procurou esquecer o acontecido.  Mas nos dias que se seguiram, Geraldo no conseguiu esquecer o desagradvel incidente.  Sempre fugira do amor,  mas agora era forado a reconhecer que amava Maria Luza.  Sofria s em pensar que ela pudesse estar pensando em Roberto, ou se recordando dos velhos tempos.  No podia esquecer a cena, Maria Luza chorando o amor perdido, ou tremendo de emoo quando o encontrava.   Por outro lado, sentia que a esposa representava sua motivao para viver.  Sem ela, como vencer a solido de sua vida de rfo?  
       Procurava reagir contra esses pensamentos, que buscavam-lhe a mente com frequncia, tornando-o agitado, angustiado, nervoso.  Maria Luza redobrou suas atenes e seu carinho, mas sem resultado.   Preocupada, procurou D.   Lucila e esta aconselhou-a  ao estudo constante do Evangelho, e a frequncia nas reunies uma vez por semana em sua casa.  No querendo desagradar a esposa, Geraldo concordou.  Desde que se casaram que ele no mais demonstrara interesse pelas reunies espritas.  Lucila recebeu-os com o carinho de sempre, e foi com prazer que Geraldo a abraou.  Surpreendeu-se  com a presena do Dr.  Afonso e abraou Jorge com alegria.  O moo frequentava regularmente as sesses, e embora de vez em quando ainda tivesse seus deslizes, apresentava sinais evidentes de melhora.  
       Sentados ao redor da mesa, a um sinal de Lucila, Ins proferiu singela prece.  Aberto o Evangelho Segundo o Espiritismo, no trecho Consolador Prometido, foi o mesmo lido e comentado com elevao e inteligncia pelo Dr.   Afonso, o que surpreendeu tanto Geraldo quanto Maria Luza.  O ambiente era leve e agradvel.  Apagada parte das luzes, na penumbra agradvel da sala o silncio se fez, e de repente fundo suspiro saiu do peito de Ins, enquanto que suave perfume enchia o ar.  
       Sobressaltado, Geraldo pensou: "Minha me! " Com voz suave, Ins comeou:
        Grande  a alegria que sinto por poder falar a vocs, queridos amigos.  Hoje, com a graa de Deus, posso dizer do trabalho em favor do prximo que desejamos realizar atravs do concurso amoroso de todos vocs, no desempenho da tarefa de amor e de renovao no bem de que necessitamos.  Longos anos gastamos na preparao e no esforo comum para que este momento se concretizasse, e a hora  chegada.  Nunca antes mencionamos isso porque vocs ainda no estavam preparados para assumir o trabalho.  Aguardvamos melhor estrutura do grupo para iniciar.  Contudo, agora  chegada essa hora.   Apesar das lutas e do progresso que o homem vem conquistando no desenvolvimento de todas as cincias e da tecnologia, no consegue ainda resolver os intrincados problemas do esprito e tornar-se  mais feliz.  
        Nunca a dor exigiu tanto do ser humano e nunca o homem precisou tanto das verdades eternas e do conhecimento da justia de Deus,  de suas leis.  
         chegada a hora de iniciarmos nossa pregao, portas abertas aos que sofrem, e Deus nos ajudar.  Logo encontraro local apropriado.   Esperamos que seja simples e modesto.  De incio, devemos continuar com nossas reunies reservadas no novo local.  Voltaremos  orientao no momento oportuno.  Humberto e Maria da Glria viro  participar.  Mais tarde enviaremos outros companheiros que os ajudaro, pois o grupo vai crescer e muitos benefcios adviro para muita gente,  com a proteo de Jesus.  
        Lembrem-se  de que muito temos recebido da bondade divina.  Chegou a hora de dar.  De abrir o corao aos sofredores e levar-lhes a consolao que j agasalhamos no corao.  
       Todos ouviam em silncio.  Carolina fez ligeira pausa.  Depois, com voz comovida, tornou:
        Meu filho!  Sejamos gratos a Deus, que nos tem permitido tantas bnos.  Prepara seu corao para o trabalho com Jesus.  Estude o Evangelho, medite, ore com fervor, para que possa entregar-se  ao esforo do bem, ajudando e servindo em nome de Deus.  No pense que a felicidade seja conquista fcil no mundo.  Precisamos plant-la  sempre no corao dos outros, para que ela possa instalar-se  definitivamente dentro de ns.  
       Pense nisso, junte-se  a ns na lavoura do bem.  A prece fortalece nosso esprito, no se esquea dela.  E, principalmente, cultive pensamentos bons, de otimismo e alegria.  Afinal, estamos juntos.   Abrao a todos agradecida.  Jesus esteja conosco.  
       Ins calou-se .  O brando perfume de Carolina volatizava o ar, e todos continuaram silenciosos em serena expectativa.  
       Geraldo pensava.  Sua me!  O amor de sua vida.  Sentia-se  emocionado.   No entendera bem suas palavras.  Ela pareceu-lhe um pouco distante.   Quando a reunio foi encerrada, perguntou respeitoso:
        No entendo bem o que minha me quis dizer.  
       Lucila esclareceu:
        Ela quer que oficializemos nosso grupo.  Isto , que abramos um
       Centro Esprita.  Disse que chegou a hora.  Faz tempo que vrios espritos nos tm informado dessa necessidade.  Contudo, estvamos aguardando maiores detalhes.  Agora, eu tambm acho que chegou a hora.  
       Dr.   Afonso sugeriu:
        Podemos alugar uma sala e comear.  Terei gosto em cooperar.   Recebi tanto!  Gostaria de poder distribuir essa alegria com os outros.  
        S para fazer sesses?    inquiriu Geraldo admirado.  
        De incio, para estudo.  Podemos formar um grupo de estudos.   Depois, no comeo no vamos convidar outras pessoas.  H que aguardar ordens.  E voc, Geraldo, o que me diz?  
        Minha me falou, eu fao.  
       Lucila ponderou:
         preciso tambm que voc compreenda.  Seria muito bom se voc estudasse um pouco O Livro dos Espritos, o Evangelho Segundo o Espiritismo.  
        J os li.  
        Mas  bom estudar.  Pelo que disse Carolina, voc ter tarefa a desempenhar.  Precisa preparar-se .  
        Isso no entendi bem.  
        Entender por certo quando for oportuno.  Por agora, por que no procura seguir o que Carolina sugeriu?   Seus conselhos so muito importantes.  
        Est bem.  Procurarei fazer tudo.  
       Conversaram animadamente, traando planos, e como sempre acontecia  nessas reunies, acabaram na copa, saboreando o cafezinho com guloseimas, palestrando agradavelmente.  
       Maria Luza estava feliz.  Nunca vira sua me to bonita, to alegre e to contente.  Estava remoada e bem disposta.  Dr.   Afonso tambm estava alegre, e seu rosto ganhara expressividade e fora.  Aurora no voltara a suas antigas crises.  Seria o Espiritismo responsvel por essa mudana?   Embora no soubesse responder, no podia deixar de reconhecer que a mudana tivera incio desde que Aurora comeara a frequentar a casa de Lucila.  Estava comovida.  Se ela pudesse cooperar, o faria de bom grado.  
       Nos dias que se seguiram, Dr.   Afonso localizou uma sala; cotizando-se  a alugaram, e o grupo passou a reunir-se  no local uma vez por semana.  
       Era com alegria que esperavam o dia do encontro, e diante das diretrizes novas intensificaram os estudos, com seriedade e disposio.  
       Geraldo comparecia sempre, mas no se entusiasmava com a possibilidade de trabalho.  Sentia-se  sonolento, pouco interessado,  e at a presena de Carolina, que por vezes o envolvia com seu perfume delicado, no o emocionava como antes.  
       Preocupada, Lucila tentou conversar com ele com carinho, mas o moo negou o fato, insistindo que estava bem e feliz.  Entretanto, no era verdade.  Em seu corao, aos poucos ia se infiltrando um cime doentio da esposa, uma mgoa, como um rancor surdo e injustificado que no lhe permitia usufruir da calma costumeira.   noite, era acometido de pesadelos, onde surpreendia sua mulher nos braos do rival e via-se  envenenando-o ou abatendo-o a tiros.  Essa angstia ntima comeou a mudar o comportamento de Geraldo.  Maria Luza redobrava suas atenes, sem que ele se modificasse.  A moa comeou a assustar-se  ao perceber que aos poucos o marido se modificava,  tornando-se  irritadio e irnico, introspectivo e indiferente.  No era mais o moo alegre e calmo, bondoso e ponderado de antes.  At seu olhar, dantes to perpicaz e vivo, tornara-se  duro e frio.  
       Maria Luza sentia que a cada dia o marido se ia distanciando dela, sem que pudesse de alguma forma impedi-lo .  Por outro lado,  momentos havia em que Geraldo chegava a odi-la , julgando-a  fingida e interesseira.  
       Em vo Lucila procurava conversar com ele, ajud-lo a melhorar seu estado mental; Geraldo negava o fato, mas no ntimo permanecia do mesmo jeito.  
       Foi com alegria que Maria Luza recebeu a notcia do mdico.  Ia ser me!  Um filho!  Por certo haveria de chamar o marido  realidade.  O que ningum conseguira, a vinda de uma criana por certo conseguiria.  Devolveria ao seu lar a felicidade ausente.  Procurou Geraldo, o rosto corado, ar de felicidade.  
       O moo comoveu-se .  A possibilidade de ser pai enchia-o de emoo.   Abraou a esposa com carinho, e em seus olhos brotou novamente a chama de antes.  Mas nos dias que se seguiram, tudo foi se modificando.  Geraldo comeou a sentir certo pavor de ficar perto da esposa.  Evitava-lhe a presena instintivamente, e quando se aproximava dela, evitava toc-la .  
       Preocupada, Maria Luza procurou certa noite esclarecer a situao.  
        Geraldo, o que est acontecendo?   Por que voc se afasta de mim?   No est contente com a vinda de nosso filho?  
       Ele pareceu angustiado.  
        Estou.  Nesse estado, voc precisa descansar para que tudo corra bem.  
        Est fugindo do assunto, o que no  seu costume.  No v que est me fazendo sofrer?   No sente que eu o amo muito e que preciso do seu amor, do seu carinho, do seu apoio?  
       O moo olhou-a  e seus olhos encheram-se  de lgrimas.  Maria Luza abraou-o com carinho.  Geraldo chorava, sem que pudesse falar.   Quando se acalmou, tornou com voz triste:
        No sei o que se passa comigo.  Vivo atormentado, pensamentos estranhos, cimes, dios, desconfiana.  Amo voc, ter um filho sempre foi um sonho de felicidade, mas agora estou assim, sem compreender por que esta vontade de largar tudo, de me vingar, sem ter do que,  afinal.  Acho que estou ficando louco.  S a loucura pode explicar o que se passa comigo.  
        Meu bem.  Voc no est ficando louco.  Est s um pouco perturbado.   Vamos procurar D.  Lucila, e tenho certeza de que nos ajudar.  
        Est bem.  Farei o que quiser.  No tenho foras para lutar.  
       No dia imediato procuraram pela amiga, que, a ss com Geraldo, o ouviu com muito carinho.  O rapaz contou-lhe seus temores, suas dvidas,  suas lutas ntimas.   
       O rosto de Lucila, sempre sereno, estava preocupado.  
        Vamos orar, meu filho.  Para que Deus nos ajude.  
       E, quando o moo se recolhia respeitoso, Lucila proferiu comovida prece, pedindo humildemente a ajuda dos servidores de Jesus.  Aos poucos seu rosto foi se transformando, e quando terminou estava serena;branda energia os envolvia, como suave brisa.  Ela perguntou:
       -sente-se  bem?               
        Sim.  Nossa conversa fez-me  muito bem.  Estou mais calmo.  
       No esquea das  palavras  de Carolina:a prece  uma necessidade em nossas vidas, retempera nossas energias e expulsa as vibraes negativas que nos envolvem.  Voc tem orado?   
        No.  Confesso que no.  Esqueo me.  
        Procure lembrar-se .  Precisa defender-se  do assdio de espritos
       infelizes.  Procure no alimentar os pensamentos negativos, e ao mesmo tempo ligue-se  com Jesus pela prece, sempre que puder.  No falte s nossas reunies.  
        No sinto vontade de ir.  Desculpe, mas  verdade.   
        Do que tem medo?  
        Medo?  
        Sim.  Do que tem medo?  
        No sei se  medo.  No sinto vontade de ir.  Se insisto, no tenho sossego.  Fico to inquieto durante a reunio, sinto espinhos na cadeira, coceira pelo corpo, fastio, sono, mal estar.  Vontade de sair correndo.  
       Lucila olhou-o sria:
        Voc tem mediunidade.  Est sentindo o pensamento dos espritos necessitados.  Realmente, quem sente isso ou pensa assim so eles.   Voc consegue sentir-lhes o reflexo.  
       Geraldo abanou a cabea.  
        No sei.  Mas  muito desagradvel.  Tem horas que d vontade de gritar, de brigar e at de xingar.  Isso  possvel?   J tive vontade de rir na hora da prece.  Como v, melhor eu no ir.  Posso perturbar.  
        No diga isso.  O que voc precisa  ler o Livro dos Mdiuns de Allan Kardec.  Ele pesquisou o assunto e voc vai entender o que est acontecendo consigo.  
        Acha que pode ajudar-me?  
        Claro.  Vou emprest-lo .  Ver como vai lhe fazer bem.  Peo-lhe encarecidamente que no deixe de frequentar nossas reunies,  acontea o que acontecer.  
        E se eu perturbar?   E se no puder me conter?  
        No importa.  Prometa-me  que no vai faltar.  
        Est bem.  Farei o possvel.  
       A partir desse dia, Geraldo comeou a melhorar.  Procurava cumprir direitinho as determinaes de D.  Lucila e no mais faltou s reunies do grupo Esprita.  Aos poucos, sua perturbao foi diminuindo, seu esprito foi serenando e tudo voltou ao normal.  
       Geraldo estudava o Livro dos Mdiuns e ia identificando seus sintomas nos relatos de outras pessoas, compreendendo melhor as leis da influncia entre os homens.  
       Maria da Glria e Humberto regressaram da lua de mel e passaram a frequentar as reunies com assiduidade.  
       O Dr.   Marcondes, no entanto, no estava satisfeito.  No se conformava em conter suas despesas, nem em dar a perceber aos outros sua pssima situao financeira.   
       No ficara satisfeito com o casamento de Geraldo, e ainda esperava chance para continuar sendo o herdeiro da sua fortuna.  Embora sabendo que o moo por certo no ia morrer to cedo, esperava que,  sendo o herdeiro, pudesse continuar sacando por conta dessa herana.  Desejava que o moo, sentindo-se  s e desambientado,  abandonasse tudo e voltasse para o mato.  
       Por isso, quando surpreendeu o interesse de Roberto por Maria Luiza, anteviu uma possibilidade de desfazer esse casamento.   Conhecia a volubilidade do moo e sabia que Maria Luza o amara e,  por certo no seria difcil propiciar que eles pudessem reacender a velha chama.  Afinal, quem sabe at fosse ao encontro dos desejos ntimos deles.  
       Com esta inteno, procurou aproximar-se  mais de Roberto, no perdendo a oportunidade de elogiar a beleza, a riqueza, a finura da sobrinha, e de lamentar seu casamento com um homem inculto e to boal, criado no mato, como seu sobrinho.  Ftil e vaidoso, o moo deu asas  imaginao, chegando mesmo a se ver como um libertador da moa, presa a to pesadas cadeias.  Acreditava piamente que Maria Luza tivesse desposado Geraldo pelo dinheiro dele.  E esse detalhe fazia-o admir-la .  Porquanto, para ele, a astcia e a ambio eram qualidades.  
       Instigado pelo Dr.   Marcondes, passou a investigar a vida de Maria Luza e assedi-la  por toda parte.  A princpio a moa acreditou que aqueles encontros fossem fortuitos, mas logo compreendeu que ele a estava seguindo intencionalmente.  Ficou desesperada.  Temia que Geraldo pudesse perceber e acreditasse que ela o estivesse encorajando.  
       A toda parte que ia ele estava por perto, querendo abord-la  com olhos apaixonados.  Ela estava revoltada.  Evitava-o.  Fingia no v-lo ,  chegara at a repreend-lo com energia.  Mas ele no desistia.  Se saa do cabeleireiro, ele estava l;se ia s compras, ele a seguia; se ia  casa de alguma amiga, ele a esperava do lado de fora.  No sabia como livrar-se .  Temia que Geraldo descobrisse.  Logo agora, que eles haviam conquistado a paz  voltado  normalidade.  
       Certo dia, ao sair de uma loja, Roberto a cercou decidido.  
        Maria Luza.  Por favor, no me mande embora.  Tenha pena de mim.  
       A moa olhou-o com energia.  Parecia-lhe incrvel ter sofrido por ele.  Agora no s lhe era indiferente como at antipatizava com ele.  Quis passar adiante, mas ele interceptou os passos.  
        Oua-me  ao menos.  Por favor.  Estou sofrendo muito por sua causa.  
       A moa olhou-o com frieza.  
        Deixe-me  em paz.  Peo-lhe.  No percebe que o passado est morto?  
       Amo meu marido com loucura, como jamais amei algum.  Somos felizes.  
       Por que no nos deixa em paz?  
       Roberto empalideceu.  No estava habituado s derrotas.  Sentiu-se  desesperado.  
        No.  Voc me amou um dia.  No acredito que tenha esquecido tudo.   Eu no durmo, no fao outra coisa, s penso nisso.  Por que me recusa?   Voc sempre me amou.  
        Engana-se .  O que senti por voc no foi amor.  Agora, amo meu marido.  Estou esperando um filho dele.  Deixe-me  em paz.  Est atormentando minha vida com sua presena.   
       Deixe-me  em paz.  
       Aproveitando-se  da estupefao dele, afastou-se  rpida, tomando um txi que passava.  Roberto ficou arrasado.  No compreendia a recusa.   Quanto mais ela o repelia, mais ele a desejava.  Aflito, depois de andar muito procurou o Dr.   Marcondes.  Desabafou.  O tio de Geraldo estremeceu.  Uma criana!  Seus planos novamente iriam por terra.  Com um filho, tudo estaria perdido.  Novamente a histria se repetindo.  A fortuna esperada seria daquele herdeiro indesejado, que nada fizera e que ficaria com tudo.  
        Ela disse que no me ama!   tornou Roberto, amargurado.  
        Isso ela disse!  Claro.  Acha que ela iria atirar-se  em seus braos?   Logo ela, to puritana.   preciso trabalhar, conquistar! 
        No sei mais o que fazer.  Como conseguir?   Ela no me d uma chance.  Repele-me  com energia.  
        Voc sabe que as mulheres so assim.  Dizem "no" quando querem dizer "sim", e vice-versa.  Voc  to experimentado, ainda acredita nisso?  
       O outro pareceu animar-se :
        Ser?  
        Claro.  O que voc no pode  desistir agora.  Vejamos o que se
       pode fazer, vou ajud-lo .  
        Voc  meu amigo de verdade.  
        Sou.  O amor sempre me comove.  Vamos traar um plano.  Ver, tudo vai dar certo.  
       Maria Luza chegou  casa apavorada, nervosa.  Como afastar aquele teimoso do seu caminho?   No podia contar ao marido.  Ela, que nada lhe ocultava, tinha medo de que ele voltasse aos cimes antigos e no compreendesse o comportamento de Roberto.  Ela tambm no entendia.  No o encorajava de nenhuma maneira; pelo contrrio,  comeava at a desprez-lo , sentindo-lhe o carter fraco e leviano.   No ntimo, agradecia a Deus t-lo afastado de sua vida; assim pudera conhecer Geraldo, a quem amava verdadeiramente e respeitava,  admirando-lhe as qualidades de carter, sempre forte e sincero,  amoroso e bom.  No queria que ele sofresse.  Pensou em procurar Lucila, a amiga de sempre e conselheira.  Por certo, falaria com ela,  pediria conselhos e sua ajuda.  
       Mas nos dias que se seguiram, Roberto no voltou a aparecer.   Aliviada, Maria Luza julgou que tudo tivesse acabado.  Por certo ele compreendera a verdade e a deixava em paz.  Agradeceu a Deus por isso.  
       Durante quase dois meses ele no apareceu, e ela esqueceu logo a sua figura, entusiasmada com a maternidade e feliz com os preparativos indispensveis.  Sonhava com o futuro.  Carolina lhes dissera em uma das reunies que era um esprito amigo e muito querido que retornava, e por isso haveria muita alegria no seio da famlia com a sua presena.  Maria Luza embalava seus sonhos de me com enlevo.  
       Geraldo, no entanto, apesar de sentir-se  feliz, no podia compreender por que s vezes sentia certa barreira quando Maria Luza falava sobre o beb.  Um frio punhal lhe penetrava o corao, e um receio incontrolvel o acometia.  Nesses momentos sentia repulsa pelo filho, e ao mesmo tempo horrorizava-se  diante desse sentimento que no podia entender.  Lucila, com quem havia desabafado,  aconselhara-o a lutar procurando desenvolver mais seu amor pela esposa e pelo filho, que reconhecia sentir, a fim de que esse antagonismo, que por certo existia como dificuldades no vencidas de outras encarnaes, ou pela presena de espritos que no tinham afinidade com o esprito da criana, pudesse ser dissolvido.  
       E o moo procurava atender a esse conselho; entretanto, alegando o estado de Maria Luza, Geraldo comeou a espaar sua frequncia s reunies.  Sentia-se  pesaroso, nervoso, preocupado, descontente.  Maria Luza procurava ocultar seus receios e fazia o possvel para interessar Geraldo nos preparativos.  Mas ele a cada dia procurava distanciar-se  mais dela.  Comeara a interessar-se  pelos negcios e saa cedo para o escritrio, onde com Humberto adentrava o complicado mundo das finanas.  Mergulhou nas cifras, entregou-se  ao trabalho com afinco.  Saa pela manh e s regressava  casa ao anoitecer.  A esposa, preocupada, observava seu rosto contrado, seu ar de preocupao, seu aspecto nervoso.  No lembrava sequer a figura do moo equilibrado e alegre que conhecera.  
       Com a ajuda de Lucila, preces eram formuladas em seu favor, e o esprito de Carolina aconselhava pacincia e confiana em Deus.   Maria Luza andava preocupada, nervosa.  Mas precisava animar-se ,  confiava em que quando o beb chegasse, tudo seria diferente.  
       Certa manh, foi  cidade fazer compras para o enxoval.  Esperava o filho para o prximo ms e queria deixar tudo preparado.  Foi ao atravessar uma rua no centro da cidade que deparou com Roberto.   Cerrou os lbios contrariada, e procurou passar despercebida, mas o moo aproximou-se  sorridente:
        Maria Luza!  Que alegria.  Como vai?   Apesar de contrafeita respondeu educada:
        Bem.  Obrigada.    E continuou caminhando.  Ele a acompanhou.  
        Que coincidncia! 
        .  Perdoe-me, estou com pressa.    E estugou o passo.  Roberto no se deu por achado.  
        Voc est bem.  Bonita como sempre.  No se preocupe.  Eu quero pedir-lhes desculpas.  Sinto t-la  aborrecido com meus problemas.   Espero que me perdoe.  No pretendo aborrec-la  mais.  
       O semblante da moa descontraiu-se .  Afinal ele entendera.  
        Ainda bem.  No gostaria de ser indelicada.  
        Aceita tomar alguma coisa?   Um ch, um sorvete, algo assim?  
        Obrigada, mas tenho que ir.  Passe muito bem.  
       Sem dar-lhe tempo para mais nada, Maria Luza fez sinal para um txi e acomodou-se  rapidamente.  Roberto fechou a porta do carro e acenou para ela, procurando ocultar a decepo.  Mas a moa estava aliviada.  Graas a Deus ele no mais a importunaria.  Foi com alegria que chegou em casa e preparou-se  para receber o marido.   
       Aquela noite, ela o cercaria de tanto amor que ele teria que ceder,  contar o que lhe ia no corao.  
       Aprontou-se  com esmero.  Geraldo no chegava, as horas passando e nada.  Preocupada, telefonou para Humberto, que foi imediatamente  sua casa com Maria da Glria.   
       J passava da uma da madrugada quando eles chegaram, procurando ocultar a preocupao.  Geraldo nunca se atrasara.  Invariavelmente pelas seis ou sete horas voltava ao lar.  
        Ele no lhe disse nada?    indagou Maria Luza, aflita.  
        No  respondeu Humberto.    Sa do escritrio por volta de meio-dia;insisti para que me acompanhasse ao almoo em minha casa, mas ele recusou.  Disse que precisava resolver um negcio e que iria almoar depois.  Quando regressei, eram duas horas e ele no estava.   No apareceu mais no resto do dia.  
        Onde teria ido?   O que lhe teria acontecido?   Nunca agiu assim.  
         verdade.  No me disse nada de especial.  Estava calado, e rosto triste, como nos ltimos tempos.  No houve nada entre vocs?  
       A moa suspirou, angustiada.  
        No.  No houve.  Geraldo tem se modificado muito.  Parece carregar o peso de um problema ntimo, que o tem afastado de mim.  Depois que fiquei esperando nosso filho, tudo ficou pior.  No sei a que atribuir.  
        D.   Lucila acha que ele est passando por problema emocional que favorece o envolvimento espiritual, abrindo campo s influncias negativas de espritos infelizes.  
        , eu tambm acho  concordou Humberto.    Vamos avis-la , pedindo que nos ajude com suas oraes.    Dirigindo-se   esposa,  continuou:  Enquanto voc telefona e fala com ela, vou sair para procurar.  Pode ser que lhe tenha acontecido alguma coisa.  Vamos chamar o Antnio, perguntar ao chofer.  Fique calma, Maria Luza.   Vamos encontr-lo .  Pense no seu estado e no seu filho.  
       A moa chorava desconsolada.  
        E se algo tiver lhe acontecido?  
        Confiemos em Deus  tornou Humberto, procurando dissimular a preocupao.  Temia um acidente.  O comportamento do amigo nos ltimos tempos se modificara bastante.   
       O motorista tambm no sabia nada.  Levara o patro ao escritrio pela manh, como de hbito; depois permanecera durante todo o dia aguardando que o chamasse para busc-lo , mas Geraldo no o chamara.  
       Com o corao apertado, Humberto saiu junto com o motorista para procurar notcias.  Foi aos hospitais, aos necrotrios,  polcia,  mas no conseguiu encontr-lo .   
       O dia estava amanhecendo quando retornou  casa.  Maria Luza estava inconsolvel.  Chorava, com nervosismo, tentando rezar sem conseguir.  
       As horas passavam e nada de Geraldo.  Aurora e o Dr.   Afonso,  avisados, chegaram assustados.   D.   Lucila e Ins tambm juntaram-se  a eles, procurando esconder a preocupao.  Afinal, o momento pedia serenidade.  No adiantava nada o desespero ou o pessimismo.   Entretanto, Geraldo levava vida metdica.  Jamais deixava de avisar se fosse atrasar-se , ainda que por uma hora.  Era evidente que algo inesperado acontecera.  O estado de Maria Luza inspirava cuidados.   As horas passavam e nem uma notcia.  Geraldo desaparecera, e ningum sabia o que lhe havia acontecido.  
       Comeou ento o suplcio de Maria Luza.  No podia entender o que lhe estava acontecendo, nem sequer ter idia do que poderia ter acontecido a Geraldo.  Seria um sequestro?   Como ele era rico, e todos sabiam disso, era uma hiptese, porque morto ele no estava.  No fora encontrado em nenhum local, o que afastava a hiptese de assalto ou acidente.  Alm da polcia, Humberto comeou a investigar e contratou os servios de um detetive para auxili-lo .  
       Os dias foram passando e o mistrio permanecia.  Se tivesse havido sequestro, por certo algum os procuraria para resgate, mas uma semana escoara-se  sem que notcia alguma chegasse.  Aos poucos essa hiptese foi se distanciando.  Maria da Glria, desde o desaparecimento de Geraldo, fazia companhia a Maria Luza, sem afastar-se  de seu lado.  
       D.   Lucila e a filha iam para l todas as tardes, procurando confort-las.  O momento era difcil.  Os espritos amigos apenas orientavam para que tivessem calma, confiana em Deus e f.  No esclareciam sobre o que havia acontecido com o moo.  
       Aurora e Afonso tambm ficavam junto da filha o mais possvel,  procurando ocultar a preocupao.  O mdico de Maria Luza aconselhara o repouso e ministrara-lhe calmantes para preservar-lhe o equilbrio.  
       Nas investigaes, Humberto descobriu que Geraldo ficara no escritrio at as 13 horas e depois saiu, no que foi visto pelo homem da banca de jornais em frente ao prdio, e com o qual Geraldo habitualmente conversava e geralmente comprava jornais, revistas.   Quando Humberto perguntou-lhe se o vira, o jornaleiro esclareceu:
        Vi sim.  Devia ser mais de uma hora, quando ele passou eu o chamei.   Queria avisar que tinha recebido uma novidade da Europa.  Mas, at estranhei, ele passou e nem me respondeu.  Chamei duas vezes, mas ele se foi.  
        Reparou se estava bem?  
        Bem como?  
        Com fisionomia calma, alegre.  
        Estava meio esquisito.  Quando ele vinha vindo, fui para a frente da banca e esperei.  Sempre quando ele passava, cumprimentava e falava comigo.  Eu queria dar-lhe notcia da revista.  Mas ele passou srio.  Nem me olhou.  Quando o chamei, nem sequer voltou a cabea.   Acho at que no ouviu.  
        Obrigado -agradeceu Humberto.  
       A cada dia, mais aumentava a suspeita de que algo terrvel havia acontecido com o amigo.  Era notria sua mudana de comportamento.   Teria sido acometido de perturbao mental?   Essa hiptese podia explicar seu desaparecimento.  Talvez estivesse desmemoriado,  perdido, sem condies de voltar para casa.  Intensificou as buscas,  casas de sade, recolhimento de pessoas perturbadas.  Nada encontrou.   Geraldo desaparecera, e o moo descontrolado e triste, no sabia mais onde procurar.  
       
       
       
       CAPTULO 21
       
       
       Em meio  tristeza, algum estava satisfeito, feliz.  O Dr.  Marcondes,  sentado em seu escritrio, conversava animadamente com Roberto.  
        Eu no disse que ia dar certo?   Cime sempre foi e ser um bom aliado.  
       Roberto, apesar de satisfeito, objetou, com certo ar de preocupao:
        Ser que no fizemos mal?   Temo pela sade de Maria Luza.  
       Afinal, no desejo que nada de mal lhe acontea.  
       Dr.   Marcondes levantou-se  e, dando-lhe palmadinha amigvel no brao, tornou alegre:
        Que nada.  Ela vai superar isso muito bem.  Afinal, acho que at estamos ajudando.  
        Como assim?  
        Acha que ela casou com aquele caipira s por causa dos seus belos olhos?   Claro que no.  Se ela amava voc, s pode ter casado com ele pelo dinheiro.  Agora, com o seu desaparecimento, vai ficar livre e rica.  Pode ter a certeza de que, quando o tempo passar, ela vai aceitar sua corte.  Ento vocs sero felizes.  Com tanto dinheiro!  Podero viajar;sabe que o povo esquece, e depois podero se casar em qualquer pas.  
       Roberto sorria enlevado.  
        Dinheiro no me preocupa.  Sabe que tenho o bastante.  Maria Luza tem sido uma obsesso para mim.  No vejo hora de estreit-la  em meus braos.  
        Calma  tornou Marcondes com ar satisfeito.    Pode pr tudo a perder.  Contenha-se .  Deixe o tempo passar, depois daremos um jeito.  
        No sei o que faria sem sua ajuda.  
        Confie em mim.  Deixe-me  resolver tudo.  
       Quando Roberto se foi, ele sentou-se  novamente.  Estava realizado.   Vingara-se  do sobrinho caipira e tinha, novamente esperanas de reaver o dinheiro.  A histria se repetia.  Geraldo acreditava na traio de Maria Luiza, e fugira horrorizado e vencido.  Se essa criana vingasse, o que no desejava, lhe ser-lhe ia fcil provar que era filho esprio de Roberto, portanto em direito nenhum a herana.  
       Finalmente ia conseguir o que almejava.  Seu dinheiro, o dinheiro de sua famlia, lhe voltaria s mos.  Seu plano tinha sido de primeira.   Contratara dois detetives, que seguiram Maria Luza e Geraldo por toda parte.  Com os hbitos e lugares frequentados pelos dois, no lhe foi difcil colocar Roberto em toda parte, ao encalo da moa,  e um fotgrafo ocultamente havia documentado alguns desses encontros.  Maria Luza era arisca, no cedia, mas apesar disso, ele conseguira fotografias dos dois em poses inocentes, mas que podiam deixar subentender que estavam juntos, passeando.  Roberto possua alguns bilhetes de Maria Luza do tempo de namoro, suplicando-lhe a presena e dizendo que o amava.  Foi suficiente.  Algumas cartas annimas, um pouco de arte, as fotografias, os bilhetes.  Seu informante seguiu Geraldo naquele dia, quando ele, transtornado,  plido e sem rumo, saiu do escritrio e perambulou pela cidade,  andando a esmo.  No almoou, e na mo tinha apenas o envelope fatdico, contendo as fotos.  Sentou-se  na Praa da Repblica e ficou durante horas parado, rosto contrado, tenso.  Era noite j quando ele se dirigiu  estao.  Comprou uma passagem e, sem comer ou falar com ningum, tomou o trem.  Seu informante descobriu que fora para Mato Grosso.  Ficou satisfeito.  O caipira voltara para o mato, de onde ele nunca deveria ter sado.  Agora, estava livre para conseguir o que queria.  Tudo seria seu.  Estava certo de que Maria Luza voltaria para Roberto, o que lhe serviria muito para o que tinha em mente.   Alis, queria mesmo provocar escndalo.  
       Assim, mesmo que Geraldo quisesse voltar, desistiria.  No iria reconhecer o filho esprio.  Esperaria a criana nascer e se vingaria.  Tinha material de sobra para uma ao em juzo.  Sabia que,  em matria de honra, fcil seria sugerir a traio;difcil, difcil mesmo, seria provar o contrrio.  Riu satisfeito.  Finalmente, ele levara a melhor! 
       Na verdade, Geraldo estava l, novamente na casinha tosca em Dente de Ona.  Seu refgio, sua dor.  Despojara-se  de tudo quanto possua e envergava de novo a roupa surrada que encontrara intacta.  Alguns vizinhos trouxeram as galinhas e as boas-vindas.  
       Mas o moo no conseguia paz.  Na hora da desiluso e do sofrimento,  recordava-se  do seu refgio e o fora buscar, na esperana de, despojando-se  de tudo, voltar  vida simples e conseguir retomar a paz perdida.  Mas a angstia, o fogo da revolta, o consumiam interiormente.  
       Agora compreendia seu pai.  Agora sabia porque ele um dia fora esconder sua dor naqueles ermos.  Mas se Carolina era inocente,  Maria Luza no.  A traio da esposa doa-lhe profundamente.  Temia o  amor, temia o casamento.  Pensava nunca se casar.  No soubera defender-se  e entregara-se  ao amor por inteiro.  Agora, estava difcil esquecer.  
       Permanecia horas na rede, desesperado, ora recordando os momentos de amor que tinha vivido, sentindo a saudade doendo sem remdio, ora caminhando endoidecido pelo mato, indiferente a tudo, vendo as fotografias, lendo os bilhetes amorosos da sua mulher a outro homem e imaginando-a  com ele, na traio em seus braos.  Nesses momentos, temia enlouquecer.  Queria esquecer, mas no conseguia.   Deixou a barba crescer, no se alimentava.  Alguns cabelos brancos comearam a aparecer.  Geraldo nem se deu conta.  Apesar do cheiro de mato, da beleza das flores, do canto dos pssaros, da magia e da calma daquele recanto que amava, ele no conseguia tranquilidade.  
       Apesar de tudo quanto passara, de sua dor, de seus temores e de seu sofrimento, Maria Luza deu  luz um menino forte e saudvel, quase trinta dias depois de Geraldo desaparecer.  
       Apesar do carinho dos pais e dos amigos, Maria Luza chorou muito ao tomar o filho nos braos.  No podia compreender.  Humberto suspeitava que Geraldo tivesse partido espontaneamente.  Por qu?   No podia negar que o marido nos ltimos tempos estava mudado e arredio.  Mas a jovem senhora no podia entender como uma simples suspeita, que ela nunca alimentara, pudesse transtorn-lo a tal ponto.  Estava inconsolvel.  Debalde os pais e os amigos tentavam confort-la , porquanto seu corao triste e magoado no se conformava.  
       Lucila, a amiga de sempre, a visitava todos os dias, pedindo-lhe para manter a f em Deus e a confiana, mas ela no conseguia acalmar-se .  Temia que algo muito grave houvesse acontecido.  Chorava aventando a hiptese da morte do marido.  Foi em crise de desespero que Maria Luza pediu:
        Por favor, D.   Lucila.  Faa alguma coisa.  No suporto mais esta situao.  Pea ao esprito de D.   Carolina, que tem sido to boa.   Quem sabe vir nos ajudar.  
        J tentamos esse recurso, minha filha, e nossa amiga nos recomendou calma e confiana.  Se ela disse isso,  porque tudo vai se resolver a seu tempo.  Se voc quiser, podemos fazer uma prece aqui, em sua casa.  Vamos ver o que eles nos dizem.  
       A moa concordou, emocionada.  Dr.   Afonso notificou Humberto e Maria da Glria, Jorge, e  noite reuniram-se  todos na casa de Geraldo.  
       Ins murmurou sentida prece.  Aberto o Evangelho Segundo o Espiritismo, Dr.   Afonso leu a pgina "Causas Anteriores das Aflies".   Foi com voz comovida que Lucila pediu a ajuda dos amigos espirituais.  O silncio se fez, enquanto que todos os presentes,  ansiosos e em orao, aguardavam.  
       Vrias vezes o suave perfume de Carolina balsamizava o ar, e o ambiente estava leve e tranquilo, apesar da apreenso e da angstia dos presentes.  
       De repente, o corpo de Jorge foi sacudido com certa violncia,  enquanto que sua respirao tornava-se  ofegante.  Lucila pediu a todos que permanecessem firmes na orao.  Foi com dificuldade que uma voz rouca e um tanto diferente brotou da garganta do moo:
        O que querem de mim?   No basta o que j fizeram?   No chega a humilhao, a dor, a mgoa e a traio?   No acha que foi o bastante?  
       Por que no me deixam em paz?  
       Lucila, com voz calma, respondeu:
        De que tem medo?   Somos seus amigos e o queremos ajudar.  
        No acredito.   Ocs no sabem nada.  Minha dor, s eu sei.  Deixem-me em paz.  
        Voc est em paz  perguntou ela, conciliadora.  Fundo suspiro escapou do peito de Jorge.  
        Paz!  Depois de tudo!  Como poderia?   Sua emoo era evidente.  
        Gostaramos muito que acreditasse que o queremos bem.  Estamos pedindo a Deus que lhe d a paz.  Ele pode tudo.  Por que no confia nele?  
        Deus  pai dos justos.  No vai ajudar um assassino.  Eu sou um assassino, sabia?   Sou um assassino.  Vivo como um maldito, sem rumo nem consolo.  Ai de mim  gemeu ele  que jamais terei paz.  
        No diga isso.  O arrependimento sincero  porta ao perdo.  Deus  pai.  Por que no confiar?  
       O grupo orava com fervor.   De repente,  ele gritou:
        Meu Deus!  Onde estou?   Conheo esta sala.  Um pouco diferente, mas eu sei...  agora eu sei.  Carolina, onde est voc?   Por acaso pode me perdoar?  
       Foi com voz comovida que Lucila esclareceu:
        Por certo.  H muito que ela o perdoou.  
        No acredito.  No mereo.  Sou um assassino.  Ela no sabe! 
        Carolina sabe de tudo  respondeu Lucila  , e ela quer ajud-lo .   Tem trabalhado em seu favor.  Ela o ama muito.  
        No mereo  tornou ele em soluos.    No mereo.  Quero ir para longe, no voltar nunca mais, levar o meu filho.  s vezes penso que estou enlouquecendo.  Meu filho!  Ser mesmo meu?   Ser que Carolina no ama outro homem?  
       De repente, ele comeou a rir.  Um riso sinistro, enquanto dizia:
        Hoje eu tive a prova!  lvaro a ama!  Vi as fotos!  Aurora tinha razo.  Como duvidar?   Aquele homem, como podia saber?   Foi o inferno.  
       Eu, ajudando a salvar a vida do meu rival!  Eu, alimentando a vbora que me conspurcara o lar.  Eu, o trado, o enganado, o pobre-coitado.  
       Fez uma pausa, enquanto que, comovidos, todos oravam em silncio,  lgrimas correndo pelos olhos de Aurora, emocionada.  Ele prosseguiu:
        Ah!  Mas eu me vingarei!  Esta noite eu me vingarei.  Isto, colocado no seu leite, vai acabar com ele em poucos minutos.  No posso esquecer aquela noite.  Ele lia, sentado na cama, e vendo-me, guardou o livro.  Estava calmo e parecia recuperado.  Sorriu para mim.  
        Acho que dispenso os remdios agora.  J estou bem.    disse-me  calmo.    No devia preocupar-se  tanto comigo.  
        Voc  minha maior preocupao  disse-lhe, enquanto lhe oferecia o copo.  E fiquei olhando enquanto ele ingeria tudo at o fim.   Depois deitou-se , dizendo que estava meio tonto.  Alguns minutos depois, estava se torcendo em dores.  Eu, ali, mudo, olhando-o entre o dio e o pavor, sa correndo do quarto.  Eu tinha um bilhete dele que eu havia interceptado num momento de loucura, onde ele justificava o suicdio.  Ningum percebeu.  Nem Carolina.  Ela chorou muito e meu corao quase arrebentou por isso.  
       Mas o inferno continuou, apesar de ningum desconfiar de mim.  O inferno tem continuado sempre.  Duas semanas depois fui embora, mas levei o menino.  Havia de cri-lo feito um bicho do mato.  Carolina,  to fina, to delicada, teria como filho um caipira ignorante, um homem sem eira nem beira.  E eu consegui.  
        Meu amigo, lamento seu sofrimento  tornou Lucila, conciliadora.    No acha que  chegada a hora de compreender?   No acha que  chegada a hora da verdade?  
        A  verdade queima como fogo  disse ele, assustado.    Tenho tido vises.  Carolina me aparece estendendo-me  os braos.  s vezes vejo meu inimigo.  lvaro me aparece com as mos estendidas.  Dizem-me  que eles so inocentes.  Mas ento, o que eu sou?   Quem  culpado?   Eu, com meus cimes?   Eu, que cometi a mais hedionda vingana?   
       Minhas mos esto negras pelo meu crime.  No tenho perdo.  No posso ser perdoado.  
       O grupo continuava em orao.  O esprito de Euclides continuou:
        At quando sofrerei esse martrio?   Deus meu!  Estou morto e estou no inferno.  O inferno pode ser o meu destino.  
        Deus no castiga quem errou.  Abra seu corao a ele.  Pea foras e tome a deciso de fazer algo para reparar o mal que causou.  Isto lhe dar alvio.  
        Agora  vejo!  Lucila,  voc?   Minha amiga, que vergonha! 
        No se envergonhe.  Ningum aqui tem condies de julgar.   Estendemos nosso corao, nossa amizade, nosso abrao amigo.  No queremos esmiuar o passado.  Pelo que sei, posso afirmar o que sempre lhe disse.  Carolina  inocente, lvaro  inocente e j perdoaram seu gesto infeliz.  Eles o amam muito e lutam h muitos anos para que voc volte a reconciliar-se  com eles.  
        Tanta grandeza de alma, tanta bondade, eu no mereo.  Agora vejo claro.  Estou mais lcido.  Como pude escorregar desse jeito?   Que loucura tomou conta de mim?   
       Eu, um mdico.  Que horror!  As mos que deveriam curar serviram para matar.  Ai de mim, eu no tenho remdio! 
        No caia na negao.  Isso no vai ajudar.  Ningum o acusa de nada.   Sua conscincia  que est acordando.  Tenha o valor suficiente para suportar a situao, procurando sair com dignidade do precipcio em que se colocou.  Voc pode.  Todos lhe estendem a mo.  No seja orgulhoso.  D uma chance de melhoria ao seu esprito.   
       No transforme o erro de um momento de irreflexo e loucura em destruio maior de sua vida.  Carolina est bem.  Deseja que voc possa melhorar.  Ela o ama, sempre o amou.  Voc errou, mas j faz muitos anos e tem sofrido muito.   hora de procurar mudar, melhorar.  
        Ah!  Se eu pudesse! 
        Voc pode.  Deus  grande.  Carolina pode ajudar.  Por que tem fugido dela?  
        Ento era ela mesma que eu via?   No estava me acusando?  
        Claro que no.  
       Euclides estava mais calmo.  
        Ns ramos to felizes!   tornou ele  Por que a desgraa abalou nossas vidas?   Por qu?  
        Tudo saberemos a seu tempo.  Por agora lembra que Deus  bom e no desampara ningum.  Confia, ora e procura fazer algo de bom.   Queixas e lamentaes no o vo ajudar.  Lembre-se  disso.  
        Estou amargurado.  Geraldo, meu filho.  Ele sofre muito.  Que destino!  Foi para punir-me  pelo erro que cometi.  Ela paga pelo meu crime. 
       A voz de Lucila tornou-se  enrgica.  
        No acredito.  Ningum responde pelos erros alheios.  
        Ento, por que lhe aconteceu o mesmo que a mim?   Por que foi trado, e se lamenta?   Isso  castigo para mim.  Ele foi punido, e ele no  assassino como eu! 
       Lgrimas corriam pelo rosto de Jorge.  
        Acompanhei-o de perto e sofri com ele.  Tive medo de que ele fizesse o mesmo que eu, por isso o aconselhei a ir embora.  Foi melhor.  
        Como pde fazer uma coisas dessas?   Eu sou inocente!   tornou Maria Luza desesperada.  
        Calma, minha filha.  Ele no tem condies de entender muito.    interveio Lucila.  
        Inocente?   E a carta que eu vi, e as fotografias?   Por acaso so falsas?   Estar ele sendo vtima de um terrvel engano?  
        Vamos, acalme-se .  Agora, no se preocupe mais com nada, precisa descansar.  Deus vai ajudar a todos.  Voc est doente, deve repousar um pouco.  Outro dia conversaremos.   
       Talvez Carolina possa visit-lo no lugar de refazimento para que voc ser levado.  Tenha esperana e f.  Procure esquecer o passado.   Muitos anos de dor e sofrimento j bastam.  Vamos construir o futuro de amor e paz que todos desejamos.  Ore comigo.  
       Lucila pronunciou sentida prece e aos poucos Jorge serenou e voltou ao normal.  Ins, com voz branda e doce, falou:
        Obrigada, meus amigos.  Hoje demos um passo muito importante para a soluo dos nossos problemas.  Fiquem confiantes.  Estamos trabalhando e tudo se resolver.  
        O que aconteceu a Geraldo, pode dizer-nos?    indagou Lucila com humildade.  
        Posso informar que ele necessita das preces de todos com firmeza.  Passa por crise difcil, mas confiemos em Deus.  Um dia,  voltaremos para contar a origem dos problemas e das lutas que nos tm envolvido o corao.  Euclides acordou e eu abenoo vocs pela ajuda preciosa que nos deram.  Maria Luza, minha filha querida, sei o que vai pelo seu corao leal e sincero.  A calnia fere como fogo, e a dor por vezes nos parece invencvel.  Mas o dia da justia no tarda.  Entregue seus anseios a Jesus.  Perdoe incondicionalmente a todos os que a feriram  siga adiante, com coragem e alegria.   Dias melhores viro.  Seu filho  bno de Deus guiando seus passos.    um corao muito querido que retorna, esperanoso de recomear  luz do seu carinho e da sua orientao.  Mais tarde,  possvel que voc possa agasalhar algum a quem muito amamos, junto ao seu corao de me.  Confio que ento tudo estar em paz,  porquanto voc saber conduzir os inimigos de ontem  fraternidade e ao verdadeiro perdo.  Deus guarde e abenoe voc.  Estamos juntas.   No desanime.  Carolina.  
       O suave perfume encheu o ar, e os presentes, em lgrimas, no encontravam palavras para expressar suas emoes.  
       Aurora, plida, chorava sem saber o que dizer, enquanto Maria Luza indagava assustada:
        Deus meu!  Que drama  este que se oculta em nosso passado?  
       Meu pai foi assassinado?   Por qu?  
       Lucila colocou a mo sobre o brao trmulo da moa:
        Maria Luza, no sabamos desse detalhe.  Agora, coloquemos o perdo e a serenidade sobre o assunto para no perturbarmos o infeliz esprito de Euclides.  Muitas coisas no temos condies de entender.  Aguardemos a providncia divina.  Por agora, conforta-nos saber que Geraldo est vivo, e em alguma parte.  Uma tragdia que  no conhecemos, alguma trama que por certo ser revelada nos envolveu.  Agradeamos a Deus tanta bondade que nos possibilitou esse auxlio.  Confiemos na divina providncia, que as coisas voltaro ao seu normal.  Deus  grande.  Esperemos com f.  
        Ele falou em fotografias, cartas, como pode ser?   Isso no existe.    disse Maria Luza, preocupada.  
        Infelizemente, no sabemos o que aconteceu realmente.  Mas todos sabemos que Geraldo estava modificado, preocupado, inquieto nos ltimos tempos.  
        Algum teria interesse em separar vocs dois  considerou Humberto com seriedade.    Quem?  
       Maria Luza enrubesceu.  Acabava de lembrar-se  de Roberto.  Mas no o julgava capaz de tanto.  
        Maria Luza  indagou Humberto, interessado  , aconteceu alguma coisa com vocs, ultimamente, na intimidade, ou algo que pudesse provocar desconfiana em Geraldo?  
        Sim.  Aconteceu.  Mas no acho possvel que por causa disso ele tenha ido embora.  No houve nada.  
        Bem, o que foi?   Conte-me  direitinho.  
        Est bem.  
       Maria Luza contou o reencontro com Roberto no casamento deles,  seu assdio constante a partir desse dia.  
        Onde eu ia, ele estava.  No sei como descobria os lugares em que deveria ir.  Voc sabe, as compras, o cabeleireiro, a modista, etc.  Fugi dele e disse-lhe que amava Geraldo, at que me pareceu que ele com prendeu e desistiu de procurar me.  
        Quando foi isso?  
        Pouco antes de Geraldo desaparecer.  
        Isso faz sentido.  Sei que esse moo no desfruta de boa fama.   Seria capaz de ter forjado alguma "prova" para enciumar Geraldo.  
         difcil acreditar.  Conheo Roberto razoavelmente.   leviano, mas creio que no teria coragem para tramar tudo isso.  Custa-me  crer.  
        Tem uma explicao melhor para o desaparecimento de Geraldo?  
        No  murmurou ela com voz triste.  
        Vou investigar.  Se ele fez essa traio, vou descobrir.  Eu juro.  
       Aurora estava transtornada.  Seu rosto plido, martirizado, refletia extremo sofrimento.  Afonso apertava sua mo fria, com carinho e preocupao.  
       Enquanto Maria Luza foi atender a criana, que necessitava dos seus cuidados, Lucila aproximou-se  dela com carinhosa ateno.  
        Aurora, no se atormente.  Deus sempre faz tudo certo.  No tema.  
         o meu castigo!  Continuo pagando.  No acho justo, eles so inocentes!  Por que devem sofrer pelo meu crime?   Voc no me havia dito que Deus no pune os filhos pelos crimes dos pais?  
        Continuo dizendo.  Acalme-se , Aurora, coragem.  Pelo que Carolina nos disse, todos estamos envolvidos em dolorosa trama do passado.  Como pode voc assumir toda culpa pelo que aconteceu?   Confiemos em Deus e esperemos com f e serenidade.  Se Maria Luza sofre, se Geraldo sofre,  porque eles precisam aprender algumas lies que a vida se disps a ensinar.  Ningum responde pelos erros alheios, pode estar certa.  Carolina nos prometeu contar a verdade e afirmou que tudo vai voltar ao normal.  Por que ento a preocupao excessiva?   No acha que esses amigos esto nos ajudando?  
       Aurora pareceu mais calma.  Suspirou fundo.  
        Maria Luza vai descobrir tudo.  Ficou sabendo sobre o passado.  
        Hoje ns fomos surpreendidos com a descoberta sobre a morte de lvaro.  No acha que sua filha tem condies de entender a verdade?   No acha que o que tem sofrido a coloca mais perto do seu prprio sofrimento?  
        Talvez.  Mas eu tenho medo de contar-lhe.  No resistiria.  
        Pense bem, Aurora.  Talvez este seja o momento adequado.   prefervel que ela oua a sua verso.  No pensou nisso?  
        O que quer dizer?  
        Que se a vida dispuser as coisas para que ela saiba, tudo vir  tona e ningum poder impedir.  Pense nisto e conte-lhe tudo.  Ela vai entender e voc se sentir muito melhor sem o peso desse segredo.  
       Aurora abaixou a cabea pensativa.  As palavras de Lucila calaram fundo em seu corao dilacerado.  
       Humberto estava realmente preocupado.  Pela primeira vez uma pista vivel havia aparecido.  Sabia agora que Geraldo fugira, abandonando tudo voluntariamente.  Onde estaria?   De repente, deu um salto.  
        J sei para onde Geraldo deve ter ido.  J sei.  S pode estar l.  
        Onde?    perguntou Maria Luza, que voltava  sala.  
        No seu refgio do mato.  Em Dente de Ona.  Onde mais poderia estar?  
       Maria Luiza estremeceu.   Lgrimas corriam pelo rosto emocionado.  
         uma esperana.  Pode ser.  
        Claro que .  Onde mais poderia ter ido?   Tinha pouco dinheiro, no levou roupas, e isso me tem intrigado muito.  Agora, eu sei.  L, ele deve ter voltado  antiga vida.  
        Custa-me  acreditar  fez Maria Luza.  
        Ele sempre me dizia que l era o seu paraso  disse Jorge,  muito emocionado.  Gostava de Geraldo como de um irmo.    Garanto que na hora em que se acreditou trado, fugiu para l.  Lgico que est l.  
       Maria Luza,  nervosa,  decidiu:
        Ento vamos para l imediatamente.  
        Calma  tornou Humberto.     uma hiptese vivel, eu preciso investigar alguns dados primeiro.  Afinal, nem sabemos onde fica esse lugar.  
         mesmo  disse Jorge, decepcionado.    Ele chamava de Dente de Ona, sabe Deus onde fica... 
        No convm voc e o menino viajarem sem saber de nada.  Vou realizar algumas investigaes, e depois, quando tiver algo mais positivo, planejaremos a viagem.  
        Mal posso esperar  suspirou ela,  aflita.  
         preciso descobrir quem forjou essa calnia.  H que desmascar-lo s.  Geraldo precisa descobrir que foi enganado.  
        Isso pode demorar.  Estou aflita.  Por mim, iria amanh mesmo.  
        Calma  interveio Lucila.    Humberto tem razo.  O melhor mesmo  tentar descobrir a verdade e depois tomar providncias.  
       -se  precisar viajar, pode deixar o menino  sugeriu Aurora, um tanto mais animada.    Tomaremos conta dele.  
        Vou pensar.  No vou conseguir dormir.  Pobre Geraldo.  Como deve ter sofrido! 
        A  euforia  natural, mas a excitao no  boa conselheira.   Carolina conquistou-nos  confiana.  Guardemos o corao em paz.  Deus est no leme.  Procuremos acalmar nossos coraes.  
       A ponderao de Lucila teve o condo de os acalmar.  Humberto prometeu:
        Amanh bem cedo, inicio meu trabalho sobre esse Roberto.  Manterei contato com voc, informando de tudo quanto descobrir.  
        Estarei esperando ansiosa  respondeu a moa.  
       Naquela noite, nenhum deles conseguiu esquecer os acontecimentos, e cada um, por sua vez, orou pedindo para que tudo se resolvesse.  
       No dia imediato, Humberto,  logo cedo, fez um levantamento da vida de Roberto e descobriu-lhe o carter leviano e inconstante.  Estava praticamente separado da esposa e levava vida ociosa e ftil.   Bomio, era frequentador assduo dos teatros de revista e dos bastidores.  Com uma foto dele que conseguira na imprensa, onde  ele aparecia constantemente nas colunas sociais, Humberto investigava seus passos e surpreendeu-se  com a estreita amizade que mantinha com o Dr.   Marcondes.  
       Perguntou a Maria da Glria, que estranhou os fatos porquanto nunca o via entre os amigos do pai.  Foi Jorge quem explicou melhor:
        Ultimamente, os dois tinham negcios.  Vrias vezes que fui ao escritrio de papai, ele estava l.  So muito amigos, realmente.  E se bem conheo papai, a bolada deve ser boa, porque ele o cumulava de ateno, coisa que s faz se houver dinheiro pelo meio.  
       Maria da Glria ficou intrigada, e Humberto, apesar da preocupao,  procurou dissimular a suspeita que o invadiu, a fim de no magoar a esposa.  Estaria o Dr.   Marcondes metido nisso?   Pretendia descobrir.  
       Maria Luza estava desesperada e desejosa de partir o quanto antes, mas Humberto precisava de tempo para completar suas investigaes.  Queria ter com Geraldo levando provas concretas da trama de que, supunha, eles haviam sido vtimas.  Foi a custo que ela concordou em esperar um pouco mais.  
       Jorge procurou Humberto no seu escritrio e confidenciou:
         No quis falar na frente de Maria da Glria porque ainda no estou certo, mas comeo a desconfiar que papai teve algo a ver com isso.  
        Eu tambm  respondeu Humberto, pensativo.   
        Acha que ele estar envolvido?  
        Acho.  Ele nunca fez muita questo de Roberto, e de repente passou a cerc-lo de atenes e de demonstraes de amizade.  No  natural dele.  
        Com que intuito?   Sempre deve haver motivao.  
        A  fortuna de Geraldo no  o bastante?  
        Mas ele no a herdaria nunca.  H Maria Luza e o filho, que so legtimos herdeiros.  
        Quem sabe o que ele est tramando?   Pode crer, se ele est nesse assunto  por causa do dinheiro.  Nunca se conformou em ter perdido a fortuna de tia Carolina.   
       Quando Geraldo apareceu, ele ia tomar posse de tudo.  Ainda mais que est quebrado.  
       Humberto coou a cabea, pensativo.  
        Est disposto a ajudar-me?  
        Estou  respondeu Jorge com voz firme.    Geraldo  meu amigo e estimo-o muito.  Farei tudo que puder para ajud-lo a recuperar sua felicidade.  
        Mesmo que seu pai esteja metido nisso?  
        Sim.  Se ele se meteu, no foi para ajudar, e nesse caso no merece considerao.  Se ele fez alguma sujeira com Geraldo, eu vou descobrir e no vou poup-lo .   
       No quero compactuar com ele.  
        Est bem.  Nesse caso, voc poderia dar uma busca nos pertences de seu pai.  Quem sabe descobre uma pista.  Vou procurar Roberto para interrog-lo .  
        Vou fazer o seguinte.  Agora, ele est no escritrio.  Vou para casa procurar em seus papis.  Se no achar nada,  noite iremos ao seu escritrio.  Sei onde ele guarda a reserva das chaves.  Poderemos examinar tudo com calma.  
        Muito bem.  Mos  obra  respondeu Humberto com deciso.    Voc  um bom amigo!  Nunca esquecerei seu gesto.  
        Gosto de Geraldo e no concordo com certas coisas.  
       Trocaram um aperto de mo e se separaram.  
       Aurora, entretanto, estava em crise.  O velho mal-estar a acometera, e ela, no quarto, pensava, pensava.  O que Lucila lhe dissera calara fundo em seu corao.   
       E se a tragdia passada viesse  tona sem que ela pudesse impedir?   No seria melhor enfrentar o problema de uma vez, libertando-se  do seu peso atroz?   Sentia-se  culpada pelo que acontecera no passado.   Acreditava que tudo estivesse terminado;no entanto, eis que tudo tomava novos rumos.  lvaro barbaramente assassinado!  Ela era culpada tambm por esse crime.  Fora sua suspeita vil, seu cime, sua calnia, que colocara no corao de Euclides o veneno da desconfiana.  Agora, sua filha sofria.  At quando deveria sofrer pelos seus erros?   A ltima coisa que desejava era contar  filha toda a verdade.  Como ela receberia a tragdia?   No, no podia contar.  Mas por outro lado, se algum, os espritos por exemplo,  contassem os fatos?   Maria Luza j conhecia parte da verdade, no seria melhor abrir seu corao de uma vez?  
       Aurora debatia-se  nessas indagaes ntimas, corao atormentado e aflito.  O que fazer?   Ao mesmo tempo que temia desejava conversar com a filha, dizer-lhe o quanto compreendia seu sofrimento frente  calnia dolorosa.  
       Aurora atormentava-se .  A sensao de culpa era pesada demais.  Se ela no houvesse envenenado a vida, ningum estaria naquela situao.  O crime de Euclides a estarrecia.  
       Maria Luza, sabendo do estado precrio da me, foi visit-la .  A tragdia do pai por certo a abalara muito.  Por outro lado, por que ele estava na casa de Euclides?   
       Por que ela, Aurora, no estava l?   Qual o drama que ela pressentia e nunca viera a saber?  
       Quando entrou no quarto de Aurora, assustou-se  com seu precrio estado fsico.  Ela, que parecia to bem, agora estava uma sombra.   Plida, olheiras fundas, olhos agitados, inquieta.  Vendo a filha, no pde conter o pranto.  Maria Luza correu para ela.  
        Mame, no se atormente.  Sei que foi um choque para a senhora saber que papai no morreu de morte natural, mas de que adianta agora se desesperar?   No tem remdio.  Vamos, acalme-se .  
       Aurora soluava em desespero.  Maria Luza sentia as lgrimas rolarem de seus olhos doloridos.  
        Mame.  Por favor.  Acalme-se .  Vamos.  No posso v-la  assim.  
       Aurora no podia se acalmar.  A crise, a tenso dos ltimos dias, o remorso, o medo, o arrependimento, tudo lhe queimava a alma.  Chorava convulsivamente.  A moa, sem saber o que fazer, abraava-a  com preocupao e carinho.  De repente, Aurora parou de soluar e decidiu:
        Filha, preciso contar-lhe tudo, ainda que seja a ltima coisa que eu faa na vida.  No posso guardar no corao esse remorso.  Depois, posso morrer em paz.  Se  que um dia a terei.  
       A moa olhou penalizada.  
        Me, no precisa contar-me  nada.  No se atormente.  Acalme-se. 
        No, filha, ocultei tudo a vida inteira, mas agora no aguento mais.  Vou abrir meu corao, confessar o meu crime.  Fui culpada de tudo quanto aconteceu a seu pai e a Carolina.  At o crime de Euclides, eu sou a nica culpada, 
        Mame, no diga isso!  No acredito.  
         verdade.  Fui eu que o envenenou de cimes.  Foi o cime que destruiu nossas vidas.  lvaro era inocente!  Eu estava louca!  O cime transtorna nossas vidas.   
       Estou pagando pelo meu crime.  S lamento que vocs estejam sofrendo tanto por minha causa.  
       Maria Luza estava assustada.   Olhos fixos no rosto macerado de
       Aurora.  
        Mame, por favor!  No se atormente.  Um dia me contar tudo,  com calma.  
        No.  Deve ser agora.  Se passar o momento, no terei coragem.  
       Aurora estava determinada.  Com voz trmula, comeou a narrar a tragdia de sua vida.  A moa,  ouvindo-a  falar, no podia conter o pranto.  Resolvida a ir at o fim, Aurora no se poupou.  Contou tudo.   Seu arrependimento, seus temores, a ajuda de Lucila e Ins, a bno da f,  e terminou:
        Pensei que tudo j estivesse esquecido, tentei fazer Afonso feliz.  Ele  o amigo de todas as horas, o companheiro que me tem amado, e eu, no meu egosmo, no compreendia.  O que teria sido de mim sem ele?   Maria Luza soluava.  Tanta tragdia a sufocava.  
        Queria evitar esse sofrimento.  No queria que soubesse.  Lutei desesperadamente, mas em vo.  Lucila aconselhou que lhe contasse; alis, ela queria que eu o fizesse h muito tempo.  Mas eu tinha medo de perder seu afeto e de faz-la  sofrer inutilmente.  Agora j sabe; pode perdoar-me?   Pode entender que eu estava louca?   
       Pode sentir o meu arrependimento, o meu desespero?  
        Mame, como pde carregar esse peso sozinha?   Por que quis poupar-me?   No acha que eu tinha o direito de saber?  
       A voz de Aurora era amarga quando respondeu:
        Acho.  S que eu no tive coragem.  No queria que minha prpria filha me desprezasse como causadora da morte do pai.   horrvel! 
       Maria Luza fixou o rosto plido e contrado de Aurora e comoveu-se.  
        Me, eu no a desprezo!  Quero-lhe bem.  Agora entendo por que me afastou do seu carinho, deixando-me  to longe de casa.   isso que lamento.  Voc errou, mas eu no posso julgar.  A tragdia aconteceu e voc no a premeditou.  Foi a vida.  Voc amava muito papai.  
        Amo seu pai e esse tem sido meu castigo.  Gosto de Afonso como de um irmo, mas  a lvaro que eu amo, e guardo no corao a lembrana dos momentos felizes que vivemos juntos.  Que alma nobre!  Mesmo tendo sido assassinado por minha causa, ele me perdoou.  Disse que ainda me ama.  
        Teve notcias dele?  
        Sim.  Eu o vi vrias vezes, apesar de tudo.  Isso me fez levantar o nimo e levar a vida com mais coragem.  Mas eu no sabia que Euclides tinha chegado ao crime.  
       Maria Luza estremeceu.  
        Me.  Tenho sofrido muito.  H coisas que no temos ainda condies de entender.  Devemos perdo-lo e no falar sobre esse crime.   Poderamos atra-lo de novo.  
        Tem razo.  Eu no posso julgar;como poderia?   Eu, que ainda carrego o peso do remorso e que comecei essa tragdia toda?  
        No carregue o peso da culpa.  Voc errou, mas tem sofrido muito.  
        Voc me perdoa?  
        Eu?   No tenho nada a perdoar.  Lamento no ter sabido antes,  porque juntas teramos lutado e teramos encontrado foras para superar o problema.  Acha que me sentia feliz longe de casa, em meio estranho?   Acha que no sofria por v-la  sempre doente e abatida?   Cr que eu me sentia feliz acreditando que tenha sido colocada fora de casa porque voc no me amava o bastante para ter-me  perto?   Aurora olhou-a  admirada.  Jamais pensara que Maria Luza pudesse guardar essas idias.  
        Voc sabe que no foi isso.  Sabe que eu a amava tanto e por isso a queria poupar a vergonha e a maledicncia.  Talvez tenha cometido um erro tambm nesse ponto.  
        No vamos colocar a culpa em cima de ningum.  Voc pensou em beneficiar me, s que eu teria preferido ficar aqui, ao seu lado,  mesmo sabendo do drama em que estvamos envolvidas.  Mas agora, me,  tudo passou e no adianta nada nos lamentarmos por algo que no tem remdio.  O que desejo mesmo  encontrar Geraldo,  poder esclarecer as coisas e refazer nossas vidas.  Voc agora tambm precisa esquecer.  Se por um lado deixou-se  envolver pelo cime e pela vingana, no podia prever o que aconteceu e nem pode ser responsvel pelo que os outros fizeram.  Se o Dr.   Euclides acolheu papai e o salvou da morte, se o levou  prpria casa como a um irmo, mesmo depois de voc ter falado sobre suas suspeitas com relao a Carolina, alguma coisa aconteceu depois para que ele,  numa crise de cime, o assassinasse.  Quem sabe algum, com inteno de separ-lo da famlia, tenha provocado seu cime?   Depois do que est acontecendo comigo, no duvido de mais nada.  
       Aurora sacudiu a cabea,  pensativa.  
        Isso  verdade.  Euclides amava muito a esposa e confiava nela.   Quem teria interesse em separ-lo s?  
        No sei.  O dinheiro  tentao muito forte para certas pessoas.  
        Acha que o Dr.   Marcondes teria sido capaz disso?  
       Maria Luza sacudiu os ombros.  
        No sei.  Ele sempre anda em volta do dinheiro do irmo.  Nunca se conformou em perder a fortuna; mesmo agora, em nosso caso, suspeito dele.  
        Na verdade, esse homem tem sido a sombra negra das nossas vidas.  
       Aurora contou  filha a chantagem de que fora vtima.  Maria Luza indignou-se .  
        Me!  Dar dinheiro quele patife! 
        Que remdio.  Agora estamos livres dele.  Nunca mais poder me ameaar.  
       Maria Luza suspirou fundo.  
        Agora , s tenho um desejo na vida:encontrar Geraldo, traz-lo de volta para casa.  
       Aurora estava mais animada.  Libertara-se  de um grande peso.  Foi com mais calma que respondeu:
        Deus  grande.  Carolina aconselhou a esperar com pacincia.  
       Tudo vai se resolver.  
       Naquela mesma noite, Jorge foi procurar Humberto em sua casa.  
        Ento?    perguntou o ex-detetive assim que o viu.  
        Dei uma busca no escritrio dele em casa, no encontrei nada.  Eis as chaves.  Vamos ao escritrio dele na cidade.  Quem sabe, l teremos melhor sorte.  
       Maria da Glria fora  casa de Maria Luza e Humberto iria apanh-la  depois.  Estava sozinho em casa.  Saram.  Uma vez no escritrio do Dr.   Marcondes, comearam a busca cuidadosamente.  
        Deixe tudo nos devidos lugares -aconselhou Humberto.    
       Melhor que ele no desconfie da nossa visita.  
        Certo.  Concordo.   
       Arquivos, pastas, gavetas, tudo examinado minuciosamente.  At que em uma das gavetas, fechadas a chave, Jorge deu um pequeno grito de susto:
        Achei! Venha ver.  Acho que esto aqui.  
       De um salto, Humberto alcanou a gaveta.  Em um envelope grande,  algumas fotografias de Maria Luza com Roberto andando na rua,  entrando num txi, e havia uma em que ele aparecia abraando a moa, os negativos recortados e colados, em falsificao,  cuidadosamente preparados, no deixavam nenhum dvida quanto  inteno e  fraude.  
       As mos de Jorge tremiam, seu rosto retratava a revolta e a vergonha.  Humberto, mos nervosas, apanhou alguns bilhetes;pela cor do papel, j um pouco envelhecido, percebeu que se tratava de dois bilhetes escritos por Maria Luza a Roberto.  Bilhetes amorosos e sentidos, datados de alguns anos atrs.  Porm, junto estava uma carta, com letra da moa, em papel perfumado, que dizia amar Roberto e confessava que o filho era dele.  
       Humberto ficou olhando aquele papel entre assustado e aflito; Jorge, porm, exclamou:
        Esta carta foi falsificada.  Veja como ele treinou a letra, olhe aqui estas tentativas! 
       Era verdade.  Havia alguns papis onde se percebia o esforo que o falsificador fizera para copiar a letra da moa.  
        Agora  tudo ficou claro  declarou Humberto.    Finalmente faz
       sentido!  Provando que o filho no  legtimo, acabando o casamento de Geraldo, ele no voltar mais do mato e finalmente o Dr.   Jos conseguir a to sonhada herana.  
       Jorge estava plido.  
        Humberto!  Meu pai!  Que vergonha!  Bem que eu desconfiava, mas no podia supor que tivesse chegado a tanto.  
       Humberto sacudiu a cabea, preocupado.  
        Ele tem habilidade!  Veja, tudo igual; eu mesmo, a princpio, cheguei a pensar que fosse autntica.  Imagino o que fez com o pobre Geraldo! 
         verdade.  E agora, o que vamos fazer?  
        Levar isso tudo.  Vamos ver se h mais  coisas.  
       Realmente, havia vrios documentos de fraudes e negcios irregulares, que atestavam bem a "honestidade" do Dr.   Marcondes.  
        Nunca esquecerei este dia.  Humberto, amanh mesmo vou procurar um emprego decente.  Quero ganhar o suficiente e mudar-me  daquela casa.     Depois disso, no mais suportarei permanecer ali.  
        Tem razo.  Farei tudo que puder para ajudar.  Voc tem sido amigo fiel e dedicado.  Admiro-o.  
       Jorge abaixou a cabea, envergonhado.  Duas lgrimas rolavam pelas suas faces.  
        Tenho sido um intil.  Aceitei e malbaratei o dinheiro dele, e agora sinto-me  como cmplice dessas barbaridades.  Pode compreender?  
        Posso.  Voc no tem culpa.  Foi criado nesse meio.   tempo de reagir.  O trabalho  preciosa escola que s nos enriquece, seja ele qual for.  Veja, aqui h um envelope velho, amarelecido, escrito "negcios de famlia".  Vamos ver o que .  
       Humberto abriu o envelope e viu uma foto de Carolina e um homem de pijama;estavam abraados.  
         tia Carolina e o Dr.   lvaro!   disse Jorge admirado.  Junto, o negativo, o mesmo truque, colagem e a foto comprometedora.  Uma carta de Carolina ao sogro, em uma viagem pela Europa com o marido.   A imitao da letra em vrios papis, e por fim um bilhete de Carolina a lvaro declarando que o amava.  
       Jorge tremia, a emoo era forte demais para ele.  Humberto,  emocionado, sentia-se  como que penetrando um mundo diferente.   Afinal, a prova da inocncia de Carolina e a causa da tragdia de Euclides, da morte de lvaro.  
       Olhou penalizado o rosto contrafeito de Jorge.  Abraou-o comovido:
        Jorge!  Foi a mo de Deus que nos conduziu aqui! 
        Meu pai!  Pode perceber minha vergonha?   Pode sentir o meu desespero?   Eu, um encostado, um acomodado, um jogador, um boneco ftil e sem dignidade?  
       Lgrimas desciam-lhe pelos olhos sem que ele pudesse conter.  
        No precisa, nem pode assumir responsabilidade pelos erros de seu pai.  Voc tem se acomodado s facilidades de um bero rico, s isso.   No cometeu nenhum crime.  
        Mas ele, como pde?  
         lamentvel realmente, mas o que podemos ns fazer?   O que deseja que se faa com esses papis?  
        Que a verdade se estabelea, doa a quem doer.  No posso compactuar com essas falsificaes.  Nem posso concordar com o que ele pretendia ainda fazer.  Vamos levar esses documentos todos.  Depois decidiremos o que fazer.  
        Concordo.  Vamos fazer tudo sem deixar nenhum vestgio.  Quanto mais demorar a perceber que os papis sumiram, tanto melhor para ns.   Teremos tempo para decidir o que fazer.  
       Arrumaram tudo cuidadosamente, empacotaram os documentos que lhes interessavam e saram.  Era mais de meia noite quando chegaram  casa de Maria Luza.  As duas estavam ansiosas.  
        Voc demorou  estranhou Maria da Glria.    O que aconteceu?  
       Foi Jorge quem respondeu:
        Fomos revistar o escritrio de papai, eu arranjei as chaves.  
        Por qu?    indagou ela, alarmada.  
        Desconfivamos dele.  E sente-se  para no cair, porque encontra mos muito alm do que fomos procurar.  
        Como assim?    perguntou a moa, assustada.  
        Infelizmente, minha querida, seu pai realmente planejou uma verdadeira trama, e foi dali que tudo partiu.  
       A moa empalideceu, e Maria Luza, agoniada, no ousava perguntar.   Apesar de sua angstia,  no queria magoar a amiga.  Maria da Glria,  com voz que procurava tornar calma:
        O que aconteceu?   O que ele fez?  
        Vamos nos sentar e conversar.  Acalmem-se .  Temos em mos a chave de todos os problemas.  Tanto dos novos como dos antigos.  Infelizmente,  Dr.   Marcondes est na base de tudo.  Precisamos buscar Geraldo.  J sabemos tudo que aconteceu.  
       Sentaram-se  ao redor da mesa e, ante seus olhos indignados,  assustados, Humberto foi desfilando os documentos.  Maria Luza ia da palidez ao rubor.  
        Por isso ele me seguia;veja, nesse dia ele me disse que no ia mais importunar-me  e ajudou-me  a subir no txi.  Olha!  Foi isso que os espritos disseram naquela noite.  Lembram-se ?   Mencionaram cartas, fotografias, foi Dr.   Euclides quem contou.  
         verdade  recordou Humberto.    Ele tinha razo.  Pobre Geraldo.   Como duvidar?   Como no acreditar?   Achei esta carta.  
       Maria Luza leu, e seu rosto mal podia esconder a indignao.  
        Que horror!  Que infmia! 
        Essa ele no mandou.   provvel que a tivesse preparado para provar que seu filho no tinha direito  herana.  
       Maria da Glria soluava nervosamente.  
        Querida  tornou Humberto, carinhoso  , compreendo sua dor, mas foi melhor termos descoberto antes que ele consumasse outra tragdia.  
        Claro  respondeu a moa, procurando acalmar-se .    Estou chocada,  s isso.  No concordo com ele, como sempre.  E desta vez, temos que cont-lo .  Ele precisa parar.  Como, no sei.  
        O que temos a fazer agora  encontrar Geraldo e coloc-lo ao par da verdade.  Depois, ele, voc, Maria Luza, D.   Aurora, decidiro o que fazer.  
        Por que mame?   Por acaso ela tambm est envolvida?  
        Deixemos isso para depois -a ventou Humberto.  
        Ele quer poupar Maria da Glria.  Eu acho melhor irmos at o fim  interveio Jorge, decidido.  O moo que sempre se mostrara indeciso e fraco parecia agora revestido de dignidade e firmeza.  Maria da Glria olhou-o admirada.  Depois, respondeu firme:
        Quero saber tudo at o fim, agora.  Seja o que for que ele fez,  quero saber.  
       Humberto pegou o velho envelope e elas puderam observar os documentos que por certo teriam dado origem  tragdia de Euclides.  
        Isso  caso de polcia!   desabafou a moa, indignada.     meu pai, mas  um criminoso.  Ele realmente foi o culpado de toda essa tragdia.  Acho que  deve responder por isso.  
        Maria da Glria  interveio Maria Luza com voz trmula.    Chega de vinganas.  Agora, s quero Geraldo de volta.  Para mim, no interessa nada que no seja ele.  Por favor!  Vamos descobrir onde se encontra.    s o que peo.  
        Tem razo  concordou Humberto.   -se  ele deve estar em Dente de Ona, hei de encontr-lo , custe o que custar.  Amanh mesmo partirei  sua procura.  No descansarei at que o encontre.  
        Irei com voc.  No suportarei esperar.  
        Tudo  difcil.  No sei onde fica esse lugar.  Depois, falta conforto, tudo.  
        No importa.  Eu irei.  No aguento ficar aqui nem mais um dia nesta incerteza.  Quero desfazer essa calnia, quero ver Geraldo, meu Deus!  Mal posso esperar.  
        Vou com voc  tornou Maria da Glria.    Posso ajud-la  com o beb.  
        Est certo.  Amanh bem cedo irei procurar o Dr.  Olavo.  Ele sabe onde fica esse lugar.  Foi ele quem trouxe Geraldo para c.  Enquanto isso, vocs se preparam para  a viagem.  Reservarei passagens, tudo.  
        E eu?    perguntou Jorge.    Tambm quero ajudar naquilo que vocs acharem mais conveniente.  Querem que eu v junto?  
        Voc pode ficar aqui em nosso escritrio, cuidando dos nossos negcios, e se precisarmos algo, nos comunicaremos com voc.  
        Certo.  Sabe que estou do lado de Geraldo.  Sempre estive.  
        Foi graas a voc que pudemos descobrir tudo.  Nunca esquecerei disso.  
       O dia estava amanhecendo quando Humberto, Maria da Glria e Jorge se retiraram, deixando Maria Luza entre a angstia da espera e a esperana de rever o marido, esclarecer a  situao.  
       Apesar de ter se recolhido tarde, eram nove horas da manh quando Humberto entrou no escritrio do Dr.  Olavo Rangel.  Este acabava de chegar e recebeu-o com deferncia.   
       Embora no simpatizasse com ele, jamais envolvia seus sentimentos com os negcios.  E ele precisava de dinheiro.  Sua situao no era m, mas ele queria sempre mais.  
        Em  que posso  servi-lo ?    indagou corts.  
        Preciso de sua ajuda.  
        Tenho acompanhado as notcias.  Sei que Geraldo desapareceu misteriosamente.  
         verdade.  E acreditamos que esteja vivo.  Seu corpo no foi encontrado em parte alguma.  
        O que lhe teria acontecido?  
        Ele teve alguns aborrecimentos e acreditamos que tenha se refugiado em Dente de Ona.  
       Dr.  Olavo sacudiu a cabea, concordando.  
        Tenho pensado nessa possibilidade.  Geraldo sempre me pareceu diferente das outras pessoas.  De incio, pensei que no se acostumasse  cidade.  Foi um custo traz-lo !  Mas depois, vendo-o to civilizado, polido e bem vestido, cheguei a esquecer sua maneira de ser.  Pode bem ter voltado quele buraco.  No consigo entender uma coisa dessas! 
        No se trata agora de entender.  Precisamos encontr-lo .  H negcios urgentes a serem resolvidos.  Vim procur-lo para que nos ensine como ir at l.  Quero partir o quanto antes e preciso das suas indicaes.  
       Dr.   Olavo sorriu e ajuntou: 
        Claro, terei prazer em ajudar.  Mas faz tanto tempo!  Fui l apenas uma vez, e levado por outra pessoa.  Acho difcil agora lembrar...  
        A  esposa dele ofereceu uma boa recompensa para quem der a
       informao melhor.  Cinquenta contos de ris, sabia?  
       Os olhos do advogado brilharam.  
        Pensei que tivesse ouvido dizer que seriam cem.  Humberto olhou firme.  
        Sei que ela chega at os sessenta, o que j  bastante.  
        Vou esforar-me  para lembrar.  Ela pagaria adiantado?  
        Vinte agora e o resto na volta, se as informaes forem exatas.  
        E se ele no estiver l?  
        No  problema.  A recompensa  pela informao do local.  
        Est bem.  Tenho minhas anotaes, vamos ver.  
       Meia hora depois, Humberto saiu do escritrio com as indicaes precisas para chegar a Dente de Ona.  Tanto quanto Maria Luza,  estava ansioso para encontrar Geraldo e esclarecer tudo.  Sofria pelo amigo, imaginando-lhe a angstia, o desespero e a desiluso.   Pretendia partir o quanto antes.  
       Foi a uma companhia area e fretou um avio.  Sabia que Maria Luza concordaria em no medir esforos nem dinheiro para rever o marido.  Assim, naquela mesma tarde, ele, Maria Luza, Maria da Glria e o beb viajaram rumo a Dente de Ona.  
       Deveriam dormir em Cuiab e, no dia seguinte cedo, conseguir meios de viajar at Dente de Ona.  Pela manh, as duas haviam chamado Aurora, Lucila e Ins e colocaram nas ao par dos ltimos acontecimentos.  As trs choraram de emoo frente  comprovao material da inocncia de Carolina.  
       No que elas pusessem em dvida, mas aquela volta ao passado,  aquelas provas, emocionaram nas muito.  
       A possibilidade de Geraldo estar em Dente de Ona iluminou seus coraes de esperana.  Lucila afirmou:
        Vai, filha, acredito agora que tudo se resolva.  Carolina deu a
       entender que tudo estaria bem.  Ficaremos orando por vocs.  
       J era noite quando os viajantes chegaram a Cuiab.  Descansaram num hotel modesto.  Humberto procurou logo conseguir algum que os levasse ao local.  Conseguira um mapa da regio, o que de certa forma pensava facilitar o empreendimento.  Mas ali, o local no era conhecido.  Mandou que um jipe os levasse no dia seguinte at Campo Grande, e tentariam descobrir a vila prxima a Dente de Ona.  
       Apesar de cansados, resolveram sair bem cedo no dia seguinte.  A ansiedade no os deixava nem dormir.  Viajaram toda a manh e chegaram a Campo Grande ao almoo.   
       Resolveram descansar um pouco, enquanto Humberto e o motorista iam indagar sobre a vila perto de Dente de Ona.  Teriam que viajar muitas horas, e por isso o motorista negava-se  a seguir  tarde.   No queria pegar estrada durante a noite.  Ele no a conhecia.  A custo os viajantes resolveram esperar at o dia seguinte para continuar.  No houve outro remdio.  
       Estava amanhecendo o novo dia quando eles reiniciaram a viagem.   Levavam provises e gua a conselho do motorista, habituado a viajar por lugares ermos.  
        No vamos achar nada por esses caminhos, at a vila  esclareceu  e l mesmo, num sei se tem.  
       Puseram-se  a caminho.  O beb, ora no colo de uma, ora no de outra,  nem para amamentar o filho Maria Luza queria parar.  Apesar dos solavancos da estrada, o beb estava tranquilo e nem parecia sentir o cansao da viagem.  Quanto aos viajantes, a tenso era tanta que nem percebiam as dificuldades do caminho.  Viajaram o dia inteiro,  parando o indispensvel, e chegaram  vila pela tarde.  Procuraram a venda do Sebastio, conforme indicao do Dr.  Olavo, e o caboclo os recebeu desconfiado.  
        Sou Humberto.  Sei que voc  amigo de Geraldo.  
        Geraldo?   Num conheo no.  
        Como no?   Ele mora em Dente de Ona.  Sei que  amigo dele.  Ele ganhou muito dinheiro, mudou para So Paulo e agora voltou para c.   Voc o conhece bem.  
        Geraldo num conheo, no.  S se ocs fala do Raimundo.  Quem ganhou uma dinheirama foi ele.  
        .  Acho que ele aqui  conhecido como Raimundo.  Precisamos encontr-lo ,  urgente.  
        Pra qu?  
        Olha, essa senhora  a esposa dele e esse  seu filho.  Est desesperada.  Precisa encontr-lo .  Sei que voc sabe onde  a casa dele.  
       Sebastio espichou o olhar curioso para Maria Luza, que esperava impaciente com o filho nos braos.  
        Estamos dispostos a recompensar muito bem pelo tempo que perder.  
        Bo, sou amigo do Raimundo e no  pelo dinheiro que v indica o caminho.  
        Tem visto ele?    indagou Maria Luza, ansiosa.  
        No tanto.  O pobre voltou pra c triste que dava pena.  Sei que num andava muito bem.  Quase no falou cumigo e eu num fui l depois que ele voltou.  Num deu pra saber o que ele fez com o dinheiro.  Num quis convers nada.  Comprou algumas tralha e se foi pro mato.  Num vi mais ele.  
        Voc pode nos levar at l?    perguntou Humberto ansioso.  
        Num sei.  S amigo dele.  Num sei se ele qu v ocs.  Devem de ter feito alguma malvadeza pra ele.  Tava to triste... 
       Humberto colocou a mo no brao  dele enquanto dizia:
        Ao contrrio.  Ele vai ficar feliz com as  notcias que trazemos.  
       Humberto em poucas palavras contou por alto o que havia acontecido, e Sebastio no teve dvidas.  
        Que desaforo!  Que sujeira!  Levo ocs l, sim.  S que tem de ser amanh cedo.  De noite num vai d pra segui viage.  V v se arranjo lugar pra ocs drumi, e logo quando clare o dia nis vamo.  
       Maria Luza estava radiante.  Geraldo estava l!  Sofrido, triste, mas ele estava l e logo o teria em seus braos.  Mal podia esperar.  
       Mas no tinha jeito.  Ficaram mal acomodados, as duas e o beb em um cmodo cheirando a mofo, em uma cama s, mas nada importava alm de encontrar Geraldo.  Humberto conseguiu uma rede e o motorista esticou-se  no jipe.  
       O dia estava amanhecendo quando saram.  Finalmente!  Iam rever Geraldo!  Viajaram durante horas e finalmente chegaram.  Humberto aconselhou:
        Deixem-me  ir na frente.  Quero esclarecer tudo primeiro.  
        No sei se vou conseguir esperar  tornou Maria Luza, trmula.  
         s um pouco.  Prometo no  demorar.  
       Sebastio coou a cabea.  
        Num sei, no.  Olha o mato no redor da casa.  Raimundo nunca deixou isso assim.  Ser  que  foi embora?  
       Maria Luza no se conteve.  Entregou o beb  amiga e, sem que ningum pudesse det-la , correu para a cabana tosca em desespero.   Ter sido intil?   Geraldo teria mesmo ido embora?  
       Empurrou a porta e deu pequeno grito de susto.  Na rede estava um homem magro, barbudo e pauprrimo.  Ele abriu os olhos e levantou-se  assustado:
        Estou ficando louco  tornou ele, passando a mo pelos olhos como para afugentar uma viso.  
        Geraldo!   gritou Maria Luza com voz emocionada.   voc?  
       Ele estremeceu.  Olhava-a  assustado, trmulo.  Ela correu para ele e abraou-o com fora.  
        Meu amor!  Meu amor!  No v que quase enlouqueci de dor?  
       Ele tremia, qual folha sacudida pelo vento.   porta, Humberto, e os
       demais aguardando respeitosos do lado de fora.  
       A esposa abraava-o com fora e Geraldo apertava-a  entre os braos sem poder falar, lgrimas rolando por seus olhos sofridos.   Permaneceram assim durante alguns minutos.  Ela afastou-se  um pouco,  olhando o rosto plido e emocionado do marido.  
        Como voc tem sofrido  tornou ela com emoo.    Como todos temos sofrido!  Mas agora, tudo acabou.  Tudo vai esclarecer-se .  
       Geraldo a fixou, e havia tremenda mgoa em seu olhar quando disse com voz que procurava tornar firme:
        Voc veio.  Diz que me ama, que sofreu.  Pensei encontrar aqui a antiga paz, a felicidade que eu tinha.  Mas no consegui.  No encontrei seno dor, saudade, desespero, desengano.  Se  isso que veio ver, pode saber que  verdade.  
       Humberto interveio:
        Geraldo, meu amigo!  Venha me dar um abrao!   Voc tambm veio!  Abraaram-se  comovidos.  Humberto tornou:
        Precisamos conversar seriamente.  Sabemos tudo quanto aconteceu.  
       Vocs foram  vtimas de uma trama terrvel.  Uma calnia para separar vocs.  
       Geraldo olhou admirado.  
        Uma trama?   Quem teria interesse em nos separar?   
        Vou contar-lhe tudo.  Trago provas da verdade, que vo surpreende-lo tanto quanto nos surpreenderam.  Provam a inocncia de Maria Luza e de Carolina.  
       Os olhos de Geraldo brilharam emotivos.  
        Mas antes pediu Maria Luza com emoo  , existe algum que voc precisa conhecer.  
       Saiu e voltou logo com o beb, aproximando-o de Geraldo:
         nosso filho!  Veja como  belo! 
       Fixando o rosto delicado e rseo do beb, Geraldo no se conteve,  chorou.  
        Meu filho!   balbuciou.  
       Maria Luza colocou-o em seus braos.  
        Tome-o.  Veja como se parece com voc.  Geraldo sem jeito, segurou a criana adormecida.  
        Parece um sonho!   murmurou.    Nem ouso acreditar.  Olhava a criana embevecido e respeitoso.  
        Maria da Glria, voc tambm veio! 
       A moa aproximou-se  e apertou a mo do primo.  No encontrou nada para dizer, a emoo dominava-a .  
        Vamos conversar  pediu Humberto.    H muito que dizer! 
        Sinto.  Aqui no tem conforto.  Nem cadeiras para todos.  
       Maria da Glria, segurou o beb enquanto Geraldo procurava acomodar os amigos como podia, em bancos de caixote.  Ele estava tenso,  preocupado.  
        Pelo que voc disse, acho que fui enganado  comeou ele  no por Maria Luza, como julguei, mas por outra pessoa.  
        .  Lamento que voc no tenha me confiado seus problemas, porque eu poderia t-lo ajudado investigando a verdade.  Como tudo aconteceu, ficou difcil descobrir.   
       E foi graas ao Dr.  Euclides que conseguimos alguma pista.  
        Meu pai?  
        Sim.  Seu esprito manifestou-se  em nossa sesso e nos falou de cartas e fotografias.  
       Geraldo suspirou fundo.  
         verdade! Eu as recebi anonimamente.  
        Sabemos de tudo.  Mas, graas ao Jorge, conseguimos todas as provas de que essas fotos foram montadas.  
       Geraldo assustou-se :
        Como?  
       Humberto, ento, tirando os documentos que trazia, foi relatando tudo quanto havia acontecido desde que Geraldo partira.  O moo ouvia assombrado, e em seu rosto a indignao transparecia a cada nova descoberta.  
       Maria da Glria, cabea baixa, no podia impedir que lgrimas de vergonha lhe descessem pelas faces enrubescidas.  Quando Humberto terminou, Geraldo levantou-se  nervoso:
        Jurei vingana contra o culpado pela calnia contra minha me, e agora descubro que ela se repetiu destruindo minha vida, fazendo comigo o mesmo que fez com meu pai.  Que fera  essa, que no se acovarda diante de nenhum sentimento, que no se arrepende, nem teme nada?   At quando ele vai continuar a enganar e a destruir?  
       Maria Luza abraou o marido.  
        Geraldo!  No vamos agora falar em dio ou vingana.  Agora que nos encontramos, e que tudo esclareceu-se , voc sabe que  o meu nico amor, e que jamais eu o tra nem em pensamentos;por que obscurecer nossa felicidade com a vingana?   No acha que Deus, que nos ajudou tanto a esclarecer tudo, no vai dar-lhe o que merece?  
        Voc no sabe o que sofri durante toda minha vida! A solido, a saudade de minha me, a dor, a calnia sobre seu nome que eu venero,  e agora, o que tenho sofrido aqui!  Pensei que fosse enlouquecer de dor e de saudade, de desespero e de mgoa.  Voc pede para esquecer,  perdoar.  Acha que poderei?  
       Maria Luza abraou-o com fora.  
        Por favor!  Estou to feliz!  Estamos juntos, temos nosso filho.  O que nos falta?   Quero ser feliz com voc, sem sombras nem preocupao.  Quer maior vingana do que ele saber que estamos juntos?   Depois, somos gratos a Maria da Glria e Jorge.  Afinal, nos ajudaram, esto do nosso lado, e no podemos nos esquecer de que  o pai deles.  
       Maria da Glria interveio:
        No vou opinar.  S quero que saiba que estou muito envergonhada pelo que ele fez.  
       A revolta de Geraldo  justa,  natural  concordou Humberto.  
       Nada se pode resolver sob o imprio de tanta emoo.  Vamos deixar
       esse assunto para mais tarde.  Temos muito o que pensar por agora.  O momento  de felicidade e de paz.  
        Tem razo  disse Geraldo com alegria.    Hoje  o dia mais feliz da minha vida.  Estava morto e revivi, estava sem esperana e agora tudo  felicidade.  
        Vamos agradecer a Deus  pediu Maria Luza.    Tenho no corao muita gratido.  Nas horas de desespero que vivi, supliquei, pedi.  
       Deus me atendeu.  Nunca mais vou esquecer disso.  Quero dedicar me, de
       hoje em diante, ao conhecimento das coisas espirituais.  Quero aprender com humildade a ser como D.  Lucila, D.   Carolina e at como minha me, que se tem modificado tanto e pensa em dedicar-se  mais ao auxlio do prximo.  Diante de vocs, aqui e agora, eu juro que vou estudar o Evangelho e tentar segui-lo melhor.  Comeando agora,  quero orar, agradecer a Deus por ter-me  dado tanto.  Para que ele me permita conservar o amor e o carinho de Geraldo, do meu filho, dos meus familiares e amigos.   
       Todos estavam comovidos;Maria Luza continuou:
        Agradeo, meu Deus, de todo corao, esta felicidade, este momento.   Que os nossos coraes possam, abraados, ajoelhar-se  ante os vossos ps.  Que todos ns, unidos e felizes, possamos honrar o vosso nome, 
       e o nome de vosso filho Jesus, a quem desejamos humildemente servir.  Obrigado,  meu Deus, obrigada, D.  Carolina, obrigada, Dr.   Euclides.  Deus os recompense.  
       Uma brisa suave enchia o ar, e Geraldo comovido, apertou a esposa em seus braos.  A hora era de felicidade, por que desperdiar?   Finalmente estavam juntos.  Quantas vezes sonhara com esse momento,  acreditando-o impossvel?   No se cansava de olhar o rosto delicado do filho e perceber, comovido, a semelhana de traos, as particularidades das mos, igualzinhas s suas.  
        Amanh cedo regressaremos  tornou Humberto com satisfao.  
       Geraldo preocupou-se .  
        Isto aqui no tem conforto.  Como passar a noite aqui?   Maria da Glria, o beb.  Como acomod-los?  
        Temos redes no jipe.  Daremos um jeito.  Uma noite s.  
        Num convm enfrenta estrada de noite.  O melhor  mesmo espera amanhece.    interveio Sebastio, respeitoso.  
        Tem razo.  Quero agradecer por ter vindo e trazido eles at aqui.    Oc   meu amigo.  Num carece agradece.  
        Estou com fome  tornou Humberto, alegre.    Vamos comer.  
       Foram buscar no jipe a comida e as guloseimas que haviam comprado,  e com alegria e disposio comearam a comer.  
       Geraldo, porm, emocionado, no sentia fome.  Abraado a Maria Luza,  tinha um brilho novo no olhar emocionado.  A jovem esposa, feliz,  sentia nesse olhar o amor a felicidade, o carinho, e sorria confiante diante do futuro.  
       Naquela noite, arranjaram-se  na cabana tosca em redes, e o motorista e o Bastio estenderam-se  em colchonetes que tinham no jipe,  improvisaram uma cama para o beb e cada casal em uma rede.  
       Geraldo, sentindo o calor do corpo da esposa junto ao seu,  estremecia de emoo.  Beijando-a  com carinho, murmurou ao seu ouvido:
        Muitas vezes sonhei com este momento e me odiava por perceber que, apesar de me julgar trado, no conseguia deixar de amar voc.   Sofri muito! 
        Esquea o que passou.  Agora estamos juntos, e nada nem ningum conseguir mais nos separar.  
       Enquanto os outros, cansados, ressonavam, os dois continuavam conversando baixinho, entre beijos e as alegrias do reencontro.  
       
       
       CAPTULO 22
       
       A madrugada estava raiando quando eles se levantaram, e depois do caf prepararam-se  para voltar.  
       Geraldo, mais seguro de si, mais refeito, fez questo de mostrar aos amigos as paisagens belssimas dos seus recantos favoritos, e depois, felizes e animados, iniciaram a viagem de volta.  
       Geraldo no se cansava de olhar o rosto calmo do filho,  descobrindo os traos de Maria Luza, os seus, e at os de Carolina.  
       Sua chegada provocou lgrimas em Antnio e Elisa, que o estimavam como a um filho.   noite, Geraldo pde, feliz, abraar Lucila, Ins e Jorge.  O moo desempenhara muito bem as tarefas no escritrio e sentira-se  timo no trabalho.  Dando contas a Humberto das ocorrncias durante sua ausncia, Jorge ajuntou:
        Sei que o momento no  prprio, mas gostaria de trabalhar.   Senti-me  muito bem.  Descobri minha vocao.  Depois, o pessoal l  muito eficiente.  Gente inteligente.  
        Est pedindo emprego?    tornou Humberto bem humorado.  
        .  Se tiver algo que eu possa fazer, acho que gostaria muito.  
        Precisamos falar ao Geraldo;quanto a mim, acho timo.  S que o salrio no  alto.  
        No importa.  O que eu quero  trabalhar.  
       Geraldo aproximou-se :
        Ouvi o que disse e aprovo.  H muito que voc deveria estar trabalhando.  
        Eu sei  Jorge estava meio embaraado, fez um esforo e continuou.    Pretendo sair de casa.  No suporto mais viver l depois do que aconteceu, nem quero mais receber dinheiro de meu pai.  Estou envergonhado pelo que ele fez e temo a qualquer hora no poder conter me.  O melhor mesmo  mudar-me.  Preciso de um emprego.   No quero ser pesado a ningum.  Posso sustentar me.  
       Maria da Glria tinha lgrimas nos olhos quando o abraou,  dizendo:
        Sempre confiei em voc.  Tenho a certeza de que vai conseguir.  
       Humberto props, alegre:
        Gostaria que viesse morar conosco.  Trabalhar em nossos escritrios e estaremos juntos.  
       O moo olhou a irm comovido.  
        No sei.  Temo incomodar...  
        No senhor!  Voc vir morar conosco.  Ser muito bom t-lo sempre em casa.  
       O assunto prosseguiu animado e havia calma e entendimento no ar.   Vendo Ins sentada em um sof, folheando uma revista, Jorge aproximou-se  dela, sentando-se  a seu lado.  
        Posso interromper?    perguntou alegre.  
        Claro.  Vocs conversaram sobre assuntos de famlia, no quis ser indiscreta.  
        Que idia! Voc conhece mais sobre ns do que eu mesmo.  
       Ela sorriu, contente.   
        Preciso falar com voc.  Assunto srio.  
        Fala  pediu ela fixando-o atenciosa.  
        Voc  a melhor amiga de Maria da Glria e tem sido sempre dedicada, atenciosa.  Tem me apoiado muito e, voc sabe, eu venho lutando para mudar.  Voc me conhece como o jogador, o irresponsvel,  o filhinho de papai que nunca trabalhou, que no quis estudar, que esbanjou dinheiro da famlia.  Entretanto, tenho aprendido muito.  O Espiritismo, a convivncia com sua me, com voc, meu primo, meu cunhado, foram mostrando como eu estava errado.  Esses dias trabalhando, senti-me  til e muito bem.  Sei que ainda tenho muito a aprender, muito que lutar, sei que  no posso oferecer nada ainda,  mas quero perguntar-lhe: se um dia eu provar que mudei, que sou outro homem, que a mereo, voc se casaria comigo?  
       Ins olhava-o comovida.  Realmente, sentia-se  muito atrada por ele.  
       Quando estavam juntos seu corao vibrava de felicidade, mas continha-se , preocupada com a falta de segurana dele.  Embora sentisse amor por ele, nunca o aceitaria se ele no mudasse.   Contudo, a atitude franca e firme de Jorge a surpreendera, e ela comeou a pensar que realmente j estava comeando a mudar.   Fixando-o com emoo, respondeu:
        Sim.  
       Ele tomou-lhe as  mos com entusiasmo:
        Quer dizer que voc no era amvel comigo s para ajudar Maria da Glria a modificar me?  
        Quem lhe  disse isso?    fez ela surpreendida.  
        Percebo as coisas.  Amo-a  muito.  Temia que no me amasse.  Sei que no a mereo.  Envergonho-me  de meus pais, no posso oferecer nada alm do meu amor, mas agora tenho motivo, tenho um objetivo, sei que vou conseguir.  Diga que me quer! 
        Calma, Jorge.  Eu o quero muito.  Entretanto, devo esclarecer que,  mesmo assim, o casamento precisa ser encarado com responsabilidade.   S chegaremos a ele se voc realmente tiver condies.  A famlia  para mim srio compromisso.  Desejo para ns, ainda que simples e modesto, um lar cheio de harmonia, amor, compreenso, paz, trabalho,  dedicao.  Onde nossos filhos tenham ambiente sadio e feliz para viver.  Confio em voc.  Sei que pode conseguir, se quiser.  
       Ele olhou-a  comovido, apertando suas mos com fora.  
        Vou conseguir.  Voc  tudo quanto almejo alcanar.  Esse lar, que nunca tive mas que  o ideal, ns o construiremos juntos, se quiser esperar me.  
        Estarei esperando porque o amo.  Mas s nos casaremos quando eu achar que voc j est pronto.  
       Jorge sentiu brando calor envolver-lhe o corao.  Beijou-a  nos lbios com delicadeza e carinho, e em seu peito a alegria cantava.  
       Aquela noite foi uma noite feliz para todos.  No dia seguinte, Jorge levantou-se  muito cedo.  Arrumou todos seus pertences.  Pretendia mudar-se  para a casa da irm.  Estava feliz e renovado.  Colocou a bagagem no carro diante do olhar admirado dos criados.  Escreveu uma carta para a me, deixou-a  sobre a cmoda e saiu.  Ia comear vida nova.  Dali para a frente, seria um outro homem! 
       Eram oito horas quando o Dr.  Marcondes sentou-se   mesa para o caf.  Estava bem humorado.  Afinal, era questo de tempo.  Conseguira livrar-se  do sobrinho, e logo mais iniciaria um processo contra Maria Luza para interditar a herana.  Com o sobrinho desaparecido e o casamento anulado, o filho ilegtimo, ele conseguiria seus fins.  
       A criada tomou, com ar natural:
        Hoje o Sr.  Jorge levantou-se  to cedo! Ele foi viajar.  
        Viajar?   O Jorge?   Para onde?  
        No sei, doutor.  Mas acho que vai demorar.  Levou todas as suas
       coisas.  
       Dr.   Marcondes estranhou:
        Tem certeza?  
        Tenho.  Levou toda a roupa.  
       Dr.   Marcondes levantou-se  preocupado.  Teria o Jorge feito das suas?   Se aparecesse uma dvida grande, no tinha como pagar.  A coisa devia ser grossa para que ele fugisse daquele jeito.  
       Correu ao quarto e constatou que realmente o filho levara todos os seus pertences.  Havia uma carta para a me.  Dr.  Marcondes pegou-a .   Estava fechada.  Irritado, com o envelope na mo, foi ao quarto de Renata, que inda dormia.  
        Acorde, Renata.  Depressa.  Aconteceu algo terrvel! 
       Assustada, ela abriu os olhos e, vendo a fisionomia do marido, perguntou aflita:
        O que foi?   O que aconteceu?  
        Ainda no sei bem.  Mas o Jorge fugiu de casa.  Levou toda sua roupa.  Deve ter feito algo muito srio.  
        No pode ser.  Ele tem se portado bem ultimamente.  Levanta-se  cedo,  no fica mais at altas horas na rua.  E no fez mais dvidas.  
        No acredito nessa mudana.  Por certo deve estar metido em alguma patifaria.  Sabe Deus a bomba que vem a!  Mas no tenho mais com que pagar.  Ele ir para a cadeia! 
       Renata sentou-se  na cama, assustada:
        Foi ao seu quarto?  
        Fui.  Tudo vazio.  Deixou esta carta.  Abra, vamos ver o que diz.  
       Com mos trmulas, Renata rasgou o envelope, tirou a carta e leu:
       "Mame.  No  possvel mais continuar nesta casa com papai.  Deus o
       perdoe por tudo quanto ele tem feito, mas eu no quero mais depender dele.  Vou trabalhar e cuidar da minha vida.  Sei o que estou fazendo.  Deixem-me  em paz, porque no voltarei para casa.  Jorge.  " Renata tremia, nervosa.  
        O que foi que voc fez?    tornou ela, acenando com a carta.   
        Por que Jorge foi embora?   O que aconteceu?  
        Nada  respondeu ele  , no houve nada.   No  tenho visto Jorge h vrios dias.  O que parece-me   que ele est mentindo.  Deve ter aprontado alguma coisa e por isso deu o fora.  S espero que no seja dinheiro, porque desta vez eu no vou ter com que pagar.  
        No  isso o que ele diz.  Jorge no  mentiroso.  Nunca negou
       quando fazia suas dvidas.  
         isso o que me assusta.  Agora a coisa deve ter sido mais grave.   Pode esperar, que alguma coisa vai aparecer! 
        Ele diz que foi voc quem aprontou.  E eu acredito.  Por sua causa,  Jorge foi embora.  Sabe Deus para onde.  Sem dinheiro, sem nada.  Como vai viver?  
        Se ele foi,  porque tinha para onde.  Foi porque quis.  Arrume-se 
       como puder.  Filho ingrato! Depois do que temos feito por ele! Disse que foi por minha causa;desculpa, isso sim.  Eu, que tenho lhe dado tudo! Pode haver maior ingratido?  
       Renata levantou-se , apressada.  
        Preciso procur-lo .  Traz-lo de volta.  
        Eu a probo!  Ele se foi porque quis.  Que fique onde est, vai ver com quantos paus se faz uma canoa.  
        Voc  insensvel  gemeu ela, descontrolada.    Vou traz-lo de volta.  
        No quero.  Depois, ele pediu para no procur-lo .  
        Pobrezinho! Como vai viver?   Sem dinheiro, sem conforto, sem ningum! 
       - Acalme-se   tornou ele, irritado.  Deixe-o ir.  Garanto que estar de volta em alguns dias.  Afinal, onde encontrar o que tem aqui?   O conforto, o dinheiro, as facilidades?   Claro que voltar.  
       Mas Renata no conseguia acalmar-se .  Tomou seu banho, vestiu-se ,  enquanto que o Dr.  Marcondes ia para o escritrio.  O que fazer?   pensava ela.  Onde procurar?  
       Tomou o telefone e ligou para a filha.  Estava desesperada.  Maria da Glria tentou acalm-la , esclarecendo:
        No se preocupe.  Jorge veio para c.  Est muito bem.  
        Mas por qu?   O que aconteceu?  
        Jorge cansou-se  de ser um intil.  Quer trabalhar e construir sua prpria vida.  Acho que ele est certo.  
        Ele no precisava sair de casa para isso.  Podia ter ficado aqui e fazer o que queria.  
        Ele achou melhor assim.  Vamos dar-lhe apoio.  
        Como ir viver?  Sem dinheiro, sem nada?  
        Ele j est trabalhando.  Sente-se  muito bem.  
        Trabalhando?  Em qu?  
        No escritrio de Geraldo e Humberto.  Se esforar-se , far carreira.  Tenho certeza.  
        Pobre filho! Num emprego miservel.  Como acabou! 
        No diga isso  tornou a moa, contrariada.    Nunca ele esteve to bem.  Espero que no o atrapalhe.  Deixe-o viver sua vida em paz.  
        Vou busc-lo .  Ele voltar para casa.  
        Aconselho-a  a no aparecer por aqui.  Talvez se aborrea ainda mais.  Melhor deix-lo em paz.  
        At voc, filha ingrata, est contra mim.  
        No estou contra ningum, mas no permitirei que continuem
       atrapalhando a vida de Jorge.  Ele tem direito a ser feliz.  
        No me conformo  disse ela, desconsolada.     demais.  
       A filha procurou confort-la .  
        No se aborrea.  Ele est aqui e muito bem.  Darei notcias sempre e ele por certo ir v-la .  No se preocupe.  Calma.  Deixe-o em paz.  
       Renata concordou.  Desligou o telefone.  Estava triste e amargurada.   Sua casa estava vazia e nunca pareceu-lhe to triste.  
       O Dr.   Marcondes chegou ao escritrio nervoso.  A cena matinal, a preocupao com o filho, tirara-lhe o bom humor.  "Famlia! ", pensou irritado.  S servia para dar-lhe problemas.  Apanhou o jornal e sentou-se  para ler.  Abrindo-o, levantou-se  de um salto.  Estava plido.  
       Um retrato de Geraldo e a notcia abaixo:"Milionrio desaparecido  encontrado.  No aeroporto, onde desceu, com a esposa e o filho, seu scio e esposa, recusou-se  a dar entrevista, e o mistrio do seu desaparecimento continua.  Estava alegre e bem disposto, um tanto magro, mas com sade.  Esperamos que mais tarde tudo seja esclarecido.  " O Dr.  Marcondes amassou o jornal, atirando-o no cesto.    Miservel  tornou com raiva.    Parece que tem parte com o diabo!  Tudo desfeito.  
       Mas ele no se deixava abater.  Anda ainda seus melhores trunfos nas mos.  Geraldo ia ver.  Fechou a porta a chave para no ser interrompido e abriu a gaveta onde guardava os documentos que havia forjado.  Estava vazia!  Com sofreguido procurou,  tirou a gaveta;nada.  Estava vazia.  Fora  roubado.  Arrasado, deixou-se  cair 
       na poltrona.  Quem teria feito isso?   Quem?  
       Examinou a fechadura.  Estava intacta.  No fora forada.  Aos poucos a suspeita foi se instalando em seu crebro.  A princpio tnue, mas depois foi ganhando corpo.  Jorge fizera aquilo.  Por isso havia sado de casa, com medo de ser descoberto.  Chegara ao furto! Roubara o prprio pai! 
       Sentia mpetos de torcer-lhe o pescoo.  Traidor, ingrato, mau carter.  Claro que tinha sido ele! Roubara as chaves e depois as recolocara no lugar.   noite, seria fcil conseguir.  Ah!  Mas isso no ia ficar assim.  Era demais.  Por isso Geraldo voltara ao lar.  E agora,  j devia saber de tudo.  At os documentos de Carolina foram levados.  A esta altura, Geraldo por certo j estaria de posse de toda a verdade.  
       O que fazer?   Como castigar o filho traidor?   Como escapar  vingana do filho de Carolina?   Dr.  Marcondes sentiu-se  explodir de rancor.  Alimentara a vbora que agora o queria destruir.  Jamais perdoaria a traio de Jorge.  Por certo queria agradar o primo,  interessado no seu dinheiro.  Que velhaco!  Contra o prprio pai! 
       O rosto dele estava vermelho, e os olhos, injetados.  Malditos!  Acabaria com eles.  Levantou-se , abriu o cofre e apanhou uma arma.   Daria uma lio ao filho e a Geraldo.  Com mos trmulas, apanhou as balas e colocou-a s no tambor.  A boca estava seca, os olhos injetados.  Enfiou a arma no bolso e apanhou um pouco de gua.  Ao levar o copo  boca, sentiu a cabea rodar e caiu redondamente ao cho, desacordado.  
       Foi a custo que a secretria, mais algumas pessoas que ela conseguiu reunir, puderam abrir a porta que estava fechada a chave.   Ela ouvira o baque do corpo caindo e batera na porta.  No obtendo resposta, saiu pelo corredor e, enquanto tentava abrir a porta,  auxiliada por algumas pessoas, o zelador apareceu  e a abriu.  
       Dr.   Marcondes, rosto congestionado, desacordado, estendia-se  no cho.   Chamaram uma ambulncia e avisaram a famlia.  A notcia correu com rapidez.  O Dr.   Marcondes fora vtima de um derrame cerebral.   Durante alguns dias, seu estado foi grave e sua vida esteve em perigo.  Contudo, depois de uma semana, estava melhor.  Porm, seu 
       lado direito estava afetado.  A princpio, no conseguia sequer falar.  Com o correr dos dias, foi melhorando.  Embora com dificuldade,  j podia articular as palavras.  
       Renata estava assustada.  Tinha horror a doenas.  Era-lhe difcil suportar a figura do marido;queria fugir, sair dali, no ver.   Entretanto, no teve outro recurso seno assistir apavorada ao drama, em todos os seus detalhes.  
       Foi com muita pena que tanto Maria da Glria como Jorge foram ver o pai.  O Dr.  Marcondes, vendo-os, sentiu-se  to inquieto, piorou, agitou-se  tanto que o mdico achou melhor que eles no entrassem mais no quarto.  
       Para Renata, era um mistrio.  Por que ele reagia daquela forma?   Havia uma arma carregada em seu bolso na hora da crise.  Para qu?   O que teria provocado o agravamento do seu problema de sade?   Ele ainda no conseguia expressar-se  bem e ningum entendia suas palavras.  Tentava explicar, mas s conseguia dizer de forma inteligvel uma ou outra palavra.  Esse esforo o esgotava de tal forma que Renata pedia-lhe, preocupada:
        Fique quieto.  Calma.  Voc vai melhorar.  O mdico disse que  questo de tempo, e poder ento falar.  Agora deve ter pacincia,  para seu estado no piorar.  
       Ele calava-se , desanimado, refletindo o terror, o medo que lhe ia na alma.  Renata, assustada, queria fugir dali, mas no tinha outro remdio seno ficar.  
       Era noite e D.  Lucila convidara-os para a sesso.  Apesar da reunio ser costumeira D.  Lucila dissera:
        Espero-os a todos.  Faremos uma sesso especial de agradecimento.  
       Geraldo est de volta e estamos muito felizes.  
       Foi com alegria e respeito que todos foram chegando.  Geraldo, Maria Luza, Aurora e Dr.  Afonso, Humberto, Maria da Glria e Jorge.  
       Geraldo estava pensativo.  Ainda estava revoltado com o tio, e mesmo sabendo-o gravemente doente no conseguia esquecer-se  do que ele havia feito.  Maria Luza tentava convenc-lo a perdoar.  Ele, porm,  no conseguia.  
        Ainda se fosse s comigo  dissera nervoso  , mas ele foi o culpado de tudo.  Forjou a desgraa de meu pai, de minha me, a minha.   Acha que posso perdoar?   Quem poder nos devolver tudo quanto perdemos?   Quem poder repor o que ele destruiu?  
       Por mais que a esposa tentasse, Geraldo estava irredutvel.  
        Quando ele melhorar, vai ajustar contas comigo.  Arrasarei com ele.  
       Na frente de Jorge e Maria da Glria, continha-se .  No queria mago-lo s.  
       D.  Lucila reuniu-os ao redor da mesa, dizendo:
         Est na hora.  Vamos todos orar.  Murmurou sentida prece,  agradecendo pela ajuda e pela alegria de estarem novamente juntos.   Depois foi aberto o Evangelho Segundo o Espiritismo e Dr.  Afonso leu, no captulo XVIII, "A quem muito foi dado muito ser pedido.  " Teceu comentrios sobre o tema lido, e depois apagaram-se  as luzes e Lucila pediu a presena dos espritos amigos para trazerem suas palavras.  O silncio era agradvel e uma brisa suave balsamizava o ar, envolvendo os presentes com eflvios de paz.  Ins, voz algo modificada, mais velha e mais grossa, comeou a falar:
         com imensa alegria que estamos aqui.  Viemos orar com vocs.   Temos muito que agradecer nesta noite feliz.  
       Geraldo estremeceu.  O perfume suave e inconfundvel de Carolina estava no ar.  Era ela! Ficou emocionado.  Sua me estava ali, viva, a seu lado.  Ins continuou:
        Agora , que decorreram tantos anos dos acontecimentos terrveis em que tomamos parte, e que com lutas e sofrimentos conseguimos vencer nossas barreiras, posso trazer-lhes, com a permisso do alto, os fatos que nos tm feito sofrer.  Geraldo, meu filho,  preciso que compreenda e perdoe.  Amo-o muito, como sempre, mas  preciso que voc saiba que no sou a santa criatura que imagina.  Seu amor  a coisa que mais quero na vida;contudo, no posso deixar que continue a ver-me  como um esprito puro e sem mcula.  Sou ainda um esprito frgil e cheio de falhas, que est lutando para vencer suas fraquezas.  
       Geraldo chorava.  Carolina fez breve pausa, depois prosseguiu:
        Voc conserva a imagem da me correta e sofrida, saudosa e triste que fui na ltima encarnao.  Contudo, nossa vida no mundo no se resume em uma s existncia.   
       Ns j vivemos muitas outras reencarnaes na Terra, onde no tnhamos ainda o conhecimento da verdade e a firmeza de carter para vencer.   isso que quero contar-lhe.   
       Preciso que voc saiba o quanto errei.  O quanto eu mereo pagar pelos meus erros.  O sofrimento na Terra, quando no foi criado pela nossa imprudncia atual,  reao de nossa imprudncia passada.  No h efeito sem causa.  A justia de Deus jamais ignora os erros que cometemos.  Cedo ou tarde eles vm  tona, para nossa vergonha  e arrependimento, e tambm para que possamos reconstruir o que destrumos e aprender o que ignoramos.  
        Por isso, ningum, quando sofre na Terra,  vtima inocente desprotegida.  O sofrimento  sempre a resposta da vida a um ato nosso, uma lio de aperfeioamento ao esprito.  Se o mau soubesse o que tem um dia que sofrer por causa de seus atos, por certo no os praticaria.  
        Vejo com tristeza em seu corao o sentimento da vingana e de rancor contra quem tem sido a causa dos nossos problemas.  Contudo, a
       justia de Deus comea a cobrar daquela pobre criatura, e quem pode avaliar os sofrimentos, as lutas, as aflies daquele corao?   Quem pode saber o que o espera de esforo, de problemas e de dificuldades daqui para a frente, a fim de que ele consiga refazer seu caminho e progredir?   A vingana  faca de dois gumes e atinge sempre quem a pratica.  
       O ambiente era de expectativa e emoo.  Maria da Glria e Jorge,  presos de emoo, pela primeira vez sentiam piedade e amor por aquele que lhes dera a vida e estava agora em to dolorosas condies.  Todos os outros, sensibilizados pela vibrao amorosa do esprito de Carolina, oravam em favor do Dr.  Marcondes com sincera emoo.  
       Carolina, observando a ateno dos presentes, continuou:
        Hoje vim para contar.  Nossa histria remonta h mais de 200 anos.   Vivemos no sculo XVIII, na corte francesa.  Eu era jovem e bela,  queria viver, amar, ser feliz.  Porm, meus pais morreram muito cedo e eu fui levada ao castelo de minha madrinha, onde fui amparada por ela e muito amada.  Deu-me  tudo, ensinou-me  a crer em Deus,  aconselhou-me  a trilhar o caminho do bem.  At hoje tem sido o nosso apoio e a nossa mestra.  Hoje chama-se  Lucila, mas naquele tempo era Luciana.  Tia Luciana, como eu a chamava, tinha trs filhos.  Duas moas e um menino.  Apeguei-me  a eles com muito afeto.  E vivamos felizes.   Quando Eunice, a filha mais velha, viajou, conheceu um jovem e por ele se apaixonou.  Juliano correspondeu seu amor e dentro em pouco o pedido foi feito, casaram-se  com muita alegria.  Foram residir em seu castelo em Lyon, onde eu costumava ir na primavera.  Foi ento que comeou o meu drama.  Apaixonei-me  por Juliano.  Uma paixo arrasadora, irresistvel, e ele tambm comeou a sentir-se  atrado por mim.  
        Eunice no percebia nada, e uma noite aconteceu o inevitvel.  Ele invadiu o meu quarto e nos entregamos  paixo que nos envolvia.   No pensamos em Eunice, nem no filho deles, que estava para nascer.   E nas noites que se seguiram, Juliano esgueirava-se  em meu quarto para buscar em meus braos as sensaes da paixo inconsequente.   Eu deveria regressar  casa da madrinha, mas, a pretexto de esperar o nascimento do filho de Eunice, fui ficando.  A cada dia mais e mais nos entregvamos  nossa loucura.  Nossa paixo era uma sede sem fim.  Durante o dia, o fingimento, o cime, a insatisfao.   noite, a paixo, a emoo descontrolada, a irreflexo.  
        Fui emagrecendo e Eunice preocupava-se  com minha sade.  Contudo, o filho de Juliano nasceu e, embevecido com ele, comeou a esfriar sua paixo.  No vinha mais ao meu quarto, e como eu, desfigurada, insistisse, procurou-me  uma noite para dizer que estava arrependido, deu-me  conselhos e confessou seu amor pela esposa.  No pude conformar me.  No queria perder seu amor, estava cega.  
        A  situao estava complicada, porquanto percebi que esperava um filho.  Juliano, assustado, prometeu ajudar me, desde que nem Eunice ou tia Luciana soubessem de tudo.  Eu, porm, senti-me  envergonhada,  preterida, abandonada.  Foi quando resolvi jogar minha cartada.  Se Juliano deixasse a mulher, por certo poderamos fugir para algum lugar distante e viver juntos para sempre.  Armei-me  de coragem e conversei com ele.  Ameacei-o.  Ou ele fugia comigo, ou eu contava tudo a Eunice,  minha maneira, como se eu houvesse sido vtima indefesa.  
        Ele empalideceu, ameaou me;mas, com medo, concordou por fim.   Simularia uma viagem e esperaria-me  em local combinado.  Juntos,  ento, viveramos para sempre.   
       Exultei.  Quando Juliano se foi, no dia imediato, iniciei a viagem de volta  casa, onde no pretendia chegar.  
        Encontramo-nos e seguimos juntos para Paris.  Eu estava confiante e feliz.  No me arrependia do que tinha feito.  S me importava a minha felicidade.  Juliano, contudo, no era sincero.  Tinha cedido, mas pretendia libertar-se  de mim o mais rpido possvel e voltar para casa normalmente.  
        Quinze dias depois, uma noite, deu-me  uma droga para beber e,  vendo-me  adormecida, levou-me  para um convento, onde a peso de ouro conseguiu a promessa de me conservarem encerrada para sempre.  
        Quando acordei, tomei conhecimento da situao e fiquei desesperada.  A paixo transformou-se  em dio, e eu no conseguia conformar me.  Juliano dissera que eu era rf e estava com as idias perturbadas.  Meu desespero confirmou essa verso.  Parecia uma fera enjaulada.  Ansiava viver e acabara prisioneira entre as rgidas paredes de uma cela de convento, uma disciplina horrvel que jamais conseguiria suportar.  
        Meu filho nasceu em triste manh de inverno,  e eu no me comovi,  no quis v-lo sequer.  Pretendia livrar-me  dele para fugir o mais breve possvel daquele local horrvel.  Concordei quando a madre superiora deliberou colocar a criana na Roda dos Expostos, em Paris.  O assunto no era novo no convento.  Mas a criana no podia 
       aparecer.  Ento, quando tal acontecia, um servo ia sorrateiro, na calada da noite, colocar o fardo na casa dos indigentes.  
       Carolina parou, emocionada.  Fundo suspiro escapou do peito de Ins.   Ningum conseguia conter a emoo, e lgrimas lhes desciam pelas faces.  Carolina prosseguiu:
        Daquele dia em diante, concentrei todos os meus esforos em fugir.  Porm, o mosteiro era muito bem vigiado e eu no conseguia escapar.  Lembrei-me  do porteiro que levara meu filho e que ia sempre  vila para as compras.  Era a nica ligao do convento com o mundo exterior.  
        Envolvi-o, chorei, pedi, desesperei me.  Tinha tomado o hbito, mas no queria fazer os votos.  Pretendia escapar.  Prometi jias, disse-me  muito rica, mas ele no acreditou.  Ento despertei sua cobia, e o enredei pela paixo.  Foi assim que consegui.  Uma noite, ele, na esperana de conseguir seu intento, arranjou-me  as chaves da porta principal.  Eu iria a seu quarto, encostado ao muro.  Ele esperava-me  e, conforme eu tinha pedido, trouxera uma garrafa de vinho.   Comeamos a beber, e eu disfaradamente coloquei-lhe um soporfero na bebida.  Vendo-o adormecido, peguei a chave do porto e sa correndo.  No sei qual o medo maior, se de ser descoberta e voltar  priso ou enfrentar,  noite, sozinha e sem nenhum recurso, a estrada deserta e escura.  
        Andei durante muito tempo.  Agora, a alegria da liberdade, o prazer de voltar a viver, a juventude, tudo dava-me  foras para prosseguir.   O dia tinha j amanhecido quando resolvi sair da estrada e num recanto oculto descansar.  Seria longo enumerar o que aconteceu depois.  Consegui chegar a Paris, onde parei para decidir o que fazer.  Ainda pretendia vingar-me  de Juliano;porm, minha paixo por ele j tinha passado.  
        A  vida em Paris era fascinante, e eu conseguira um emprego em
       uma oficina de costura.  Sentia saudades da madrinha, mas tinha medo de regressar.  No queria ficar trabalhando, mas no podia fazer outra coisa.  Era linda e cortejada e conheci artistas, fui retratada por eles e comecei a frequentar a vida bomia da cidade.  Cantava com graa e danava.  Assim, comecei minha carreira no teatro.  
        Isso encheu minha vida.  Era aplaudida, feliz, tinha jias, luxo, tudo.  Havia reencontrado a madrinha, que, triste, viera ver me, querendo saber por que a tinha abandonado.  Julgou que o tivesse feito para viver a vida de iluses na qual me fizera famosa e rica.  Deixei que pensasse assim.  
       Afinal, Juliano no me interessava mais e tudo estava esquecido.   Foi ento que conheci Andr;era rico e belo, e eu apaixonei me.  Era casado, tinha esposa e filhos, mas isso para mim pouco importava.   Entreguei-me  a ele com paixo e ele correspondeu.  A esposa,  Henriete, veio ver-me  e pediu que o deixasse, para que ele pudesse viver bem com a famlia, mas eu fui insensvel.  No era problema meu.  Se ele me preferia, no tinha culpa.  
       E continuamos nosso romance, desfilando juntos pelas ruas da cidade, sendo vistos pelos lugares da moda, exibindo nossa paixo.   Nem a doena sria de Henriete conseguiu separar nos, e por fim,  quando eu viajei em turn pelo pas, Andr acompanhou me.  Um dia,  cansei-me  dele.  Estava arruinado, desagradvel, amargo e talvez um pouco arrependido.  Voltou para a casa.  Henriete o recebeu, mas nunca mais esqueceu.  Tornou-se  ciumenta e desconfiada, amarga e triste.  
        Foi ento que conheci um homem que iria mudar o curso de minha vida.  Estava j comeando a cansar-me  da vida que levava.  Por mais que procurasse no achava mais alegria, e  noite, a depresso e a tristeza invadiam-me  o corao.  J tinha alcanado os quarenta anos e j no era mais a jovem inexperiente, sequiosa de viver.   
       Estava cansada.  No mais fazia sucesso no palco, e uma a uma minhas jias foram sendo vendidas.  Fiquei na misria, e isso colocou-me  mais angustiada e nervosa.  
        Senti-me   doente.  Procurei um mdico.  Conversamos longamente.  Era um homem bonito, apesar da meia idade, e foi muito atencioso comigo.   Contei-lhe minha vida como jamais fizera a ningum.  Ouviu-me  calado e srio, e no fim ofereceu-me  um emprego em seu consultrio.   Aceitei.  Deu-me  um quarto modesto para morar, ali mesmo.   
       Eu deveria cuidar de tudo, da limpeza, do atendimento dos clientes.   Ele morava na casa em frente.  Assim, comeou para mim uma vida nova.   O doutor Ren era homem srio, educado, bondoso e sincero.  Levava vida regrada, embora fosse homem de recursos.  Conversava comigo e ensinou-me  muitas coisas.  Emprestava-me  livros e abriu-me  o esprito pobre e inquieto para os sentimentos nobres, a arte elevada e o verdadeiro sentido da vida.  Percebi que o amava.  Creio que aconteceu pela primeira vez.   
       Era um novo sentimento e encheu meu corao de alegria, recato,  renncia, felicidade.  
        Eu estava modificada.  Comecei a arrepender-me  do passado.  Ren correspondeu ao meu amor.  Casamo-nos.  Eu o amava muito.  Dediquei-me  a ele com carinho.  Ajudava-o no atendimento dos doentes.  Vivemos juntos durante vinte anos, e sou grata a ele por tudo quanto deu-me  durante aquele perodo feliz.  Porm, chega o dia da verdade e a morte descerra o vu da nossa responsabilidade, e nos achamos diante da nossa conscincia.  
        Quando fechei os olhos do corpo na Terra, fui arrebatada por violento temporal, e em meio  tormenta que me arrastava ouvia vozes,  lamentaes, acusaes.  Durante anos perambulei, at que um dia,  diante da figura aflita e atormentada em que me transformara,  surgiu a figura doce de minha madrinha.  Luciana agasalhou-me  em seus braos e eu pude descansar.  Levou-me  para o lugar onde vivia,  aqui no mundo espiritual, e com o mesmo amor de sempre amparou-me  o esprito atormentado.  
        No suportei.  Abri-lhe o corao.  No merecia seu amor.  Soube que Eunice tinha descoberto minha traio atravs de uma criada e nunca mais confiara no amor do marido.  Juliano, por outro lado,  sentindo-se  ofendido, uma vez que tinha se arrependido, no parava em casa, tendo se envolvido por fim com outras mulheres.  
        A  atitude de Luciana, acolhendo-me  com tanto amor, avivava meu remorso.  Muitas vezes pensava no filho que abandonara e nunca mais vira.  Soube que ele, rfo e s, tinha sido envolvido por pessoas inescrupulosas.  Um homem que o tinha retirado da Roda dos Expostos para ensin-lo a roubar.  Como era franzino, obrigava-o a passar pelas frestas, pular janelas, abrindo as portas para eles.  Tratava-o com brutalidade, e foi com desesperado terror que o conheci ainda no mundo, em meio ao vcio e o roubo, sem ningum que pudesse despertar-lhe o esprito para os valores nobres da vida.  Jean tinha se transformado em um homem oportunista, frio, e leviano, entre Marcel, que o tinha criado ladro, falsificador, assaltante, e sua amante Mary, mulher interesseira e ftil.  
        Fiquei arrasada.  Eu era responsvel por tudo quanto acontecera a meu filho.  Se eu o tivesse criado, com sacrifcio e amor, ele no estaria naquela situao.  Chorei muito, sem poder fazer nada por ele, que mostrava-se  indiferente aos pensamentos de amor e de equilbrio.  
       Ins suspirou fundo.  Carolina deteve-se  alguns instantes.  Depois continuou:
        Minha taa de fel ainda no estava esgotada.  Havia Andr.  Seu esprito encontrava-se  em tristes condies, repartindo o seu arrependimento entre o esprito da esposa tristemente sofredora e os filhos no mundo, em grandes dificuldades.  Estava arrasado.  Fora sua leviandade que conduzira a famlia quelas condies de sofrimento.  
        Sua esposa transformara-se  em pobre doente; seus filhos, em descrentes e desequilibrados, emocionalmente incapazes de conduzir bem as suas lutas na Terra.   
       Sentia-se  culpado e infeliz.  
        Foi Luciana quem pediu aos nossos mentores espirituais e conseguiu que, sob sua proteo, eu, Eunice, Juliano e Andr nos reunssemos para uma soluo.  No nos recriminamos.  Estvamos todos sofridos e cansados, cheios de remorsos e desejosos de melhorar.   Nos propusemos a ajudar Henriete.  E, juntos, trabalhamos muito em favor dos nossos filhos ainda na Terra.  Sofremos muito vendo-os cometer erros que no pudemos evitar, e foi com o corao despedaado que amparamos o esprito de Jean, assassinado por Marcel, num acesso de clera, por causa de uma intriga de Mary,  depois de uma briga.  
        No vamos nos alongar narrando todos os nossos sofrimentos nessa poca de colheita da nossa semeadura.  Lutamos, sofremos, trabalhamos em favor do prximo, nos preparamos.  E, merc de Deus, depois de uma reunio onde pude rever Ren, meu amado esposo, de quem ainda estava separada at que pudesse merecer o reencontro.   
       Traamos o plano da volta.  
        amos todos reencarnar para tentarmos nos reajustar, ajudando nossos entes amados.  Sabamos dos perigos, das lutas a enfrentar; contudo, queramos vencer e era preciso tentar.  
        Luciana aceitou renascer, interessada na felicidade das filhas e na minha, que tambm amava.  E assim foi.  Renasci na Terra logo depois dela, desposei Ren, agora com o nome de Euclides.  No podamos receber Jean como filho.  Ele estava ligado a Marcel e Mary, pelo crime que tinham cometido, e por isso Marcel renasceu na famlia de Euclides como seu irmo Jos e desposou Renata, que era Mary reencarnada.  Receberam Jean como filho, a quem tinham prometido educar no bem.  
        Eu receberia Andr como filho, para santificar a antiga paixo e ajud-lo a vencer na Terra.  E nasceu Geraldo.  Juliano reencarnou como lvaro, e Eunice, como Aurora, tendo concordado em receber Henriete como filha, para que mais tarde o grupo pudesse encontrar o equilbrio.  No momento oportuno, Lucila encarregar-se  ia de recordar nos a vida espiritual e os compromissos que tnhamos assumido l, de trabalharmos na Terra no esclarecimento das verdades do esprito, para evitar que outros errassem e sofressem tanto quanto ns.  
       O silncio era grande.  Carolina prosseguiu:
        Infelizmente, no pudemos vencer conforme nos propusemos.  Meu cunhado Jos, apesar de ter prometido mudar, ao ver-se  de novo na carne, deixou-se  envolver pelo orgulho e pela ambio.  Mary voltou  vida ftil, embora j menos leviana, e no deram apoio ao Jean, agora Jorge.  
        Por outro lado, Eunice, agora Aurora, no conseguia confiar no marido.  E seu cime a arrastou a penosos enganos.  E por fim, Ren,  mergulhado na carne como Euclides, cego de cime cometeu um crime,  e a custo agora recupera-se  desse deslize.  
        Quero dizer que tanto Ins como Maria da Glria esto tambm ligados s nossas vidas, nessa trama dolorosa e que agora finalmente esperamos vencer.  
         por isso, meu filho, que contei o nosso passado.  Como v, nem eu,  nem voc, fomos vtimas injustiadas dos enganos dos outros.  E, longe do seu amor santificado de filho, e da presena do esposo amado,  aprendi a valorizar ainda mais os lares que destru, o filho que abandonei; aguentei a calnia, mas tinha sido j adltera e falsa,  leviana e ftil.  Voc amargou na solido sem lar, sem me, sem ningum, para valorizar o amor da famlia que no respeitou, dos filhos que no apoiou, da esposa que no soube amar.  Hoje esto juntos, o amor verdadeiro os envolve.  Aprendam a lio do passado.   Construam um lar feliz e reto, cheio de paz e entendimento.   
       Faam do filho que no honraram ontem, o homem til e probo de hoje.  E voc, Jorge, meu filho querido.  Estamos do seu lado.  Voc vai vencer.  S peo-lhe que jamais abandone as tarefas espirituais.   Jamais deixe a mediunidade.  Ela ser seu instrumento redentor.  Por ela voc poder ajudar seus desafetos de ontem e diminuir as dvidas passadas.  Confia em Deus e segue adiante.  
        Minha gratido a Aurora e Afonso, pela abnegao e coragem.   Perseverem no trabalho do bem.  Juntos venceremos.  Querida Maria da Glria e Humberto.  Logo seu lar ser enriquecido pelos filhos, tenho a certeza de que sabero conduzi-lo s com amor.  Maria Luza, Deus a abenoe.  Amo-a  muito e agradeo seu corao amoroso pela fora da f que muito nos ajudou.  Lucila querida, Deus a abenoe.  Agradeo a Ins a dedicao.  Antes de partir, quero dizer da nossa felicidade.   No a mereo.  Por tudo quanto fiz de errado, peo perdo humildemente.  Mas que o grupo se fortalea na prece e no trabalho de amor ao prximo.   ajudando que seremos ajudados, e dando que receberemos.  Que a doutrina consoladora do Cristo possa ser estudada e propagada por nosso grupo, que assim certamente ter foras para vencer.  Adeus.  Deus nos abenoe.  
       Ins silenciou.  O perfume doce de Carolina ainda estava no ar.   Lucila fez breve prece e, depois de alguns instantes, acendeu a luz.  
       Todos, rostos emocionados, estavam silenciosos.  Ningum se atreveu a falar.  Lucila quebrou o silncio:
        Precisamos de um caf.  
       Enquanto Ins ia para a cozinha prepar-lo , Dr.  Afonso declarou:
       - Agora podemos fundar um Centro Esprita.  
         verdade  concordou Lucila.  
        Pois eu fao questo de comprar o prdio  props Geraldo.  
       E todos com entusiasmo comearam a planejar.  
       E quando, na hora das despedidas, Maria da Glria pediu em voz baixa a D.  Lucila para rezar por seu pai, Geraldo aproximou-se  e disse alto e com voz firme:
        Maria da Glria pede oraes para o pai.  Acho que todos ns devemos colaborar.  
       E, no sorriso de alegria de Maria Luza, no alvio de Jorge e de Humberto, na admirao de Aurora e Afonso, uma lgrima nos olhos luminosos de Lucila comeou a brilhar.  
       
       
    FIM
    
    
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